Termorregulação, Eritropoiese e Expansão da Massa Hemoglobínica: Bases Fisiológicas do Heat Training como Estratégia Hematológica para Atletas de Endurance

por | maio 31, 2026

O treinamento térmico (heat training ou heat acclimation training) vem assumindo papel cada vez mais relevante dentro da fisiologia aplicada ao esporte de endurance. Inicialmente utilizado como estratégia específica para otimizar o desempenho em ambientes quentes e úmidos, o acúmulo de evidências científicas ao longo da última década demonstrou que a exposição sistemática ao estresse térmico produz adaptações que transcendem a termorregulação, alcançando modificações hematológicas tradicionalmente atribuídas ao treinamento em altitude. Entre essas adaptações destacam-se o aumento do volume plasmático, a expansão do volume sanguíneo total, a elevação da massa total de hemoglobina (Hbmass) e potenciais alterações na regulação da eritropoiese mediada por eritropoietina (EPO).

Historicamente, o treinamento em altitude foi considerado a principal intervenção não farmacológica capaz de aumentar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. A exposição à hipóxia reduz a disponibilidade de oxigênio tecidual, estimulando os rins a aumentarem a produção de eritropoietina. Este hormônio atua sobre a medula óssea, promovendo proliferação e diferenciação dos precursores eritroides, culminando no aumento da produção de hemácias e da massa total de hemoglobina. Consequentemente, ocorre incremento da capacidade de transporte de oxigênio e potencial elevação do VO₂máx. Estudos clássicos demonstram aumentos entre 3% e 7% na Hbmass após períodos de três a quatro semanas em altitude moderada.

Nos últimos anos, entretanto, observou-se que protocolos adequadamente estruturados de treinamento térmico podem produzir adaptações hematológicas surpreendentemente semelhantes. Diversos estudos conduzidos em ciclistas e atletas de endurance demonstraram que exposições repetidas ao calor durante três a cinco semanas resultam em aumentos da massa total de hemoglobina entre aproximadamente 2% e 4,5%, magnitude considerada fisiologicamente relevante para o desempenho aeróbio. Esses achados levaram alguns pesquisadores a descreverem o heat training como uma espécie de “altitude do homem pobre”, em virtude de sua maior acessibilidade logística e menor custo operacional.

O mecanismo responsável por esse fenômeno difere parcialmente daquele observado na hipóxia. Durante os primeiros dias de exposição repetida ao calor ocorre rápida expansão do volume plasmático. Trata-se de uma adaptação clássica da aclimatação térmica, cujo objetivo é aumentar a capacidade de dissipação de calor através da perfusão cutânea e da sudorese. O aumento do volume plasmático pode atingir valores superiores a 10%, promovendo uma hemodiluição transitória caracterizada por redução relativa da concentração de hemoglobina e do hematócrito. Essa redução é interpretada pelos mecanismos homeostáticos como uma necessidade de restaurar a capacidade de transporte de oxigênio do sangue. Consequentemente, ocorre ativação compensatória da produção de eritropoietina e subsequente aumento da eritropoiese.

Sob essa perspectiva, o estímulo eritropoiético decorrente do treinamento térmico parece emergir não de uma hipóxia clássica, mas de um processo denominado “eritropoiese compensatória à expansão plasmática”. O organismo busca restabelecer a relação entre massa eritrocitária e volume sanguíneo total. O resultado final é um aumento concomitante da massa de hemoglobina, do volume sanguíneo total e da capacidade de transporte de oxigênio, preservando a homeostase cardiovascular e melhorando o desempenho aeróbio. Esse conceito tem recebido suporte crescente da literatura contemporânea, embora os detalhes moleculares ainda estejam sendo investigados.

Além dos efeitos hematológicos, o calor induz uma série de adaptações cardiovasculares que potencializam a performance. O aumento do volume plasmático eleva o retorno venoso, melhora o enchimento ventricular e favorece maior volume sistólico para uma mesma frequência cardíaca. Paralelamente, observa-se redução da temperatura central durante exercícios submáximos, diminuição da frequência cardíaca para uma mesma carga de trabalho, melhora da perfusão cutânea e aumento da eficiência da sudorese. Essas adaptações reduzem a carga fisiológica do exercício e retardam o desenvolvimento da fadiga térmica.

Os protocolos capazes de promover essas respostas normalmente exigem exposição repetida ao calor durante várias semanas. As recomendações da plataforma CORE indicam a realização de aproximadamente 10 a 14 sessões distribuídas em um período de duas a doze semanas, mantendo entre 45 e 80 minutos em níveis moderados a elevados de estresse térmico. Entretanto, os estudos que demonstraram aumentos consistentes na massa de hemoglobina geralmente utilizaram períodos mais prolongados, frequentemente entre três e cinco semanas de treinamento térmico sistemático, com frequência de três a cinco sessões semanais.

Uma das evidências mais relevantes surgiu dos trabalhos conduzidos por Rønnestad e colaboradores. Em atletas de elite, cinco semanas de treinamento térmico foram capazes de aumentar significativamente a massa total de hemoglobina. Posteriormente, os mesmos pesquisadores demonstraram que sessões periódicas de heat training realizadas após um estágio em altitude foram capazes de preservar praticamente integralmente os ganhos hematológicos adquiridos durante a exposição hipóxica. Enquanto atletas do grupo controle perderam aproximadamente 70% dos ganhos de Hbmass após o retorno ao nível do mar, aqueles submetidos a três sessões semanais de calor mantiveram os aumentos obtidos na altitude, concomitantemente à expansão do volume plasmático e do volume sanguíneo total.

Esses resultados possuem implicações práticas relevantes para atletas de endurance. Tradicionalmente, os benefícios hematológicos da altitude apresentam caráter transitório devido à rápida redução da massa eritrocitária após o retorno ao nível do mar. O treinamento térmico surge como potencial ferramenta para prolongar essa janela de adaptação hematológica. Além disso, evidências recentes sugerem que a aclimatação ao calor pode facilitar a adaptação subsequente à hipóxia, promovendo fenômenos de adaptação cruzada entre estressores ambientais distintos. Foram observadas melhorias na saturação de oxigênio, redução da frequência cardíaca e alterações ventilatórias favoráveis durante exposições hipóxicas após períodos prévios de heat acclimation.

Do ponto de vista mecanístico, o aumento da produção de hemácias observado durante protocolos de alto heat score provavelmente resulta da interação entre expansão plasmática, alterações no balanço hídrico, estímulos hormonais eritropoiéticos e necessidade de restauração da capacidade de transporte de oxigênio. Embora a magnitude da resposta ainda apresente variabilidade interindividual significativa, os dados disponíveis sugerem que exposições repetidas capazes de elevar consistentemente a temperatura corporal central constituem um estímulo suficiente para desencadear adaptações hematológicas mensuráveis. Dessa forma, o treinamento térmico deixa de ser compreendido apenas como uma ferramenta de preparação para competições em ambientes quentes, passando a representar uma estratégia fisiológica capaz de modular componentes centrais do transporte de oxigênio e do desempenho aeróbio.

Embora os mecanismos celulares completos ainda não estejam totalmente elucidados, a literatura contemporânea converge para a ideia de que protocolos prolongados de heat training podem induzir aumentos significativos na massa de hemoglobina, promover expansão do volume sanguíneo total e potencialmente estimular a eritropoiese através de vias indiretas relacionadas à homeostase volumétrica e ao controle hormonal da produção de eritrócitos. Consequentemente, o calor passa a ocupar posição estratégica ao lado da altitude como uma das principais intervenções fisiológicas destinadas à otimização do transporte sistêmico de oxigênio em atletas de endurance.

Referências

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