Oximetria Muscular por Espectroscopia no Infravermelho Próximo: Da Bioenergética Mitocondrial à Prescrição Avançada do Treinamento de Endurance

por | maio 31, 2026

A crescente busca por métricas fisiológicas capazes de traduzir, em tempo real, os fenômenos que ocorrem no interior do músculo esquelético tem impulsionado a expansão da espectroscopia no infravermelho próximo (Near-Infrared Spectroscopy – NIRS) no contexto da ciência do esporte. Diferentemente de variáveis sistêmicas como frequência cardíaca, ventilação pulmonar ou mesmo concentração sanguínea de lactato, a NIRS permite acessar diretamente a dinâmica local entre oferta e utilização de oxigênio no tecido muscular ativo, fornecendo uma perspectiva singular sobre os mecanismos periféricos que sustentam o desempenho físico. Nas últimas duas décadas, avanços tecnológicos transformaram sistemas laboratoriais complexos em sensores portáteis capazes de monitorar continuamente a saturação muscular de oxigênio (SmO₂), tornando possível a utilização dessa tecnologia em ambientes reais de treinamento e competição. Estudos recentes demonstram que a oximetria muscular representa uma das mais promissoras ferramentas para avaliação da fisiologia aplicada ao endurance, permitindo compreender limitações periféricas, respostas adaptativas ao treinamento e características individuais da função oxidativa muscular.

O princípio físico da NIRS baseia-se na capacidade da luz na faixa do vermelho e infravermelho próximo (aproximadamente 650–900 nm) penetrar tecidos biológicos e interagir com cromóforos intracelulares, especialmente hemoglobina e mioglobina. Como as formas oxigenada e desoxigenada dessas moléculas apresentam espectros de absorção distintos, torna-se possível estimar suas concentrações relativas a partir da luz refletida ao detector. A partir desses sinais, algoritmos matemáticos derivados da Lei de Beer-Lambert modificada calculam a saturação muscular de oxigênio, expressa como a proporção entre hemoglobina e mioglobina oxigenadas em relação ao conteúdo total desses cromóforos. Na prática, a SmO₂ representa um índice fisiológico que reflete o equilíbrio dinâmico entre entrega de oxigênio pela microcirculação e consumo mitocondrial pelo músculo ativo.

Do ponto de vista fisiológico, a relevância da NIRS reside no fato de que a SmO₂ constitui uma variável integradora. Sua magnitude é influenciada simultaneamente pelo fluxo sanguíneo local, pela densidade capilar, pela capacidade de difusão do oxigênio, pela atividade mitocondrial, pelo recrutamento de unidades motoras e pelo perfil metabólico das fibras musculares. Dessa forma, uma redução progressiva da SmO₂ durante o exercício indica que a taxa de consumo de oxigênio pelo músculo está excedendo momentaneamente a taxa de entrega. Por outro lado, uma rápida ressaturação após o exercício sugere elevada eficiência vascular e oxidativa. Essa característica confere à NIRS um valor singular: ela não mede apenas perfusão nem apenas metabolismo, mas a interação entre ambos.

É importante diferenciar a NIRS de outras tecnologias amplamente empregadas na avaliação microvascular, como a Fluxometria Laser Doppler e a Laser Speckle Contrast Imaging (LSCI). Enquanto a NIRS fornece informações predominantemente relacionadas à oxigenação tecidual e ao balanço entre oferta e consumo de oxigênio, as técnicas baseadas em laser avaliam principalmente fluxo sanguíneo microvascular. O Laser Doppler estima a movimentação dos eritrócitos a partir do desvio de frequência da luz refletida, enquanto a técnica Speckle avalia alterações no padrão de interferência luminosa gerado pelo movimento celular. Em outras palavras, a Fluxometria Laser Doppler e a LSCI respondem essencialmente à pergunta “quanto sangue está chegando ao tecido?”, ao passo que a NIRS responde à pergunta “quanto oxigênio está sendo efetivamente utilizado pelo tecido?”. Trata-se de informações complementares, porém fisiologicamente distintas. Um músculo pode apresentar elevado fluxo sanguíneo e, simultaneamente, baixa extração periférica de oxigênio; da mesma forma, pode apresentar elevada extração mesmo com fluxo relativamente modesto. Por essa razão, a integração dessas metodologias possui grande potencial translacional tanto no esporte quanto na medicina vascular.

No contexto dos esportes de endurance, a NIRS vem sendo progressivamente reconhecida como uma ferramenta capaz de revelar aspectos da fisiologia muscular antes acessíveis apenas por métodos invasivos. Diversos estudos demonstram que a desoxigenação muscular acompanha de forma estreita o aumento progressivo da intensidade do exercício, refletindo o recrutamento crescente de fibras musculares e a elevação da demanda energética oxidativa. Durante testes incrementais, observa-se tipicamente uma queda gradual da SmO₂ até a proximidade da exaustão, quando ocorre um nadir que parece representar o limite funcional da interação entre transporte e utilização de oxigênio.

Particularmente relevante para treinadores e fisiologistas é a observação de que mudanças na cinética da SmO₂ apresentam estreita associação com os limiares metabólicos tradicionalmente determinados por lactato sanguíneo. Batterson e colaboradores demonstraram que as taxas de desoxigenação muscular identificadas por NIRS coincidem de maneira consistente com os limiares fisiológicos obtidos por análise de lactato, sugerindo que a tecnologia pode oferecer uma alternativa não invasiva para monitoramento de intensidade de treinamento.

Estudos recentes ampliaram ainda mais essa perspectiva. Em ciclistas treinados, a monitorização contínua da SmO₂ demonstrou boa reprodutibilidade e confiabilidade ao longo de testes incrementais repetidos, reforçando seu potencial para acompanhamento longitudinal do treinamento. Além disso, diferenças individuais nos padrões de desoxigenação revelaram assimetrias funcionais entre membros inferiores que não seriam detectadas por variáveis sistêmicas tradicionais.

Outro aspecto particularmente interessante diz respeito à capacidade da NIRS de avaliar a cinética de ressaturação muscular durante a recuperação. Arnold e colaboradores demonstraram que o tempo necessário para a recuperação da oxigenação muscular aumenta conforme a intensidade do exercício se eleva, refletindo maior perturbação metabólica e possivelmente maior estresse periférico. O vasto lateral apresentou respostas mais rápidas e reprodutíveis do que músculos acessórios, sugerindo que a análise da ressaturação pode constituir um marcador sensível da aptidão oxidativa local e da capacidade de recuperação muscular.

A utilização da NIRS também tem avançado na compreensão dos mecanismos bioenergéticos associados à produção de lactato. Em estudo recente envolvendo sprints máximos em cicloergômetro, Porter e Langley observaram uma relação extremamente forte entre a cinética de desoxigenação muscular e a taxa máxima de acumulação de lactato (vLamax), demonstrando que a velocidade de queda da SmO₂ acompanha de forma muito próxima a dinâmica glicolítica do exercício intenso. Esses achados reforçam a ideia de que a oximetria muscular oferece uma janela privilegiada para a compreensão integrada entre metabolismo oxidativo e metabolismo anaeróbio.

Do ponto de vista aplicado, o valor da NIRS para atletas de endurance transcende a simples observação de números absolutos de saturação muscular. O verdadeiro potencial da tecnologia está na interpretação dos padrões dinâmicos de resposta. A magnitude da desoxigenação durante cargas específicas, a velocidade de recuperação pós-esforço, o comportamento durante intervalos, a estabilidade da SmO₂ em exercícios prolongados e a localização dos pontos de inflexão da curva fornecem informações valiosas sobre adaptações mitocondriais, eficiência vascular, recrutamento muscular e tolerância metabólica. Essas informações permitem individualizar zonas de treinamento, monitorar fadiga periférica, avaliar adaptações ao treinamento aeróbio e identificar limitações musculares específicas.

Embora o desenvolvimento da tecnologia tenha sido impulsionado principalmente pelos esportes de endurance, aplicações recentes demonstram utilidade também em esportes intermitentes, modalidades coletivas, natação, remo e treinamento de força. A possibilidade de monitorar continuamente o comportamento metabólico local durante diferentes padrões de esforço amplia significativamente a compreensão dos mecanismos que sustentam o desempenho esportivo.

No campo da hipertensão arterial, a utilização da NIRS ainda se encontra em expansão, porém apresenta fundamentos fisiológicos extremamente promissores. A hipertensão está associada a alterações microvasculares, disfunção endotelial, redução da densidade capilar funcional e comprometimento da vasodilatação dependente do endotélio. Como consequência, podem ocorrer alterações tanto na entrega quanto na extração periférica de oxigênio durante o exercício. Nesse contexto, a monitorização da SmO₂ pode permitir avaliar de forma não invasiva a eficiência da perfusão muscular, a capacidade de extração de oxigênio e as adaptações induzidas pelo treinamento físico. Embora ainda existam menos evidências do que no contexto esportivo, é plausível supor que padrões de desoxigenação e ressaturação muscular possam se tornar biomarcadores funcionais da saúde microvascular em indivíduos hipertensos. Tal abordagem aproximaria a fisiologia do exercício da medicina cardiovascular, utilizando a mesma ferramenta para avaliar desempenho atlético e função vascular periférica.

Em síntese, a NIRS representa uma das mais importantes evoluções recentes na fisiologia aplicada ao exercício. Ao fornecer uma medida contínua, não invasiva e local da interação entre oferta e utilização de oxigênio, a tecnologia aproxima pesquisadores, treinadores e atletas dos fenômenos que efetivamente determinam a produção de energia no músculo esquelético. Mais do que uma ferramenta de monitoramento, a oximetria muscular constitui uma nova perspectiva para compreender a bioenergética humana em condições reais de treinamento. Nesse cenário, dispositivos portáteis como o Moxy Monitor consolidam-se como instrumentos capazes de transformar informações fisiológicas complexas em conhecimento aplicável, contribuindo para uma prescrição de treinamento mais individualizada, precisa e fisiologicamente fundamentada.

Referências

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Monte carrossel de 10slides didáticos apresentando o conteudo com foco no publico praticante de esportes endurance ou não e também com foco em fisioterapeutas, treinadores, clinicas e centros de pesquisa