A crescente utilização de sensores portáteis de oxigenação muscular tem criado uma oportunidade importante para a fisiologia aplicada ao exercício, mas também tem favorecido interpretações excessivamente simplificadas sobre o significado da variável medida. Um sensor de espectroscopia no infravermelho próximo, ou near-infrared spectroscopy (NIRS), não mede diretamente o consumo sistêmico de oxigênio, não determina o débito cardíaco, não informa isoladamente o fluxo sanguíneo muscular e tampouco observa diretamente a atividade mitocondrial. Sua contribuição é diferente e, justamente por isso, complementar à ergoespirometria e às medidas sistêmicas tradicionais: a NIRS fornece informação contínua e localizada sobre a oxigenação do tecido situado sob o sensor, permitindo acompanhar, em tempo real, a interação dinâmica entre a oferta local de oxigênio e sua utilização pelo músculo. A relevância fisiológica dessa informação decorre do fato de que a resposta global do organismo não necessariamente descreve adequadamente a heterogeneidade existente entre diferentes grupos musculares ou mesmo entre diferentes regiões de um mesmo músculo (PERREY; FERRARI, 2018; BARSTOW, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
O princípio físico da NIRS baseia-se na emissão de luz eletromagnética na região do infravermelho próximo, usualmente em comprimentos de onda situados aproximadamente entre 650 e 950 nm, embora a faixa exata dependa da tecnologia e do modelo do equipamento. Essa região do espectro apresenta uma característica particularmente favorável para a investigação biológica: a absorção pela água é relativamente baixa em parte dessa faixa e a luz consegue penetrar nos tecidos por distâncias superiores às observadas na região visível. A luz emitida pelo sensor atravessa pele, tecido adiposo subcutâneo e tecidos mais profundos, sofrendo simultaneamente absorção e intenso espalhamento. Uma parcela dos fótons retorna à superfície e é detectada pelo receptor óptico localizado a determinada distância da fonte emissora. O percurso da luz, entretanto, não corresponde a uma linha reta. Em razão do espalhamento produzido pelas estruturas celulares e extracelulares, os fótons percorrem trajetórias curvas e difusas, formando aproximadamente o conhecido padrão em “banana” entre a fonte e o detector. A profundidade efetiva investigada depende principalmente da distância entre emissor e detector, das propriedades ópticas do tecido e do algoritmo empregado; como aproximação prática, a profundidade média de sensibilidade é frequentemente relacionada a cerca de metade da distância fonte-detector, embora essa não seja uma fronteira anatômica rígida e não possa ser interpretada como uma profundidade exata de medição (FERRARI; MOTTOLA; QUARESIMA, 2004; BARSTOW, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
O que permite extrair informação fisiológica dessa luz é o fato de determinadas moléculas, denominadas cromóforos, absorverem a radiação de maneira dependente do comprimento de onda. No músculo esquelético, os cromóforos de maior interesse são a hemoglobina e a mioglobina. As formas oxigenada e desoxigenada dessas moléculas apresentam propriedades espectrais distintas; assim, ao analisar a quantidade relativa de luz atenuada em diferentes comprimentos de onda, os sistemas NIRS podem estimar alterações na oxigenação e na desoxigenação do compartimento óptico interrogado. A hemoglobina contribui predominantemente por meio do sangue presente na microcirculação — incluindo principalmente os pequenos vasos do leito arteriolar, capilar e venular — enquanto a mioglobina representa o compartimento intramuscular. Como os espectros de hemoglobina e mioglobina são muito semelhantes na região do infravermelho próximo, entretanto, sua contribuição não pode ser perfeitamente separada pelos sistemas convencionais. Por isso, a NIRS muscular deve ser compreendida como uma medida óptica integrada da oxigenação dos cromóforos presentes no volume de tecido investigado, e não como uma medida isolada de saturação exclusivamente arterial, venosa, capilar ou mitocondrial (PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
A variável mais conhecida derivada dessa análise é a saturação muscular de oxigênio, usualmente denominada SmO₂, embora diferentes equipamentos e estudos possam utilizar nomenclaturas como StO₂, TSI, TOI ou rSO₂. Conceitualmente, o SmO₂ expressa a proporção relativa de hemoglobina e mioglobina oxigenadas em relação ao conjunto de formas oxigenadas e desoxigenadas detectadas no volume tecidual analisado. Em termos simplificados, pode ser representado como a fração oxigenada de O₂Hb + O₂Mb em relação ao total de espécies oxigenadas e desoxigenadas detectadas. Essa representação, porém, não deve induzir à interpretação de que o SmO₂ seja uma medida direta de “quanto oxigênio existe dentro do músculo”. O que o sinal expressa de maneira mais útil, do ponto de vista fisiológico, é o estado resultante do equilíbrio dinâmico entre a chegada de oxigênio ao tecido e sua extração e utilização metabólica local (BARSTOW, 2019; HAMAOKA; MCCULLY, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
É precisamente nessa relação que reside a principal utilidade do SmO₂ durante o exercício. Quando a demanda metabólica de um músculo aumenta mais rapidamente ou em maior magnitude do que a capacidade local de oferta de oxigênio, ocorre maior extração de O₂ da hemoglobina e o SmO₂ tende a diminuir. Inversamente, quando a oferta relativa de oxigênio aumenta, quando a demanda metabólica diminui ou quando ambas as situações ocorrem simultaneamente, a fração de cromóforos oxigenados aumenta e o SmO₂ tende a subir. Portanto, uma queda do SmO₂ não deve ser interpretada automaticamente como “falta de oxigênio” ou como uma falha da circulação. Ela pode resultar de uma combinação de maior consumo metabólico, alterações no fluxo sanguíneo, mudanças na distribuição da perfusão, compressão mecânica dos vasos durante a contração ou modificações na relação entre oferta e extração. Da mesma forma, um aumento do SmO₂ não significa necessariamente aumento absoluto do fluxo sanguíneo, pois pode ocorrer simplesmente porque o consumo local de oxigênio diminuiu. O SmO₂ é, assim, uma variável relacional e dinâmica, cuja interpretação exige considerar simultaneamente a intensidade do exercício, o músculo estudado, a tarefa executada e, quando disponíveis, outras variáveis NIRS, como O₂Hb, HHb e tHb (SANNI; MCCULLY, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
Essa natureza local diferencia fundamentalmente a oximetria muscular da ergoespirometria. Um analisador metabólico como o VO₂ Master estima o consumo de oxigênio a partir das trocas gasosas respiratórias e, portanto, descreve a resposta integrada de todo o organismo ao exercício. O VO₂ representa a quantidade total de oxigênio captada e utilizada pelo organismo, refletindo a integração entre ventilação pulmonar, troca gasosa, transporte cardiovascular, distribuição sanguínea e metabolismo oxidativo dos tecidos. O sistema respiratório, entretanto, não informa diretamente qual músculo está extraindo mais oxigênio, qual região está sofrendo maior desoxigenação ou se diferentes grupos musculares estão apresentando respostas metabólicas heterogêneas. Dois atletas podem apresentar o mesmo VO₂ e a mesma potência mecânica durante o ciclismo, por exemplo, enquanto um apresenta uma desoxigenação muito mais acentuada no vasto lateral do que o outro. O primeiro dado descreve a economia e a demanda metabólica global; o segundo revela como uma parcela específica da musculatura ativa está lidando com aquela demanda. A combinação das duas abordagens permite, portanto, observar simultaneamente o fenômeno global e sua expressão periférica local.
Essa distinção é particularmente importante porque o músculo esquelético não responde de forma homogênea ao exercício. A distribuição do fluxo sanguíneo, o recrutamento de unidades motoras, a composição de fibras, a densidade capilar, a massa mitocondrial, a atividade das enzimas oxidativas e a geometria do próprio músculo podem variar entre indivíduos e entre músculos. Estudos incluídos nas revisões de oximetria muscular demonstram que diferentes sítios musculares podem apresentar respostas de oxigenação distintas durante uma mesma tarefa e que a NIRS permite estudar múltiplos músculos ou regiões musculares simultaneamente. Por essa razão, uma leitura obtida sobre o vasto lateral não pode ser generalizada para o gastrocnêmio, para o glúteo ou para qualquer outro músculo. O sensor não mede “a oxigenação das pernas” nem “a oxigenação do corpo”; ele mede um volume óptico localizado, definido pela anatomia, pelo posicionamento do sensor e pelas propriedades dos tecidos atravessados pela luz (KOGA et al., 2011; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
A consequência prática dessa característica é que a trajetória temporal do sinal frequentemente contém mais informação fisiológica do que um valor absoluto isolado. Um SmO₂ de 45%, por exemplo, não possui necessariamente o mesmo significado em dois indivíduos diferentes, em dois músculos diferentes ou mesmo em dois equipamentos diferentes. O valor pode ser influenciado pela espessura do tecido adiposo, pela geometria do membro, pela distância óptica, pelo algoritmo de cálculo e pelo posicionamento do sensor. Além disso, a comparação direta entre valores absolutos obtidos por equipamentos diferentes deve ser realizada com cautela. A revisão atualizada de Perrey, Quaresima e Ferrari ressalta que medidas absolutas de SmO₂ durante o exercício não são necessariamente comparáveis entre dispositivos sem procedimentos apropriados de correção ou calibração fisiológica. Em consequência, a interpretação aplicada tende a ser mais robusta quando privilegia a resposta individual ao longo do tempo, a amplitude da desoxigenação, a cinética de recuperação e a resposta a uma carga padronizada (FELDMANN; SCHMITZ; ERLACHER, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
A recuperação após o exercício ilustra particularmente bem essa aplicação. Ao término de uma contração intensa, a demanda energética e o consumo local de oxigênio diminuem enquanto o fluxo sanguíneo pode permanecer elevado durante o processo de recuperação. Como resultado, o tecido tende a apresentar reoxigenação, observada como aumento progressivo do SmO₂ ou de outros indicadores ópticos de oxigenação. A velocidade dessa recuperação pode fornecer informação relevante sobre a capacidade integrada de restaurar o equilíbrio metabólico. Estudos metodológicos têm utilizado a cinética da reoxigenação e, de forma mais específica, protocolos baseados em oclusões arteriais transitórias para estimar o consumo muscular de oxigênio e caracterizar a recuperação metabólica após uma perturbação padronizada. Nesses protocolos, a velocidade de recuperação do metabolismo oxidativo pode ser modelada matematicamente e comparada entre indivíduos ou antes e depois de intervenções de treinamento (RYAN et al., 2012; RYAN; SOUTHERN; REYNOLDS; MCCULLY, 2013; SOUTHERN et al., 2014).
É importante, contudo, estabelecer uma distinção entre a simples subida do SmO₂ após uma série de exercício e uma medida validada de capacidade oxidativa muscular. A recuperação espontânea do SmO₂ é determinada pela interação entre oferta e utilização de oxigênio e pode ser fortemente influenciada pela reperfusão e pelas alterações do volume sanguíneo local. Portanto, não é metodologicamente correto afirmar que qualquer reoxigenação rápida observada em um gráfico comercial represente, isoladamente, a função mitocondrial. A avaliação quantitativa da capacidade oxidativa por NIRS exige protocolos específicos, controle da perturbação metabólica e interpretação das variáveis em conjunto. Nos estudos de oclusão arterial transitória, a velocidade de desoxigenação durante a interrupção do fluxo pode ser utilizada para estimar o consumo muscular de oxigênio, e as medidas repetidas ao longo da recuperação permitem modelar sua cinética. Esse tipo de abordagem apresentou concordância relevante com medidas obtidas por espectroscopia de ressonância magnética do fósforo, embora o resultado deva ser interpretado como um marcador funcional integrado e não como uma medida direta e isolada da respiração mitocondrial (RYAN et al., 2013; ADAMI; ROSSITER, 2018; RASICA et al., 2024).
A validação cruzada realizada por Ryan e colaboradores é particularmente importante nesse contexto. Comparando a recuperação da fosfocreatina medida por ^31P-MRS com a recuperação do consumo muscular de oxigênio estimado por NIRS após exercício, os autores observaram constantes de tempo médias praticamente idênticas e fortes correlações entre as técnicas. Esse resultado oferece suporte à utilização da NIRS como método não invasivo para investigar a capacidade oxidativa muscular, especialmente quando empregada dentro de protocolos fisiologicamente padronizados. Ainda assim, o significado fisiológico deve permanecer integrado: a capacidade oxidativa observada in vivo depende não apenas da maquinaria mitocondrial, mas também da disponibilidade de oxigênio, da perfusão, da microcirculação, da difusão tecidual, do conteúdo de mioglobina e da capacidade funcional da cadeia respiratória. A grande vantagem da NIRS é justamente captar essa fisiologia integrada no próprio tecido funcional (RYAN; SOUTHERN; REYNOLDS; MCCULLY, 2013; RYAN et al., 2014; HAMAOKA; MCCULLY, 2019).
No treinamento esportivo, essa informação permite acrescentar uma dimensão periférica às métricas tradicionalmente utilizadas. Potência mecânica informa o trabalho externo produzido; frequência cardíaca fornece uma resposta cardiovascular global; lactato sanguíneo oferece informação sobre o equilíbrio entre produção e remoção sistêmica e metabólica; a ergoespirometria quantifica a resposta respiratória e metabólica integrada. A NIRS acrescenta a possibilidade de observar o comportamento de um músculo específico durante a realização da tarefa. Durante um teste incremental, por exemplo, mudanças na cinética de desoxigenação podem ajudar a identificar transições fisiológicas relacionadas aos domínios de intensidade. Durante intervalos, a amplitude da desoxigenação, a velocidade de recuperação e a repetibilidade da resposta entre as séries podem revelar como o músculo está respondendo à carga e à recuperação. Em exercícios prolongados, alterações progressivas do perfil de oxigenação podem contribuir para a compreensão da fadiga periférica e da chamada durabilidade fisiológica, sempre considerando que a interpretação depende do músculo monitorado e não deve ser extrapolada automaticamente para todo o organismo (IANNETTA et al., 2017; PERREY, 2022; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
A aplicação durante treinamento intervalado é especialmente promissora porque a informação não se limita ao ponto máximo atingido em cada estímulo. Dois atletas podem produzir a mesma potência durante uma série, atingir frequência cardíaca semelhante e apresentar respostas musculares completamente diferentes. Um pode sofrer profunda desoxigenação, mas recuperar rapidamente entre os intervalos; outro pode apresentar menor amplitude de queda, porém recuperação progressivamente incompleta ao longo da sessão. Essas trajetórias não devem ser classificadas automaticamente como “melhores” ou “piores”, pois dependem da intensidade, do tipo de contração e das características individuais. Entretanto, quando o protocolo é repetido e padronizado, a dinâmica de desoxigenação e reoxigenação pode se transformar em uma ferramenta longitudinal para acompanhar adaptações ao treinamento ou alterações na tolerância à carga. A NIRS torna particularmente visível aquilo que uma média sistêmica pode esconder: a evolução temporal do equilíbrio entre oferta e utilização de oxigênio no próprio músculo responsável pela tarefa (PERREY, 2022; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
Uma limitação central, porém, é a influência do tecido adiposo. Antes de alcançar o músculo, a luz precisa atravessar pele e tecido subcutâneo, e cada uma dessas camadas interfere na absorção e no espalhamento dos fótons. O tecido adiposo, especialmente quando mais espesso, pode reduzir a quantidade e modificar a trajetória da luz que efetivamente alcança o tecido muscular, alterando a qualidade e a sensibilidade do sinal. Lipídios, água, melanina e outros componentes também participam da atenuação óptica. A espessura da camada adiposa, portanto, não é um detalhe antropométrico secundário: ela pode modificar a relação entre o sinal registrado pelo equipamento e o tecido muscular de interesse. Estudos específicos demonstraram a importância desse problema para a interpretação da oxigenação muscular derivada de sistemas NIRS espacialmente resolvidos, e a revisão de Perrey e colaboradores ressalta que uma parcela expressiva dos estudos esportivos sequer mediu a espessura do tecido adiposo nos locais avaliados, evidenciando uma limitação metodológica relevante da literatura (NIEMEIJER et al., 2017; BARSTOW, 2019; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
Por esse motivo, comparações entre indivíduos devem ser realizadas com muito mais cautela do que comparações longitudinais no mesmo indivíduo e no mesmo local anatômico. O ideal é padronizar rigorosamente o posicionamento do sensor, registrar o músculo avaliado, controlar a orientação anatômica, garantir fixação estável e, quando a comparação entre indivíduos for um objetivo central, medir ou ao menos caracterizar a espessura do tecido adiposo sobre o sítio avaliado. Alguns sistemas procuram incorporar algoritmos de correção para a camada adiposa, mas isso não elimina a necessidade de compreender a fisiologia e as limitações ópticas da técnica. Um valor de SmO₂ não pode ser interpretado independentemente do contexto anatômico e instrumental que o produziu (NIEMEIJER et al., 2017; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
O posicionamento do sensor constitui outra questão metodológica fundamental. Pequenos deslocamentos podem modificar a proporção de tecido muscular, adiposo e vascular interrogada e, em músculos de arquitetura complexa, podem alterar substancialmente o comportamento observado. A atividade muscular também não é espacialmente homogênea. Diferentes regiões do quadríceps, por exemplo, podem apresentar diferentes perfis de desoxigenação durante o ciclismo. Dessa forma, a reprodutibilidade depende de localizar e registrar o ponto anatômico de maneira consistente. Para aplicações práticas, a maior força da NIRS não está em transformar um único valor percentual em um diagnóstico universal, mas em estabelecer uma linha de base individual e observar como o sinal daquele músculo, naquele local e com aquele equipamento responde a estímulos padronizados ao longo do tempo (KOGA et al., 2011; BARSTOW, 2019).
Esses princípios ampliam consideravelmente o campo de aplicação da tecnologia para além do esporte de alto rendimento. No fitness, a NIRS pode ser utilizada para demonstrar, de maneira objetiva e individualizada, como diferentes intensidades, exercícios e períodos de recuperação modificam a resposta muscular. Em vez de prescrever uma carga exclusivamente a partir da potência, velocidade ou frequência cardíaca, torna-se possível acrescentar a informação de como um músculo-alvo está respondendo à tarefa. Isso pode ser útil, por exemplo, para comparar diferentes cadências no ciclismo, diferentes inclinações na caminhada, diferentes modalidades de exercício aeróbico ou distintas estratégias de treinamento intervalado. O objetivo não é substituir os indicadores tradicionais, mas enriquecer a individualização fisiológica da prescrição.
No contexto do envelhecimento e da longevidade, o interesse é ainda mais amplo. A capacidade de produzir ATP aerobicamente, utilizar oxigênio de maneira eficiente e recuperar-se de perturbações metabólicas está intimamente relacionada à função muscular e à capacidade funcional. O envelhecimento está associado, em diferentes graus e dependendo do nível de atividade física, a alterações na massa muscular, na função mitocondrial, na microcirculação e na capacidade de recuperação. A possibilidade de acompanhar de forma não invasiva a resposta de músculos específicos pode criar uma ferramenta útil para investigar a trajetória funcional do indivíduo e acompanhar adaptações produzidas pelo exercício. Isso não significa que o SmO₂ isolado seja um marcador clínico de longevidade, mas que protocolos padronizados de oxigenação e recuperação muscular podem contribuir para a avaliação longitudinal de componentes fisiológicos relevantes para autonomia e função (SALVATORE; ZELENSKI; PERKINS, 2022; HAMAOKA; MCCULLY, 2019).
Na fisioterapia e na reabilitação, a natureza local da NIRS pode representar uma vantagem particularmente importante. Um paciente pode apresentar resposta cardiovascular global aparentemente adequada enquanto um músculo específico demonstra baixa tolerância à carga ou recuperação alterada. Em situações de imobilização, assimetria, desuso, lesão ou comprometimento funcional, comparar a resposta de músculos homólogos pode ajudar a caracterizar diferenças periféricas que não seriam visíveis por indicadores sistêmicos. A tecnologia também permite acompanhar, ao longo de sessões sucessivas, se uma determinada intervenção está modificando a tolerância metabólica e a recuperação local. Estudos clínicos e revisões têm demonstrado a utilização da NIRS para acompanhar padrões de desoxigenação e reoxigenação em diferentes condições e intervenções de exercício, embora sua aplicação clínica deva obedecer a protocolos específicos e não seja confundida com um método diagnóstico isolado (CORNELIS et al., 2021; TUESTA et al., 2022).
A aplicação à musculação e ao treinamento de força também merece atenção. Durante uma contração sustentada ou uma série com elevada tensão muscular, o aumento da pressão intramuscular pode comprimir parcialmente a microvasculatura e modificar transitoriamente a oferta de oxigênio. Ao mesmo tempo, a demanda metabólica aumenta. O comportamento do SmO₂ durante a série representa, portanto, a resultante desses fenômenos. Uma redução acentuada pode refletir maior extração de oxigênio, limitação transitória da perfusão ou ambas as situações. Durante a recuperação entre séries, a velocidade e o padrão da reoxigenação fornecem informação adicional sobre a restauração da homeostase local. Isso abre possibilidades para estudar intervalos de recuperação, volume de treinamento e respostas individuais ao exercício resistido, embora ainda seja necessário evitar a tentação de atribuir causalidade direta entre uma determinada curva de SmO₂ e hipertrofia ou ganho de força sem evidência específica para essa conclusão.
A literatura sistemática reforça o amadurecimento desse campo. A revisão original de Perrey e Ferrari, publicada em 2018, reuniu 57 estudos sobre oximetria muscular aplicada ao esporte ao longo de 11 anos, estabelecendo uma base para a utilização da NIRS na avaliação da resposta oxidativa muscular durante exercício e treinamento. A atualização publicada em 2024 demonstrou uma expansão substancial da literatura: 191 estudos, envolvendo 3.435 participantes e distribuídos em 37 contextos esportivos, foram incluídos após processo sistemático de seleção. Os autores concluem que a informação derivada da NIRS pode constituir um marcador relevante da capacidade oxidativa do músculo esquelético e uma ferramenta complementar para monitoramento, especialmente quando integrada a indicadores como potência mecânica e frequência cardíaca. A mensagem central, entretanto, não é que a NIRS substitua os métodos tradicionais, mas exatamente o contrário: seu maior potencial está na integração de informações sistêmicas e periféricas para construir uma interpretação fisiológica mais completa do exercício (PERREY; FERRARI, 2018; PERREY; QUARESIMA; FERRARI, 2024).
Em síntese, a oximetria muscular baseada em NIRS deve ser compreendida como uma janela óptica para a fisiologia local. O sensor projeta luz no infravermelho próximo através dos tecidos superficiais; a luz é absorvida e espalhada em função das propriedades ópticas do tecido e da oxigenação relativa da hemoglobina e da mioglobina; parte dessa luz retorna ao detector; e algoritmos específicos transformam essas diferenças ópticas em indicadores da oxigenação do volume tecidual investigado. O SmO₂ representa, portanto, um sinal local e dinâmico, cuja interpretação fisiológica mais útil está no equilíbrio entre oferta e utilização de oxigênio. Quando a utilização aumenta relativamente mais do que a oferta, o sinal tende a cair; quando a relação se inverte durante a recuperação, tende a aumentar. Mas o significado de cada resposta depende do músculo, da tarefa, do posicionamento, da composição do tecido, da perfusão e do próprio método de medição.
É exatamente por ser local que a NIRS acrescenta uma informação que as medidas sistêmicas não conseguem fornecer. A ergoespirometria responde quanto oxigênio o organismo está utilizando; a oximetria muscular ajuda a responder como um músculo específico está participando desse processo. Potência informa quanto trabalho externo está sendo produzido; frequência cardíaca descreve parte da resposta cardiovascular; lactato informa sobre a dinâmica metabólica sistêmica; e a NIRS permite observar diretamente a trajetória da oxigenação no músculo que executa o trabalho. Para o atleta, isso significa uma possibilidade adicional de individualizar treinamento, intensidade e recuperação. Para o fitness, oferece uma ferramenta objetiva para compreender a resposta periférica ao exercício. Para o envelhecimento e a longevidade, abre uma perspectiva de acompanhamento funcional não invasivo da fisiologia muscular. Para a fisioterapia e a reabilitação, permite observar assimetrias e respostas locais que podem permanecer invisíveis em avaliações exclusivamente sistêmicas. A tecnologia, contudo, exige interpretação fisiológica rigorosa: um número isolado de SmO₂ não é o objetivo final. O valor está na dinâmica do sinal, na padronização da medida e na integração da oximetria muscular com a pergunta fisiológica que se deseja responder.
Referências
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Crédito foto: Rachel Tanugi