Durante grande parte do século XX, o lactato foi interpretado como o produto final da glicólise anaeróbia, um subproduto metabólico associado à insuficiência de oxigênio, à acidose e à fadiga muscular. Essa representação, entretanto, resulta em grande medida da extrapolação de experimentos clássicos realizados em músculos isolados e sem perfusão para a fisiologia de organismos intactos. A partir dos estudos de cinética metabólica realizados em humanos e animais, particularmente com traçadores isotópicos, tornou-se evidente que o lactato é produzido continuamente em condições plenamente aeróbias e que sua formação não constitui evidência de hipóxia tecidual. Mais do que um resíduo metabólico, o lactato participa de uma rede dinâmica de transferência de carbono e energia entre compartimentos celulares, músculos e órgãos. A chamada Lactate Shuttle Theory estabelece justamente essa mudança conceitual: lactato é simultaneamente substrato energético, precursor gliconeogênico e molécula sinalizadora. (BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022).
A origem histórica do equívoco é particularmente instrutiva. Os experimentos clássicos de Otto Meyerhof demonstraram que a contração muscular estava associada ao consumo de glicogênio e à formação de lactato. O problema não estava na observação experimental, mas na interpretação fisiológica que posteriormente se consolidou. O músculo isolado era colocado em condições sem suprimento sanguíneo adequado e sem oxigenação fisiológica, sendo estimulado repetidamente até perder a capacidade de contrair. Nessas circunstâncias, glicogênio era utilizado, lactato se acumulava e a contração cessava. Como não havia oxigênio disponível, estabeleceu-se uma associação causal entre ausência de oxigênio e produção de lactato. No organismo intacto, porém, a situação é radicalmente diferente: existe fluxo sanguíneo, transporte de oxigênio, heterogeneidade de fibras musculares, intercâmbio metabólico entre células e órgãos e, sobretudo, uma capacidade contínua de consumir o próprio lactato produzido. O experimento demonstrava o que acontecia em um sistema artificialmente privado de oxigênio; não demonstrava que o lactato fosse produto exclusivo da hipóxia. (BROOKS, 2020; BROOKS, 2018).
A própria bioquímica da reação final da glicólise mostra por que a expressão “ácido láctico” é fisiologicamente inadequada para descrever o principal metabólito circulante. Em pH fisiológico, a espécie predominante é o ânion lactato, e não o ácido lático protonado. A reação catalisada pela lactato desidrogenase converte piruvato e NADH em lactato e NAD⁺. Essa reação é fundamental porque regenera NAD⁺, permitindo que a glicólise continue operando em elevadas taxas de fluxo. Portanto, a formação de lactato não representa simplesmente o encerramento da utilização da glicose; ela constitui uma etapa que permite a continuidade da transferência de elétrons e da produção citosólica de ATP. A acidose associada ao exercício intenso possui mecanismos mais complexos e não pode ser atribuída simplesmente à formação de lactato. A hidrólise acelerada de ATP e o balanço entre produção e consumo de prótons são elementos centrais da perturbação ácido-base durante o exercício de alta intensidade. (BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022).
Essa distinção é fundamental porque permite compreender por que a produção de lactato aumenta mesmo quando a disponibilidade de oxigênio é adequada. O músculo esquelético é constituído por populações celulares metabolicamente heterogêneas. Fibras com maior capacidade glicolítica podem produzir lactato em grande quantidade, enquanto fibras mais oxidativas podem captá-lo e utilizá-lo como combustível. Assim, dentro do próprio músculo pode existir simultaneamente produção e consumo de lactato. O gradiente metabólico entre células produtoras e consumidoras cria uma verdadeira rede de transferência de substrato. O lactato produzido por uma fibra não precisa necessariamente ser lançado na circulação sistêmica; pode ser imediatamente captado por outra fibra, convertido novamente em piruvato e oxidado. Dessa maneira, a lactatemia periférica representa apenas uma pequena janela para um fluxo metabólico muito maior que ocorre continuamente no tecido. (BROOKS, 2009; BROOKS et al., 2022).
É nesse contexto que surge o conceito de lactate shuttle intercelular. Células com elevada atividade glicolítica funcionam como producer cells ou driver cells, enquanto células metabolicamente mais oxidativas funcionam como consumer cells ou recipient cells. O lactato atravessa as membranas celulares principalmente por transportadores de monocarboxilatos, particularmente MCT1 e MCT4, associados ao transporte acoplado de lactato e prótons. A direção do fluxo depende do gradiente de concentração, do pH, do estado redox e da expressão relativa desses transportadores. Em músculo submetido ao exercício, portanto, não existe uma simples relação “músculo produz → sangue transporta → fígado remove”. Há uma sucessão de transferências locais e sistêmicas que podem ocorrer simultaneamente. O sangue funciona como um compartimento intermediário de distribuição, mas não necessariamente como o destino final do lactato. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2018).
A importância dessa arquitetura fica ainda mais evidente quando se examina o treinamento de endurance. O treinamento prolongado aumenta a densidade mitocondrial, a capacidade respiratória e a expressão de proteínas envolvidas no transporte e na oxidação de lactato. Estudos clássicos demonstraram aumentos relacionados ao treinamento de endurance na expressão de LDH, MCT1 e MCT4 no músculo esquelético humano. Paralelamente, estudos de cinética mostraram que atletas treinados apresentam maior capacidade de remover e oxidar lactato durante o exercício. Isso significa que a adaptação não deve ser interpretada apenas como uma capacidade de “produzir menos lactato”. Um atleta altamente treinado pode produzir grandes quantidades de lactato, mas também apresenta uma capacidade muito maior de fazê-lo circular e utilizá-lo rapidamente. O treinamento aumenta, portanto, a capacidade do sistema de produzir, transportar e consumir lactato. (DUBOUCHAUD et al., 2000; BERGMAN et al., 1999; BROOKS, 2020).
Essa diferença entre concentração e fluxo é provavelmente uma das consequências mais importantes da teoria. A concentração sanguínea de lactato é uma variável instantânea determinada pelo balanço entre taxa de aparecimento e taxa de desaparecimento. Uma concentração relativamente baixa não significa necessariamente que pouco lactato esteja sendo produzido; pode significar que a taxa de utilização é suficientemente elevada para impedir sua acumulação. Da mesma maneira, uma concentração elevada pode resultar tanto de aumento da produção quanto de redução da capacidade de remoção. Estudos com traçadores isotópicos revelaram exatamente essa situação: durante o exercício, o fluxo de lactato pode aumentar várias vezes mesmo quando a concentração arterial permanece relativamente moderada, porque tecidos como músculo esquelético e coração possuem grande capacidade de extração e oxidação. Assim, a lactatemia é uma medida de concentração; a fisiologia do lactato é essencialmente uma fisiologia de fluxo. (BROOKS, 1986; BROOKS et al., 2022).
O emprego de traçadores isotópicos foi decisivo para essa mudança de paradigma. Ao administrar lactato marcado, por exemplo com carbono-13, e posteriormente detectar carbono-13 em CO₂ expirado, glicose ou outros metabólitos, torna-se possível determinar o destino do carbono proveniente do lactato. Esses experimentos demonstraram simultaneamente captação, produção e oxidação de lactato pelo músculo durante o exercício. O resultado é conceitualmente importante: um músculo pode estar produzindo lactato e, ao mesmo tempo, retirando lactato da circulação em quantidade ainda maior. O balanço líquido observado no sangue representa apenas a diferença entre fluxos opostos. A existência de produção e utilização simultâneas explica por que o modelo simplificado de “produção versus remoção” é insuficiente para descrever a fisiologia real. (BROOKS, 1986; BROOKS et al., 2022).
A extensão intracelular da Lactate Shuttle Theory é ainda mais interessante. A visão tradicional da bioenergética imaginava a glicólise ocorrendo no citosol, produzindo piruvato, que então seria transportado para a mitocôndria para entrar no metabolismo oxidativo. Nesse modelo, o lactato seria produzido quando o piruvato não pudesse seguir adequadamente para a mitocôndria. Entretanto, evidências experimentais indicam que o lactato também pode ser utilizado diretamente como substrato oxidativo associado à maquinaria mitocondrial. A LDH mitocondrial e componentes do sistema de transporte de monocarboxilatos participam desse processo. Assim, lactato e piruvato não constituem dois destinos metabolicamente opostos; eles fazem parte de um sistema redox integrado no qual o lactato pode funcionar como intermediário entre glicólise e respiração. (BROOKS et al., 1999; BROOKS et al., 2022).
A organização espacial da mitocôndria acrescenta uma dimensão particularmente sofisticada a esse mecanismo. A maquinaria respiratória da fibra muscular não é constituída simplesmente por milhares de organelas independentes e isoladas, mas por uma extensa rede denominada mitochondrial reticulum. Essa rede se estende desde regiões próximas ao sarcolema até áreas profundas da fibra muscular e estabelece uma infraestrutura contínua para a distribuição de substratos e energia. O conceito de intracellular lactate shuttle propõe que o lactato produzido no citosol possa ser transportado em direção a esse sistema, convertido em piruvato e direcionado à oxidação mitocondrial. A consequência é uma integração funcional muito mais estreita entre glicólise e fosforilação oxidativa do que aquela sugerida pelos modelos clássicos. (BROOKS et al., 1999; BROOKS et al., 2022).
Esse mecanismo ajuda a explicar por que o lactato pode tornar-se um combustível preferencial em determinadas circunstâncias de elevada demanda energética. Quando o fluxo glicolítico aumenta, a produção de lactato permite que o carbono proveniente da glicose seja rapidamente redistribuído para tecidos ou compartimentos com elevada capacidade oxidativa. O coração, por exemplo, é particularmente eficiente na utilização de lactato como combustível. O músculo oxidativo também pode utilizá-lo em grande escala. O lactato pode, portanto, funcionar como uma espécie de “moeda energética intermediária”: a glicose ou o glicogênio são utilizados em células produtoras, o carbono é convertido em lactato e posteriormente entregue a células que dispõem de maior capacidade oxidativa. A vantagem sistêmica é permitir que a produção de ATP seja espacialmente desacoplada da origem inicial do substrato. (BROOKS, 2018; BROOKS, 2020).
Um aspecto particularmente relevante é a interação entre lactato e oxidação de ácidos graxos. Durante exercício intenso ou situações de elevada demanda energética, o aumento do fluxo de carboidratos favorece a utilização de substratos glicolíticos e pode reduzir a contribuição relativa da oxidação lipídica. O fenômeno não deve ser entendido como uma simples “inibição pelo lactato”, mas como consequência da integração entre os fluxos de carbono e o estado energético celular. A conversão de lactato em piruvato, seguida de formação de acetil-CoA, modifica o ambiente metabólico mitocondrial e influencia a disponibilidade de intermediários e a entrada de ácidos graxos na mitocôndria. A regulação de CPT1 e do transporte de ácidos graxos é particularmente importante nesse contexto. Assim, quando a demanda energética exige elevada velocidade de produção de ATP, o organismo pode privilegiar um substrato que permita maior fluxo energético por unidade de tempo, mesmo dispondo de reservas lipídicas muito maiores. (BROOKS, 2018; BROOKS, 2020).
Essa característica pode ser interpretada à luz da fisiologia evolutiva. A capacidade de mobilizar rapidamente glicogênio e produzir lactato é particularmente importante em situações de fight-or-flight, nas quais a prioridade não é preservar carboidratos para uma utilização lenta e prolongada, mas disponibilizar energia rapidamente. A oxidação de ácidos graxos é altamente eficiente do ponto de vista energético, mas apresenta limitações na velocidade de fornecimento de ATP. O sistema glicolítico, por outro lado, permite aumentar rapidamente o fluxo de ATP, embora dependa de reservas relativamente limitadas de glicogênio. O lactato surge nesse contexto não como sinal de que o metabolismo “falhou”, mas como componente de uma estratégia metabólica que privilegia velocidade de fluxo energético quando a demanda é elevada. (BROOKS, 2018).
O conceito de lactate shuttle também modifica profundamente a compreensão do ciclo de Cori. O lactato produzido no músculo pode ser transportado ao fígado e convertido novamente em piruvato e glicose por gliconeogênese, mas essa é apenas uma das possibilidades de seu destino. O lactato também pode ser oxidado diretamente pelo músculo, pelo coração e por outros tecidos. No fígado e nos rins, sua conversão em piruvato pode alimentar a gliconeogênese, enquanto a própria oxidação de substratos fornece a energia necessária para sustentar esse processo. Dessa forma, o ciclo de Cori deve ser entendido como um dos componentes de uma rede muito maior de transferência de carbono, e não como a explicação exclusiva para o desaparecimento do lactato sanguíneo. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2018).
Um fenômeno particularmente revelador é a participação do intestino no destino metabólico da glicose. Após a ingestão de carboidratos, os enterócitos podem metabolizar uma parcela da glicose absorvida e liberar lactato. Isso significa que o organismo pode transformar parte da carga de glicose em lactato antes mesmo que todo o carbono alcance a circulação sistêmica sob a forma de glicose. Em uma perspectiva de balanço de massa, o lactato constitui uma forma de transportar carbono derivado de carboidratos sem necessariamente provocar uma elevação equivalente da glicemia. O metabolismo intestinal, portanto, participa ativamente da regulação da disponibilidade sistêmica de substratos e pode ser interpretado como mais um componente da rede de lactate shuttles. (BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022).
A relevância desse mecanismo torna-se evidente quando se compara um indivíduo metabolicamente saudável e treinado com um indivíduo resistente à insulina. No atleta de endurance, grandes fluxos de lactato podem ser processados rapidamente porque músculo, coração e outros tecidos apresentam elevada capacidade oxidativa. Em indivíduos metabolicamente inflexíveis, a capacidade de alternar entre diferentes substratos e de processar determinados fluxos metabólicos pode estar comprometida. A concentração sanguínea, portanto, não deve ser analisada isoladamente: é necessário compreender o contexto em que ela aparece e a capacidade do organismo de produzir e remover o metabólito. A flexibilidade metabólica pode ser entendida, em parte, como a capacidade de modificar rapidamente a direção e a magnitude desses fluxos. (BROOKS; SAN-MILLÁN, 2017; BROOKS, 2020).
A comparação entre atletas de endurance e indivíduos metabolicamente comprometidos apresenta uma aparente contradição interessante. Atletas altamente treinados podem apresentar grande quantidade de substratos armazenados no músculo e, ao mesmo tempo, uma extraordinária capacidade de utilizá-los. O exemplo clássico é o conteúdo de triglicerídeos intramusculares: a quantidade pode ser elevada em atletas treinados, mas o turnover é extremamente rápido. O mesmo princípio de fluxo ajuda a interpretar o metabolismo do lactato. Não é necessariamente a quantidade absoluta de um metabólito que determina sua função fisiológica, mas a velocidade com que ele entra, circula e deixa determinado compartimento. O organismo metabolicamente eficiente não é aquele que necessariamente mantém concentrações baixas de todos os metabólitos, mas aquele capaz de movimentá-los rapidamente de acordo com a demanda. (BROOKS; SAN-MILLÁN, 2017; BROOKS, 2018).
O cérebro constitui outro exemplo decisivo. O lactato atravessa a barreira hematoencefálica e pode ser captado e oxidado por células cerebrais. Isso é especialmente relevante em situações de elevada demanda energética ou de comprometimento do metabolismo cerebral. Estudos experimentais e clínicos sobre trauma cranioencefálico demonstraram que o cérebro lesionado pode utilizar lactato como combustível e que a administração exógena de lactato tem sido investigada como estratégia para melhorar a disponibilidade energética cerebral. O racional é particularmente interessante porque uma lesão cerebral pode alterar o metabolismo da glicose e aumentar a demanda energética, criando uma situação na qual um substrato alternativo, capaz de entrar no metabolismo oxidativo por uma rota relativamente distinta, pode oferecer vantagem metabólica. (BROOKS; MARTIN, 2015; GLENN et al., 2015).
O lactato também parece participar da regulação da ingestão alimentar. Durante exercícios extremamente intensos, nos quais a concentração sanguínea de lactato pode atingir valores muito elevados, ocorre frequentemente supressão transitória do apetite. Uma hipótese mecanística é que o lactato atravesse a barreira hematoencefálica e atue em circuitos hipotalâmicos relacionados à regulação energética. Essa observação é importante porque demonstra que o lactato não atua exclusivamente como substrato energético periférico. Ele pode transmitir ao sistema nervoso central informação sobre o estado metabólico periférico, funcionando como um sinal associado à intensidade da atividade muscular e à disponibilidade de energia. (BROOKS, 2018; BROOKS, 2020).
A função sinalizadora do lactato constitui provavelmente uma das áreas mais novas e promissoras dessa fisiologia. O lactato pode atuar por meio de receptores celulares, incluindo HCAR1/GPR81, e modificar vias de sinalização intracelular. Além disso, a produção e a oxidação de lactato alteram o estado redox celular, conectando o metabolismo de NADH/NAD⁺ à regulação de processos celulares. Essa perspectiva transforma o lactato de simples intermediário metabólico em um possível mensageiro entre estado energético e expressão celular. Em termos fisiológicos, isso significa que o aumento do fluxo de lactato durante o exercício pode não apenas fornecer combustível, mas também informar às células que houve uma alteração significativa na demanda energética e induzir respostas adaptativas. (BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022).
A descoberta da lactilação acrescentou uma dimensão epigenética a essa história. O lactato e seus derivados podem participar de modificações pós-traducionais de proteínas, incluindo histonas, por meio da chamada lysine lactylation. Isso sugere uma ligação direta entre o estado metabólico e a regulação da expressão gênica. Em outras palavras, alterações no fluxo de carbono que culminam na produção de lactato podem deixar uma marca molecular capaz de modificar a atividade de genes. A importância fisiológica dessa via ainda está sendo determinada, mas ela oferece um mecanismo plausível pelo qual alterações metabólicas agudas podem produzir adaptações celulares mais duradouras. O metabolismo deixa, nesse sentido, de ser apenas uma fonte de energia e passa a funcionar como sistema de informação. (BROOKS et al., 2022; CHOI et al., 2025).
A relação com o câncer amplia ainda mais essa interpretação. O efeito Warburg descreve a elevada produção de lactato por células tumorais mesmo na presença de oxigênio. Tradicionalmente, isso foi interpretado como consequência de uma deficiência ou disfunção mitocondrial. Atualmente, entretanto, o lactato pode ser entendido também como componente funcional do microambiente tumoral. Células tumorais podem exportar lactato por MCT4, enquanto populações celulares mais oxidativas podem captá-lo por MCT1 e utilizá-lo como combustível. O lactato também pode influenciar angiogênese, sinalização inflamatória e interação entre células tumorais e células do estroma. Dessa perspectiva, o metabolismo tumoral não é simplesmente uma versão defeituosa do metabolismo normal: ele pode explorar deliberadamente a plasticidade do sistema lactato para sustentar crescimento, invasão e adaptação ao microambiente. (SAN-MILLÁN; BROOKS, 2017; BROOKS, 2018).
Isso também exige cautela ao interpretar a relação entre exercício, lactato e câncer. O fato de células tumorais utilizarem lactato não significa que o lactato produzido fisiologicamente pelo exercício seja carcinogênico. O contexto metabólico é completamente diferente. No exercício, o aumento do lactato ocorre como parte de um sistema altamente regulado de produção, distribuição e oxidação, seguido por rápida remoção. No tumor, a produção pode estar associada a alterações persistentes de metabolismo, sinalização, angiogênese e interação com o microambiente. O exercício, por sua vez, aumenta a capacidade sistêmica de utilização de substratos, melhora a função mitocondrial e modifica o ambiente metabólico e imunológico. Portanto, não é cientificamente válido transformar a associação entre lactato e metabolismo tumoral em uma relação causal simples entre lactato circulante e carcinogênese. (BROOKS, 2018; SAN-MILLÁN; BROOKS, 2017).
A maior consequência conceitual dessa literatura talvez seja a necessidade de abandonar definitivamente a oposição “aeróbio versus anaeróbio” como explicação para a presença de lactato. A glicólise não deixa de ocorrer porque existe oxigênio; ao contrário, glicólise e fosforilação oxidativa funcionam de maneira integrada. O lactato constitui uma ponte entre elas. A glicose pode ser rapidamente convertida em piruvato e lactato no citosol; o lactato pode ser transportado para outra célula, outro tecido ou para a própria rede mitocondrial; pode ser convertido novamente em piruvato e oxidado, utilizado para gliconeogênese ou atuar como sinal. O metabolismo energético real é, portanto, uma rede de fluxos paralelos e interconectados, não uma sequência linear na qual o lactato representa o ponto final de uma via “sem oxigênio”. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022).
Essa interpretação tem implicações diretas para a fisiologia do exercício e para o uso do lactato como marcador. A concentração sanguínea de lactato continua sendo extremamente útil, mas sua interpretação deve ser baseada na dinâmica do sistema. O aparecimento de lactato durante exercício progressivo não demonstra isoladamente hipóxia muscular; demonstra que o fluxo de produção excedeu, naquele momento e naquele compartimento, a capacidade líquida de utilização. O ponto no qual a lactatemia começa a aumentar de forma desproporcional à carga externa deve ser interpretado como uma alteração importante na relação entre produção, transporte e remoção, e não simplesmente como o instante em que “o oxigênio acabou”. Isso torna a análise do lactato particularmente valiosa para compreender a capacidade metabólica integrada do atleta, desde que se abandone a interpretação simplista do lactato como resíduo anaeróbio. (BROOKS, 2013; BROOKS, 2020).
Em última análise, o lactato pode ser considerado um dos grandes integradores do metabolismo intermediário. Ele conecta glicólise e respiração mitocondrial, fibras musculares glicolíticas e oxidativas, músculo e coração, músculo e fígado, periferia e cérebro, metabolismo energético e sinalização celular. Sua produção aumenta quando o fluxo glicolítico aumenta; sua remoção depende da capacidade oxidativa e gliconeogênica dos tecidos; seu transporte depende de MCTs e de gradientes químicos; sua oxidação pode ocorrer associada ao retículo mitocondrial; e seus efeitos podem estender-se à regulação de expressão gênica e função celular. A antiga imagem do lactato como “resíduo da falta de oxigênio” é, portanto, não apenas incompleta, mas incapaz de explicar a diversidade de fenômenos experimentais atualmente observados. O lactato deve ser compreendido como uma moeda metabólica dinâmica, capaz de transportar carbono, energia e informação através do organismo. (BROOKS, 2018; BROOKS et al., 2022; BROOKS et al., 2022).
Referências
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