Glicogenólise Intramuscular, Fadiga Periférica e Produção de Lactato durante o Exercício Intenso e Prolongado: Mecanismos Moleculares e Implicações para a Suplementação de Carboidratos

por | jun 3, 2026

Resumo

O glicogênio intramuscular é muito mais do que um simples reservatório energético: trata-se de uma organela metabólica dinâmica cuja disponibilidade subcellular condiciona diretamente a função contrátil, o acoplamento excitação-contração e a fadiga do músculo esquelético. A presente revisão sintetiza os mecanismos pelos quais a depleção de glicogênio — em especial da fração intramiofibrilar — compromete a liberação de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático (RS), eleva a produção de lactato durante exercício próximo ao segundo limiar de lactato (LT-2) e, paradoxalmente, resiste ao efeito poupador esperado da suplementação oral de carboidratos em altas doses. A análise da regulação da glicogênio fosforilase, da compartimentalização subcelular do glicogênio e das vias de produção e clearance de lactato revela a complexidade do fenômeno, com implicações diretas para a fisiologia do exercício e para a nutrição esportiva baseada em evidências.

1. Introdução: o Legado Histórico dos Estudos de Bergström e Hultman

A compreensão contemporânea do papel do glicogênio muscular durante o exercício físico tem sua origem nos estudos pioneiros realizados em Estocolmo na década de 1960. Utilizando a técnica de biópsia percutânea com agulha de Bergström, aplicada ao músculo quadríceps femoral de voluntários saudáveis, Bergström, Hermansen, Hultman e Saltin (1967) demonstraram que a concentração de glicogênio muscular determinava, de forma dose-dependente, a capacidade de sustentar esforço físico prolongado. Naquele estudo seminal, sujeitos submetidos a uma dieta rica em carboidratos exibiram concentrações de glicogênio próximas a 4,7 g por 100 g de músculo, enquanto aqueles mantidos em dieta hiperproteica e hiperlipídica não superavam 0,6 g/100 g — e apresentavam tempo de exaustão drasticamente reduzido. Estabelecia-se, assim, a correlação clássica entre estoques de glicogênio pré-exercício e desempenho em exercício de endurance.

Contudo, o mero fato de que a exaustão ocorre antes da depleção completa do glicogênio total do músculo indicou, desde cedo, que a relação entre substrato e fadiga não era simples nem diretamente proporcional. Esse paradoxo — a fadiga persiste mesmo na presença de glicogênio mensurável — foi o ponto de partida para investigações que, décadas depois, revelaram a centralidade da localização subcelular do glicogênio na fisiopatologia da fadiga muscular.

2. Compartimentalização Subcelular do Glicogênio Muscular

O glicogênio muscular não se distribui de maneira homogênea pela célula muscular. Estudos de microscopia eletrônica de transmissão (MET) quantitativa, pioneiramente realizados por Fridén e colaboradores e sistematizados por Marchand e Nielsen, identificaram três reservatórios funcionalmente distintos: o glicogênio intermiofibrilar (IMF), localizado entre as miofibrilas em estreita aposição às mitocôndrias e ao retículo sarcoplasmático longitudinal; o glicogênio intramiofibrilar (Intra), depositado no interior das miofibrilas, na região da banda I, entre os filamentos contráteis; e o glicogênio subsarcolemal (SS), concentrado logo abaixo da membrana plasmática em íntimo contato com mitocôndrias periféricas e núcleos. Em fibras humanas em repouso, a fração IMF representa aproximadamente 75% do glicogênio miofibrilar total, enquanto a fração Intra responde por apenas 5–15% desse total — um compartimento quantitativamente minoritário, porém de relevância funcional desproporcional à sua massa.

A importância dessa topografia deriva do princípio da compartimentalização energética: a proximidade física entre o substrato e as ATPases que o consomem determina a eficiência do acoplamento metabólico. As partículas de glicogênio não são estruturas inertes; cada grânulo constitui um complexo metabólico autônomo, carregando enzimas glicogenolíticas (glicogênio fosforilase, enzima desramificadora), enzimas glicolíticas e proteínas regulatórias como a AMPK (AMP-activated protein kinase). Conforme demonstrado por Ørtenblad, Westerblad e Nielsen (2013), o conjunto de complexos glicogenolíticos localizado dentro das miofibrilas encontra-se em contato direto com proteínas essenciais ao acoplamento excitação-contração, nomeadamente os receptores de rianodina (RyR1) e os canais de liberação de Ca²⁺ do RS — o que coloca esse reservatório em posição privilegiada para modular a contratilidade muscular.

Schytz e colaboradores (2024), empregando MET quantitativa em amostras de atletas submetidos a 1 e 15 minutos de exercício supramáximo, demonstraram que a utilização dos diferentes reservatórios segue uma hierarquia temporal. Durante o primeiro minuto de exercício intenso, há utilização preferencial do compartimento IMF, adjacente às mitocôndrias, ao passo que após 15 minutos de exercício máximo a depleção do compartimento Intra torna-se proporcionalmente mais pronunciada — sugerindo que, à medida que a demanda energética se sustenta e a acidose metabólica se instala, o fluxo glicolítico migra para a fração intramiofibrilar. De modo complementar, Nielsen e colaboradores (2011) demonstraram, em esquiadores de cross-country submetidos a corridas supramáximas repetidas, que a depleção de glicogênio Intra em fibras tipo I durante a primeira corrida era de –52%, ao passo que a depleção IMF era de apenas –19% — um perfil que se invertia nas corridas subsequentes, quando o estoque Intra já se encontrava severamente reduzido.

3. O Glicogênio Intramiofibrilar como Regulador da Liberação de Ca²⁺ e da Fadiga Muscular

A hipótese de que a depleção do compartimento Intra compromete diretamente a função do RS foi formulada a partir de evidências convergentes de abordagens metodológicas distintas. Nielsen e colaboradores (2009) mostraram, em fibras musculares mecanicamente esfoliadas de ratos, que o glicogênio localizado dentro das miofibrilas correlacionava-se com a capacidade de manter a produção de força durante contrações tetânicas repetidas, indicando um papel na excitabilidade e/ou na liberação de Ca²⁺ pelo RS. Em contrapartida, o glicogênio IMF mostrou correlação com o tempo de meia-relaxação de contrações tetânicas em condição não fatigada, sugerindo sua relevância para a recaptação de Ca²⁺ pela Ca²⁺-ATPase sarcoplasmática (SERCA) — duas faces distintas da homeostase do cálcio no músculo em exercício.

Ørtenblad e colaboradores (2011) estenderam essas observações ao músculo humano, demonstrando que, após exercício exaustivo de alta intensidade, a concentração de glicogênio intramiofibrilar — representando apenas 10–15% do glicogênio total — correlacionava-se de forma altamente significativa com a taxa de liberação de Ca²⁺ pelo RS (r = 0,82; P < 0,001), enquanto o glicogênio total não apresentava tal associação. Quando os atletas não receberam carboidratos nas primeiras 4 horas de recuperação, a ressíntese do compartimento Intra foi gravemente prejudicada e a taxa de liberação de Ca²⁺ permaneceu deprimida — retornando à linha de base somente após ingestão de carboidratos e ressíntese do compartimento intramiofibrilar. Esses dados posicionam o glicogênio Intra como o substrato energético crítico para o funcionamento das ATPases do RS, em especial da SERCA e dos mecanismos de acoplamento associados ao diidropiridina receptor (DHPR) e ao RyR1.

O mecanismo molecular subjacente envolve a demanda energética localizada das bombas de cálcio do RS. A liberação e a recaptação de Ca²⁺ são processos altamente dependentes de ATP produzido localmente: a SERCA é responsável por cerca de 25–40% do consumo de ATP de uma fibra muscular em exercício, e a distância de difusão para o ATP mitocondrial pode ser limitante quando a demanda é súbita e de alta amplitude. O complexo glicogenolítico intramiofibrilar, por sua proximidade física ao RS — confirmada quantitativamente por Schytz et al. (2024), que documentaram associação estrutural entre grânulos de glicogênio e a membrana do RS — proveria ATP de forma rápida e compartimentada, independentemente do suprimento mitocondrial. Quando esse reservatório se depleta, a SERCA e os canais do RS ficam transitoriamente privados de energia local, comprometendo tanto a liberação quanto a recaptação de Ca²⁺, resultando em transientes de Ca²⁺ de menor amplitude e cinética alterada — o substrato biofísico da fadiga periférica observada clinicamente.

Paralelamente, o fenômeno de fadiga por depleção de glicogênio é condicionado pela heterogeneidade entre fibras musculares e pela impossibilidade de redistribuição de glicogênio entre fibras adjacentes. Norman e colaboradores demonstraram que fibras individuais com glicogênio muito reduzido apresentam acúmulo elevado de inosina monofosfato (IMP) — marcador de perturbação energética local — mesmo quando a concentração média de glicogênio no músculo inteiro permanece acima do limiar crítico. Sahlin e colaboradores argumentaram que mesmo pequenas reduções localizadas de ATP, invisíveis ao nível do tecido homogeneizado, poderiam elevar desproporcionalmente as concentrações de ADP, AMP e Pi em compartimentos restritos, comprometendo a função contrátil nessas fibras específicas. A fadiga, portanto, não resulta de uma crise energética global, mas de um colapso energético subcelular e fibra-específicoo que explica a dissociação entre glicogênio total mensurável e grau de fadiga observada clinicamente.

4. Regulação da Glicogenólise Muscular durante o Exercício: Sinais Neurais, Hormonais e Metabólicos

A glicogenólise muscular é iniciada de forma quase imediata ao início da contração, antes mesmo que qualquer sinal hormonal possa alcançar o músculo — o que evidencia a primazia da regulação local. O passo limitante da via é catalisado pela glicogênio fosforilase, que existe em dois estados interconvertíveis: a forma menos ativa (fosforilase b) e a forma mais ativa (fosforilase a), produto da fosforilação mediada pela fosforilase quinase. No músculo em exercício, a ativação da fosforilase quinase decorre principalmente da elevação do Ca²⁺ citosólico durante o acoplamento excitação-contração: o Ca²⁺ se liga à subunidade delta da fosforilase quinase (calmodulina), induzindo a conformação ativa da enzima e, por conseguinte, a conversão de fosforilase b em a. Esse mecanismo garante que a glicogenólise seja ativada em sincronia com a própria contração muscular, acoplando demanda energética e oferta de substrato.

Com o aumento da intensidade e da duração do exercício, mecanismos adicionais amplificam a glicogenólise. A adrenalina (epinefrina), liberada pela medula adrenal em resposta ao estresse fisiológico do exercício, liga-se aos receptores β-adrenérgicos sarcolemais e ativa a adenilil ciclase, elevando o AMPc intracelular e ativando a proteína quinase A (PKA). A PKA fosforila tanto a fosforilase quinase quanto a glicogênio sintase, estimulando simultaneamente a glicogenólise e inibindo a síntese de glicogênio — uma resposta coordenada que maximiza a disponibilidade de glicose-1-fosfato para a glicólise. Paralelamente, a elevação de AMP e Pi no interior da fibra muscular — consequência do consumo de ATP durante a contração — ativa alostericamente a própria fosforilase b (independentemente de fosforilação), contribuindo de forma não hormonal para acelerar a glicogenólise em fibras de contração rápida (tipo II), onde o tampão de fosfocreatina se depleta mais rapidamente.

A taxa de glicogenólise é ainda modulada pela concentração inicial de glicogênio: músculos com maiores reservas exibem maior atividade de fosforilase a e taxas mais elevadas de degradação, ao passo que músculos com glicogênio já reduzido apresentam proteção relativa contra a depleção completa. Esse fenômeno de autorregulação negativa confere ao sistema uma resposta proporcional ao substrato disponível, mas não impede a depleção crítica do compartimento intramiofibrilar — que, por sua pequena magnitude absoluta, pode ser esgotado mesmo quando o estoque total permanece relativamente preservado. Essa dissociação é o ponto central para compreender por que a fadiga emerge antes da depleção completa do glicogênio muscular homogeneizado.

5. Por que a Suplementação Oral com Altas Doses de Carboidratos não Poupa o Glicogênio Muscular durante Exercício Intenso

Uma das observações mais contraintuitivas da fisiologia do exercício é a constatação, reiterada por múltiplos grupos de pesquisa, de que a suplementação com carboidratos durante o exercício não atenua a utilização de glicogênio muscular em exercício de alta intensidade — a despeito de elevar consistentemente a glicemia e de retardar a fadiga em exercícios prolongados. Coyle e colaboradores (1983, 1986) documentaram, em ciclistas treinados submetidos a exercício a 70% do VO₂máx, que a ingestão de carboidratos atrasava a fadiga em 30–60 minutos pelo mecanismo de manutenção da glicemia e da oxidação de carboidratos nas fases tardias — mas não reduzia a taxa de utilização de glicogênio muscular. De modo categórico, Coyle (1992) concluiu: “CHO feedings do not spare muscle glycogen utilization during intense continuous exercise.”

Os mecanismos que explicam essa ausência de efeito poupador são múltiplos e convergentes. O primeiro diz respeito à limitação do transporte intestinal de glicose: o transportador SGLT1, responsável pela absorção ativa de glicose no intestino delgado, satura-se a taxas de ingestão superiores a aproximadamente 1,0–1,1 g/min de glicose. Mesmo com a adição de frutose (absorvida pelo GLUT-5, independente do SGLT1), a taxa máxima de oxidação de carboidratos exógenos não excede 1,6–1,8 g/min em condições ideais. Durante exercício a 70–80% do VO₂máx em atletas de 70 kg, a taxa total de oxidação de carboidratos pode superar 3–4 g/min — de modo que a contribuição exógena cobre, no máximo, 40–50% da demanda glicolítica total. O déficit restante é necessariamente suprido pelo glicogênio intramuscular, que continua sendo degradado em velocidade imposta pela intensidade do esforço, pela ativação simpático-adrenal e pela demanda local de ATP.

O segundo mecanismo envolve a regulação da captação de glicose sanguínea pelo músculo em exercício. A glicose circulante entra na célula muscular principalmente via GLUT4, cujo recrutamento para a membrana plasmática é estimulado tanto pela contração muscular (via AMPK e CaMKII) quanto pela insulina. No entanto, a insulinemia durante o exercício intenso é suprimida pela ativação adrenérgica, limitando o sinal insulínico. Ainda que a contração per se recrute GLUT4 independentemente da insulina, a taxa de captação de glicose sanguínea pelo músculo em exercício é determinada pelo gradiente de concentração transmembrana, pela densidade de GLUT4 funcional na membrana e pela fosforilação intracelular da glicose (hexoquinase) — processos que operam de forma relativamente independente da glicogenólise intramuscular. A glicose-6-fosfato proveniente do sangue entra na via glicolítica, mas não suprime a glicogenólise ativada por Ca²⁺ e AMP: a fosforilase a permanece ativa enquanto os níveis de Ca²⁺ e AMP se mantiverem elevados, independentemente da disponibilidade de glicose exógena.

Um terceiro ângulo relevante reside nos efeitos metabólicos da hiperinsulinemia relativa induzida por ingestão de carboidratos. A elevação da insulina — mesmo que moderada durante exercício — inibe a glicogenólise hepática e reduz a lipólise no tecido adiposo, diminuindo a concentração de ácidos graxos livres (AGL) no plasma. A redução de AGL ativa indiretamente a PDK4 (piruvato desidrogenase quinase 4) em menor grau, mantendo a PDH relativamente mais ativa e favorecendo maior fluxo glicolítico — o que paradoxalmente pode aumentar a dependência do glicogênio muscular, sobretudo em fibras tipo II. Adicionalmente, como demonstrado por estudos de suplementação com múltiplos carboidratos transportáveis (MCT), o efeito poupador relatado em alguns trabalhos parece restringir-se primariamente ao glicogênio hepático e não ao glicogênio muscular — sendo o retardo da fadiga mediado pela manutenção da glicemia, e não pela redução da glicogenólise intramuscular.

A limitação subcellular amplifica a irrelevância da suplementação exógena para a fração Intra: mesmo que a glicose sanguínea estivesse prontamente disponível, ela precisaria ser captada, fosforilada e incorporada ao glicogênio intramiofibrilar para suprir localmente a SERCA e o RS — um processo de ressíntese que não ocorre durante o exercício intenso em andamento (a glicogênio sintase é inativada por fosforilação durante o exercício, via PKA e fosforilase quinase). Desse modo, o compartimento energético mais crítico para a fadiga é, simultaneamente, o mais resistente à repleção por suplementação oral aguda. A suplementação de carboidratos durante o exercício atua, portanto, em um nível diferente do mecanismo de fadiga do glicogênio Intra: ela preserva a glicemia, fornece substrato oxidável às fibras tipo I e ao SNC, e prolonga a fase em que a oxidação de carboidratos pode sustentar o exercício moderado-intenso — mas não impede a depleção subcellular crítica nas fibras de alta intensidade.

6. Produção de Lactato como Consequência da Glicogenólise Muscular Intensificada próximo ao LT-2

A produção de lactato durante o exercício é uma decorrência direta do fluxo glicolítico muscular, sendo, portanto, inseparável da glicogenólise intramuscular que o alimenta. A compreensão moderna do lactato representa uma ruptura epistemológica com o paradigma anaerobiose-resíduo tóxico: sabe-se hoje que o lactato é produzido continuamente mesmo em exercício aeróbio, sendo simultaneamente exportado, redistribuído entre tecidos e oxidado — o que constitui o arcabouço da “lactate shuttle hypothesis” de Brooks (1985). No entanto, a produção líquida de lactato em valores clinicamente relevantes (acúmulo progressivo no sangue) emerge com padrão particular na transição para intensidades próximas ao segundo limiar de lactato (LT-2).

Do ponto de vista da fisiologia do recrutamento motor, o LT-2 corresponde à intensidade a partir da qual as fibras musculares de tipo IIx (fast-twitch glycolytic) são progressivamente recrutadas em adição às fibras tipo IIa previamente ativas. As fibras tipo I (slow-twitch oxidative), predominantes em intensidades abaixo do LT-1, possuem alta densidade mitocondrial e capacidade oxidativa que permite a oxidação de piruvato pela PDH (piruvato desidrogenase) a taxas compatíveis com a produção glicolítica — resultando em produção mínima de lactato. Acima do LT-1, as fibras tipo IIa são progressivamente recrutadas: com metabolismo oxidativo-glicolítico intermediário, elas produzem lactato em velocidade superior à sua capacidade oxidativa local, contribuindo para o incremento moderado da lactatemia que caracteriza a zona entre LT-1 e LT-2. Na transição para o LT-2, a ativação das fibras tipo IIx, com escassa densidade mitocondrial, determina uma explosão do fluxo glicolítico que supera amplamente a capacidade de oxidação de piruvato — levando ao acúmulo progressivo e exponencial de lactato no plasma.

Mecanisticamente, a produção de lactato nesse contexto é determinada pelo equilíbrio entre a taxa de produção de piruvato pela glicolise (proporcional ao fluxo pela PFK-1 e alimentada diretamente pela glicogenólise) e a taxa de oxidação de piruvato pela PDH mitocondrial. O piruvato em excesso é reduzido a lactato pela lactatodesidrogenase (LDH), regenerando NAD⁺ e permitindo que a glicólise anaeróbia continue — o que representa um mecanismo de tampão redox citoplasmático, não uma falha metabólica. A PFK-1 é alostericamente ativada por ADP, AMP e Pi — cujas concentrações aumentam progressivamente durante o exercício intenso — e inibida por citrato e H⁺ (retroalimentação negativa). O paradoxo clássico de que a PFK-1 permanece ativa apesar da acidose metabólica em exercício muito intenso deve-se precisamente à forte ativação alostérica por AMP e Pi, que suplanta a inibição por prótons.

O ponto crucial é que a substância-prima de toda essa cascata é o glicogênio intramuscular: a glicogenólise, ativada pelo Ca²⁺ e pela adrenalina durante o exercício intenso, fornece glicose-1-fosfato que entra diretamente na via glicolítica, sem necessidade de captação de glicose do sangue, transporte transmembrana ou fosforilação pela hexoquinase — três passos que limitariam a velocidade do fluxo se a glicose sanguínea fosse a única fonte. Essa vantagem cinética é o fundamento pelo qual o glicogênio muscular é indispensável para o exercício de alta intensidade: ele permite taxas de glicólise que excedem em muito o que a captação de glicose circulante poderia sustentar. Em contrapartida, essa mesma velocidade de degradação é a razão pela qual o glicogênio muscular se depleta rapidamente em intensidades acima do LT-2 — e o mesmo fluxo glicolítico que sustenta o exercício produz o lactato acumulado.

O lactato produzido não é metabolicamente inerte: nas fibras tipo I e IIa adjacentes, nas fibras cardíacas e no fígado, o lactato é captado via MCT1 (monocarboxylate transporter 1) e oxidado pela PDH mitocondrial após reconversão a piruvato pela LDH-H, constituindo combustível aeróbio de elevado rendimento. Essa redistribuição — o shuttling de lactato entre fibras produtoras (tipo IIx) e fibras consumidoras (tipo I) — é central para a economia metabólica do exercício de resistência e explica por que a capacidade de clearance de lactato, mais do que a taxa de produção isolada, é o determinante funcional do LT-2 em atletas treinados. O treinamento de endurance aumenta a densidade de MCT1 e a capacidade oxidativa das fibras tipo IIa, desloca o LT-2 para intensidades maiores e atenua o acúmulo de lactato a uma dada intensidade absoluta — sem, contudo, eliminar a dependência fundamental do glicogênio muscular como substrato primário da glicogenólise que alimenta o fluxo glicolítico.

7. Adaptações Induzidas pelo Treinamento e Implicações para a Disponibilidade de Glicogênio

O treinamento de endurance modifica profundamente o metabolismo do glicogênio muscular em múltiplos níveis. Em termos de capacidade de armazenamento, o exercício exaustivo seguido de dieta rica em carboidratos promove a supercompensação de glicogênio — fenômeno que Bergström e Hultman (1966) foram os primeiros a documentar, ao demonstrar que a síntese de glicogênio pós-exercício era catalisada por um “fator enhancer” localizado na própria célula muscular, posteriormente identificado como decorrência da translocação e ativação da glicogênio sintase. Com o treinamento crônico, a capacidade máxima de armazenamento de glicogênio muscular aumenta progressivamente, em associação com o aumento da massa mitocondrial, da densidade capilar e da expressão de enzimas oxidativas — adaptações que, em conjunto, reduzem a taxa de utilização de glicogênio por unidade de tempo a uma dada intensidade absoluta.

Paralelamente, a ativação da AMPK durante o exercício em estado de baixo glicogênio tem sido reconhecida como sinal primário para adaptações moleculares ao treinamento. A AMPK, que em condições normais se encontra fisicamente associada às partículas de glicogênio via seu domínio de ligação de glicogênio (GBD) e permanece parcialmente inibida por glicogênio de alto peso molecular, é liberada e ativada quando a depleção de glicogênio ocorre. Uma vez ativa, a AMPK fosforila múltiplos substratos, incluindo a PGC-1α (por via indireta, via p38 MAPK), TFAM e HDAC5 — promovendo mitogênese, biogênese mitocondrial e aumento da expressão de transportadores de glicose e ácidos graxos. Esses efeitos são amplificados quando o exercício é realizado em estado de glicogênio reduzido (o chamado paradigma “train low”), o que confere base mecanicista para estratégias de periodização nutricional voltadas a maximizar as adaptações moleculares ao treinamento de endurance.

8. Considerações Finais

A visão integrada dos mecanismos apresentados nesta revisão permite afirmar que o glicogênio intramuscular, em particular o compartimento intramiofibrilar, ocupa uma posição absolutamente central na fisiologia da fadiga muscular durante exercício intenso e prolongado. Sua função vai muito além da simples provisão energética: ele integra o acoplamento excitação-contração, modula a liberação de Ca²⁺ pelo RS de forma compartimentada, alimenta o fluxo glicolítico que sustenta o exercício acima do LT-2 e, pela produção de lactato associada, sinaliza a transição entre os domínios metabólicos do exercício. A incapacidade da suplementação oral de carboidratos em poupar especificamente esse compartimento não reflete limitação das estratégias nutricionais em termos gerais, mas sim a lógica implacável da regulação cinético-enzimática: a glicogenólise ativada por Ca²⁺ e catecolaminas opera em velocidade que a glicose sanguínea não pode substituir, e o compartimento Intra, por sua pequena massa absoluta, pode ser criticamente depletado muito antes que qualquer intervenção exógena pudesse reabastecê-lo durante o esforço. A identificação desse mecanismo abre perspectivas para estratégias de pré-carga de glicogênio, periodização nutricional e desenvolvimento de novos marcadores de prontidão metabólica — todas ancoradas na compreensão subcelular do metabolismo do glicogênio em fibras musculares individuais.

Referências

Bergström, J., Hermansen, L., Hultman, E., & Saltin, B. (1967). Diet, muscle glycogen and physical performance. Acta Physiologica Scandinavica, 71(2–3), 140–150. https://doi.org/10.1111/j.1748-1716.1967.tb03720.x

Bergström, J., & Hultman, E. (1966). Muscle glycogen synthesis after exercise: an enhancing factor localized to the muscle cells in man. Nature, 210(5033), 309–310. https://doi.org/10.1038/210309a0

Bergström, J., & Hultman, E. (1967). A study of the glycogen metabolism during exercise in man. Scandinavian Journal of Clinical and Laboratory Investigation, 19(3), 218–228.

Brooks, G. A. (1986). The lactate shuttle during exercise and recovery. Medicine & Science in Sports & Exercise, 18(3), 360–368.

Coyle, E. F. (1992). Carbohydrate supplementation during exercise. Journal of Nutrition, 122(3 Suppl), 788–795. https://doi.org/10.1093/jn/122.suppl_3.788

Coyle, E. F., Coggan, A. R., Hemmert, M. K., & Ivy, J. L. (1986). Muscle glycogen utilization during prolonged strenuous exercise when fed carbohydrate. Journal of Applied Physiology, 61(1), 165–172.

Hermansen, L., Hultman, E., & Saltin, B. (1967). Muscle glycogen during prolonged severe exercise. Acta Physiologica Scandinavica, 71(2–3), 129–139. https://doi.org/10.1111/j.1748-1716.1967.tb03719.x

Jeukendrup, A. E. (2004). Carbohydrate intake during exercise and performance. Nutrition, 20(7–8), 669–677. https://doi.org/10.1016/j.nut.2004.04.017

Nielsen, J., Holmberg, H.-C., Schrøder, H. D., Saltin, B., & Ørtenblad, N. (2011). Human skeletal muscle glycogen utilization in exhaustive exercise: role of subcellular localization and fibre type. Journal of Physiology, 589(11), 2871–2885. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2010.204487

Nielsen, J., & Ørtenblad, N. (2013). Physiological aspects of the subcellular localization of glycogen in skeletal muscle. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 38(2), 91–99.

Nielsen, J., Schrøder, H. D., Rix, C. G., & Ørtenblad, N. (2009). Distinct effects of subcellular glycogen localization on tetanic relaxation time and endurance in mechanically skinned rat skeletal muscle fibres. Journal of Physiology, 587(14), 3679–3690.

Ørtenblad, N., Nielsen, J., Saltin, B., & Holmberg, H. C. (2011). Role of glycogen availability in sarcoplasmic reticulum Ca²⁺ kinetics in human skeletal muscle. Journal of Physiology, 589(3), 711–725. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2010.195982

Ørtenblad, N., Westerblad, H., & Nielsen, J. (2013). Muscle glycogen stores and fatigue. Journal of Physiology, 591(18), 4405–4413. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2013.251629

Philp, A., Hargreaves, M., & Baar, K. (2012). More than a store: regulatory roles for glycogen in skeletal muscle adaptation to exercise. American Journal of Physiology – Endocrinology and Metabolism, 302(11), E1343–E1351. https://doi.org/10.1152/ajpendo.00004.2012

Schytz, P. A., Christensen, P. M., Nielsen, J., & Ørtenblad, N. (2024). Differential utilisation of subcellular skeletal muscle glycogen pools: a comparative analysis between 1 and 15 min of maximal exercise. Journal of Physiology, 602(9), 1985–2002. https://doi.org/10.1113/JP285762

Shulman, R. G., & Rothman, D. L. (2001). The “glycogen shunt” in exercising muscle: a role for glycogen in muscle energetics and fatigue. Proceedings of the National Academy of Sciences USA, 98(2), 457–461. https://doi.org/10.1073/pnas.98.2.457

Stellingwerff, T., & Cox, G. R. (2014). Systematic review: carbohydrate supplementation on exercise performance or capacity of varying durations. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, 39(9), 998–1011.

Vigh-Larsen, J. F., Ørtenblad, N., Spriet, L. L., Overgaard, K., & Mohr, M. (2021). Muscle glycogen metabolism and high-intensity exercise performance: a narrative review. Sports Medicine, 51(9), 1855–1874. https://doi.org/10.1007/s40279-021-01475-0

Wallis, G. A., Rowlands, D. S., Shaw, C., Jentjens, R. L. P. G., & Jeukendrup, A. E. (2005). Oxidation of combined ingestion of maltodextrins and fructose during exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise, 37(3), 426–432.

Westerblad, H., Nielsen, J., & Ørtenblad, N. (2014). Subcellular distribution of glycogen and decreased tetanic Ca²⁺ in fatigued single intact mouse muscle fibres. Journal of Physiology, 592(9), 2003–2012. https://doi.org/10.1113/jphysiol.2014.270496

Crédito imagem:  Margot Murphy (Massachusetts Governor’s Press Office) – https://www.flickr.com/photos/massgovernor/albums/72177720325523864, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=164295045