O exercício físico constitui uma das formas mais potentes de perturbação fisiológica controlada do organismo. Durante a contração muscular, o aumento da demanda energética modifica profundamente o metabolismo celular, o fluxo sanguíneo, a disponibilidade de oxigênio, o estado redox, a concentração de cálcio, o pH, a temperatura e a disponibilidade de substratos. Entre as consequências dessa perturbação está o aumento da produção de espécies reativas de oxigênio (reactive oxygen species, ROS) e espécies reativas de nitrogênio (reactive nitrogen species, RNS). A descoberta de que o exercício prolongado está associado ao aumento de marcadores de oxidação remonta ao final da década de 1970, mas a interpretação desse fenômeno sofreu uma transformação fundamental nas décadas seguintes. Inicialmente, as ROS eram consideradas predominantemente subprodutos nocivos do metabolismo oxidativo, responsáveis por dano oxidativo, fadiga e lesão muscular. Atualmente, entretanto, está estabelecido que as ROS também constituem moléculas sinalizadoras essenciais, capazes de modificar proteínas, fatores de transcrição e redes de sinalização que coordenam a adaptação ao treinamento. Assim, o estresse oxidativo induzido pelo exercício não deve ser interpretado simplesmente como consequência patológica do aumento do metabolismo, mas como parte de um sistema regulatório no qual a magnitude, a localização, a duração e a espécie oxidante determinam se a resposta será predominantemente adaptativa ou lesiva (POWERS; JACKSON, 2008; POWERS; RADAK; JI, 2016; POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
Essa mudança conceitual exige distinguir três fenômenos relacionados, mas não equivalentes: produção de ROS, sinalização redox e estresse oxidativo. A produção de ROS ocorre continuamente mesmo em condições basais e é necessária para diversas funções celulares. A sinalização redox corresponde à utilização controlada dessas espécies, particularmente do peróxido de hidrogênio (H₂O₂), para modificar reversivelmente proteínas sensíveis à oxidação e, consequentemente, regular processos celulares. O estresse oxidativo, por sua vez, ocorre quando a perturbação do sistema redox ultrapassa a capacidade de controle da célula, resultando em alteração da sinalização redox e/ou dano molecular. Essa distinção é particularmente importante no exercício de endurance, porque uma sessão prolongada pode aumentar substancialmente o fluxo oxidativo sem necessariamente produzir dano significativo em um indivíduo treinado. O organismo treinado desenvolve uma capacidade superior de controlar os oxidantes por meio de sistemas enzimáticos e não enzimáticos, de modo que o mesmo estímulo que poderia representar estresse oxidativo excessivo para um indivíduo sedentário pode funcionar como estímulo sinalizador e adaptativo para um atleta treinado (POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026; POWERS; GOLDSTEIN; SCHRAGER; JI, 2023).
A questão central, portanto, não é simplesmente se o exercício aumenta ou não a produção de ROS, pois isso está bem estabelecido, mas quais são suas fontes, em que compartimentos celulares são produzidas, como são transformadas, quais moléculas-alvo atingem e em que condições a resposta passa de sinalização fisiológica para dano oxidativo. O ânion superóxido (O₂•−) ocupa posição central nesse sistema, podendo ser formado por diferentes sistemas enzimáticos. Sua dismutação, espontânea ou catalisada pela superóxido dismutase (SOD), produz H₂O₂. Diferentemente do superóxido, o H₂O₂ apresenta maior estabilidade e capacidade de difusão, podendo participar de processos de sinalização. A célula dispõe, entretanto, de mecanismos altamente eficientes para controlar sua concentração, incluindo catalase, glutationa peroxidase e peroxirredoxinas, além dos sistemas glutationa e tiorredoxina. A concentração local e o tempo de exposição são determinantes para que o H₂O₂ funcione como segundo mensageiro ou contribua para dano oxidativo (POWERS; JACKSON, 2008; POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
Um dos pontos mais importantes levantados pelo conjunto dos artigos diz respeito à origem mitocondrial das ROS. Durante décadas, consolidou-se a ideia de que as mitocôndrias constituiriam a principal fonte de ROS no músculo esquelético, especialmente porque os complexos I e III da cadeia respiratória podem promover vazamento eletrônico para o oxigênio molecular. De fato, as mitocôndrias produzem superóxido, particularmente nos complexos I e III, e essa produção possui importância fisiológica e patológica. Entretanto, a extrapolação de que o aumento da respiração mitocondrial durante o exercício implicaria proporcional aumento maciço da produção de ROS não é sustentada pelas evidências mais recentes. Estimativas antigas sugeriam que 2–5% do oxigênio consumido pelas mitocôndrias poderia sofrer redução univalente e originar superóxido; trabalhos posteriores reduziram essa estimativa para valores próximos ou inferiores a 0,15%. Além disso, as mitocôndrias podem produzir mais ROS em condições de respiração basal, ou estado 4, do que durante a respiração estimulada por ADP, estado 3, que predomina durante exercício aeróbio. Portanto, o aumento do consumo de oxigênio durante o endurance não pode ser utilizado, isoladamente, como evidência de que a mitocôndria seja a principal fonte de ROS produzidas pelo músculo em contração (POWERS; NELSON; HUDSON, 2011; POWERS; JACKSON, 2008).
Essa conclusão, contudo, não significa que as mitocôndrias sejam irrelevantes na biologia das ROS durante o exercício. Ao contrário, a função mitocondrial permanece central, mas deve ser compreendida dentro de uma rede de comunicação redox. Dados mais recentes indicam que a produção mitocondrial de ROS pode aumentar especialmente durante a fase de recuperação após o exercício, com evidências de aumento entre aproximadamente três e seis horas após uma sessão de endurance. Isso é particularmente interessante porque desloca a interpretação da mitocôndria de uma simples “fábrica de radicais” para a condição de importante sensor e integrador metabólico. A mitocôndria responde às alterações provocadas pelo exercício e participa posteriormente da sinalização que controla biogênese mitocondrial, expressão de enzimas antioxidantes e remodelamento metabólico. Assim, a questão cientificamente mais adequada não é se “a mitocôndria produz ROS”, pois produz, mas se ela representa a principal fonte das ROS imediatamente geradas durante a contração. De acordo com a literatura mais recente reunida nos artigos anexados, a resposta é provavelmente negativa, particularmente para o músculo esquelético humano em exercício (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024; POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026).
Entre as fontes extramitocondriais, a NADPH oxidase, especialmente a NOX2, emerge como candidata particularmente importante. A NOX2 está associada à membrana muscular e às estruturas dos túbulos transversos, sendo ativada pela atividade contrátil e pela despolarização. Seu funcionamento envolve transferência de elétrons do NADPH para o oxigênio, produzindo superóxido. Esse superóxido pode ser convertido em H₂O₂ no espaço extracelular/intersticial, sendo posteriormente capaz de alcançar o citosol através de canais de aquaporina. A NOX4, por sua vez, está presente em diferentes compartimentos, incluindo músculo, retículo sarcoplasmático, mitocôndrias e endotélio capilar. A interação entre NOX2, NOX4 e mitocôndrias estabelece uma rede de comunicação redox na qual a ROS produzida por um compartimento pode modificar a atividade de outro, impedindo que a fisiologia redox seja compreendida por uma relação linear entre uma única fonte e um único efeito (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024; POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026).
A fosfolipase A₂ (PLA₂) representa outra fonte potencialmente importante de ROS. Sua ativação durante a contração pode aumentar a atividade oxidante por diferentes mecanismos, incluindo estimulação de NADPH oxidases e influência sobre a produção mitocondrial de ROS. Existem isoformas dependentes e independentes de cálcio, e a elevação do Ca²⁺ intracelular característica da contração pode favorecer a atividade de formas dependentes de cálcio. Esse mecanismo é particularmente relevante porque conecta diretamente o processo contrátil à produção de ROS: o aumento da atividade elétrica e mecânica da fibra altera o metabolismo de cálcio, ativa PLA₂ e, consequentemente, modifica o ambiente redox. A xantina oxidase constitui outra fonte potencial, produzindo superóxido durante a oxidação da hipoxantina. Entretanto, sua relevância parece ser mais bem estabelecida em modelos animais do que no músculo humano, no qual os níveis de xantina oxidase e xantina desidrogenase parecem menores. A literatura, portanto, sustenta um modelo multifatorial de geração de ROS, no qual NOX, PLA₂, xantina oxidase e mitocôndrias contribuem em proporções que provavelmente variam conforme intensidade, duração, tipo de fibra, estado metabólico e momento avaliado durante ou após o exercício (POWERS; NELSON; HUDSON, 2011; POWERS; JACKSON, 2008).
O exercício de endurance é particularmente relevante nesse contexto porque combina elevada demanda energética, grande fluxo de oxigênio, recrutamento repetitivo de fibras musculares e exposição prolongada a alterações metabólicas. Entretanto, o efeito oxidativo não depende simplesmente da quantidade absoluta de oxigênio consumido. Temperatura muscular elevada, alterações da pressão de CO₂, redução do pH, alterações na concentração intracelular de Ca²⁺, distúrbios transitórios de oxigenação e processos associados à reperfusão podem modificar a atividade de múltiplos sistemas produtores de ROS. Em exercícios exaustivos, essas perturbações tornam-se progressivamente maiores, aumentando a probabilidade de que a produção de ROS ultrapasse a capacidade de controle redox e resulte em dano oxidativo. Esse fenômeno ajuda a explicar por que intensidade e duração interagem na determinação da resposta oxidativa, e por que uma sessão prolongada de baixa intensidade e um exercício curto realizado próximo à exaustão podem produzir respostas redox importantes por mecanismos parcialmente diferentes (POWERS; NELSON; HUDSON, 2011; POWERS; RADAK; JI, 2016).
O aspecto mais importante do sistema, entretanto, é que a produção de ROS não constitui apenas uma consequência passiva da contração: ela participa ativamente da sinalização responsável pela adaptação ao treinamento. O H₂O₂ parece ocupar posição estratégica nesse processo porque pode reagir com resíduos de cisteína presentes em proteínas sensíveis à oxidação. Uma possibilidade é a oxidação direta de grupos tiol de proteínas-alvo localizadas próximas ao sítio de produção de H₂O₂. Outra hipótese, particularmente relevante, propõe que as peroxirredoxinas funcionem como “redox relays”, transferindo equivalentes oxidantes do H₂O₂ para proteínas-alvo. Dessa maneira, a especificidade da sinalização pode ser determinada não apenas pela quantidade total de ROS, mas pela localização espacial da produção, pela atividade das peroxirredoxinas e pela organização dos complexos proteicos envolvidos na sinalização (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
Entre as vias redox-sensíveis, as proteínas quinases ativadas por mitógenos, especialmente ERK1/2 e p38 MAPK, constituem importantes componentes da resposta ao endurance. A ativação dessas vias pode modificar fatores de transcrição e coativadores envolvidos na expressão de genes adaptativos. Em particular, a sinalização convergente sobre PGC-1α constitui um dos mecanismos fundamentais pelos quais o exercício promove remodelamento oxidativo e biogênese mitocondrial. Estudos com exercício de endurance demonstraram ativação transitória do gene PGC-1α no músculo humano, enquanto trabalhos experimentais indicam que essa sinalização é sensível ao estado redox. O significado fisiológico é profundo: o exercício aumenta a demanda energética e produz um ambiente metabólico e redox alterado; a célula interpreta essa perturbação como informação e aumenta sua capacidade oxidativa para lidar com futuras exposições ao mesmo estímulo (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
A biogênese mitocondrial, contudo, não deve ser considerada isoladamente da qualidade mitocondrial. O músculo esquelético possui uma rede mitocondrial dinâmica, cuja homeostase depende do equilíbrio entre biogênese, fusão, fissão e mitofagia. Aumentar simplesmente a quantidade de mitocôndrias não garante necessariamente maior capacidade funcional se organelas danificadas não forem removidas. O exercício regular promove adaptações coordenadas desses processos, contribuindo para a manutenção de uma população mitocondrial metabolicamente competente. Essa plasticidade é especialmente importante no endurance, modalidade em que a capacidade de produzir ATP aerobicamente por longos períodos constitui determinante fundamental da performance. A manutenção da qualidade mitocondrial também adquire importância no envelhecimento, quando alterações da função mitocondrial estão associadas à perda de massa e função muscular e ao desenvolvimento de sarcopenia (MEMME et al., 2021; JOSEPH; ADHIHETTY; LEEUWENBURGH, 2016).
A sinalização por Nrf2 representa outro eixo central da resposta antioxidante ao exercício. Em condições basais, Nrf2 permanece associado à proteína KEAP1 no citoplasma, sendo direcionado para ubiquitinação e degradação. O aumento do ambiente oxidante/eletrofílico produzido durante o exercício modifica resíduos de cisteína sensíveis da KEAP1, alterando a interação KEAP1–Nrf2 e permitindo que Nrf2 se acumule e transloque para o núcleo. No núcleo, Nrf2 interage com elementos de resposta antioxidante, os antioxidant response elements (ARE), estimulando a expressão de numerosos genes envolvidos na defesa contra oxidantes e na manutenção da homeostase redox. Dessa maneira, a própria perturbação oxidativa desencadeada pelo exercício ativa uma resposta que aumenta a capacidade antioxidante do músculo, constituindo um exemplo paradigmático de hormese (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
O estudo experimental de Oh et al. fornece evidência particularmente interessante sobre a relevância funcional desse sistema. Em camundongos submetidos a exercício exaustivo, a ativação farmacológica de Nrf2 pelo sulforafano aumentou a capacidade de corrida em animais selvagens, reduziu marcadores de estresse oxidativo e atenuou dano muscular; esses efeitos foram muito menores nos animais deficientes em Nrf2. Embora esses resultados não possam ser diretamente extrapolados para atletas humanos, eles demonstram experimentalmente que a capacidade de ativar a resposta antioxidante pode modificar a tolerância ao exercício exaustivo. Mais importante, o estudo reforça a interpretação de que a capacidade de desempenho não depende apenas da produção de ROS, mas também da capacidade do organismo de controlar a perturbação redox decorrente da contração muscular (OH et al., 2017).
A via NF-κB acrescenta outra dimensão à sinalização redox. Em repouso, o fator de transcrição permanece retido no citoplasma por proteínas inibitórias, particularmente IκB. O aumento das ROS pode favorecer a dissociação/degradação de IκB, permitindo a translocação de componentes de NF-κB, especialmente o heterodímero p50/p65, para o núcleo. Entre seus alvos estão genes relacionados à defesa antioxidante, incluindo SOD1, SOD2, catalase e GPX1. Entretanto, a relação entre ROS e NF-κB é dependente da intensidade do estímulo: concentrações moderadas podem favorecer sinalização, enquanto níveis oxidativos excessivos podem oxidar componentes da própria maquinaria transcricional e prejudicar sua ligação ao DNA. Essa característica ilustra novamente que a mesma molécula sinalizadora pode produzir efeitos distintos dependendo da dose e do contexto celular (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
O exercício de endurance também ativa mecanismos de resposta ao estresse que envolvem HSF1 e HSP72. A elevação de HSP72 aumenta a capacidade celular de lidar com proteínas desnaturadas e outros estressores, contribuindo para proteção muscular e manutenção da função celular. A ativação de HSF1 envolve dissociação de proteínas regulatórias, trimerização, translocação nuclear e ligação ao DNA. As ROS constituem um dos estímulos capazes de participar dessa ativação. Portanto, a resposta ao exercício não se limita à produção de novas mitocôndrias ou enzimas antioxidantes: ela envolve também aumento de proteínas citoprotetoras, formando uma rede integrada de adaptação ao estresse metabólico e físico (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
O sistema antioxidante muscular responde a esse desafio por meio de diferentes camadas de proteção. SOD1, predominantemente citosólica, e SOD2, localizada na matriz mitocondrial, catalisam a conversão de superóxido em H₂O₂. A catalase e as glutationa peroxidases participam posteriormente da remoção do H₂O₂, enquanto os sistemas glutationa e tiorredoxina contribuem para manter proteínas em seu estado redox adequado. O exercício regular, particularmente o treinamento de endurance, aumenta a expressão e/ou atividade de várias dessas enzimas, elevando a capacidade do músculo de lidar com futuras perturbações oxidativas. Essa adaptação significa que treinamento e estresse oxidativo não estabelecem necessariamente uma relação cumulativa de dano; em condições adequadas, exposições repetidas podem aumentar a resistência celular ao próprio estressor (POWERS; GOLDSTEIN; SCHRAGER; JI, 2023).
Essa perspectiva é fundamental para compreender a chamada “paradoxo oxidativo” do exercício. Se o estresse oxidativo crônico está associado a doenças cardiovasculares, câncer, diabetes e envelhecimento, como pode uma intervenção que aumenta agudamente a produção de ROS reduzir justamente o risco dessas doenças? A resposta proposta pelos trabalhos analisados está na diferença entre exposição aguda, controlada e transitória, e estresse oxidativo crônico e desregulado. O exercício produz uma perturbação redox suficientemente importante para ativar mecanismos adaptativos, mas, quando adequadamente dosado, permite que a resposta antioxidante e reparadora restaure a homeostase. Com a repetição do estímulo, ocorre aumento da capacidade antioxidante, melhora da função mitocondrial, maior eficiência metabólica e aumento da resistência a estressores subsequentes. O exercício, portanto, utiliza o estresse como sinal para construir maior resistência ao estresse (POWERS; DEMINICE; OZDEMIR; YOSHIHARA; BOMKAMP; HYATT, 2020; POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026).
A intensidade dessa resposta, entretanto, possui limites. Quando a produção de ROS supera a capacidade de neutralização e reparo, ocorre oxidação de lipídios, proteínas e outras macromoléculas. A peroxidação lipídica pode modificar propriedades das membranas, aumentar sua permeabilidade e comprometer gradientes iônicos. A oxidação de proteínas pode alterar sítios catalíticos de enzimas, modificar proteínas estruturais e aumentar sua susceptibilidade à degradação. No músculo esquelético, proteínas envolvidas no acoplamento excitação–contração são particularmente importantes porque sua oxidação pode modificar a liberação e recaptação de Ca²⁺, a sensibilidade ao Ca²⁺ e a capacidade de gerar força. Dessa forma, o aumento excessivo das ROS pode contribuir diretamente para o desenvolvimento da fadiga periférica (POWERS; JACKSON, 2008; CHENG et al., 2016).
A relação entre ROS e produção de força, contudo, também é bifásica. Níveis fisiológicos de ROS são necessários para a função muscular normal, e sua remoção excessiva pode reduzir a capacidade contrátil. Em contraste, elevação excessiva e sustentada pode oxidar componentes do aparato contrátil e comprometer o manejo de Ca²⁺, reduzindo a força máxima. Entre os possíveis alvos estão proteínas contráteis e reguladoras, canais e proteínas do retículo sarcoplasmático e elementos envolvidos na excitação–contração. O resultado final depende da espécie reativa, da concentração, da duração da exposição e do tipo de fibra. Assim, a ROS não deve ser classificada simplesmente como “boa” ou “ruim”: ela é um componente fisiológico da função muscular cujo excesso ou deficiência pode ser prejudicial (POWERS; JACKSON, 2008; CHENG et al., 2016).
Esse princípio tem implicações diretas para o desempenho de endurance. Em exercício prolongado, o atleta depende da manutenção da função contrátil, do metabolismo oxidativo e da homeostase iônica por períodos extensos. A produção excessiva de ROS pode comprometer progressivamente a capacidade de gerar força, acelerar a fadiga e reduzir a tolerância ao exercício. Ao mesmo tempo, eliminar completamente a sinalização oxidativa seria contraproducente, porque os mesmos sinais participam da biogênese mitocondrial, da expressão de enzimas antioxidantes e da remodelação metabólica. O desempenho, portanto, resulta não da minimização absoluta das ROS, mas da capacidade de manter uma relação favorável entre produção, sinalização, neutralização e reparo (POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026; POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
Essa interpretação também ajuda a compreender por que a suplementação indiscriminada com antioxidantes pode ser contraproducente. Estudos com vitamina C e vitamina E em doses elevadas demonstraram redução de algumas adaptações induzidas pelo treinamento de endurance, incluindo alterações relacionadas à biogênese mitocondrial e à capacidade antioxidante endógena. Entretanto, nem todos os estudos reproduziram esses efeitos, e a divergência parece depender da dose, do antioxidante empregado, da duração do protocolo e das características do treinamento. A conclusão mais apropriada não é que antioxidantes sejam necessariamente prejudiciais, mas que a neutralização excessiva dos sinais redox pode interferir com a hormese induzida pelo exercício. O organismo necessita de ROS suficientes para perceber o estímulo e iniciar a adaptação, enquanto o excesso precisa ser controlado (MERRY; RISTOW, 2016; POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
A mesma lógica permite compreender a importância do treinamento de endurance para o envelhecimento. O envelhecimento está associado à deterioração da função mitocondrial, alterações na homeostase redox, redução da capacidade antioxidante e maior susceptibilidade ao dano oxidativo. Essas alterações podem contribuir para perda de massa e função muscular. O treinamento regular atua em sentido contrário, estimulando biogênese mitocondrial, dinâmica mitocondrial, mitofagia e sistemas antioxidantes. Dessa forma, o exercício pode retardar o ciclo no qual disfunção mitocondrial aumenta a vulnerabilidade oxidativa, o dano oxidativo compromete proteínas e organelas e a deterioração celular favorece perda de massa muscular (JOSEPH; ADHIHETTY; LEEUWENBURGH, 2016; HYATT; POWERS, 2021).
Essa relação torna-se ainda mais evidente quando se observa o fenômeno inverso: a inatividade muscular prolongada. O desuso, a imobilização e diversas doenças crônicas estão associados a aumento do estresse oxidativo/nitrosativo, redução da síntese proteica e aumento da proteólise. A sinalização oxidativa pode inibir Akt e mTORC1, reduzindo a síntese de proteínas, enquanto pode estimular vias proteolíticas envolvendo calpaínas, caspases, proteassoma e autofagia. O fator de transcrição FOXO3, por exemplo, pode aumentar a expressão de genes associados à atrofia, como atrogin-1 e MuRF1, além de genes relacionados à autofagia. Assim, a ausência do estímulo contrátil não representa simplesmente ausência de estresse: ela altera o equilíbrio redox e mitocondrial de maneira que favorece perda de massa e função muscular (POWERS; MORTON; AHN; SMUDER, 2016; HYATT; POWERS, 2021).
O treinamento de endurance, portanto, produz uma espécie de “reprogramação” da fibra muscular. A repetição de estímulos oxidativos moderados promove maior capacidade antioxidante, maior conteúdo mitocondrial, maior capacidade de fosforilação oxidativa e maior resistência a perturbações metabólicas. A mitocôndria torna-se simultaneamente mais abundante, mais funcional e mais integrada a mecanismos de controle de qualidade. O músculo treinado passa a operar com maior margem de segurança metabólica: para uma determinada demanda externa, necessita de menor perturbação relativa da homeostase e possui maior capacidade de restaurá-la. Esse princípio é particularmente relevante para atletas de endurance, nos quais pequenas diferenças na capacidade de preservar a função muscular ao longo de horas podem representar diferenças substanciais no desempenho final (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024; POWERS; GOLDSTEIN; SCHRAGER; JI, 2023).
O ambiente também modifica essa resposta. Exercício realizado em altitude ou hipóxia acrescenta uma perturbação relacionada à disponibilidade de oxigênio, podendo modificar o estado redox, a produção de ROS e as respostas antioxidantes. A resposta à hipóxia não deve ser reduzida simplesmente à ideia de “menos oxigênio gera mais ROS”, pois a relação entre disponibilidade de oxigênio, fluxo eletrônico, perfusão, metabolismo e sinalização redox é complexa. Ainda assim, os trabalhos reunidos no conjunto temático sobre exercício e estresse oxidativo destacam que exercício em altitude constitui uma situação particularmente relevante para estudar a integração entre hipóxia, ROS e adaptação muscular (QUINDRY; DUMKE; SLIVKA; RUBY, 2016).
A dimensão sistêmica do exercício amplia ainda mais essa interpretação. O músculo esquelético não funciona como órgão isolado, mas como órgão endócrino capaz de liberar miocinas e vesículas extracelulares que influenciam outros tecidos. O exercício modifica a comunicação músculo–cérebro, músculo–fígado, músculo–tecido adiposo, músculo–sistema vascular e músculo–sistema imune. Parte dos benefícios crônicos da atividade física sobre doenças cardiovasculares, diabetes, câncer e doenças neurodegenerativas pode ser compreendida nesse contexto de comunicação interorgânica. As adaptações redox do músculo, portanto, não devem ser vistas apenas como mecanismos de preservação da fibra muscular, mas como componentes de uma resposta sistêmica ao exercício (POWERS; GOLDSTEIN; LATEGAN-POTGIETER; SCHRAGER; SKELTON; DEMIREL, 2025).
A comunicação sistêmica também pode envolver vesículas extracelulares liberadas pelo músculo após o exercício, capazes de transportar proteínas, lipídios e moléculas regulatórias para tecidos-alvo. Esse mecanismo acrescenta uma camada adicional à compreensão do exercício como estímulo biológico sistêmico. A contração muscular modifica simultaneamente metabolismo, estado redox, expressão gênica e secretoma muscular, criando sinais que podem participar das adaptações de outros órgãos. Essa perspectiva ajuda a explicar por que os benefícios do exercício ultrapassam amplamente os limites do tecido que está diretamente realizando trabalho mecânico (POWERS; HOGAN, 2021).
O conjunto dos artigos permite, finalmente, reformular a pergunta clássica sobre se o estresse oxidativo induzido pelo exercício é “amigo ou inimigo”. Em condições fisiológicas, a resposta é predominantemente contextual. ROS são inevitavelmente produzidas durante a contração e exercem funções indispensáveis na regulação da força muscular e na sinalização adaptativa. Quando sua produção é transitória e adequadamente controlada, elas participam da ativação de Nrf2, NF-κB, MAPK, HSF1 e PGC-1α, favorecendo aumento da capacidade antioxidante, expressão de proteínas citoprotetoras, biogênese mitocondrial e remodelamento metabólico. Quando a produção é excessiva ou a capacidade de defesa é insuficiente, ocorre oxidação de proteínas e lipídios, perturbação do manejo de Ca²⁺, prejuízo da função contrátil, fadiga e potencial dano celular. O exercício de endurance bem dosado explora precisamente essa fronteira: produz estresse suficiente para gerar sinal adaptativo, mas permite recuperação suficiente para que o organismo consolide a adaptação em vez de acumular dano (POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026; POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024).
Nesse modelo, a mitocôndria ocupa uma posição central, mas não porque seja necessariamente a maior fonte de ROS durante a contração. Sua importância decorre de sua função como centro metabólico, sensor redox, alvo de adaptação e determinante da capacidade oxidativa do músculo. A evidência contemporânea favorece a interpretação de que NOX2 e outros sistemas extramitocondriais constituem importantes fontes imediatas de ROS durante a contração, enquanto as mitocôndrias participam da resposta redox de maneira temporalmente dinâmica, incluindo aumento de ROS durante a recuperação e subsequente ativação de programas de remodelamento. A mitocôndria deve, portanto, ser vista menos como “vilã oxidativa” e mais como componente de uma rede integrada de sinalização e controle de qualidade celular (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024; POWERS; GOMEZ-CABRERA, 2026).
Do ponto de vista aplicado à saúde e ao rendimento, essa síntese conduz a uma conclusão particularmente relevante: o objetivo do treinamento não é minimizar o estresse oxidativo, mas aumentar a capacidade do organismo de produzi-lo, utilizá-lo como sinal e controlá-lo. O treinamento de endurance promove exatamente essa adaptação ao ampliar simultaneamente a capacidade oxidativa mitocondrial, os sistemas antioxidantes, os mecanismos de controle de qualidade mitocondrial e as respostas citoprotetoras. Em consequência, o músculo treinado torna-se mais eficiente em transformar a perturbação fisiológica do exercício em sinal adaptativo. A performance de endurance pode, portanto, ser compreendida não apenas como expressão da capacidade de transportar e utilizar oxigênio, mas também como expressão da capacidade celular de sustentar, controlar e recuperar-se de repetidas perturbações metabólicas e redox. Essa perspectiva integra fisiologia energética, função mitocondrial, sinalização molecular e desempenho em um único princípio: a adaptação ocorre porque o exercício perturba a homeostase de maneira suficientemente intensa para informar ao organismo que ele precisa se tornar mais resistente à próxima perturbação (POWERS; RADAK; JI; JACKSON, 2024; POWERS; GOLDSTEIN; SCHRAGER; JI, 2023).
Referências
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