Entre o Glicogênio e a Hipoglicemia: A Nova Fronteira Metabólica da Suplementação de Carboidratos no Endurance Humano

por | maio 8, 2026

A fisiologia do endurance atravessa um momento singular de revisão conceitual. Durante mais de cinco décadas, consolidou-se quase como dogma a ideia de que o glicogênio muscular representa o principal determinante da fadiga em exercícios prolongados, sustentando a lógica de ingestões progressivamente maiores de carboidratos durante competições de longa duração. Entretanto, revisões recentes lideradas por Timothy Noakes e colaboradores reacenderam um debate profundo acerca da real função metabólica dos carboidratos durante o exercício prolongado, questionando não apenas a centralidade do glicogênio muscular, mas também a necessidade das atuais recomendações extremamente elevadas de ingestão de carboidratos.

O debate ganhou intensidade adicional após as recentes declarações da Maurten atribuindo o recorde mundial da maratona de Sabastian Sawe ao consumo aproximado de 115 g/h de carboidratos durante a prova. Em contraste marcante, o segundo colocado da mesma Maratona de Londres — também abaixo do recorde mundial anterior — teria utilizado aproximadamente 70 g/h segundo relatos associados à Santa Madre. Em paralelo, Noakes sustenta que quantidades muito menores, próximas de 10–30 g/h, já seriam suficientes para preservar a glicemia e impedir a hipoglicemia induzida pelo exercício (exercise-induced hypoglycemia – EIH), mecanismo que ele considera o verdadeiro determinante da fadiga em esforços prolongados.

Essa aparente contradição talvez não represente, na realidade, uma oposição absoluta entre modelos fisiológicos, mas sim a coexistência de diferentes demandas metabólicas impostas por diferentes intensidades relativas de exercício.

A hipótese clássica: glicogênio como limitador da performance

Desde os estudos escandinavos das décadas de 1960 e 1970, especialmente os trabalhos de Bergström e Saltin, consolidou-se o entendimento de que a depleção de glicogênio muscular seria o principal gatilho da fadiga em exercícios prolongados. A partir daí, estabeleceu-se toda uma cultura esportiva baseada em “carbo-loading”, géis energéticos, bebidas esportivas hipertônicas e, mais recentemente, protocolos de ingestão extremamente elevados durante provas.

O racional bioenergético parecia sólido: conforme a intensidade do exercício aumenta, cresce progressivamente a dependência de carboidratos devido à maior velocidade de ressíntese de ATP e à maior eficiência energética do carboidrato por litro de oxigênio consumido. O artigo do projeto de nutrição da UCI reforça precisamente esse ponto ao afirmar que carboidratos tornam-se o combustível predominante em intensidades moderadas a altas, especialmente próximas ao limiar de lactato e acima dele.

Em atletas modernos de elite, especialmente no ciclismo e na maratona de alto rendimento, observa-se um fenômeno particularmente relevante: as provas tornaram-se progressivamente mais intensas desde os momentos iniciais da competição. O documento da UCI descreve que o ciclismo profissional contemporâneo passou a impor maiores demandas energéticas e glicolíticas desde o início das etapas, elevando drasticamente a necessidade de disponibilidade de carboidratos.

Nesse contexto, o aumento recente das estratégias de ingestão para 90, 100, 120 g/h ou mais parece fisiologicamente coerente.

A provocação de Noakes: o cérebro, e não o músculo, determina a fadiga

A revisão publicada no Endocrine Reviews propõe, contudo, uma ruptura conceitual importante. Noakes argumenta que a maioria dos estudos clássicos ignorou um dado central: muitos atletas encerravam o exercício não apenas com baixo glicogênio muscular, mas simultaneamente em estado de hipoglicemia significativa.

Segundo essa interpretação, a fadiga não ocorreria primariamente por “falência energética muscular”, mas como um mecanismo protetor central regulado pelo cérebro para impedir dano hipoglicêmico cerebral. Assim, a principal função da ingestão de carboidratos durante o exercício seria estabilizar a glicemia e preservar o chamado “small glucose pool” hepático-sanguíneo, e não necessariamente sustentar diretamente a oxidação muscular maciça de glicose.

A provocação mais contundente do artigo reside na observação de que múltiplos estudos não demonstram ganhos proporcionais de performance com doses crescentes de carboidratos. Em muitos experimentos, pequenas quantidades — cerca de 15–30 g/h — já produziam benefícios ergogênicos semelhantes aos obtidos com ingestões muito maiores.

Sob essa ótica, o papel do carboidrato seria mais “anticolapso glicêmico” do que propriamente “supercombustível metabólico”.

Intensidade relativa: talvez a variável esquecida

Entretanto, os dados recentes obtidos em atletas de elite sugerem que a realidade fisiológica talvez seja mais complexa do que qualquer modelo isolado consegue explicar.

O estudo de Ravikanti et al. demonstrou que maratonistas de elite correndo próximos ao limiar de lactato apresentaram maiores taxas de oxidação exógena de carboidratos, maior manutenção da oxidação total de carboidratos e menor custo de oxigênio quando consumiram 120 g/h em comparação a 60 e 90 g/h.

O aspecto mais relevante desse estudo talvez não seja simplesmente a maior oxidação exógena, mas o contexto fisiológico em que ela ocorreu: atletas extremamente treinados, correndo muito próximos ao LT2, sustentando intensidades próximas ao ritmo competitivo de maratona internacional.

Aqui emerge uma hipótese conciliatória particularmente interessante.

Quanto mais próximo do VO₂máx um atleta consegue sustentar sua intensidade competitiva — isto é, quanto mais elevado seu LT2 relativo — maior tende a ser sua dependência glicolítica absoluta, mesmo em provas relativamente longas. Em outras palavras, o atleta de elite moderno corre a maratona em uma intensidade metabólica completamente diferente daquela observada em corredores recreacionais ou em ultramaratonistas de baixa intensidade relativa.

Isso altera radicalmente o problema fisiológico.

Um maratonista de elite sub-2h05 frequentemente compete próximo de 85–90% do VO₂máx por mais de duas horas. Nessa zona metabólica, a contribuição relativa dos carboidratos torna-se gigantesca, tanto pela necessidade de alta taxa de ressíntese de ATP quanto pela limitação cinética da oxidação lipídica.

Assim, talvez Noakes esteja parcialmente correto para exercícios prolongados realizados em menor intensidade relativa, enquanto as estratégias modernas de 100–120 g/h sejam particularmente úteis para atletas capazes de sustentar intensidades extraordinariamente elevadas.

Carboidrato em excesso como “doping metabólico”?

Essa discussão inevitavelmente conduz a uma reflexão mais profunda: até que ponto o fornecimento maciço de glicose exógena representa apenas reposição energética fisiológica ou um verdadeiro “doping metabólico” permissivo para sustentar intensidades que o metabolismo humano ancestral dificilmente sustentaria naturalmente?

A questão é delicada, porém biologicamente plausível.

A espécie humana evoluiu como caçadora-coletora altamente eficiente em atividades prolongadas de baixa a moderada intensidade. A hipótese da caça de persistência sugere que humanos eram excepcionalmente adaptados para longos períodos de corrida-caminhada sob calor intenso, explorando termorregulação superior e resistência aeróbica. Entretanto, tais atividades provavelmente ocorriam predominantemente em intensidades relativamente moderadas, muito abaixo das intensidades observadas no endurance competitivo moderno.

Assim, embora o ser humano ancestral pudesse permanecer ativo por muitas horas, dificilmente sustentaria continuamente intensidades próximas ao limiar de lactato elevado típico de atletas modernos.

Nesse sentido, o fornecimento contínuo de grandes quantidades de glicose rapidamente absorvível talvez funcione como uma amplificação artificial da capacidade glicolítica sustentada, permitindo manter por horas intensidades fisiologicamente muito mais agressivas ao metabolismo humano.

Os dados do estudo com 120 g/h em corredores de elite apontam precisamente nessa direção: maior disponibilidade de carboidrato não apenas aumentou a oxidação exógena, mas reduziu o custo de oxigênio da corrida. Isso sugere uma alteração real da eficiência metabólica operacional durante o exercício.

Exercícios muito longos e baixa intensidade relativa: menos carboidrato talvez seja suficiente

Em contrapartida, atletas que competem durante 4, 6, 10 ou mais horas frequentemente realizam o esforço em percentuais relativamente baixos do VO₂máx. Nesses cenários, a contribuição lipídica torna-se substancialmente maior, especialmente em indivíduos metabolicamente adaptados.

A própria revisão de Noakes enfatiza que atletas adaptados a dietas pobres em carboidratos podem atingir taxas extremamente elevadas de oxidação de gordura, inclusive em intensidades superiores a 85% do VO₂máx.

Isso talvez explique por que muitos ultramaratonistas conseguem desempenhos extraordinários com ingestões moderadas de carboidratos, desde que mantenham glicemia adequada e evitem hipoglicemia severa.

Portanto, parece emergir um modelo fisiológico dependente da intensidade relativa:

  • exercícios extremamente intensos e sustentados próximos ao LT2 exigiriam elevadíssima disponibilidade de carboidratos exógenos;
  • exercícios muito prolongados, porém realizados em menor intensidade relativa, dependeriam proporcionalmente mais da oxidação lipídica e talvez necessitassem apenas de carboidratos suficientes para estabilizar a glicemia e preservar função central.

Isso não invalida Noakes. Tampouco invalida os protocolos modernos de alta ingestão.

Provavelmente ambos descrevem realidades metabólicas distintas.

A fronteira fisiológica contemporânea

A nutrição esportiva do endurance parece caminhar para um paradigma mais individualizado e dependente da intensidade relativa do esforço, da capacidade de oxidação lipídica, da tolerância gastrointestinal, da adaptação metabólica crônica e do perfil fisiológico do atleta.

A era das recomendações universais provavelmente está chegando ao fim.

Os dados contemporâneos sugerem que o consumo de 120 g/h pode efetivamente oferecer vantagem metabólica para atletas extremamente intensos, metabolicamente eficientes e gastrointestinalmente treinados. Porém, também sugerem que muitos atletas recreacionais e ultradistantes provavelmente não necessitam — e talvez sequer se beneficiem — de ingestões tão agressivas.

A verdadeira questão talvez não seja “quanto carboidrato o ser humano consegue absorver”, mas sim “quanto carboidrato determinada intensidade relativa realmente exige”.

E essa pergunta redefine completamente o debate metabólico do endurance moderno.

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Crédito da imagem destacada: Leonhard Lenz, CC0, via Wikimedia Commons