Da Homeostase à Produção da Vida: uma perspectiva epistemológica sobre saúde, medicalização e biopolítica

por | ago 8, 2026

Introdução

Poucos conceitos possuem tamanha relevância científica, política e social quanto o conceito de saúde. Paradoxalmente, poucos apresentam definição tão complexa e historicamente mutável. Embora o desenvolvimento das ciências biomédicas tenha proporcionado extraordinários avanços na compreensão dos mecanismos fisiológicos e patológicos do organismo humano, a própria noção de saúde permanece objeto de intenso debate epistemológico. A dificuldade decorre do fato de que saúde não constitui apenas um estado biológico observável, mas um fenômeno multidimensional cuja compreensão exige integrar conhecimentos provenientes da biologia, da medicina, da epidemiologia, das ciências sociais, da filosofia, da antropologia e da economia política. Reduzi-la ao funcionamento adequado dos sistemas orgânicos significa ignorar que o corpo humano jamais existe isolado de sua história, de sua cultura, das relações sociais que estabelece e das condições materiais que tornam possível sua existência (ALMEIDA FILHO, 2011; CANGUILHEM, 2009).

Durante aproximadamente dois séculos, entretanto, a medicina ocidental desenvolveu-se sob uma perspectiva predominantemente biologicista. A extraordinária consolidação da anatomia patológica, da fisiologia experimental, da microbiologia e da farmacologia fortaleceu a ideia de que compreender a doença equivaleria, essencialmente, a compreender os mecanismos biológicos responsáveis pela alteração do funcionamento normal do organismo. Essa abordagem produziu conquistas incontestáveis. A identificação dos agentes infecciosos, o desenvolvimento das vacinas, dos antibióticos, da anestesia, das técnicas cirúrgicas e dos métodos laboratoriais transformaram profundamente a história da humanidade, reduzindo drasticamente a mortalidade por inúmeras doenças e ampliando a expectativa de vida em praticamente todas as populações (PORTER, 1997).

O êxito desse paradigma consolidou uma compreensão segundo a qual a saúde passou a ser definida, predominantemente, como ausência de doença. Embora essa definição jamais tenha sido formalmente universalizada pela medicina, ela permeou grande parte da prática clínica, da formação profissional e da percepção social sobre o que significa estar saudável. O organismo passou a ser compreendido como uma máquina biológica cuja integridade dependeria da manutenção de parâmetros fisiológicos considerados normais. Sempre que um desses parâmetros se afastasse dos limites previamente estabelecidos, estaria configurada uma condição patológica passível de diagnóstico e intervenção terapêutica.

Essa concepção, entretanto, revelou-se progressivamente insuficiente à medida que novas transformações demográficas, epidemiológicas e sociais modificavam o perfil de adoecimento das populações. O declínio das doenças infecciosas e o crescimento das doenças crônicas não transmissíveis evidenciaram que fatores como renda, escolaridade, condições de trabalho, urbanização, alimentação, violência, acesso aos serviços de saúde, desigualdade social e organização das cidades influenciavam profundamente a distribuição das enfermidades. Indivíduos portadores da mesma doença apresentavam prognósticos completamente distintos dependendo das condições sociais em que viviam, enquanto populações submetidas a contextos semelhantes reproduziam padrões epidemiológicos relativamente previsíveis, independentemente de características biológicas individuais. Tornava-se cada vez mais evidente que compreender o organismo não bastava para compreender a saúde.

Foi nesse cenário que emergiu o campo da Saúde Coletiva, propondo uma importante inflexão epistemológica. Em vez de concentrar sua atenção exclusivamente na etiologia das doenças, esse novo campo passou a questionar quais processos produzem saúde nas populações e de que maneira fatores econômicos, culturais, ambientais e políticos condicionam as possibilidades de viver de forma saudável. Essa mudança desloca o foco analítico do corpo isolado para o conjunto das relações que tornam possível sua existência, compreendendo que processos biológicos são continuamente modulados pelas circunstâncias sociais nas quais os indivíduos nascem, crescem, trabalham, envelhecem e morrem (AROUCA, 2003; BREILH, 2006).

Entre os autores que mais profundamente contribuíram para essa transformação destaca-se Naomar de Almeida Filho. Em sua crítica epistemológica à medicina e à epidemiologia contemporâneas, o autor observa que a ciência desenvolveu enorme capacidade para medir mortalidade, morbidade, incidência, prevalência e fatores de risco, mas permanece encontrando dificuldades para definir positivamente aquilo que constitui a saúde. Em seu conhecido ensaio O conceito de saúde: ponto-cego da epidemiologia, Naomar argumenta que a saúde foi historicamente tratada como categoria residual, definida apenas pela ausência de doença. Em consequência, todo o aparato conceitual e metodológico da epidemiologia concentrou-se na produção de conhecimentos sobre o adoecimento, permanecendo relativamente silencioso diante da questão fundamental acerca da produção da vida (ALMEIDA FILHO, 2000).

Essa crítica representa uma ruptura importante com a tradição biomédica. Para Naomar, saúde não constitui um estado permanente de equilíbrio nem um ideal abstrato de completo bem-estar, como sugerido pela clássica definição da Organização Mundial da Saúde de 1948. Tampouco corresponde simplesmente ao funcionamento adequado dos sistemas fisiológicos. A saúde deve ser compreendida como um processo histórico, dinâmico e multidimensional de produção da vida, continuamente construído pela interação entre dimensões biológicas, psicológicas, sociais, culturais, econômicas e políticas. Trata-se menos de um atributo do organismo e mais de uma capacidade de indivíduos e coletividades desenvolverem projetos de vida, estabelecerem vínculos, exercerem autonomia e responderem criativamente às transformações inerentes à existência humana (ALMEIDA FILHO, 2011).

Essa perspectiva aproxima-se, ainda que por caminhos distintos, da concepção formulada décadas antes por Georges Canguilhem. Ao analisar criticamente a noção de normalidade biológica, Canguilhem demonstrou que saúde não pode ser reduzida à conformidade com médias estatísticas nem à manutenção rígida de parâmetros fisiológicos. O organismo vivo caracteriza-se justamente por sua capacidade de criar novas normas diante das mudanças impostas pelo ambiente. Um indivíduo saudável não é aquele cujo funcionamento permanece invariavelmente constante, mas aquele capaz de adaptar-se às circunstâncias, estabelecer novos equilíbrios e preservar sua potência de agir mesmo diante das inevitáveis adversidades da vida (CANGUILHEM, 2009).

Entretanto, apesar dessas importantes contribuições teóricas, observa-se que a medicina contemporânea continua fortemente influenciada por uma lógica centrada na identificação precoce de riscos. Nas últimas décadas, o extraordinário desenvolvimento da epidemiologia clínica, da genética, da biologia molecular e das tecnologias diagnósticas ampliou significativamente a capacidade de detectar alterações fisiológicas cada vez mais precoces. Paralelamente, a incorporação crescente de grandes bancos de dados, algoritmos preditivos, inteligência artificial e dispositivos digitais de monitoramento permitiu calcular probabilidades individuais de adoecimento com precisão inédita. O objeto central da prática médica deslocou-se progressivamente do tratamento da doença instalada para a administração permanente do risco futuro.

Essa transformação produziu benefícios importantes para a prevenção de diversas enfermidades, mas também inaugurou novos desafios epistemológicos, éticos e sociais. A expansão das categorias diagnósticas passou a incorporar indivíduos assintomáticos classificados como portadores de “pré-doenças”, fatores de risco ou predisposições genéticas, ampliando significativamente o contingente populacional submetido à vigilância biomédica contínua. Em muitos casos, pessoas que jamais desenvolveriam determinada enfermidade passam décadas convivendo com a identidade de pacientes em potencial, reorganizando sua relação com o próprio corpo a partir de probabilidades estatísticas e projeções futuras (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

Nesse contexto, torna-se particularmente relevante a contribuição de autores como Michel Foucault, Ivan Illich, David Castiel e Iona Heath. Embora provenientes de tradições intelectuais distintas, todos compartilham a preocupação com os processos pelos quais a medicina ultrapassa progressivamente os limites do tratamento das doenças para participar da produção de normas sociais, da administração dos riscos, da medicalização da vida cotidiana e da construção de novas formas de subjetividade. Em conjunto, essas contribuições permitem compreender que a expansão do conhecimento biomédico não produz apenas benefícios clínicos; ela também redefine continuamente o significado cultural da saúde, da doença, da normalidade e da própria condição humana.

Este capítulo parte precisamente dessa problemática. Busca demonstrar que a saúde contemporânea não pode ser compreendida exclusivamente pela fisiologia da homeostase nem pela epidemiologia dos fatores de risco. Compreender o processo saúde-doença exige reconhecer que organismos biológicos vivem inseridos em sistemas econômicos, relações de poder, estruturas culturais e contextos históricos que condicionam profundamente suas possibilidades de existir. Sob essa perspectiva, a saúde deixa de representar simplesmente a ausência de doença para constituir uma expressão da capacidade humana de produzir vida, autonomia, participação social e sentido existencial em meio às inevitáveis limitações impostas pela vulnerabilidade e pela finitude que caracterizam a própria condição humana.

O paradigma biomédico e a construção da normalidade fisiológica

A medicina contemporânea constitui uma das maiores realizações intelectuais da civilização ocidental. Poucas áreas do conhecimento produziram impacto tão profundo sobre a expectativa de vida, a redução da mortalidade e o controle das doenças quanto as ciências biomédicas. A identificação dos agentes etiológicos das doenças infecciosas, o desenvolvimento da anestesia, dos antibióticos, das vacinas, das técnicas cirúrgicas, da terapia intensiva, dos métodos de imagem e da farmacologia moderna transformaram radicalmente o prognóstico de enfermidades que, até poucas décadas atrás, inevitavelmente conduziam à incapacidade ou à morte. A própria transição epidemiológica observada ao longo do século XX, caracterizada pela redução progressiva da mortalidade por doenças infecciosas e pelo aumento da expectativa de vida, constitui evidência inequívoca do extraordinário êxito alcançado pela medicina científica (PORTER, 1997).

Esse sucesso, entretanto, não ocorreu de maneira espontânea. Ele resultou da consolidação de um modelo específico de produção do conhecimento, fundamentado na observação objetiva dos fenômenos biológicos, na experimentação controlada e na busca por relações causais entre alterações estruturais do organismo e manifestações clínicas. O corpo humano passou progressivamente a ser concebido como um sistema biológico organizado segundo princípios universais, passível de investigação por meio dos mesmos métodos que revolucionavam as ciências naturais durante os séculos XVIII e XIX. Sob essa perspectiva, compreender a doença significava identificar quais mecanismos fisiológicos haviam sido alterados e desenvolver intervenções capazes de restaurar seu funcionamento normal.

Entre os principais responsáveis por essa mudança epistemológica encontra-se Claude Bernard. Considerado o fundador da fisiologia experimental moderna, Bernard rompeu definitivamente com concepções vitalistas que atribuíam o funcionamento do organismo a forças imateriais ou princípios metafísicos. Em sua obra clássica Introduction à l’étude de la médecine expérimentale, publicada em 1865, propôs que os fenômenos biológicos deveriam ser investigados segundo os mesmos critérios metodológicos aplicados às demais ciências experimentais, fundamentando a medicina em observação sistemática, experimentação e demonstração causal (BERNARD, 1865).

A principal contribuição de Bernard para a biologia foi a formulação do conceito de meio interno (milieu intérieur). Até então, imaginava-se que o organismo respondia diretamente às variações do ambiente externo. Bernard demonstrou que, na realidade, a vida depende da manutenção de relativa estabilidade das condições físico-químicas internas que circundam as células. A temperatura corporal, o pH sanguíneo, a concentração de glicose, os níveis de eletrólitos, a pressão osmótica e inúmeros outros parâmetros permanecem dentro de limites relativamente estreitos apesar das intensas variações ambientais. A constância desse meio interno constitui condição indispensável para que os processos celulares ocorram de maneira adequada e, consequentemente, para que a vida seja possível (BERNARD, 1865).

A partir dessa formulação, o organismo passou a ser compreendido como um sistema extraordinariamente complexo de autorregulação. A saúde deixou de ser interpretada como manifestação de uma força vital abstrata e passou a corresponder à preservação da estabilidade funcional dos sistemas biológicos. Embora Bernard jamais tenha reduzido a vida a um conjunto de números laboratoriais, sua teoria estabeleceu os fundamentos sobre os quais a fisiologia moderna desenvolveria uma compreensão essencialmente regulatória do organismo.

Esse processo foi aprofundado nas primeiras décadas do século XX por Walter Cannon, responsável por introduzir o conceito de homeostase. Cannon observou que a estabilidade descrita por Bernard não representava uma condição estática, mas um processo dinâmico de adaptação permanente. O organismo modifica continuamente sua atividade fisiológica para responder às demandas impostas pelo ambiente. Durante o exercício físico, por exemplo, ocorre aumento da frequência cardíaca, da ventilação pulmonar, do débito cardíaco, da temperatura corporal e do metabolismo energético. Após o término da atividade, esses parâmetros retornam gradualmente aos níveis basais. A estabilidade fisiológica, portanto, não corresponde à ausência de mudanças, mas à capacidade de produzir mudanças coordenadas capazes de preservar a integridade do organismo (CANNON, 1932).

A ideia de homeostase tornou-se um dos pilares conceituais da fisiologia moderna e influenciou profundamente praticamente todas as especialidades médicas. Hipertensão arterial passou a representar alteração do controle pressórico; diabetes mellitus, uma disfunção da homeostase glicêmica; insuficiência cardíaca, comprometimento da homeostase circulatória; insuficiência respiratória, incapacidade de manter a homeostase gasosa. Em todos esses exemplos, a doença passou a ser definida como perda da capacidade regulatória dos sistemas fisiológicos.

Essa perspectiva produziu enorme avanço científico porque permitiu transformar processos biológicos em variáveis objetivamente mensuráveis. Pressão arterial, glicemia, colesterol plasmático, densidade mineral óssea, creatinina sérica, saturação periférica de oxigênio e centenas de outros indicadores passaram a expressar quantitativamente o funcionamento do organismo. A medicina tornou-se progressivamente uma ciência da mensuração. Diagnosticar significava identificar desvios em relação a valores considerados fisiologicamente normais, enquanto tratar correspondia a restaurar tais parâmetros aos limites previamente estabelecidos.

Entretanto, exatamente nesse ponto emerge uma questão epistemológica que durante muito tempo permaneceu relativamente invisível: quem estabelece os limites da normalidade?

À primeira vista, essa pergunta parece possuir resposta simples. Os valores de referência utilizados na prática clínica derivam de estudos populacionais que descrevem a distribuição estatística de diferentes parâmetros fisiológicos em indivíduos considerados saudáveis. Todavia, como observou Georges Canguilhem, normalidade biológica não pode ser confundida com normalidade estatística. Um valor frequente em determinada população não é necessariamente saudável, assim como uma condição rara não é obrigatoriamente patológica (CANGUILHEM, 2009).

A crítica formulada por Canguilhem representa um dos momentos mais importantes da filosofia da medicina contemporânea. Em O Normal e o Patológico, o autor demonstra que o conceito de normalidade não constitui uma propriedade objetiva da natureza, mas uma construção simultaneamente biológica e valorativa. O organismo vivo distingue-se precisamente por sua capacidade de criar novas normas diante das mudanças ambientais. A vida não consiste na manutenção rígida de um equilíbrio fixo, mas na permanente produção de novos equilíbrios capazes de preservar a existência.

Essa concepção modifica profundamente a própria definição de saúde. Um indivíduo submetido à amputação de um membro inferior, por exemplo, não recupera sua condição fisiológica anterior. Contudo, ao adaptar-se ao uso de uma prótese, reorganizar sua marcha, reconstruir seu equilíbrio postural e retomar suas atividades cotidianas, estabelece uma nova condição normativa. Sua saúde não decorre da restauração do estado anterior, mas da capacidade de criar outra forma de funcionamento compatível com sua existência. Da mesma maneira, um atleta de endurance apresenta frequência cardíaca de repouso inferior a quarenta batimentos por minuto, hipertrofia fisiológica do ventrículo esquerdo e elevado volume sistólico. Sob determinados critérios estatísticos, alguns desses parâmetros poderiam ser interpretados como anormais. Entretanto, representam precisamente adaptações fisiológicas que ampliam sua capacidade funcional. A normalidade biológica, portanto, não pode ser reduzida à conformidade com médias populacionais.

Essa distinção possui implicações que ultrapassam a fisiologia. Se saúde corresponde à capacidade adaptativa do organismo, torna-se impossível defini-la exclusivamente pela presença ou ausência de alterações laboratoriais. Dois indivíduos com o mesmo diagnóstico podem apresentar capacidades completamente distintas de reorganizar suas vidas diante da doença. Um idoso hipertenso, diabético e portador de osteoartrite pode manter autonomia funcional, vínculos sociais, participação comunitária e elevado grau de satisfação existencial, enquanto um jovem sem qualquer diagnóstico clínico pode experimentar intenso sofrimento psíquico, isolamento social, privação de sono e ausência completa de perspectivas de vida. Sob a ótica estritamente biomédica, o primeiro seria considerado mais doente que o segundo; sob uma perspectiva ampliada da saúde, essa conclusão torna-se muito menos evidente.

Apesar da importância das contribuições de Canguilhem, a prática clínica contemporânea permaneceu fortemente influenciada pelo paradigma quantitativo inaugurado por Bernard e Cannon. O extraordinário desenvolvimento da epidemiologia, da bioestatística e dos métodos laboratoriais fortaleceu ainda mais a tendência de compreender saúde como conformidade a parâmetros fisiológicos previamente definidos. Progressivamente, pequenas variações laboratoriais passaram a adquirir crescente significado clínico, deslocando a atenção médica da doença instalada para a possibilidade futura de adoecimento.

Esse movimento representa uma consequência direta do sucesso da própria medicina. Quanto maior a capacidade de identificar alterações precoces, maior a tendência de antecipar diagnósticos, ampliar categorias clínicas e incorporar indivíduos assintomáticos ao universo da prática médica. O resultado foi a transformação gradual da medicina em uma ciência cada vez menos dedicada exclusivamente ao tratamento das doenças e cada vez mais orientada para a gestão permanente dos riscos biológicos.

Será precisamente essa transformação que permitirá compreender, na seção seguinte, como a noção de normalidade fisiológica ultrapassou os limites da biologia e passou a constituir um poderoso instrumento de organização das sociedades modernas, inaugurando aquilo que Michel Foucault denominou biopoder e biopolítica. É nesse momento que a história da fisiologia encontra a história das instituições sociais e que a medicina deixa de ser apenas uma ciência do corpo para tornar-se, simultaneamente, uma tecnologia de governo da vida.

Biopoder, medicalização e a transformação da medicina em tecnologia de governo da vida

A compreensão contemporânea da saúde não pode limitar-se à análise dos mecanismos fisiológicos responsáveis pela manutenção da homeostase. Embora a estabilidade do meio interno permaneça condição indispensável para a sobrevivência do organismo, a experiência histórica demonstra que os significados atribuídos à saúde, à doença e à normalidade extrapolam amplamente os limites da biologia. O corpo humano constitui simultaneamente um organismo fisiológico, um sujeito social e um objeto político. Em consequência, toda transformação ocorrida na maneira de compreender o funcionamento biológico repercute inevitavelmente sobre as formas pelas quais a sociedade organiza o trabalho, a família, a educação, a sexualidade, o envelhecimento e o próprio exercício da cidadania. É precisamente nesse ponto que a obra de Michel Foucault representa uma das mais importantes contribuições para a compreensão da medicina contemporânea.

Ao investigar a constituição histórica das instituições modernas, Foucault rompe com a interpretação tradicional segundo a qual a medicina teria evoluído exclusivamente como resposta ao progresso científico. Em vez de compreender o desenvolvimento da clínica apenas como consequência do avanço do conhecimento biológico, o autor demonstra que a medicina moderna emerge simultaneamente como prática científica e como tecnologia política destinada à administração da vida. Em outras palavras, o crescimento do conhecimento biomédico ocorreu paralelamente à construção de novos mecanismos de organização social, nos quais o corpo passou a ocupar posição estratégica para o funcionamento do Estado moderno (FOUCAULT, 1979; FOUCAULT, 1988).

Até o século XVII, o exercício do poder encontrava sua expressão máxima na autoridade do soberano sobre a vida e a morte dos indivíduos. O poder manifestava-se sobretudo pela capacidade de punir, excluir ou eliminar aqueles que ameaçassem a ordem estabelecida. A partir do século XVIII, entretanto, ocorre profunda transformação. A consolidação dos Estados nacionais, a expansão da economia capitalista, a Revolução Industrial e o crescimento acelerado das cidades modificaram radicalmente as necessidades políticas e econômicas das sociedades ocidentais. Já não bastava exercer poder sobre territórios; tornava-se necessário administrar populações. A riqueza das nações passou a depender da existência de trabalhadores suficientemente saudáveis para produzir, de soldados capazes de defender o Estado, de mulheres aptas à reprodução e de crianças que sobrevivessem até a idade adulta. A vida biológica converteu-se, assim, em objeto de interesse político.

É nesse contexto que Foucault formula o conceito de biopoder, entendido como o conjunto de estratégias pelas quais o Estado e suas instituições passam a intervir diretamente sobre os processos biológicos das populações. Natalidade, mortalidade, fecundidade, expectativa de vida, epidemias, nutrição, higiene, vacinação e condições sanitárias deixam de constituir apenas fenômenos naturais e passam a integrar o campo das políticas públicas. A medicina deixa de ser exclusivamente um saber voltado ao tratamento dos indivíduos enfermos para tornar-se um instrumento de gestão coletiva da vida. Surge aquilo que o autor denomina biopolítica, isto é, a administração da vida das populações mediante a produção de conhecimentos científicos capazes de orientar intervenções sobre o corpo social (FOUCAULT, 1988).

Essa transformação não ocorreu por meio da substituição da coerção pela ciência, mas pela articulação entre ambas. A autoridade da medicina passou a fundamentar-se precisamente na legitimidade conferida pelo discurso científico. Diferentemente das formas tradicionais de poder, que se impunham pela força, o poder biomédico apresenta-se como racional, neutro e orientado pelo interesse coletivo. Sua eficácia decorre justamente dessa característica. As normas deixam de ser percebidas como imposições arbitrárias e passam a ser aceitas como consequências naturais do conhecimento científico. O que antes constituía decisão política transforma-se em recomendação técnica.

Essa distinção é fundamental para evitar uma leitura simplificada da obra foucaultiana. Foucault não afirma que a medicina tenha sido criada para controlar populações, tampouco nega os benefícios produzidos pelas intervenções sanitárias. Seu argumento é mais sofisticado. O autor demonstra que o mesmo conhecimento responsável por reduzir epidemias, ampliar a expectativa de vida e diminuir a mortalidade também produziu novas formas de governar os corpos e regular os comportamentos. O saber médico passou a definir quais hábitos alimentares seriam considerados adequados, quais padrões corporais representariam normalidade, quais condutas sexuais seriam aceitáveis, quais formas de maternidade deveriam ser estimuladas e quais modos de vida passariam a ser classificados como saudáveis ou patológicos.

Esse processo pode ser compreendido com maior clareza quando se observa que a medicina moderna expandiu progressivamente seu campo de atuação para muito além das doenças. A gravidez, o parto, a infância, a menopausa, o envelhecimento, o sofrimento psíquico, o luto, a alimentação, a sexualidade e até mesmo aspectos cotidianos da existência passaram a ser progressivamente incorporados ao universo das práticas médicas. Não se trata de afirmar que essa incorporação tenha sido necessariamente inadequada; inúmeras dessas intervenções contribuíram para reduzir sofrimento e mortalidade. O ponto central reside em reconhecer que, ao ampliar continuamente suas fronteiras, a medicina passou igualmente a ampliar sua autoridade sobre dimensões da vida que anteriormente pertenciam predominantemente às esferas familiar, comunitária ou cultural.

A compreensão da medicina como prática social encontrou importante desenvolvimento no Brasil com os trabalhos de Maria Cecília Ferro Donnangelo. Em Medicina e sociedade, a autora rompe com a visão tradicional da profissão médica como atividade exclusivamente técnico-científica e demonstra que sua organização depende das formas historicamente construídas de produção dos serviços de saúde, das políticas estatais e das relações econômicas que estruturam o mercado de trabalho médico. Ao evidenciar que a prática médica é inseparável das transformações sociais, Donnangelo inaugura uma perspectiva sociológica crítica que influenciaria decisivamente a constituição da Saúde Coletiva brasileira, aproximando a análise da medicina das discussões sobre Estado, trabalho e políticas públicas. Essa interpretação fornece importante fundamento para compreender como a autoridade médica ultrapassa os limites da clínica, participando também da organização social da saúde e da definição dos próprios objetos das práticas sanitárias.

Essa expansão da racionalidade biomédica manifesta-se de maneira particularmente evidente na história brasileira. Em Ordem Médica e Norma Familiar, Jurandir Freire Costa demonstra que a medicina higienista do século XIX desempenhou papel decisivo na reorganização da família burguesa durante o processo de construção do Estado nacional. Longe de restringir-se ao tratamento das doenças, o discurso médico passou a estabelecer normas relativas à educação dos filhos, à sexualidade, à maternidade, à higiene doméstica, ao casamento e à moralidade familiar. A autoridade científica conferiu legitimidade a um conjunto de valores sociais que interessavam ao projeto político de modernização do país, transformando determinadas formas de organização familiar em modelos supostamente universais de normalidade (COSTA, 2004).

O mérito da análise de Jurandir consiste precisamente em demonstrar que a medicalização da família não decorreu de uma conspiração organizada entre médicos e governantes, mas de um processo histórico no qual ciência, política e cultura tornaram-se progressivamente indissociáveis. A medicina oferecia respostas técnicas para problemas cuja origem frequentemente era social. Questões relacionadas à pobreza, à criminalidade, à prostituição, à infância abandonada e às transformações da família passaram a ser interpretadas sob a ótica da higiene e da normalização dos comportamentos. O discurso científico fornecia legitimidade às políticas públicas, enquanto estas ampliavam o espaço de atuação da medicina.

A história da saúde pública brasileira oferece exemplos particularmente expressivos dessa dinâmica. A Revolta da Vacina, ocorrida em 1904, costuma ser apresentada como manifestação de ignorância popular diante do progresso científico. Entretanto, quando analisada no contexto das reformas urbanas implementadas no Rio de Janeiro durante a gestão de Pereira Passos, essa interpretação revela-se insuficiente. A obrigatoriedade da vacinação contra a varíola foi implementada simultaneamente a um amplo processo de remodelação urbana que resultou na demolição de cortiços e na expulsão de milhares de famílias pobres das áreas centrais da cidade. A população atingida por essas medidas vivenciava profundas condições de vulnerabilidade social, caracterizadas pela ausência de moradia adequada, precariedade do trabalho e extrema insegurança econômica. Nesse contexto, a resistência à vacinação não expressava necessariamente oposição ao conhecimento científico, mas também reação às formas autoritárias pelas quais políticas sanitárias eram implementadas sobre grupos historicamente marginalizados (CHALHOUB, 1996; SEVCENKO, 1984).

Fenômeno semelhante pode ser observado após a abolição da escravidão e o retorno de ex-combatentes da Guerra do Paraguai. Sem acesso à terra, trabalho formal ou políticas públicas de integração social, milhares de ex-escravizados e soldados passaram a ocupar morros e regiões periféricas das grandes cidades, formando os primeiros núcleos das futuras favelas cariocas. As precárias condições de saneamento, habitação e abastecimento de água favoreceram a disseminação de diversas doenças infecciosas. Entretanto, parte significativa da produção higienista da época atribuía a elevada incidência dessas enfermidades às características morais ou raciais das próprias populações pobres, deslocando o foco analítico das condições estruturais que produziam o adoecimento para os indivíduos que dele padeciam. A doença era localizada nos corpos vulneráveis; a pobreza permanecia invisível.

Esse mecanismo permanece surpreendentemente atual. Apesar dos avanços tecnológicos da medicina, grande parte das doenças crônicas contemporâneas continua sendo explicada predominantemente por fatores comportamentais individuais. Alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, obesidade e consumo excessivo de álcool figuram entre os principais fatores de risco para doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2 e diversos tipos de câncer. Trata-se de evidências cientificamente robustas e amplamente documentadas. Todavia, quando essas recomendações são apresentadas sem considerar as condições concretas de vida da população, produzem um fenômeno amplamente discutido pela Saúde Coletiva: a responsabilização individual pelo adoecimento.

Uma trabalhadora que inicia sua jornada às cinco horas da manhã, enfrenta longos deslocamentos em transporte público, cumpre extensas jornadas laborais e retorna ao ambiente doméstico para assumir responsabilidades relacionadas ao cuidado dos filhos, dos familiares e da organização da casa encontra-se submetida a condições objetivas profundamente distintas daquelas vivenciadas por indivíduos que dispõem de tempo, segurança, infraestrutura urbana e recursos financeiros para incorporar hábitos considerados saudáveis. Nesse cenário, atribuir exclusivamente à falta de disciplina individual o desenvolvimento de obesidade, hipertensão arterial ou diabetes significa ignorar que os comportamentos relacionados à saúde são produzidos dentro de contextos sociais específicos. O organismo responde biologicamente às condições de existência; não existe fisiologia dissociada da história.

É justamente essa articulação entre corpo biológico, organização social e relações de poder que prepara o terreno para uma das críticas mais contundentes dirigidas à medicina contemporânea. Se a primeira metade do século XX foi marcada pela extraordinária capacidade de tratar doenças, as últimas décadas assistiram ao surgimento de um novo fenômeno: a expansão progressiva da medicina para indivíduos que ainda não adoeceram. A saúde deixa de ser definida apenas pela ausência de enfermidades e passa a ser administrada por meio da identificação contínua de riscos futuros. É nesse ponto que as reflexões de David Castiel, Iona Heath e Ivan Illich assumem papel central, ao demonstrarem que o extraordinário sucesso da medicina moderna produziu também uma sociedade profundamente marcada pela vigilância permanente do corpo, pela expansão das categorias diagnósticas e pela crescente medicalização da própria vida.

A indústria do risco e a medicalização da vida: entre a prevenção e a promessa da imortalidade

O extraordinário desenvolvimento da epidemiologia ao longo da segunda metade do século XX modificou profundamente a forma pela qual a medicina compreende o adoecimento. Até então, a prática clínica organizava-se predominantemente em torno da relação entre sintomas, diagnóstico e tratamento. O paciente procurava assistência porque experimentava sofrimento, limitação funcional ou alterações perceptíveis em seu estado de saúde, cabendo ao médico identificar a enfermidade e propor intervenções capazes de restaurar o funcionamento do organismo. A expansão dos estudos epidemiológicos de coorte, entretanto, inaugurou uma nova racionalidade. Progressivamente, o interesse da medicina deslocou-se da doença manifesta para a identificação de fatores capazes de predizer doenças futuras, permitindo que indivíduos assintomáticos passassem a ser objeto permanente de monitoramento e intervenção (ROSE, 1992).

Essa mudança produziu benefícios inquestionáveis para a saúde pública. A identificação da associação entre tabagismo e câncer de pulmão, entre hipertensão arterial e acidente vascular cerebral, entre hipercolesterolemia e doença coronariana ou entre sedentarismo e diabetes mellitus transformou profundamente as estratégias preventivas e contribuiu para reduzir significativamente a mortalidade por diversas enfermidades cardiovasculares e metabólicas. O desenvolvimento da epidemiologia dos fatores de risco representa, sem dúvida, uma das maiores conquistas da medicina contemporânea (ROSE, 1992).

Entretanto, o extraordinário sucesso desse modelo produziu um fenômeno paradoxal. À medida que novos fatores de risco eram identificados, ampliava-se continuamente o contingente de indivíduos considerados candidatos potenciais ao adoecimento. A medicina deixava gradualmente de cuidar apenas dos doentes para dedicar parcela crescente de seus esforços à administração de probabilidades futuras. O risco, originalmente concebido como categoria estatística destinada à compreensão do comportamento das populações, passava a ser incorporado como atributo individual. Em consequência, milhões de pessoas passaram a viver não exatamente como saudáveis, mas como portadoras de riscos que deveriam ser permanentemente monitorados e controlados.

David Castiel observa que essa transformação alterou profundamente a maneira pela qual as sociedades contemporâneas percebem a própria saúde. Em Correndo o risco, o autor demonstra que o conceito epidemiológico de risco, originalmente desenvolvido para estimar probabilidades populacionais, foi progressivamente deslocado para o cotidiano das pessoas, produzindo uma cultura na qual praticamente todos os indivíduos passam a ser percebidos como potenciais pacientes. O risco deixa de representar uma abstração estatística e transforma-se em experiência subjetiva, reorganizando a relação que cada pessoa estabelece com seu próprio corpo (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

Essa mudança é particularmente evidente quando se observa a expansão das categorias diagnósticas nas últimas décadas. Condições anteriormente compreendidas como variações fisiológicas passaram a ser progressivamente classificadas como estados pré-patológicos. Surgem expressões como pré-diabetes, pré-hipertensão, osteopenia, síndrome metabólica, fragilidade, risco cardiovascular elevado e inúmeras outras categorias intermediárias que ocupam o espaço existente entre a saúde e a doença. Evidentemente, muitas dessas classificações possuem sólido fundamento científico e desempenham papel importante na prevenção de agravos. O problema surge quando essas categorias deixam de representar instrumentos clínicos e passam a constituir identidades permanentes.

Imagine, por exemplo, um homem de cinquenta anos que realiza exames laboratoriais durante um programa corporativo de saúde. Não apresenta qualquer sintoma, mantém boa capacidade funcional, trabalha regularmente, realiza atividades físicas aos finais de semana e nunca necessitou de atendimento hospitalar. Seus exames revelam glicemia de jejum discretamente elevada, colesterol LDL ligeiramente acima do valor de referência e pressão arterial de 132/84 mmHg. Nenhuma dessas alterações, isoladamente, compromete sua qualidade de vida. Entretanto, ao serem interpretadas conjuntamente por algoritmos de estratificação de risco, esse indivíduo passa a ser classificado como portador de elevado risco cardiovascular para os próximos dez anos. Embora continue sentindo-se exatamente da mesma maneira, sua identidade sanitária modifica-se profundamente. A partir daquele momento, ele deixa de ser simplesmente saudável e passa a viver sob a condição de paciente em potencial.

Situações semelhantes tornaram-se cada vez mais frequentes com a incorporação das tecnologias digitais ao cotidiano. Relógios inteligentes monitoram continuamente frequência cardíaca, variabilidade da frequência cardíaca, saturação periférica de oxigênio, qualidade do sono, gasto energético, consumo calórico, níveis estimados de estresse e dezenas de outros indicadores fisiológicos. Sensores contínuos de glicose, inicialmente desenvolvidos para indivíduos diabéticos, passaram a ser utilizados por pessoas metabolicamente saudáveis interessadas em otimizar respostas glicêmicas após as refeições. Testes genéticos comerciais oferecem estimativas de predisposição para dezenas de doenças futuras. Aplicativos de saúde enviam alertas quando metas diárias de passos, sono ou atividade física não são alcançadas. Nunca o organismo humano foi monitorado com tamanha intensidade.

Do ponto de vista tecnológico, esse cenário representa extraordinário avanço. Contudo, sob a perspectiva da Saúde Coletiva, ele suscita uma questão fundamental: em que momento o monitoramento da saúde deixa de ampliar a autonomia dos indivíduos e passa a produzir ansiedade permanente?

Essa pergunta ocupa posição central na obra de Iona Heath, médica generalista britânica que desenvolveu uma das críticas mais consistentes ao excesso de medicalização observado nas sociedades contemporâneas. Heath argumenta que a medicina moderna alcançou tamanho êxito no tratamento das doenças que passou progressivamente a prometer algo que jamais poderá entregar: o controle absoluto da vida e o adiamento indefinido da morte. Segundo a autora, criou-se uma cultura na qual o envelhecimento, a vulnerabilidade e a própria finitude passaram a ser interpretados como falhas potencialmente corrigíveis pela tecnologia médica, alimentando a ilusão de que a longevidade dependeria exclusivamente da identificação precoce e da eliminação sistemática dos fatores de risco (HEATH, 2007; HEATH, 2014).

Essa crítica não representa rejeição à prevenção nem negação dos benefícios produzidos pela medicina baseada em evidências. Heath reconhece a importância das vacinas, do rastreamento adequadamente indicado, do controle dos fatores de risco cardiovasculares e das intervenções preventivas cuja efetividade encontra sólido respaldo científico. Sua preocupação dirige-se à transformação cultural produzida quando o risco passa a ocupar posição central na experiência cotidiana das pessoas. Em vez de viverem suas vidas enquanto ocasionalmente recorrem aos serviços de saúde, indivíduos passam a organizar sua existência em torno da permanente administração de probabilidades futuras.

O paradoxo torna-se evidente quando se observam determinados comportamentos contemporâneos. Não são raros os casos de pessoas que deixam de realizar viagens, restringem intensamente sua alimentação, abandonam atividades prazerosas ou convivem diariamente com elevados níveis de ansiedade em função de discretas alterações laboratoriais cuja probabilidade de produzir dano efetivo permanece extremamente baixa. Em nome da preservação futura da saúde, sacrificam dimensões fundamentais da própria vida presente. A prevenção deixa de constituir instrumento para viver melhor e passa, paradoxalmente, a limitar a própria experiência de viver.

Heath propõe que a medicina recupere uma dimensão frequentemente esquecida pela racionalidade biomédica: a aceitação da vulnerabilidade como característica constitutiva da condição humana. Todos os indivíduos envelhecem, todos experimentarão algum grau de limitação funcional ao longo da vida e todos morrerão. Nenhum avanço tecnológico será capaz de eliminar completamente essa realidade. O objetivo da medicina, portanto, não pode ser a promessa implícita de imortalidade, mas a redução do sofrimento evitável e a ampliação da capacidade das pessoas viverem com autonomia e dignidade durante o tempo de vida que possuem (HEATH, 2007).

Essa perspectiva aproxima-se, sob diversos aspectos, da crítica formulada por Ivan Illich em Medical Nemesis. Illich argumenta que a expansão ilimitada da medicina produz formas de iatrogenia que transcendem os danos diretamente relacionados aos procedimentos diagnósticos ou terapêuticos. Existe também uma iatrogenia cultural, caracterizada pela progressiva incapacidade das sociedades lidarem com experiências inerentes à existência — como dor, envelhecimento, sofrimento, perda e morte — sem recorrer imediatamente à intervenção médica. A medicina deixa de atuar apenas sobre doenças e passa gradualmente a colonizar a própria experiência humana (ILLICH, 1975).

Entretanto, talvez a contribuição mais relevante para superar esse impasse seja oferecida por Naomar de Almeida Filho. Ao deslocar o conceito de saúde da ausência de doença para a produção da vida, Naomar rompe simultaneamente com duas reduções características da medicina contemporânea: a primeira consiste em identificar saúde exclusivamente com homeostase biológica; a segunda, em confundi-la com a permanente minimização dos riscos estatísticos. Para o autor, indivíduos não produzem saúde simplesmente porque apresentam parâmetros laboratoriais dentro da normalidade ou porque acumulam fatores protetores. Produzem saúde quando desenvolvem capacidades para viver, construir vínculos, exercer autonomia, participar da vida coletiva e responder criativamente às transformações impostas pela existência (ALMEIDA FILHO, 2011).

É precisamente essa mudança de perspectiva que permite compreender a principal limitação da chamada indústria do risco. A redução contínua das probabilidades de adoecimento não constitui um fim em si mesma. O objetivo maior da saúde permanece sendo a vida, e não apenas sua preservação biológica. Um indivíduo pode apresentar excelente perfil metabólico, rigoroso controle pressórico, composição corporal considerada ideal e completa adesão às recomendações preventivas, mas viver permanentemente dominado pelo medo da doença, pela ansiedade em relação aos exames futuros e pela incapacidade de desfrutar da própria existência. Sob a ótica estritamente biomédica, trata-se de um paciente exemplar; sob a perspectiva da Saúde Coletiva, permanece uma questão essencial: quanto de vida foi sacrificado em nome da tentativa de evitar a morte?

Essa pergunta conduz inevitavelmente ao último eixo deste capítulo, no qual a concepção de saúde proposta por Naomar de Almeida Filho será analisada em maior profundidade como uma alternativa epistemológica capaz de integrar biologia, subjetividade e organização social em um único referencial teórico, recolocando a vida — e não a doença ou o risco — como verdadeiro objeto das práticas em saúde.

Saúde como produção da vida: a contribuição epistemológica de Naomar de Almeida Filho

As críticas dirigidas ao paradigma biomédico, à medicalização e à crescente centralidade do risco nas sociedades contemporâneas não implicam negar a importância da medicina científica nem minimizar as extraordinárias conquistas obtidas ao longo dos últimos dois séculos. Ao contrário, o reconhecimento dessas conquistas constitui condição indispensável para que seja possível compreender seus próprios limites. Nesse sentido, a principal contribuição de Naomar de Almeida Filho consiste justamente em evitar um falso antagonismo entre biologia e ciências sociais. Sua proposta não substitui uma perspectiva pela outra, mas procura construir um referencial epistemológico capaz de integrar diferentes níveis de determinação do processo saúde-doença, reconhecendo que nenhum deles, isoladamente, é suficiente para explicar a complexidade da experiência humana (ALMEIDA FILHO, 2000; 2011).

Essa preocupação emerge de uma constatação aparentemente simples, porém profundamente reveladora. Ao longo do século XX, a epidemiologia desenvolveu instrumentos cada vez mais sofisticados para medir incidência, prevalência, mortalidade, morbidade, fatores de risco, expectativa de vida e carga global de doenças. Nunca foi possível descrever com tanta precisão o comportamento estatístico das enfermidades. Paradoxalmente, quanto maior se tornou a capacidade de estudar a doença, mais evidente passou a ser a dificuldade de definir positivamente aquilo que constitui a saúde. Em seu ensaio O conceito de saúde: ponto-cego da epidemiologia, Naomar argumenta que a epidemiologia construiu um impressionante aparato metodológico para investigar a distribuição das doenças, mas permaneceu conceitualmente dependente delas para explicar o próprio conceito de saúde. Em consequência, a saúde transformou-se em uma categoria residual, definida apenas como ausência ou negação da enfermidade (ALMEIDA FILHO, 2000).

Essa crítica possui implicações profundas para a prática clínica. Se saúde corresponde apenas à ausência de doença, basta identificar e eliminar alterações biológicas para que um indivíduo seja considerado saudável. Entretanto, a própria experiência cotidiana demonstra a insuficiência dessa conclusão. Um executivo de quarenta e cinco anos pode apresentar perfil lipídico adequado, glicemia normal, excelente capacidade cardiorrespiratória e composição corporal considerada ideal, mas viver submetido a jornadas superiores a doze horas diárias de trabalho, privação crônica de sono, isolamento familiar, ansiedade permanente e completa ausência de tempo para experiências culturais, lazer ou convivência social. Sob a ótica estritamente biomédica, trata-se de um organismo fisiologicamente saudável. Contudo, torna-se difícil sustentar que essa pessoa desfrute efetivamente de saúde quando sua existência encontra-se marcada pelo esgotamento emocional, pela perda progressiva da autonomia sobre o próprio tempo e pela incapacidade de estabelecer relações significativas fora do ambiente profissional.

Situação inversa pode ser observada em uma mulher idosa portadora de hipertensão arterial, diabetes mellitus tipo 2 e osteoartrite. Embora conviva com doenças crônicas há muitos anos, participa regularmente de atividades comunitárias, mantém intensa convivência familiar, cultiva uma horta, realiza caminhadas diárias, participa de grupos de dança para idosos e preserva plena autonomia para conduzir sua vida cotidiana. Sob o ponto de vista estritamente fisiopatológico, ela apresenta maior carga de doença que o executivo anteriormente descrito. Entretanto, sua experiência concreta de viver revela elevado grau de bem-estar, participação social e sentido existencial. A simples presença de enfermidades não é suficiente para definir sua condição global de saúde.

Exemplos dessa natureza evidenciam que doença e saúde não constituem categorias simétricas. Enquanto a doença pode frequentemente ser descrita por alterações estruturais ou funcionais relativamente específicas, a saúde manifesta-se como fenômeno emergente, resultante da interação contínua entre processos biológicos, experiências subjetivas e condições sociais. Essa distinção aproxima Naomar da tradição inaugurada por Georges Canguilhem, para quem o organismo saudável não é aquele que simplesmente preserva parâmetros fisiológicos considerados normais, mas aquele capaz de instituir novas normas diante das transformações impostas pela vida (CANGUILHEM, 2009). A contribuição de Naomar, entretanto, amplia essa perspectiva ao incorporar explicitamente os determinantes históricos, econômicos, culturais e políticos da saúde.

Para operacionalizar essa compreensão, o autor propõe que o processo saúde-doença seja analisado em diferentes planos interdependentes. O primeiro corresponde ao plano subindividual, constituído pelos mecanismos biológicos responsáveis pela organização do organismo. Nesse nível situam-se a genética, a fisiologia, a imunologia, a bioquímica, a anatomia e todos os processos tradicionalmente investigados pelas ciências biomédicas. Não há qualquer negação da importância desses conhecimentos. A integridade funcional dos sistemas orgânicos permanece condição indispensável para a vida. Um infarto agudo do miocárdio continua sendo explicado por alterações da circulação coronariana; uma pneumonia continua resultando da interação entre microrganismos e mecanismos imunológicos; uma insuficiência renal continua decorrendo de alterações estruturais e funcionais dos néfrons. A biologia conserva plenamente sua centralidade explicativa nesse plano.

Todavia, limitar a compreensão da saúde a esse nível significaria ignorar que organismos biológicos jamais existem fora de contextos sociais específicos. Surge então o segundo plano analítico, correspondente ao nível individual, no qual a doença deixa de representar apenas alteração fisiológica para tornar-se também experiência vivida. Dois indivíduos portadores da mesma enfermidade podem experimentar graus completamente distintos de sofrimento, incapacidade ou adaptação. Um diagnóstico oncológico, por exemplo, pode produzir intensa desorganização emocional em determinada pessoa e ser enfrentado por outra com elevado grau de resiliência, dependendo da história de vida, dos vínculos afetivos, das crenças culturais, das experiências anteriores e das redes de apoio disponíveis. A doença biológica permanece a mesma; a experiência do adoecimento, entretanto, é profundamente singular.

Finalmente, Naomar incorpora o plano coletivo, no qual saúde e doença passam a ser compreendidas como fenômenos produzidos pelas formas de organização da sociedade. Nesse nível tornam-se relevantes categorias como distribuição de renda, escolaridade, habitação, saneamento básico, inserção no mercado de trabalho, mobilidade urbana, segurança pública, racismo estrutural, relações de gênero, acesso aos serviços de saúde e participação política. O adoecimento deixa de ser interpretado exclusivamente como resultado das escolhas individuais para ser compreendido também como consequência das oportunidades concretas oferecidas por determinada organização social. Organismos biologicamente semelhantes produzem trajetórias de saúde profundamente distintas quando submetidos a condições materiais diferentes.

Essa concepção permite reinterpretar criticamente um dos fenômenos mais frequentes na prática clínica contemporânea: a responsabilização individual pelo adoecimento. Durante as últimas décadas, acumulou-se robusta evidência demonstrando que alimentação inadequada, sedentarismo, tabagismo, obesidade e consumo excessivo de álcool constituem importantes fatores de risco para doenças crônicas não transmissíveis. Essa relação causal encontra sólido respaldo científico e não deve ser questionada. Entretanto, quando essas evidências são descontextualizadas das condições concretas de vida da população, produz-se uma inversão analítica particularmente problemática: fatores condicionados socialmente passam a ser interpretados como se resultassem exclusivamente da vontade individual.

Considere-se, por exemplo, a rotina de uma mulher residente em uma grande metrópole brasileira. Seu dia inicia-se antes do amanhecer para enfrentar longos deslocamentos em transporte público até o local de trabalho. Após cumprir jornada laboral de oito ou nove horas, retorna ao ambiente doméstico, onde ainda assume parcela significativa das atividades relacionadas ao preparo das refeições, ao cuidado dos filhos, ao acompanhamento escolar das crianças e à assistência de familiares idosos. O tempo disponível para descanso frequentemente não ultrapassa poucas horas antes do reinício de uma nova jornada. Diante desse cenário, recomendações clínicas como “pratique cento e cinquenta minutos semanais de atividade física”, “durma oito horas por noite”, “reduza seu nível de estresse” ou “prepare refeições saudáveis diariamente” permanecem cientificamente corretas, mas tornam-se socialmente limitadas quando formuladas sem considerar as condições objetivas que estruturam a vida dessa trabalhadora.

A crítica proposta por Naomar não consiste em negar a importância dessas recomendações, mas em demonstrar que comportamentos relacionados à saúde não podem ser compreendidos isoladamente das circunstâncias que os produzem. A capacidade de fazer escolhas depende da existência de oportunidades reais para exercê-las. O conceito de autonomia, portanto, deixa de representar simples liberdade individual e passa a incorporar a disponibilidade concreta de recursos materiais, tempo, educação, segurança e infraestrutura capazes de tornar determinadas escolhas efetivamente possíveis.

Essa perspectiva aproxima-se da tradição inaugurada por Geoffrey Rose e posteriormente desenvolvida por Michael Marmot, ao demonstrar que grande parte da distribuição das doenças nas populações decorre da distribuição das condições sociais que moldam as oportunidades de viver de maneira saudável (ROSE, 1992; MARMOT, 2005). Todavia, Naomar acrescenta uma dimensão epistemológica particularmente relevante. O objeto central das ciências da saúde deixa de ser exclusivamente a doença e passa a ser a própria produção da vida. Promover saúde não significa apenas reduzir incidência de enfermidades, mas ampliar capacidades humanas de participação social, autonomia, criação de vínculos, exercício da cidadania e construção de projetos existenciais.

Essa mudança desloca profundamente o horizonte ético das práticas em saúde. O sucesso de uma intervenção não pode ser medido exclusivamente pela redução de marcadores laboratoriais, pelo aumento da sobrevida ou pela diminuição da mortalidade. Embora esses desfechos permaneçam fundamentais, eles precisam ser articulados a uma questão mais abrangente: a intervenção ampliou ou restringiu as possibilidades daquela pessoa viver a vida que considera valiosa? Essa pergunta, aparentemente simples, representa talvez a principal ruptura proposta por Naomar de Almeida Filho. A saúde deixa definitivamente de ser concebida apenas como atributo biológico do organismo para tornar-se expressão da capacidade humana de produzir vida em toda a complexidade de suas dimensões biológicas, subjetivas, sociais e históricas.

Sobreviver não é sinônimo de viver: o paradoxo contemporâneo da saúde e a produção da vida

Uma das maiores contradições produzidas pela medicina contemporânea reside no fato de que, justamente no momento em que a humanidade alcançou sua maior expectativa de vida, tornou-se também uma das sociedades mais preocupadas com a possibilidade permanente de adoecer. Nunca se viveu tanto. Nunca se produziram tantos exames diagnósticos, protocolos preventivos, algoritmos preditivos, tecnologias de monitoramento fisiológico e estratégias de rastreamento populacional. Paradoxalmente, nunca o corpo foi tão intensamente percebido como uma fonte permanente de ameaça.

Essa aparente contradição decorre, em grande medida, da profunda transformação ocorrida no próprio objeto da prática médica. Durante boa parte da história, a medicina dedicava-se essencialmente ao tratamento do sofrimento instalado. O paciente procurava assistência quando experimentava dor, limitação funcional ou sinais inequívocos de adoecimento. A clínica estruturava-se a partir da experiência concreta da doença. Nas últimas décadas, entretanto, o desenvolvimento da epidemiologia clínica, da genética, da biologia molecular e das tecnologias diagnósticas deslocou progressivamente o foco da medicina para um território completamente distinto: a administração das probabilidades futuras. O risco deixou de representar apenas uma ferramenta epidemiológica destinada ao planejamento populacional para converter-se em elemento organizador da experiência cotidiana dos indivíduos (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

Essa mudança alterou profundamente a relação das pessoas com o próprio corpo. Pequenas alterações laboratoriais, predisposições genéticas, discretas variações fisiológicas ou fatores de risco comportamentais passaram a ser interpretados não apenas como possibilidades estatísticas, mas como ameaças concretas cuja eliminação se tornou objetivo permanente da prática clínica. A saúde passou gradativamente a ser confundida com a redução contínua das probabilidades de adoecimento. Nesse contexto, viver saudável significa, cada vez mais, controlar números: colesterol, glicemia, pressão arterial, frequência cardíaca, percentual de gordura corporal, densidade mineral óssea, consumo calórico, tempo de sono, níveis hormonais, marcadores inflamatórios e uma quantidade crescente de biomarcadores produzidos pelo desenvolvimento tecnológico.

Essa racionalidade apresenta enorme potencial preventivo. Contudo, ao deslocar o centro da atenção para indicadores biológicos progressivamente mais precoces, produz também um fenômeno paradoxal: o risco transforma-se em identidade. O indivíduo deixa de ser reconhecido como alguém saudável que apresenta determinado fator de risco e passa a perceber-se como um paciente cuja principal característica é justamente a possibilidade futura de adoecer. Em consequência, a vida cotidiana passa a organizar-se em torno da vigilância permanente do próprio organismo.

É precisamente contra essa transformação que Iona Heath desenvolve uma das críticas mais consistentes da medicina contemporânea. Em diversos ensaios, especialmente em Matters of Life and Death e em seus textos publicados no British Medical Journal, Heath argumenta que a medicina moderna passou a alimentar uma expectativa cultural profundamente problemática: a de que seria possível controlar integralmente a trajetória biológica da existência humana (HEATH, 2007; HEATH, 2014). Embora nenhum profissional afirme explicitamente que a medicina possa tornar alguém imortal, grande parte do discurso preventivo produz implicitamente essa expectativa ao sugerir que o cumprimento rigoroso das recomendações médicas seria capaz de neutralizar os riscos inerentes à condição humana.

Segundo Heath, esse deslocamento modifica radicalmente a finalidade da própria medicina. O objetivo deixa de ser aliviar o sofrimento e passa, progressivamente, a perseguir uma segurança biológica impossível de ser plenamente alcançada. O envelhecimento converte-se em sucessão de fatores de risco; a morte transforma-se em evento permanentemente adiável; a vulnerabilidade passa a ser interpretada como falha potencialmente corrigível pela tecnologia médica. A consequência é a produção de uma cultura marcada pela ansiedade sanitária, na qual o medo da doença ocupa espaço crescente na experiência cotidiana.

Essa crítica torna-se particularmente evidente quando observamos determinadas situações comuns na prática clínica. Um homem de cinquenta e cinco anos, previamente saudável, realiza exames preventivos anuais. Em um determinado momento, identifica-se discreta elevação do antígeno prostático específico (PSA). Inicia-se uma sequência de novos exames, ressonâncias magnéticas, biópsias e consultas especializadas. Mesmo que nenhum câncer seja confirmado, o indivíduo passa meses ou anos vivendo sob intensa apreensão. Sua rotina reorganiza-se em função da possibilidade de uma doença que talvez jamais se manifeste. A tecnologia, concebida para reduzir a incerteza, produz precisamente o efeito contrário: amplia-a.

Fenômeno semelhante pode ser observado na utilização indiscriminada de tecnologias de monitoramento fisiológico por indivíduos saudáveis. Não é incomum que pequenas oscilações na variabilidade da frequência cardíaca registradas por relógios inteligentes sejam interpretadas como indicativos de sobrecarga fisiológica, levando usuários a modificar treinamentos, interromper atividades ou procurar atendimento médico sem qualquer manifestação clínica relevante. Da mesma forma, discretas alterações transitórias da glicemia monitoradas por sensores contínuos frequentemente geram preocupação desproporcional em pessoas sem diabetes, convertendo fenômenos fisiológicos absolutamente normais em potenciais fontes de ansiedade. Em ambos os casos, o organismo deixa de ser vivido e passa a ser permanentemente observado.

Entretanto, talvez o exemplo mais expressivo desse fenômeno não esteja relacionado às tecnologias diagnósticas, mas à própria organização contemporânea da existência. Imagine um executivo que acorda diariamente às cinco horas da manhã para cumprir jornadas de trabalho que frequentemente ultrapassam doze horas. Alimenta-se de maneira rigorosamente planejada, realiza exercícios físicos prescritos por especialistas, monitora continuamente seus marcadores fisiológicos, realiza check-ups anuais e segue fielmente todas as recomendações preventivas. Apesar disso, quase não convive com os filhos, raramente encontra amigos, abandonou atividades culturais, perdeu o contato com hobbies que anteriormente lhe proporcionavam prazer e vive permanentemente pressionado por metas profissionais. Sob a ótica biomédica, trata-se de um indivíduo exemplar no controle dos fatores de risco. Sob a perspectiva proposta por Iona Heath e Naomar de Almeida Filho, contudo, torna-se inevitável formular outra pergunta: essa pessoa está apenas prolongando sua sobrevivência biológica ou está efetivamente produzindo vida?

Essa distinção representa o núcleo da concepção ampliada de saúde proposta por Naomar. Ao definir saúde como processo de produção da vida, o autor desloca o objeto central das práticas sanitárias da simples prevenção da doença para a ampliação das capacidades humanas de existir. Produzir saúde significa ampliar possibilidades de autonomia, fortalecer vínculos sociais, criar condições para participação política, favorecer o desenvolvimento intelectual, garantir acesso à cultura, ao lazer, ao trabalho digno, à educação e às experiências que conferem significado à existência (ALMEIDA FILHO, 2011). A biologia permanece indispensável, mas deixa de ocupar sozinha o centro da definição de saúde.

Essa mudança de perspectiva permite compreender por que indivíduos portadores de doenças crônicas podem apresentar elevado nível de saúde, enquanto pessoas sem qualquer diagnóstico clínico podem experimentar profunda limitação existencial. A presença de hipertensão arterial, diabetes mellitus ou insuficiência cardíaca não elimina automaticamente a capacidade de construir relações afetivas, exercer autonomia, participar da vida comunitária ou encontrar sentido no cotidiano. Da mesma forma, parâmetros laboratoriais rigorosamente normais não garantem, por si sós, uma existência plena quando o indivíduo vive submetido ao isolamento social, à exaustão emocional, à insegurança econômica ou à perda progressiva da autonomia sobre sua própria vida.

Nesse sentido, torna-se particularmente ilustrativa uma metáfora frequentemente utilizada para refletir sobre a finitude humana. Imagine uma pessoa que alugue um imóvel por apenas dois dias durante uma viagem. Seria pouco provável que utilizasse esse curto período reformando paredes, substituindo pisos ou instalando novos equipamentos permanentes. A tendência natural seria aproveitar a experiência, conhecer o ambiente, estabelecer relações e usufruir do tempo disponível. A vida humana apresenta condição semelhante: trata-se de uma permanência inevitavelmente transitória. Entretanto, grande parte da racionalidade contemporânea parece organizar-se como se o objetivo principal consistisse em preparar indefinidamente a própria existência para um futuro que jamais se concretiza plenamente. Sacrificam-se experiências presentes em nome da redução de riscos futuros, como se a finalidade da vida fosse apenas permanecer biologicamente vivo pelo maior tempo possível.

Naturalmente, essa metáfora possui limites. Como o próprio Naomar enfatizaria, nem todos ocupam o mesmo “imóvel”. As oportunidades de viver, de construir projetos e de fazer escolhas dependem profundamente das condições materiais de existência. A possibilidade de dedicar tempo ao lazer, praticar atividade física, alimentar-se adequadamente ou desenvolver atividades culturais encontra-se diretamente condicionada por fatores como renda, escolaridade, mobilidade urbana, jornada de trabalho, segurança pública e acesso a políticas sociais. É justamente por essa razão que reduzir a saúde ao comportamento individual constitui não apenas um equívoco conceitual, mas também uma forma de invisibilizar as profundas desigualdades que estruturam as possibilidades concretas de viver.

Sob essa perspectiva, o maior desafio da medicina contemporânea talvez não consista em ampliar indefinidamente a expectativa de vida, mas em evitar que a busca legítima pela prevenção transforme a própria vida em objeto permanente de vigilância e medo. A medicina alcança sua maior potência quando permite que as pessoas vivam mais e melhor; perde parte de sua finalidade quando a preservação biológica passa a substituir a própria experiência de viver. A contribuição de Naomar de Almeida Filho reside precisamente em recolocar essa distinção no centro do debate: saúde não corresponde apenas ao controle dos riscos nem à manutenção da homeostase fisiológica, mas à capacidade continuamente renovada de indivíduos e coletividades produzirem vida em todas as suas dimensões — biológica, subjetiva, social, cultural e política. É nesse sentido que a saúde deixa de ser compreendida como simples ausência de doença para tornar-se uma expressão concreta da liberdade humana de existir, apesar da vulnerabilidade e da finitude que caracterizam a própria condição humana.

A medicina do século XXI: entre a preservação da vida biológica e a produção da vida humana

As transformações ocorridas na medicina ao longo dos últimos dois séculos produziram uma situação paradoxal. Nunca a humanidade dispôs de tamanho conhecimento sobre os mecanismos biológicos responsáveis pelo funcionamento do organismo. A fisiologia experimental permitiu compreender os sistemas regulatórios que preservam a homeostase; a microbiologia identificou os agentes etiológicos de inúmeras doenças infecciosas; a farmacologia desenvolveu terapias capazes de modificar significativamente a história natural de diversas enfermidades; a genética e a biologia molecular ampliaram extraordinariamente a capacidade de compreender predisposições biológicas ao adoecimento; a epidemiologia tornou possível identificar fatores de risco populacionais e desenvolver estratégias preventivas altamente efetivas. Em consequência, a expectativa de vida aumentou, a mortalidade infantil diminuiu drasticamente e milhões de pessoas passaram a sobreviver a doenças anteriormente fatais (PORTER, 1997; ROSE, 1992).

Entretanto, exatamente o sucesso alcançado pela medicina produziu um novo desafio conceitual. À medida que o tratamento das doenças se tornou mais eficiente, o foco da prática clínica deslocou-se progressivamente da enfermidade instalada para a antecipação de eventos futuros. A medicina passou a organizar-se cada vez mais em torno da identificação precoce de riscos, do rastreamento de populações assintomáticas, da detecção de alterações subclínicas e da intervenção sobre probabilidades estatísticas de adoecimento. O cuidado deixou de concentrar-se exclusivamente na pessoa doente para incorporar também indivíduos biologicamente saudáveis, porém classificados como portadores de fatores de risco. A fronteira entre saúde e doença tornou-se progressivamente menos nítida, substituída por um contínuo de vulnerabilidades cuja gestão passou a ocupar posição central na prática médica contemporânea (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

Sob diversos aspectos, essa transformação representa uma conquista importante. Intervir precocemente sobre fatores de risco cardiovasculares, controlar hipertensão arterial, reduzir o tabagismo, estimular a vacinação e identificar precocemente determinados tipos de câncer constituem estratégias responsáveis por expressiva redução da morbimortalidade nas últimas décadas. Negar essas evidências significaria desconsiderar um dos maiores patrimônios produzidos pela ciência contemporânea. O problema não reside, portanto, na prevenção em si, mas na ampliação ilimitada de sua lógica para praticamente todos os domínios da existência humana.

Quando a redução dos riscos passa a constituir o objetivo principal das práticas em saúde, estabelece-se uma inversão silenciosa de finalidades. A vida deixa de ser compreendida como o valor a ser protegido e transforma-se no meio através do qual se busca atingir uma condição ideal de segurança biológica que, por definição, jamais poderá ser plenamente alcançada. Quanto maior o desenvolvimento tecnológico, maior também a capacidade de identificar novos marcadores fisiológicos, predisposições genéticas, alterações metabólicas discretas e probabilidades futuras de adoecimento. Em consequência, amplia-se continuamente o universo de indivíduos classificados como potencialmente doentes, produzindo aquilo que David Castiel descreve como uma cultura do risco, caracterizada pela permanente antecipação de ameaças ainda inexistentes (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

Iona Heath observa que essa racionalidade produz uma consequência particularmente delicada: a substituição da experiência concreta de viver pela gestão permanente da possibilidade de morrer (HEATH, 2007; HEATH, 2014). A medicina, cuja finalidade histórica consistia em aliviar sofrimento e preservar a vida, passa gradualmente a alimentar uma expectativa cultural de controle absoluto da existência biológica. Embora nenhum profissional prometa explicitamente a imortalidade, a sucessão interminável de exames, protocolos preventivos, rastreamentos e recomendações produz a impressão de que o envelhecimento, a doença e a morte poderiam ser indefinidamente adiados mediante adequada administração dos fatores de risco. A vulnerabilidade, elemento constitutivo da condição humana, transforma-se em evento excepcional que deveria ser evitado a qualquer custo.

O efeito mais profundo dessa mudança talvez não seja clínico, mas antropológico. O indivíduo passa a experimentar seu próprio corpo como objeto permanente de vigilância. Pequenas oscilações fisiológicas deixam de representar manifestações naturais da variabilidade biológica e passam a ser interpretadas como sinais precoces de doença. O envelhecimento converte-se em sucessão de perdas a serem combatidas; a tristeza tende a ser confundida com depressão; a timidez aproxima-se da ansiedade patológica; o sofrimento decorrente das experiências ordinárias da vida passa a ser frequentemente medicalizado. Como advertia Ivan Illich, a medicina corre o risco de expandir-se para além das doenças, apropriando-se progressivamente da própria experiência humana (ILLICH, 1975).

Essa crítica, entretanto, não deve ser interpretada como oposição à medicina científica. Ao contrário, ela constitui um convite para redefinir seu objeto. Nesse aspecto, a contribuição de Naomar de Almeida Filho assume importância singular. Ao propor que saúde seja compreendida como produção da vida, o autor desloca o centro da reflexão da eliminação da doença para a ampliação das capacidades humanas de existir. Saúde deixa de representar simples estado fisiológico ou ausência de enfermidades para tornar-se um processo continuamente construído por indivíduos e coletividades na interação entre suas condições biológicas, suas experiências subjetivas e os contextos sociais, culturais, econômicos e políticos que moldam suas possibilidades de viver (ALMEIDA FILHO, 2011).

Essa mudança de perspectiva altera profundamente a própria finalidade das práticas em saúde. O êxito de uma intervenção clínica não pode ser medido exclusivamente pela redução da mortalidade, pela normalização de parâmetros laboratoriais ou pelo prolongamento da sobrevida. Esses indicadores permanecem fundamentais, mas tornam-se insuficientes quando desconsideram aquilo que efetivamente confere significado à existência humana. Uma terapêutica capaz de prolongar biologicamente a vida, mas que elimine completamente a autonomia, os vínculos afetivos, a participação social ou a possibilidade de exercer projetos pessoais, impõe inevitavelmente um problema ético que não pode ser resolvido apenas pela fisiologia ou pela estatística.

A própria prática clínica oferece exemplos eloquentes dessa tensão. Em inúmeras situações, pacientes optam por tratamentos menos agressivos para preservar qualidade de vida, recusam procedimentos que prolongariam discretamente a sobrevida às custas de intenso sofrimento ou estabelecem prioridades existenciais que não coincidem exatamente com a maximização dos desfechos biológicos. Tais decisões não representam irracionalidade nem abandono da ciência. Ao contrário, expressam precisamente aquilo que a medicina centrada na pessoa procura reconhecer: que o objetivo do cuidado não consiste apenas em prolongar a vida, mas em permitir que cada indivíduo viva de acordo com seus valores, preferências e projetos existenciais (ELWYN et al., 2012).

Essa compreensão aproxima-se também da proposta de Geoffrey Rose ao distinguir a lógica populacional da lógica individual. Estratégias epidemiológicas destinadas a reduzir riscos em grandes populações produzem enorme benefício coletivo, mas não podem ser automaticamente transpostas para todas as decisões individuais sem considerar o contexto específico de cada pessoa (ROSE, 1992). O mesmo raciocínio aplica-se às recomendações preventivas. Promover atividade física, alimentação adequada, cessação do tabagismo e controle dos fatores de risco permanece absolutamente necessário. Todavia, essas recomendações somente adquirem pleno significado quando articuladas às condições concretas que tornam sua realização possível. Não basta orientar escolhas saudáveis; é necessário construir sociedades capazes de permitir que tais escolhas sejam efetivamente exercidas.

Nesse sentido, a saúde deixa definitivamente de ser compreendida como atributo exclusivo do organismo. Ela passa a constituir uma propriedade emergente das relações estabelecidas entre indivíduos e o mundo em que vivem. Um organismo biologicamente íntegro pode experimentar profunda vulnerabilidade quando privado de autonomia, trabalho digno, vínculos afetivos, segurança, participação social ou perspectivas de futuro. Da mesma forma, indivíduos portadores de doenças crônicas podem produzir elevados níveis de saúde quando preservam capacidade funcional, projetos de vida, relações sociais significativas e condições materiais compatíveis com uma existência digna.

Talvez essa seja a principal contribuição da Saúde Coletiva para a medicina do século XXI. Ao deslocar o foco exclusivo da doença para a produção social da vida, esse campo não diminui a importância da fisiologia, da farmacologia, da clínica ou da epidemiologia. Pelo contrário, amplia seu horizonte de atuação ao reconhecer que processos biológicos sempre ocorrem em indivíduos concretos, inseridos em famílias, comunidades e sociedades marcadas por profundas desigualdades. O desafio contemporâneo deixa de ser simplesmente controlar doenças e passa a consistir em produzir condições para que pessoas e populações possam viver plenamente, conscientes de sua vulnerabilidade, mas livres da ilusão de que a saúde possa ser reduzida à simples negação da doença ou à permanente administração do risco.

Sob essa perspectiva, a medicina reencontra sua vocação mais profunda. Seu maior objetivo não é prometer a superação da finitude nem oferecer uma ilusória garantia de imortalidade biológica. Sua verdadeira finalidade consiste em ampliar a liberdade humana diante da doença, reduzir o sofrimento evitável, preservar a autonomia e criar condições para que cada indivíduo possa construir uma vida dotada de significado durante o tempo que inevitavelmente lhe é dado viver. É precisamente nesse ponto que a fisiologia da homeostase encontra a filosofia da vida, e que a medicina, sem abandonar sua base científica, recupera sua dimensão mais autenticamente humana.

A saúde como experiência humana: entre a vulnerabilidade, a autonomia e o sentido da existência

Um dos efeitos menos discutidos da extraordinária evolução tecnológica da medicina contemporânea consiste na transformação da própria percepção social acerca da doença, do envelhecimento e da morte. Ao longo da maior parte da história da humanidade, adoecer constituía uma experiência frequentemente imprevisível e pouco controlável. As limitações impostas pelas doenças, o envelhecimento progressivo e a morte eram reconhecidos como componentes inerentes da existência humana. A medicina possuía recursos limitados e, consequentemente, sua função consistia sobretudo em aliviar o sofrimento e acompanhar o curso natural das enfermidades. O desenvolvimento científico ocorrido ao longo do século XX modificou profundamente essa realidade. A ampliação da expectativa de vida, o controle de inúmeras doenças infecciosas, a sofisticação dos métodos diagnósticos e o surgimento de terapias altamente eficazes alteraram não apenas os indicadores de saúde das populações, mas também a maneira pela qual as sociedades passaram a interpretar a própria finitude.

Nesse novo contexto, consolidou-se progressivamente uma expectativa cultural segundo a qual o avanço científico seria capaz de controlar praticamente todos os eventos biológicos relevantes da vida humana. A doença deixou de ser compreendida como possibilidade inerente à existência para converter-se em evento potencialmente evitável mediante adequada vigilância dos fatores de risco. O envelhecimento passou a ser interpretado menos como processo fisiológico natural e mais como conjunto de perdas passíveis de intervenção tecnológica. A própria morte, embora inevitável, passou a ser frequentemente percebida como consequência de falhas diagnósticas, insuficiência terapêutica ou atraso na identificação precoce de doenças. A medicina, ainda que jamais tenha prometido explicitamente a imortalidade, passou a ocupar simbolicamente o lugar de principal instrumento de enfrentamento da vulnerabilidade humana (HEATH, 2007).

Iona Heath observa que essa transformação produziu uma mudança profunda na relação entre médicos e pacientes. Tradicionalmente, a medicina ocupava posição de acompanhante diante da fragilidade humana. Progressivamente, contudo, passou a assumir a responsabilidade implícita de controlar eventos que, em grande medida, permanecem fora do alcance de qualquer intervenção científica. A consequência dessa expectativa é a ampliação permanente da ansiedade relacionada à saúde. Quanto maior a capacidade tecnológica de identificar alterações precoces, maior também a expectativa social de que nenhuma doença importante deva escapar ao controle médico. Pequenas incertezas, antes consideradas parte da vida cotidiana, passam a exigir investigação diagnóstica; variações fisiológicas tornam-se potenciais indicadores de doença; probabilidades estatísticas convertem-se em preocupações permanentes. O resultado é uma sociedade cada vez mais monitorada, mas não necessariamente mais tranquila (HEATH, 2014).

Essa observação dialoga profundamente com a crítica formulada por Hans-Georg Gadamer em O caráter oculto da saúde. Para o filósofo alemão, a principal característica da saúde talvez seja justamente sua invisibilidade. Enquanto a doença impõe-se à consciência por meio da dor, da limitação funcional ou do sofrimento, a saúde manifesta-se exatamente pela possibilidade de esquecermos o corpo enquanto vivemos. O indivíduo saudável não permanece continuamente observando sua pressão arterial, seu ritmo cardíaco ou sua glicemia; ele trabalha, estuda, estabelece relações afetivas, participa da vida comunitária, realiza projetos e desenvolve sua existência sem que o organismo ocupe permanentemente o centro de sua atenção (GADAMER, 1996).

Essa perspectiva oferece uma crítica particularmente pertinente à cultura contemporânea do monitoramento contínuo. A proliferação de relógios inteligentes, sensores fisiológicos, aplicativos de saúde e plataformas digitais de acompanhamento biométrico produz uma situação paradoxal. Ferramentas concebidas para favorecer a promoção da saúde podem, quando utilizadas de maneira acrítica, deslocar continuamente a atenção do indivíduo para o funcionamento de seu próprio organismo. O corpo deixa de constituir condição silenciosa da existência para transformar-se em objeto permanente de observação. A saúde, cuja principal característica era precisamente permitir que a vida acontecesse, passa a exigir constante vigilância.

Não se trata, evidentemente, de questionar a utilidade dessas tecnologias. Em inúmeras situações clínicas, o monitoramento contínuo representa recurso terapêutico indispensável. Pacientes diabéticos beneficiam-se enormemente dos sensores contínuos de glicose; indivíduos portadores de arritmias podem ter eventos potencialmente fatais identificados precocemente por dispositivos vestíveis; programas de reabilitação cardiovascular utilizam monitorização fisiológica para individualizar o treinamento. O problema emerge quando instrumentos desenvolvidos para situações clínicas específicas passam a ser incorporados indiscriminadamente ao cotidiano de populações saudáveis, transformando variações fisiológicas esperadas em potenciais fontes de ansiedade e medicalização.

Essa discussão adquire relevância ainda maior quando analisada sob a perspectiva da fisiologia da adaptação. A própria biologia demonstra que o organismo saudável caracteriza-se por sua extraordinária capacidade de responder continuamente às mudanças ambientais. A frequência cardíaca oscila em função do sono, do exercício, das emoções, da temperatura ambiente e da alimentação. A pressão arterial varia ao longo do dia. A glicemia modifica-se após cada refeição. O sistema imunológico encontra-se permanentemente interagindo com antígenos ambientais. A variabilidade, e não a rigidez, constitui uma das principais características da vida. Paradoxalmente, quanto mais sofisticados se tornam os instrumentos de monitoramento, maior a tendência de interpretar essa variabilidade fisiológica como desvio em relação a uma suposta estabilidade ideal.

Essa observação aproxima novamente a fisiologia das reflexões de Canguilhem. O autor argumentava que o organismo saudável não é aquele que preserva invariavelmente os mesmos parâmetros biológicos, mas aquele capaz de instituir novas normas diante das mudanças do ambiente (CANGUILHEM, 2009). A vida caracteriza-se precisamente pela plasticidade, pela adaptação e pela capacidade de reorganizar continuamente seus próprios equilíbrios. Buscar eliminar toda variabilidade fisiológica significa, em certa medida, negar a própria natureza dinâmica da vida.

Naomar de Almeida Filho amplia essa reflexão ao deslocar o conceito de adaptação para além da biologia. Se organismos adaptam-se continuamente às mudanças ambientais, indivíduos e coletividades também produzem novas formas de viver diante das transformações sociais, econômicas e culturais que caracterizam sua existência. Saúde deixa de representar apenas estabilidade fisiológica e passa a constituir capacidade de produzir novos modos de vida compatíveis com as circunstâncias concretas de cada momento histórico. Trata-se de um conceito profundamente dinâmico, incompatível tanto com a ideia de equilíbrio absoluto quanto com a concepção de completo bem-estar proposta pela Organização Mundial da Saúde em 1948.

Essa compreensão possui importantes implicações éticas para todas as profissões da saúde. Durante muito tempo predominou o chamado modelo paternalista, segundo o qual caberia ao profissional decidir unilateralmente qual seria a melhor conduta para o paciente. Essa concepção fundamentava-se na assimetria de conhecimento entre médico e paciente e na ideia de que o especialista, por deter maior domínio científico, estaria naturalmente habilitado a definir os objetivos do cuidado. Embora esse modelo tenha produzido importantes contribuições para a consolidação da medicina moderna, ele revela-se insuficiente diante da crescente complexidade das decisões clínicas contemporâneas.

O desenvolvimento da bioética, da medicina centrada na pessoa e da decisão compartilhada deslocou significativamente essa relação. Reconhece-se atualmente que evidências científicas, embora indispensáveis, não são suficientes para definir isoladamente a melhor intervenção para cada indivíduo. Valores pessoais, projetos de vida, contexto familiar, condições socioeconômicas, preferências individuais e expectativas em relação ao futuro constituem igualmente componentes legítimos das decisões em saúde (ELWYN et al., 2012). A ciência continua fornecendo as melhores evidências disponíveis, mas a definição dos objetivos do cuidado passa a ser construída conjuntamente entre profissionais e pacientes.

Essa mudança representa talvez uma das maiores transformações éticas da medicina contemporânea. O profissional deixa de ocupar exclusivamente a posição de autoridade que determina unilateralmente o tratamento e passa a atuar como parceiro na construção das decisões clínicas. Essa perspectiva dialoga profundamente com a concepção de saúde proposta por Naomar de Almeida Filho. Se produzir saúde significa ampliar a autonomia e a capacidade de construir projetos de vida, então o próprio processo terapêutico deve constituir espaço de fortalecimento da autonomia, e não de substituição das escolhas do indivíduo pelas decisões exclusivas do especialista.

Sob essa perspectiva, a contribuição da Saúde Coletiva transcende a incorporação dos determinantes sociais ao estudo das doenças. Ela propõe uma redefinição do próprio objeto das ciências da saúde. O verdadeiro desafio da medicina contemporânea não consiste apenas em prolongar a sobrevivência biológica, mas em ampliar as possibilidades concretas de indivíduos e coletividades viverem vidas dotadas de sentido, autonomia e dignidade. A saúde deixa definitivamente de ser compreendida como simples estado fisiológico ou ausência de doença para tornar-se expressão da capacidade humana de produzir existência em toda a complexidade de suas dimensões biológicas, subjetivas, sociais, culturais e históricas.

Considerações finais: da medicina da doença à ciência da vida

A trajetória percorrida ao longo deste capítulo evidencia que a evolução do conceito de saúde não corresponde simplesmente à incorporação sucessiva de novos conhecimentos científicos, mas à transformação da própria maneira pela qual a sociedade compreende o corpo, a doença, a normalidade e a vida. Desde a consolidação da fisiologia experimental no século XIX até o desenvolvimento da Saúde Coletiva contemporânea, observa-se uma progressiva ampliação do objeto das ciências da saúde. O organismo humano permanece ocupando posição central nesse processo, mas deixa de representar seu único referencial explicativo. A saúde revela-se, progressivamente, como fenômeno cuja compreensão exige integrar processos biológicos, experiências subjetivas, relações sociais, organização econômica, cultura, história e política.

Seria impossível compreender essa transformação sem reconhecer a extraordinária contribuição da medicina científica. A fisiologia de Claude Bernard e Walter Cannon permitiu compreender os mecanismos responsáveis pela manutenção da homeostase; a microbiologia revolucionou o entendimento das doenças infecciosas; a farmacologia modificou radicalmente o prognóstico de inúmeras enfermidades; a epidemiologia tornou possível identificar fatores de risco e desenvolver estratégias preventivas que salvaram milhões de vidas. A medicina moderna representa uma das maiores conquistas intelectuais da humanidade e permanece absolutamente indispensável para qualquer projeto consistente de promoção da saúde.

Entretanto, o próprio sucesso desse paradigma revelou suas limitações epistemológicas. A extraordinária capacidade de explicar os mecanismos da doença não foi acompanhada por desenvolvimento equivalente na compreensão da saúde. Durante grande parte do século XX, consolidou-se a tendência de defini-la apenas como ausência de enfermidades ou como manutenção de parâmetros fisiológicos dentro de determinados limites estatísticos. Embora operacionalmente útil, essa definição mostrou-se insuficiente diante da crescente complexidade das doenças crônicas, das desigualdades sociais, das transformações demográficas e das múltiplas formas pelas quais indivíduos experimentam o adoecimento.

A crítica formulada por Georges Canguilhem representou um dos primeiros movimentos de ruptura com essa concepção reducionista ao demonstrar que a vida não se caracteriza pela preservação rígida de um equilíbrio fisiológico, mas pela capacidade continuamente renovada de instituir novas normas diante das mudanças do ambiente. O organismo saudável não é aquele que jamais adoece ou que permanece invariavelmente dentro de parâmetros considerados normais, mas aquele capaz de adaptar-se, reorganizar-se e continuar produzindo existência apesar das transformações impostas pela própria vida (CANGUILHEM, 2009).

Michel Foucault deslocou essa discussão para outro nível analítico ao demonstrar que o conhecimento biomédico nunca permaneceu restrito ao campo da clínica. A medicina moderna participou ativamente da construção das formas pelas quais as sociedades passaram a organizar populações, disciplinar comportamentos e produzir normas relativas à alimentação, sexualidade, maternidade, higiene, trabalho e envelhecimento. A saúde deixou de constituir apenas uma questão biológica para tornar-se igualmente objeto de governo das populações (FOUCAULT, 1979; FOUCAULT, 1988). No contexto brasileiro, Jurandir Freire Costa demonstrou que esse processo assumiu características particulares durante a consolidação da medicina higienista, quando o discurso científico passou a legitimar determinadas formas de organização familiar e de controle social, evidenciando que ciência e organização política mantiveram relações muito mais estreitas do que frequentemente se reconhece (COSTA, 2004).

Nas últimas décadas, essa dinâmica adquiriu novos contornos. A extraordinária expansão da epidemiologia dos fatores de risco, associada ao desenvolvimento das biotecnologias, da genética e dos sistemas digitais de monitoramento fisiológico, deslocou progressivamente o foco da medicina da doença instalada para a administração permanente das probabilidades futuras de adoecimento. David Castiel demonstra que o risco, originalmente concebido como instrumento estatístico para orientar políticas públicas, converteu-se em elemento organizador da experiência cotidiana dos indivíduos. Progressivamente, a sociedade passou a produzir um número crescente de pessoas que, embora assintomáticas, passaram a viver como portadoras de riscos continuamente monitorados, transformando a prevenção em um dos principais eixos estruturantes da cultura contemporânea da saúde (CASTIEL; GUILAM; FERREIRA, 2010).

É justamente nesse contexto que as reflexões de Iona Heath assumem importância singular. Ao criticar a crescente medicalização da vida cotidiana, a autora chama atenção para um fenômeno frequentemente negligenciado: a transformação da medicina em uma instituição culturalmente associada à promessa implícita de controle da própria finitude. Ainda que nenhum profissional afirme ser possível eliminar completamente a doença ou impedir a morte, o discurso preventivo contemporâneo frequentemente produz a expectativa de que o adequado gerenciamento dos fatores de risco permitiria controlar praticamente todos os eventos relevantes da trajetória biológica humana. O resultado paradoxal é a expansão simultânea da longevidade e da ansiedade relacionada à saúde. Vive-se mais, mas vive-se também sob permanente vigilância do próprio corpo (HEATH, 2007; HEATH, 2014).

É precisamente nesse cenário que a contribuição de Naomar de Almeida Filho adquire sua maior relevância epistemológica. Ao definir saúde como processo de produção da vida, o autor rompe simultaneamente com duas reduções características do pensamento biomédico contemporâneo. A primeira consiste em identificar saúde exclusivamente com ausência de doença. A segunda, mais recente, consiste em confundi-la com a administração permanente dos riscos futuros. Para Naomar, ambas permanecem insuficientes porque continuam tomando a doença como referência central para definir aquilo que significa estar saudável. Em oposição a essa lógica, propõe compreender a saúde como fenômeno positivo, dinâmico e multidimensional, produzido continuamente pela interação entre organismos biológicos, subjetividades individuais e formas historicamente determinadas de organização da vida social (ALMEIDA FILHO, 2000; 2011).

Essa mudança produz profundas implicações para todas as profissões da saúde. O objetivo do cuidado deixa de ser simplesmente restaurar parâmetros fisiológicos alterados ou minimizar probabilidades estatísticas de adoecimento. Torna-se igualmente necessário ampliar as capacidades concretas de indivíduos e coletividades produzirem autonomia, estabelecerem vínculos, exercerem cidadania, participarem da vida cultural, desenvolverem projetos existenciais e responderem criativamente às inevitáveis vulnerabilidades que caracterizam a condição humana. Sob essa perspectiva, a fisiologia continua indispensável, mas deixa de ser suficiente. A clínica permanece essencial, porém precisa dialogar permanentemente com a epidemiologia, a psicologia, a sociologia, a antropologia, a economia, a ética e a filosofia.

Essa compreensão também modifica profundamente a prática clínica cotidiana. Durante muito tempo, o sucesso terapêutico foi avaliado predominantemente pela redução da mortalidade, pela normalização dos exames laboratoriais ou pelo aumento da sobrevida. Embora esses indicadores permaneçam fundamentais, eles não podem constituir o único critério para avaliar a efetividade do cuidado. A verdadeira questão deixa de ser apenas quanto tempo uma pessoa vive e passa a incorporar outra dimensão igualmente relevante: como essa pessoa vive o tempo que possui. Um tratamento biologicamente eficaz, mas incapaz de preservar autonomia, vínculos afetivos, dignidade e significado existencial, alcança apenas parcialmente os objetivos da medicina.

Essa reflexão conduz inevitavelmente a uma reconsideração do próprio objeto das ciências da saúde. Talvez o maior desafio do século XXI não seja desenvolver tecnologias cada vez mais sofisticadas para identificar riscos progressivamente menores, mas construir modelos de cuidado capazes de integrar excelência científica e compromisso ético com a experiência concreta de viver. Isso implica reconhecer que saúde não constitui um estado permanente de equilíbrio fisiológico, tampouco uma promessa de imortalidade produzida pelo desenvolvimento tecnológico. Saúde corresponde à capacidade continuamente renovada de produzir vida apesar da vulnerabilidade, de construir projetos apesar da incerteza, de preservar autonomia apesar da doença e de encontrar sentido apesar da inevitabilidade da morte.

Sob essa perspectiva, a maior contribuição da Saúde Coletiva talvez tenha sido recolocar a vida — e não apenas a doença — no centro das ciências da saúde. Trata-se de uma mudança aparentemente sutil, mas conceitualmente profunda. Enquanto a medicina clássica perguntava “como evitar a doença?”, a perspectiva proposta por Naomar de Almeida Filho convida a formular uma questão epistemologicamente mais abrangente: “como produzir vida?”. Essa inversão desloca o horizonte das práticas sanitárias da simples preservação da homeostase para a promoção das capacidades humanas de existir, reconhecendo que o verdadeiro objeto da saúde não é apenas prolongar a sobrevivência biológica, mas ampliar, em todas as suas dimensões, as possibilidades concretas de viver.

Epílogo: por uma ciência da vida e não apenas da doença

Existe uma pergunta que acompanha silenciosamente toda a história da medicina moderna e que, paradoxalmente, raramente é formulada explicitamente: qual é, afinal, o verdadeiro objeto das ciências da saúde?

À primeira vista, a resposta parece evidente. Durante séculos, a medicina organizou-se em torno da investigação das doenças, do desenvolvimento de métodos diagnósticos cada vez mais precisos e da criação de intervenções terapêuticas capazes de modificar sua história natural. A própria estrutura das escolas médicas, dos hospitais universitários e dos sistemas de classificação internacional das doenças revela essa orientação. Os currículos são organizados por sistemas orgânicos; os hospitais distribuem-se por especialidades; as pesquisas concentram-se na compreensão dos mecanismos fisiopatológicos responsáveis pelo adoecimento. A doença tornou-se, legitimamente, o principal objeto do conhecimento biomédico.

Entretanto, quando se observa atentamente essa construção epistemológica, emerge uma aparente contradição. Nenhuma pessoa procura um profissional de saúde porque deseja compreender a fisiopatologia de sua enfermidade. Tampouco o objetivo último das políticas públicas consiste apenas em reduzir taxas de incidência, prevalência ou mortalidade. Todos esses conhecimentos possuem enorme importância precisamente porque representam meios para alcançar um fim maior: permitir que indivíduos e coletividades possam viver melhor. A doença nunca constituiu um fim em si mesma. Ela sempre foi o caminho utilizado para compreender como preservar ou restaurar aquilo que verdadeiramente importa: a vida.

Essa distinção, aparentemente elementar, produz consequências profundas para a organização das práticas em saúde. Quando a doença ocupa permanentemente o centro das análises, a tendência natural consiste em interpretar saúde como sua simples ausência. Quando o risco passa a dominar o pensamento epidemiológico, saúde transforma-se na redução contínua das probabilidades futuras de adoecimento. Em ambos os casos, a vida permanece definida negativamente. Vive-se porque não se está doente; considera-se saudável porque ainda não ocorreu determinado evento clínico. A saúde continua sendo explicada pela doença.

Foi exatamente essa inversão que Naomar de Almeida Filho identificou como um dos maiores impasses epistemológicos da epidemiologia contemporânea (ALMEIDA FILHO, 2000). Ao afirmar que saúde constitui o “ponto cego” da epidemiologia, o autor não pretendia diminuir a importância dos estudos sobre morbidade ou mortalidade. Seu argumento era mais profundo. A epidemiologia construiu um sofisticado aparato metodológico para medir a doença, mas ainda dispõe de poucos instrumentos conceituais para compreender aquilo que produz a vida. Em consequência, continua respondendo com enorme precisão por que as pessoas adoecem, mas encontra dificuldades para explicar por que determinadas pessoas, famílias e comunidades conseguem permanecer saudáveis mesmo quando submetidas a contextos profundamente adversos.

Curiosamente, pergunta semelhante foi formulada por Aaron Antonovsky ao desenvolver o conceito de salutogênese. Incomodado com o predomínio quase absoluto da patogênese nas ciências da saúde, Antonovsky propôs uma inversão aparentemente simples: em vez de perguntar exclusivamente por que as pessoas adoecem, deveríamos investigar por que muitas permanecem saudáveis apesar da exposição contínua a diferentes formas de estresse, privação e vulnerabilidade (ANTONOVSKY, 1979). Seu conceito de sentido de coerência (sense of coherence) descreve precisamente essa capacidade de compreender a realidade, mobilizar recursos e atribuir significado às experiências vividas, favorecendo respostas adaptativas diante das dificuldades. Embora desenvolvido em contexto distinto da Saúde Coletiva latino-americana, o pensamento de Antonovsky aproxima-se da proposta de Naomar ao deslocar o foco analítico da doença para a produção da saúde.

Essa mudança de perspectiva também encontra ressonância na obra de Hans-Georg Gadamer. Em O caráter oculto da saúde, o filósofo observa que a principal característica da saúde talvez seja justamente sua invisibilidade (GADAMER, 1996). O indivíduo saudável não permanece continuamente consciente do funcionamento de seu organismo. Vive, trabalha, ama, cria, sofre, aprende, estabelece vínculos e realiza projetos sem que o corpo ocupe permanentemente o centro de sua atenção. A doença, ao contrário, impõe-se como interrupção da existência. Ela torna o corpo visível exatamente porque restringe a liberdade de viver. A saúde, portanto, não se manifesta pela permanente consciência do organismo, mas pela possibilidade de esquecê-lo enquanto a vida acontece.

Essa reflexão adquire especial relevância diante da crescente incorporação de tecnologias digitais ao cotidiano. A expansão dos dispositivos vestíveis, dos algoritmos preditivos, da inteligência artificial aplicada à saúde e dos sistemas de monitoramento fisiológico contínuo oferece oportunidades extraordinárias para prevenção e tratamento de doenças. Entretanto, também introduz uma questão ética inédita: seria possível produzir uma sociedade biologicamente mais segura, porém existencialmente mais ansiosa? Em outras palavras, o aumento da capacidade de controlar indicadores fisiológicos necessariamente produz maior saúde ou apenas maior vigilância?

A própria fisiologia oferece elementos para responder a essa questão. Desde Claude Bernard e Walter Cannon sabe-se que a vida não corresponde à imobilidade dos sistemas biológicos, mas à sua capacidade de adaptação. O organismo saudável oscila continuamente. A frequência cardíaca modifica-se a cada emoção, a glicemia varia após cada refeição, hormônios apresentam ritmos circadianos, a pressão arterial responde às mudanças posturais e ao exercício físico. Em biologia, variabilidade frequentemente constitui sinal de vitalidade, não de doença. A busca obsessiva por estabilidade absoluta representa, paradoxalmente, uma negação do próprio funcionamento da vida.

Essa observação aproxima-se daquilo que Edgar Morin denomina pensamento complexo. Para Morin, os fenômenos vivos caracterizam-se precisamente pela capacidade de integrar ordem e desordem, estabilidade e transformação, permanência e mudança (MORIN, 2005). Um organismo completamente previsível e invariável seria incompatível com a própria definição de vida. O mesmo raciocínio aplica-se às sociedades humanas. Comunidades saudáveis não são aquelas nas quais inexistem conflitos, diferenças ou vulnerabilidades, mas aquelas capazes de produzir mecanismos coletivos de solidariedade, cooperação e adaptação diante das inevitáveis incertezas da existência.

Sob essa perspectiva, talvez o maior desafio das ciências da saúde no século XXI não consista em desenvolver tecnologias progressivamente mais sofisticadas para identificar riscos cada vez menores, mas em construir referenciais epistemológicos capazes de integrar conhecimento biológico, experiência humana e compromisso ético com a vida. Trata-se de reconhecer que a ciência permanece absolutamente indispensável, mas que sua finalidade não se esgota na produção de diagnósticos mais precoces ou tratamentos mais eficazes. O verdadeiro êxito das práticas em saúde deve ser medido pela capacidade de ampliar a liberdade humana de existir.

Essa compreensão também modifica profundamente o significado da prevenção. Prevenir não pode significar apenas impedir que doenças ocorram. Prevenir significa criar condições para que indivíduos e coletividades possam desenvolver plenamente suas potencialidades, estabelecer vínculos afetivos, participar da vida política, usufruir da cultura, exercer criatividade, produzir conhecimento, experimentar prazer e construir projetos de futuro. Em outras palavras, prevenir não consiste apenas em reduzir probabilidades de morte; consiste sobretudo em ampliar possibilidades de vida.

É exatamente nesse ponto que a contribuição de Naomar de Almeida Filho alcança sua maior originalidade. Ao propor que saúde seja compreendida como processo de produção da vida, o autor desloca definitivamente o eixo das ciências da saúde da patologia para a existência. A doença permanece importante, mas deixa de constituir o centro da reflexão. A fisiologia continua indispensável, mas deixa de monopolizar a explicação. A epidemiologia conserva seu papel estratégico, mas passa a dialogar com a filosofia, a antropologia, a sociologia e a ética. A medicina mantém sua extraordinária potência tecnológica, mas recupera sua vocação humanista.

Talvez seja essa a principal lição produzida pela Saúde Coletiva brasileira ao longo das últimas décadas. A vida humana nunca poderá ser reduzida à soma de parâmetros laboratoriais, fatores de risco ou algoritmos preditivos. Somos organismos biológicos, mas somos igualmente sujeitos históricos, culturais, políticos e afetivos. Somos capazes de produzir doença, mas também de produzir solidariedade, criatividade, autonomia e sentido. A saúde emerge exatamente dessa capacidade de construir existência em meio à vulnerabilidade que caracteriza a condição humana.

Por isso, a pergunta que inaugura este capítulo retorna agora sob nova perspectiva. O verdadeiro objeto das ciências da saúde não é apenas compreender por que as pessoas adoecem. É compreender, sobretudo, como indivíduos e sociedades produzem vida. Enquanto a primeira pergunta explica os mecanismos da enfermidade, a segunda revela as condições que tornam possível uma existência digna, livre e plenamente humana. Talvez seja precisamente essa mudança de pergunta — mais do que qualquer inovação tecnológica — que definirá os rumos das ciências da saúde nas próximas décadas.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA FILHO, Naomar. O conceito de saúde: ponto-cego da epidemiologia? Revista Brasileira de Epidemiologia, São Paulo, v. 3, n. 1-3, p. 4-20, 2000.

ALMEIDA FILHO, Naomar. O que é saúde? Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2011.

ANTONOVSKY, Aaron. Health, Stress and Coping. San Francisco: Jossey-Bass, 1979.

AYRES, José Ricardo de Carvalho Mesquita. Cuidado: trabalho e interação nas práticas de saúde. Rio de Janeiro: CEPESC; ABRASCO, 2009.

BERNARD, Claude. Introdução ao estudo da medicina experimental. São Paulo: Martins Fontes, 2005. (Obra original publicada em 1865).

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.

CANNON, Walter Bradford. The Wisdom of the Body. New York: W. W. Norton, 1932.

CASTIEL, Luis David; GUILAM, Maria Cristina Rodrigues; FERREIRA, Marcos Santos. Correndo o risco: uma introdução aos riscos em saúde. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2010.

CHALHOUB, Sidney. Cidade febril: cortiços e epidemias na Corte Imperial. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.

COSTA, Jurandir Freire. Ordem médica e norma familiar. 5. ed. Rio de Janeiro: Graal, 2004.

ELWYN, Glyn et al. Shared decision making: a model for clinical practice. Journal of General Internal Medicine, New York, v. 27, n. 10, p. 1361-1367, 2012.

FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: Graal, 1979.

FOUCAULT, Michel. História da sexualidade I: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

FOUCAULT, Michel. O nascimento da clínica. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2004.

GADAMER, Hans-Georg. O caráter oculto da saúde. Petrópolis: Vozes, 2006.

HEATH, Iona. Matters of Life and Death: Key Writings. Oxford: Radcliffe Publishing, 2007.

HEATH, Iona. Role of fear in overdiagnosis and overtreatment. BMJ, London, v. 349, p. g6123, 2014.

ILLICH, Ivan. A expropriação da saúde: nêmesis da medicina. 3. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1975.

MARMOT, Michael. The Status Syndrome: How Social Standing Affects Our Health and Longevity. London: Bloomsbury, 2004.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

PORTER, Roy. The Greatest Benefit to Mankind: A Medical History of Humanity. London: HarperCollins, 1997.

ROSE, Geoffrey. The Strategy of Preventive Medicine. Oxford: Oxford University Press, 1992.

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Brasiliense, 1984.