Da Frequência Cardíaca à Fisiologia Integrada: limites dos métodos tradicionais e avanços na identificação individualizada das zonas de treinamento por lactato, consumo de oxigênio e oximetria muscular

por | ago 30, 2026

A prescrição da intensidade constitui um dos componentes mais importantes do treinamento físico, particularmente nas modalidades de endurance, nas quais pequenas diferenças na carga de exercício podem produzir estímulos fisiológicos substancialmente distintos. Apesar dessa importância, ainda é extremamente comum que as zonas de treinamento sejam estabelecidas a partir de percentuais fixos da frequência cardíaca máxima, frequentemente organizados em cinco zonas arbitrárias, como, por exemplo, abaixo de 60%, entre 60 e 70%, entre 70 e 80%, entre 80 e 90% e acima de 90% da FCmáx. Embora esse sistema seja simples, acessível e operacionalmente conveniente, ele parte de uma premissa fisiologicamente problemática: a de que uma mesma porcentagem da frequência cardíaca máxima representaria, em diferentes indivíduos, o mesmo nível de perturbação metabólica e, consequentemente, o mesmo estímulo de treinamento.

Essa premissa não se sustenta quando se considera a grande variabilidade interindividual existente entre a carga externa e a resposta fisiológica. Um corredor iniciante, por exemplo, pode atingir 80 ou 85% da sua frequência cardíaca máxima durante uma corrida relativamente lenta, enquanto um corredor altamente treinado pode sustentar uma velocidade muito superior com a mesma porcentagem da FCmáx ou, inversamente, manter uma frequência cardíaca relativamente baixa enquanto produz uma carga externa consideravelmente maior. Essas diferenças resultam das adaptações cardiovasculares e metabólicas induzidas pelo treinamento, mas também de fatores como economia de movimento, volume sistólico, capacidade oxidativa muscular, densidade capilar, conteúdo mitocondrial, distribuição do fluxo sanguíneo, massa muscular ativa e capacidade de extração e utilização periférica do oxigênio.

Consequentemente, o fato de atletas de elite realizarem grande parte do seu volume de treinamento em baixas intensidades não significa que atletas menos treinados devam simplesmente copiar os mesmos valores absolutos de frequência cardíaca ou os mesmos percentuais da FCmáx. O que caracteriza uma intensidade fisiologicamente baixa para um atleta altamente treinado pode representar uma carga moderada ou mesmo elevada para outro indivíduo. As zonas de treinamento, portanto, não deveriam ser compreendidas primordialmente como faixas universais de frequência cardíaca, mas como representações práticas de diferentes domínios fisiológicos individualmente identificados.

A frequência cardíaca continua sendo uma variável extremamente importante no treinamento. Entretanto, é necessário compreender exatamente o que ela representa. A FC não mede diretamente o metabolismo muscular, a produção de energia, o consumo de oxigênio ou a concentração de lactato. Tampouco deve ser interpretada como uma medida direta do chamado “desgaste do coração”. A frequência cardíaca representa uma resposta cronotrópica e cardiovascular à demanda imposta pelo exercício e é influenciada por múltiplos fatores além da intensidade externa. Temperatura ambiente, desidratação, fadiga acumulada, estresse psicológico, qualidade do sono, altitude, consumo de estimulantes, estado de treinamento e deriva cardiovascular podem modificar a FC independentemente de alterações proporcionais na velocidade ou na potência produzida.

Um exemplo particularmente elucidativo ocorre durante exercícios prolongados. Um ciclista pode manter 200 watts constantes durante várias horas e observar uma elevação progressiva da frequência cardíaca. Se a interpretação da intensidade fosse baseada exclusivamente na FC, poderia parecer que o atleta está progressivamente migrando para zonas fisiologicamente superiores. Entretanto, a potência externa permanece constante. Essa elevação da frequência cardíaca pode estar associada à redução do volume plasmático, ao aumento da temperatura corporal, à desidratação e às modificações hemodinâmicas que caracterizam a deriva cardiovascular. Portanto, embora a FC forneça uma excelente informação sobre a resposta cardiovascular e a carga interna, ela não permite, isoladamente, determinar com precisão o domínio metabólico em que o atleta se encontra.

A percepção subjetiva do esforço, geralmente avaliada por meio das escalas de Borg ou de suas variações, acrescenta uma dimensão diferente à interpretação da intensidade. O RPE representa a integração consciente de múltiplas informações fisiológicas e perceptivas, incluindo esforço respiratório, desconforto muscular, fadiga, sensação térmica e dificuldade global da tarefa. Por esse motivo, possui grande valor para a autorregulação do treinamento. Um atleta experiente pode aprender a reconhecer com elevada consistência a sensação correspondente a um exercício fácil, moderado, forte ou muito intenso. Entretanto, a percepção também é influenciada pela experiência do indivíduo, pela motivação, pela competição, pela fadiga acumulada e pelo contexto psicológico. Dessa forma, o RPE é extremamente útil como complemento à avaliação fisiológica, mas não representa uma medida direta dos processos metabólicos que delimitam os diferentes domínios de intensidade.

A maior limitação surge quando frequência cardíaca e percepção de esforço são utilizadas para substituir a identificação fisiológica dos limiares. Uma estratégia mais robusta consiste em determinar inicialmente os pontos de transição fisiológica do indivíduo e, posteriormente, identificar quais valores de FC, potência, velocidade, ritmo e RPE correspondem a esses pontos. Nesse modelo, a frequência cardíaca deixa de ser o instrumento primário utilizado para “descobrir” arbitrariamente uma zona e passa a ser uma variável operacional associada a uma intensidade previamente caracterizada pela fisiologia do atleta.

A análise da concentração sanguínea de lactato representa uma das metodologias historicamente mais importantes para essa caracterização. Entretanto, também nesse caso é necessário evitar simplificações. Não existe um único “valor de lactato” universalmente válido para todos os atletas e para todas as modalidades. Diferentes metodologias foram desenvolvidas para identificar pontos de transição na curva lactato-carga, e cada uma delas possui fundamentos, vantagens e limitações específicos.

Uma das abordagens mais simples utiliza uma concentração fixa de 2 mmol·L⁻¹. Historicamente, esse valor foi utilizado como uma referência aproximada para identificar uma transição entre intensidades muito leves e intensidades nas quais a concentração de lactato começa a se elevar de maneira mais evidente. Entretanto, a utilização de um valor absoluto fixo apresenta uma limitação importante: a concentração de lactato em repouso e durante o exercício submáximo pode variar substancialmente entre indivíduos e também no mesmo indivíduo em diferentes condições. Um atleta pode apresentar alterações fisiologicamente relevantes antes ou depois de atingir exatamente 2 mmol·L⁻¹. Assim, embora esse valor possa ser útil como referência prática, não deve ser interpretado como uma fronteira fisiológica universal.

Problema semelhante ocorre com a utilização da concentração fixa de 4 mmol·L⁻¹, frequentemente associada ao conceito de OBLA, sigla derivada de Onset of Blood Lactate Accumulation. Durante décadas, a concentração de 4 mmol·L⁻¹ foi amplamente empregada como referência para identificar uma intensidade elevada associada ao acúmulo significativo de lactato. A grande vantagem dessa abordagem é sua simplicidade: a carga correspondente a 4 mmol·L⁻¹ pode ser estimada durante um teste incremental e utilizada como referência para prescrição do treinamento. Entretanto, sua principal limitação é precisamente a utilização de um valor absoluto para indivíduos fisiologicamente distintos. A intensidade correspondente a 4 mmol·L⁻¹ pode situar-se acima ou abaixo do limiar fisiologicamente mais relevante para determinado atleta. Dois atletas podem atingir 4 mmol·L⁻¹ em intensidades completamente diferentes em relação às suas respectivas capacidades metabólicas e sustentáveis.

O conceito de OBLA, portanto, deve ser compreendido como uma convenção operacional historicamente importante, e não como uma fronteira biológica universal. A concentração sanguínea de lactato resulta de um equilíbrio dinâmico entre aparecimento, transporte, utilização e remoção do lactato. Portanto, uma mesma concentração não significa necessariamente que os mesmos processos metabólicos estejam ocorrendo em todos os indivíduos. Além disso, fatores relacionados ao protocolo, como duração dos estágios, velocidade de progressão da carga e momento da coleta, podem modificar a curva obtida.

Outra metodologia amplamente utilizada é o método Dmax, que procura identificar matematicamente o ponto da curva de lactato que apresenta a maior distância perpendicular em relação a uma linha traçada entre pontos extremos da relação lactato-intensidade. A principal contribuição do Dmax é reduzir parcialmente a dependência de uma concentração fixa arbitrária. Em vez de determinar previamente que o limiar ocorre em 2 ou 4 mmol·L⁻¹, o método utiliza a geometria da própria curva individual para estimar um ponto de inflexão. Essa característica torna o procedimento potencialmente mais individualizado. Contudo, o resultado depende da qualidade da curva, do número de estágios, da seleção dos pontos utilizados e do modelo matemático empregado. Assim, diferentes protocolos podem gerar diferentes resultados mesmo quando aplicados ao mesmo atleta.

A identificação do LT1, ou primeiro limiar de lactato, procura caracterizar a intensidade na qual a concentração de lactato começa a apresentar uma elevação sistemática acima dos valores basais. Fisiologicamente, esse ponto costuma estar associado à transição entre o domínio de intensidade moderada e uma região em que a perturbação metabólica começa a aumentar progressivamente. Entretanto, é importante reconhecer que o LT1 não possui uma única definição operacional universal. Pode ser identificado por diferentes critérios, como aumento absoluto em relação ao valor basal, mudança na inclinação da curva ou métodos matemáticos específicos. Essa diversidade metodológica explica por que diferentes laboratórios podem encontrar valores ligeiramente diferentes para o mesmo atleta.

Do ponto de vista da prescrição do treinamento, o LT1 possui enorme relevância porque representa uma referência importante para a organização das intensidades predominantemente aeróbicas. Em atletas treinados, uma proporção substancial do volume de treinamento costuma ser realizada em intensidades abaixo ou próximas desse primeiro ponto de transição fisiológica. Entretanto, isso não significa que todos devam treinar em um determinado percentual de FCmáx considerado convencionalmente como “Zona 1” ou “Zona 2”. O valor da frequência cardíaca correspondente ao LT1 pode variar amplamente entre indivíduos.

O LT2, por sua vez, refere-se a uma segunda transição na relação entre intensidade e concentração de lactato, geralmente associada ao aumento mais acentuado da concentração sanguínea à medida que a carga se aproxima de intensidades elevadas. Assim como o LT1, o LT2 não é identificado por um único critério universal. Dependendo da metodologia, pode ser estimado por um ponto de inflexão da curva, por diferentes modelos matemáticos, pelo Dmax, por critérios de aumento individualizado ou por outras abordagens.

Essa ausência de uma definição única não representa necessariamente uma fraqueza da fisiologia, mas demonstra que os limiares são fenômenos biológicos complexos e não simples pontos matemáticos perfeitamente delimitados. O organismo não muda instantaneamente de um estado fisiológico para outro em um único watt, em uma única velocidade ou em uma única concentração de lactato. Os métodos procuram estimar regiões ou intensidades associadas a mudanças importantes no comportamento metabólico.

Os métodos individualizados de determinação dos limiares procuram justamente reduzir as limitações dos valores absolutos fixos. Em vez de estabelecer previamente que todos os atletas devem apresentar um determinado limiar em 2 ou 4 mmol·L⁻¹, esses métodos consideram a resposta basal e o comportamento individual da curva. Um atleta com concentração basal baixa e grande capacidade de remoção de lactato pode apresentar uma curva substancialmente diferente daquela observada em outro atleta, mesmo quando ambos possuem desempenho semelhante. A utilização de critérios individualizados permite que a interpretação esteja mais relacionada ao comportamento fisiológico específico do sujeito do que a uma convenção populacional.

Entre as diferentes abordagens, destaca-se o conceito de IAT, ou Individual Anaerobic Threshold, desenvolvido a partir da tentativa de estabelecer uma intensidade individual associada ao equilíbrio entre produção e remoção de lactato. A proposta fundamental dos métodos de limiar anaeróbio individual é reconhecer que uma concentração fixa não representa necessariamente a mesma condição metabólica em diferentes atletas. Embora o IAT e suas variações tenham sido amplamente utilizados, sua determinação também depende do protocolo, da metodologia empregada e dos critérios matemáticos adotados.

Além do IAT, diversos outros modelos matemáticos procuram identificar pontos de mudança na inclinação da curva de lactato. Esses modelos podem utilizar regressões, modelos de dois segmentos, transformações logarítmicas, análise de derivadas ou algoritmos destinados a identificar pontos de quebra. O benefício desses procedimentos é aumentar a objetividade e reduzir a dependência da interpretação visual. A limitação, entretanto, é que o resultado continua dependente dos dados de entrada. Um protocolo inadequado, com estágios muito curtos ou coleta insuficiente, pode produzir uma curva que não representa adequadamente a cinética do lactato.

Por essa razão, o conceito de máximo estado estável de lactato, ou MLSS, ocupa uma posição particularmente importante. O MLSS representa a maior intensidade em que o organismo consegue manter uma relativa estabilidade da concentração de lactato durante exercício prolongado em carga constante. Por estar diretamente relacionado à sustentabilidade metabólica da intensidade, sua determinação direta é considerada uma referência fisiológica robusta para a caracterização da transição entre intensidades sustentáveis e intensidades que produzem perturbação metabólica progressiva. Entretanto, o MLSS apresenta uma desvantagem operacional importante: sua determinação direta exige múltiplas sessões, geralmente realizadas em intensidades próximas à região estimada do limiar, com coletas repetidas durante exercícios prolongados.

O estudo de Hering e Stepan, desenvolvido com nadadores de longa distância, ilustra a relevância dessa abordagem ao demonstrar a estreita relação entre a carga associada ao MLSS e o desempenho individual. No grupo investigado, a velocidade média competitiva nas provas analisadas foi superior à velocidade média correspondente ao estado máximo estável de lactato, mas a magnitude dessa diferença variou entre os atletas, reforçando a necessidade de interpretação individual. A contribuição prática desse tipo de investigação não está em estabelecer uma diferença percentual universal entre limiar e desempenho competitivo, mas em demonstrar que pequenas alterações de intensidade podem modificar substancialmente o comportamento metabólico e que a relação entre velocidade de prova e limiar não é idêntica para todos os indivíduos (HERING; STEPAN, 2021).

Nesse contexto, métodos de campo como a Critical Swim Speed, ou CSS, apresentam grande interesse prático. A CSS pode ser calculada a partir do desempenho em dois ou mais contrarrelógios e fornece uma estimativa de velocidade crítica capaz de organizar a prescrição do treinamento sem a necessidade de coleta sanguínea. Essa característica torna o método especialmente atraente para treinadores e atletas que não possuem acesso regular a laboratórios. Entretanto, a CSS não deve ser automaticamente considerada equivalente ao MLSS em todos os indivíduos e em todas as condições. Ela constitui uma estimativa de uma intensidade crítica, cuja relação com os limiares metabólicos pode ser próxima, mas depende do protocolo e das características individuais.

Enquanto o lactato fornece uma importante janela para a resposta metabólica, a análise do consumo de oxigênio permite observar a resposta sistêmica do organismo à progressão da carga. É nesse contexto que a utilização de sistemas portáteis de ergoespirometria, como o VO₂ Master, acrescenta uma dimensão fisiológica que não pode ser obtida simplesmente pela análise da frequência cardíaca.

O VO₂ representa a quantidade de oxigênio utilizada pelo organismo durante o exercício e, portanto, está diretamente relacionado à resposta oxidativa sistêmica. Durante um teste incremental, a análise contínua do VO₂ permite observar como o organismo responde ao aumento progressivo da velocidade ou da potência. Essa informação é particularmente relevante porque duas cargas externas aparentemente semelhantes podem produzir diferentes custos metabólicos.

O VO₂ Master permite acompanhar continuamente o consumo de oxigênio, possibilitando determinar a relação individual entre a carga externa e a resposta oxidativa. Por exemplo, dois corredores podem correr à mesma velocidade, mas um deles pode apresentar menor consumo de oxigênio. Essa diferença pode refletir maior economia de corrida, embora a interpretação exata dependa do protocolo e de outros fatores biomecânicos. Da mesma forma, o acompanhamento do VO₂ durante sucessivas avaliações permite observar se uma determinada velocidade ou potência passa a exigir menor consumo de oxigênio após um período de treinamento, o que pode indicar uma melhoria da economia ou da eficiência da locomoção.

O sistema também permite acompanhar a ventilação durante o exercício. A resposta ventilatória constitui uma parte fundamental da adaptação ao aumento da demanda metabólica. Entretanto, é importante fazer uma distinção metodológica: o VO₂ Master mede VO₂ e ventilação, mas não mede diretamente a produção de dióxido de carbono, VCO₂. Consequentemente, não deve ser utilizado para atribuir ao equipamento todos os índices que dependem da análise simultânea de VO₂ e VCO₂, como o RER ou determinados critérios clássicos de identificação dos limiares ventilatórios. Essa limitação não elimina o valor da análise do VO₂ e da ventilação, mas define corretamente o alcance fisiológico da tecnologia.

Outro aspecto particularmente relevante é a avaliação da cinética do VO₂ em relação à carga. Durante o exercício incremental, o consumo de oxigênio não é apenas um valor isolado; sua dinâmica em resposta ao aumento da potência ou da velocidade fornece informações sobre o comportamento do metabolismo oxidativo. Em protocolos adequadamente estruturados, é possível relacionar cada incremento de carga com a resposta do VO₂ e verificar como essa relação se modifica após intervenções de treinamento. Em exercícios de carga constante, a cinética do VO₂ também permite investigar a velocidade com que o sistema oxidativo responde à nova demanda metabólica.

O conceito de custo de oxigênio para determinada velocidade ou potência representa outra aplicação particularmente relevante. Se um ciclista necessita de menor quantidade de oxigênio para produzir determinada potência, ou se um corredor consome menos oxigênio para sustentar determinada velocidade, isso pode representar uma alteração funcional importante. A interpretação, contudo, deve ser individualizada e realizada com protocolos reproduzíveis, pois fatores como temperatura, fadiga, modalidade e características do teste podem modificar o consumo de oxigênio.

A análise simultânea da frequência cardíaca associada às respostas metabólicas completa essa perspectiva. O objetivo não é abandonar a FC, mas contextualizá-la. Em vez de afirmar simplesmente que 150 bpm representam uma determinada zona, torna-se possível observar qual VO₂ corresponde a 150 bpm para aquele atleta, em qual velocidade ou potência essa resposta ocorre e como essa relação se modifica com o treinamento. A frequência cardíaca passa, então, a ser interpretada em associação com uma resposta fisiológica mensurada.

Essa abordagem representa uma evolução importante em relação aos sistemas baseados exclusivamente em percentuais de FCmáx. O problema não está na utilização da frequência cardíaca, mas em assumir que ela possui significado fisiológico universal quando expressa isoladamente.

A análise sistêmica do consumo de oxigênio, entretanto, não informa diretamente o que está acontecendo em cada músculo responsável pelo movimento. O organismo pode apresentar uma resposta sistêmica semelhante enquanto músculos específicos apresentam diferentes limitações relacionadas à oferta e à utilização periférica de oxigênio. É nesse ponto que a espectroscopia no infravermelho próximo, ou NIRS, acrescenta uma dimensão complementar.

O Moxy Monitor permite acompanhar a oxigenação do músculo avaliado por meio da análise da saturação muscular de oxigênio, SmO₂, e de uma medida relacionada à hemoglobina total no volume de tecido investigado. A interpretação correta da SmO₂ é fundamental. Ela não deve ser descrita simplesmente como uma medida direta do “consumo de oxigênio pelo músculo”. A SmO₂ representa o resultado dinâmico da relação entre a disponibilidade de oxigênio e sua utilização pelo tecido analisado.

Essa característica permite acompanhar o comportamento da desoxigenação durante o incremento da carga. À medida que a intensidade aumenta, a demanda metabólica muscular também aumenta. A resposta da SmO₂ pode revelar como o equilíbrio entre oferta e utilização de oxigênio se modifica ao longo do teste. Um atleta pode apresentar redução progressiva da SmO₂ em um músculo específico, enquanto outro demonstra comportamento diferente na mesma intensidade relativa. A interpretação dessa resposta pode fornecer informações sobre a participação periférica daquele músculo na limitação ao exercício.

O comportamento da reoxigenação também apresenta grande relevância. Após redução da carga ou interrupção do exercício, a velocidade e o padrão de recuperação da SmO₂ podem fornecer informações complementares sobre a recuperação da oxigenação no músculo avaliado. A interpretação desses dados deve considerar cuidadosamente o protocolo utilizado, pois diferentes métodos de recuperação, cargas prévias e características do atleta podem modificar a resposta.

Outra aplicação relevante é a identificação de possíveis diferenças entre músculos ou membros. Um atleta pode apresentar comportamento semelhante na frequência cardíaca e no consumo sistêmico de oxigênio, mas diferenças importantes na oxigenação entre os músculos monitorados. Da mesma forma, a comparação entre membros pode revelar assimetrias funcionais que não seriam detectadas pela análise exclusivamente sistêmica. Essas informações podem ser particularmente relevantes em situações nas quais lesões prévias, diferenças biomecânicas ou alterações na ativação muscular modificam a participação relativa de cada segmento durante o exercício.

A principal contribuição fisiológica da NIRS, portanto, é permitir uma análise mais próxima da relação entre oferta e utilização local de oxigênio. Enquanto o VO₂ representa uma resposta integrada de todo o organismo, a SmO₂ permite observar o comportamento de uma região muscular específica. As duas medidas não são redundantes. Pelo contrário, podem ser altamente complementares.

Considere-se, por exemplo, dois ciclistas produzindo a mesma potência, apresentando frequência cardíaca semelhante e, aparentemente, submetidos à mesma carga. A análise do VO₂ pode demonstrar diferenças no custo metabólico sistêmico entre eles. Simultaneamente, a análise da SmO₂ pode demonstrar que um atleta apresenta maior redução da oxigenação em determinado grupo muscular, enquanto outro mantém maior estabilidade. A interpretação integrada pode fornecer uma visão mais completa dos possíveis fatores que limitam o desempenho.

A combinação entre VO₂ Master e Moxy Monitor, portanto, permite integrar dois níveis distintos da fisiologia do exercício. O primeiro fornece uma visão predominantemente sistêmica, relacionando a carga externa com o consumo de oxigênio, a ventilação, a cinética da resposta oxidativa, o custo de oxigênio e a frequência cardíaca. O segundo acrescenta uma dimensão periférica e localizada, permitindo acompanhar a dinâmica da oxigenação no músculo investigado, incluindo a desoxigenação durante o exercício, a reoxigenação durante a recuperação e possíveis diferenças entre músculos ou membros.

Quando essas informações são combinadas com a análise de lactato, potência ou velocidade, frequência cardíaca e percepção subjetiva de esforço, torna-se possível construir uma caracterização fisiológica substancialmente mais individualizada. A sequência lógica deixa de ser simplesmente “determinar a Zona 2 como 70% da FCmáx” e passa a ser identificar inicialmente como o organismo responde ao aumento da carga e, posteriormente, determinar quais valores práticos correspondem às diferentes transições fisiológicas.

Assim, uma avaliação integrada pode relacionar, em cada estágio do teste, a potência ou velocidade produzida, o consumo sistêmico de oxigênio, a frequência cardíaca, a concentração sanguínea de lactato, a percepção subjetiva de esforço e o comportamento da oxigenação muscular. A partir dessa integração, torna-se possível estabelecer zonas individualizadas e, então, traduzir essas zonas para as ferramentas utilizadas no treinamento cotidiano.

Por exemplo, após identificar uma intensidade associada a determinada transição fisiológica, o atleta pode descobrir que ela corresponde a 250 watts, 145 bpm, determinado valor de VO₂, um RPE de 3 ou 4 e um comportamento específico da SmO₂. Durante a rotina de treinamento, não será necessário realizar uma ergoespirometria em todas as sessões. A potência, a frequência cardíaca e a percepção subjetiva podem ser utilizadas como instrumentos práticos para reproduzir e monitorar uma intensidade previamente caracterizada de forma mais abrangente.

Essa é uma diferença conceitual fundamental. A frequência cardíaca não precisa ser abandonada; ela precisa ser contextualizada. Seu maior valor prático está justamente em acompanhar longitudinalmente a resposta cardiovascular a intensidades cuja fisiologia já foi individualmente investigada.

Da mesma forma, o RPE não deve ser considerado inferior por ser subjetivo. Ao contrário, a percepção do esforço representa uma dimensão indispensável da resposta ao treinamento. Um atleta que aprende a reconhecer as sensações associadas às diferentes intensidades torna-se menos dependente de instrumentos e mais capaz de ajustar sua carga às condições reais do organismo. Entretanto, quando o objetivo é identificar com maior precisão os domínios fisiológicos, a percepção subjetiva torna-se ainda mais útil quando calibrada a partir de medidas objetivas.

A análise integrada também permite compreender melhor por que dois atletas podem apresentar a mesma frequência cardíaca e, ainda assim, estar submetidos a estímulos fisiológicos diferentes. A FC representa predominantemente uma resposta do sistema cardiovascular, enquanto o desempenho de endurance depende de uma cadeia integrada que envolve captação pulmonar de oxigênio, transporte cardiovascular, distribuição do fluxo sanguíneo, difusão, extração e utilização periférica de oxigênio, metabolismo muscular e capacidade de manutenção da homeostase.

É justamente nessa cadeia que reside a principal vantagem de uma avaliação integrada. O lactato acrescenta informação sobre a resposta metabólica; o VO₂ caracteriza a resposta oxidativa sistêmica; a ventilação acrescenta informações sobre a resposta respiratória; a frequência cardíaca acompanha a resposta cardiovascular; a SmO₂ permite observar a dinâmica periférica da oxigenação muscular; e o RPE informa como o atleta percebe a intensidade global.

Nenhuma dessas variáveis, isoladamente, descreve completamente a fisiologia do exercício. A maior precisão não resulta simplesmente da substituição da frequência cardíaca pelo VO₂ ou da substituição do lactato pela oximetria muscular. Ela resulta da integração de medidas que representam diferentes componentes da resposta fisiológica.

Portanto, a pergunta mais apropriada para a prescrição individualizada do treinamento não deveria ser simplesmente “qual percentual da minha frequência cardíaca máxima corresponde à Zona 2?”. A questão fisiologicamente mais relevante é identificar em que intensidade ocorrem, naquele indivíduo, as principais transições na resposta metabólica, oxidativa, cardiovascular e muscular e, posteriormente, determinar quais valores de potência, velocidade, frequência cardíaca e percepção de esforço correspondem a essas transições.

Essa mudança de perspectiva permite transformar as zonas de treinamento de simples faixas numéricas padronizadas em instrumentos de prescrição verdadeiramente individualizados. A frequência cardíaca e o RPE continuam sendo ferramentas essenciais para o monitoramento diário, mas a incorporação do consumo de oxigênio, da oximetria muscular e, quando possível, da análise do lactato permite fundamentar a identificação das zonas em parâmetros fisiológicos mais diretamente relacionados às respostas sistêmicas e periféricas do atleta.

Comparação entre os principais métodos de identificação e monitoramento da intensidade 

Método Principal variável avaliada Principal contribuição para a identificação das zonas Principais limitações
% da FCmáx Frequência cardíaca Método simples e amplamente acessível para estimar intensidade Grande variabilidade individual; a mesma %FCmáx não representa necessariamente o mesmo domínio fisiológico
FC de reserva FC ajustada à FC de repouso e máxima Individualiza parcialmente a prescrição cardiovascular Continua sendo uma medida indireta das respostas metabólicas
RPE / Borg Percepção subjetiva de esforço Permite autorregulação e integra múltiplas sensações fisiológicas Influenciado por experiência, motivação, fadiga e contexto
Velocidade ou potência Carga externa Alta precisão e excelente aplicabilidade no treinamento diário A mesma carga externa pode produzir diferentes respostas internas
Lactato a 2 mmol·L⁻¹ Concentração sanguínea fixa Referência prática para exercício predominantemente aeróbico Valor fixo não representa necessariamente a mesma transição fisiológica em todos os atletas
Lactato a 4 mmol·L⁻¹ / OBLA Concentração sanguínea fixa Referência histórica para intensidades elevadas e acúmulo de lactato A concentração de 4 mmol·L⁻¹ não é um limiar universal
Dmax Geometria da curva lactato-intensidade Utiliza a forma individual da curva para estimar um ponto de transição Resultado depende do protocolo, dos dados e do modelo matemático
LT1 Primeiro aumento sistemático do lactato Referência importante para caracterizar a transição para intensidades mais exigentes Diferentes critérios podem identificar valores diferentes
LT2 Segunda transição da curva de lactato Importante para caracterizar a transição para intensidades elevadas Não possui uma única definição universal
Métodos individualizados Comportamento individual da curva Reduzem a dependência de valores absolutos fixos Dependem da qualidade do protocolo e dos critérios utilizados
IAT e outros modelos matemáticos Relação individual entre lactato e carga Buscam identificar limiares individualmente Diferentes algoritmos e protocolos podem produzir estimativas distintas
MLSS Estabilidade do lactato em exercício prolongado Referência fisiológica robusta para a maior intensidade metabolicamente sustentável Determinação direta é demorada e geralmente exige múltiplas sessões
VO₂ Master Consumo de oxigênio e ventilação Permite analisar a resposta oxidativa sistêmica, a relação VO₂-carga, a cinética e o custo de O₂ Requer equipamento, protocolo adequado e não mede VCO₂ para cálculo direto de RER
Moxy Monitor / NIRS SmO₂ e dinâmica da oxigenação muscular Permite observar a resposta periférica local, desoxigenação, reoxigenação e possíveis assimetrias Representa o tecido e o local muscular avaliados; interpretação depende do protocolo e do posicionamento
Abordagem integrada Lactato + VO₂ + SmO₂ + FC + carga externa + RPE Caracterização multidimensional e individualizada das zonas de treinamento Maior complexidade operacional e necessidade de integração e interpretação fisiológica

Referências

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