Da demanda energética à infraestrutura oxidativa: integração entre biogênese mitocondrial, angiogênese capilar e metabolismo do lactato na adaptação do músculo esquelético ao treinamento de endurance

por | out 1, 2026

A adaptação do músculo esquelético ao treinamento de endurance não deve ser compreendida como simples aumento isolado da capacidade mitocondrial, da densidade capilar ou da utilização de lipídios. Trata-se de uma remodelação integrada do sistema responsável por converter energia química em trabalho mecânico, na qual demanda energética, sinalização intracelular, oferta de oxigênio e substratos, transporte de metabólitos, estado redox, arquitetura microvascular e organização espacial das mitocôndrias passam a operar de maneira progressivamente coordenada. A contração muscular perturba a homeostase energética e aumenta a hidrólise de ATP, alterando as concentrações de ADP, AMP, Pi e Ca²⁺ e desencadeando redes de sinalização que convergem sobre a expressão gênica e a remodelação fenotípica da fibra muscular. O exercício de endurance constitui, portanto, simultaneamente um evento mecânico, metabólico, bioenergético e transcricional (REISMAN; HAWLEY; HOFFMAN, 2024).

Essa perspectiva é particularmente importante para interpretar o treinamento realizado em intensidades relativamente baixas, abaixo ou próximas ao primeiro limiar de lactato (LT1), frequentemente denominado, na prática contemporânea, treinamento de “Zona 2”. Embora não exista fundamento para considerar uma zona específica de intensidade como estímulo molecular exclusivo da biogênese mitocondrial ou da angiogênese, existe uma hipótese fisiológica consistente segundo a qual grandes volumes de contração predominantemente oxidativa, realizados em intensidades sustentáveis e com recrutamento preferencial das unidades motoras de baixo limiar, podem favorecer a construção cumulativa de uma infraestrutura formada por fibras oxidativas densamente capilarizadas, abundantes em mitocôndrias e metabolicamente preparadas para receber, transportar e oxidar substratos provenientes de regiões mais glicolíticas do músculo durante esforços de maior intensidade. Essa hipótese adquire particular interesse quando os mecanismos de sinalização mitocondrial, angiogênese, transporte de lactato e especialização espacial das mitocôndrias são analisados conjuntamente.

A demanda de ATP como princípio organizador do metabolismo muscular

O ponto de partida para compreender essa adaptação é a extraordinária necessidade de manter a concentração intracelular de ATP relativamente estável apesar de aumentos muito grandes em sua taxa de hidrólise durante a contração. O músculo contém apenas uma pequena reserva de ATP; portanto, qualquer aumento da ATPase miofibrilar precisa ser imediatamente acompanhado pela ressíntese de ATP a partir do sistema fosfagênio, da glicólise e da fosforilação oxidativa. Esse princípio constitui o núcleo do modelo bioenergético desenvolvido por Alois Mader, posteriormente ampliado pela Escola de Colônia. No modelo, a alteração do estado de fosforilação celular decorrente da hidrólise de ATP aumenta ADP, AMP e Pi, que não representam apenas produtos metabólicos, mas sinais regulatórios capazes de ativar as vias produtoras de ATP (MADER, 2003; WACKERHAGE et al., 2022).

A fosfocreatina atua inicialmente como tampão energético por meio da reação da creatina quinase. À medida que a PCr diminui, o ADP livre aumenta e passa a estimular tanto a fosforilação oxidativa quanto a glicólise. Entretanto, essas duas vias apresentam características distintas de ativação. No formalismo de Mader, a fosforilação oxidativa responde ao aumento de ADP de forma diferente da glicólise, enquanto a atividade glicolítica é fortemente dependente de ADP e AMP e modulada negativamente por ATP, citrato e redução do pH. A fosfofrutoquinase (PFK), um dos principais pontos regulatórios da glicólise, é ativada pelo aumento de ADP, AMP e Pi, mas inibida quando o meio intracelular se torna suficientemente ácido (MADER, 2003).

Essa concepção é relevante porque rompe com a interpretação simplista segundo a qual o metabolismo “aeróbio” e o “anaeróbio” seriam compartimentos que se ligam e desligam sucessivamente conforme aumenta a intensidade. Ambas as vias operam simultaneamente e suas contribuições relativas emergem das propriedades cinéticas dos sistemas enzimáticos e da capacidade oxidativa disponível. Em baixa intensidade, a taxa glicolítica e, portanto, a formação de piruvato podem ser inferiores à capacidade oxidativa mitocondrial de utilização desse substrato. O déficit relativo de piruvato necessário para sustentar o ciclo dos ácidos tricarboxílicos pode então ser complementado pela formação de acetil-CoA proveniente da β-oxidação dos ácidos graxos. À medida que aumenta a intensidade, o fluxo glicolítico cresce de maneira mais acentuada, reduzindo progressivamente esse déficit e aumentando a participação dos carboidratos (HECK; BARTMUS; BENeke, 2022).

Essa relação ajuda a explicar por que o lactato sanguíneo não deve ser interpretado simplesmente como marcador de insuficiência de oxigênio. A própria tradição da Escola de Colônia empregava “anaeróbio” para designar a produção glicolítica de ATP associada à formação de lactato, e não para afirmar que a glicólise seria desencadeada necessariamente por hipóxia. O MLSS corresponde à maior intensidade em que a concentração sanguínea de lactato permanece aproximadamente estável, sendo fisiologicamente distinto do LT1, no qual se identifica a primeira elevação sistemática do lactato acima de seus valores basais (HECK; WACKERHAGE, 2024).

O modelo de Mader acrescenta ainda uma interpretação particularmente interessante para exercícios acima do máximo estado estável de lactato. ADP e AMP aumentam rapidamente e ativam a PFK, elevando a glicólise e a formação de lactato. Com a continuidade do exercício intenso, a acidificação intracelular pode inibir progressivamente a PFK, reduzindo a contribuição glicolítica para a ressíntese de ATP. Se a demanda mecânica permanece constante, essa redução precisa ser compensada por aumento da contribuição oxidativa, mecanismo proposto por Mader como um dos determinantes do componente lento do V̇O₂ (MADER, 2003; WACKERHAGE et al., 2022). É importante reconhecer que essa interpretação não exclui outros mecanismos contemporaneamente propostos para o componente lento, como alterações de eficiência contrátil e recrutamento adicional de unidades motoras, mas demonstra como a regulação metabólica pode produzir fenômenos sistêmicos observáveis no V̇O₂.

Da perturbação energética à biogênese mitocondrial

A mesma perturbação metabólica que regula agudamente a ressíntese de ATP funciona como sinal para adaptação crônica. A biogênese mitocondrial não corresponde simplesmente à produção de novas organelas completas, mas a um processo coordenado de síntese, importação e incorporação de proteínas codificadas pelos genomas nuclear e mitocondrial, acompanhado por remodelação estrutural e funcional da rede mitocondrial. O exercício de endurance ativa uma extensa rede de quinases e proteínas regulatórias, entre as quais AMPK, CaMK, p38 MAPK e PKA, além de mecanismos dependentes de NAD⁺, sirtuínas e sinais originados na própria mitocôndria (REISMAN; HAWLEY; HOFFMAN, 2024).

O PGC-1α (peroxisome proliferator-activated receptor gamma coactivator 1-alpha) ocupa posição central nessa rede. Trata-se de um coativador transcricional capaz de interagir com diferentes fatores de transcrição e coordenar programas relacionados ao metabolismo oxidativo, conteúdo mitocondrial, utilização de substratos e, significativamente, também à angiogênese. A contração muscular aumenta a concentração citosólica de Ca²⁺, ativa CaMK e p38 MAPK e pode aumentar a expressão de PGC-1α por mecanismos envolvendo ATF-2. Paralelamente, a perturbação do estado energético celular aumenta a razão AMP/ATP e favorece a ativação da AMPK, que pode fosforilar PGC-1α e modular sua atividade. O exercício também altera o estado de acetilação de PGC-1α por mecanismos associados a NAD⁺ e SIRT1. Dessa maneira, Ca²⁺, estado energético e estado redox convergem sobre um mesmo programa adaptativo.

A ativação de PGC-1α promove sua translocação nuclear e interação com fatores de transcrição envolvidos na expressão de proteínas mitocondriais. A comunicação entre núcleo e mitocôndria torna-se, assim, bidirecional: a mitocôndria responde à demanda energética, mas também gera sinais metabólicos e redox que modificam a transcrição nuclear. AMPK, SIRT1, p38 MAPK, NRFs e outros reguladores formam uma rede, e não uma cadeia linear simples. A revisão de Reisman, Hawley e Hoffman (2024) enfatiza justamente que a visão clássica centrada em poucas quinases é insuficiente diante dos dados atuais de fosfoproteômica, que revelam extensa interconectividade entre sinalização nuclear e mitocondrial.

A consequência de exposições repetidas a esses sinais é aumento da capacidade oxidativa. O treinamento modifica não apenas a quantidade de proteínas mitocondriais, mas também o potencial para oxidação de piruvato e ácidos graxos, transporte de elétrons, geração do gradiente eletroquímico de prótons e síntese de ATP. A adaptação, portanto, não deve ser reduzida à ideia de “mais mitocôndrias”: trata-se de aumentar a capacidade funcional e reorganizar a rede mitocondrial de maneira compatível com a demanda energética local.

Essa distinção torna-se especialmente relevante quando se considera que as mitocôndrias musculares não constituem uma população homogênea. Evidências recentes identificam mitocôndrias interfibrilares (IFM), subsarcolemais (SSM) e uma população particularmente interessante localizada adjacente aos capilares, denominada mitocôndrias paravasculares (PVM). Parry et al. (2024) demonstraram que as PVM são maiores, mais arredondadas, apresentam maior conectividade mitocôndria-mitocôndria e maior ativação basal da cadeia transportadora de elétrons do que IFM e SSM.

A importância desse achado é conceitual. A proximidade do capilar parece ser um determinante mais importante da especialização bioenergética mitocondrial do que a simples proximidade do sarcolema. As PVM apresentam maior fluxo basal de NADH apesar de um pool de NADH mais oxidado e de maior potencial de membrana, indicando elevada condutância da cadeia respiratória. Além disso, sua maior conectividade com outras mitocôndrias é compatível com um modelo no qual regiões próximas à fonte vascular contribuem para gerar e distribuir força próton-motriz pela rede mitocondrial. As IFM, por sua vez, apresentam maior interação com retículo sarcoplasmático e gotículas lipídicas e situam-se próximas às regiões de elevada demanda de ATP contrátil (PARRY et al., 2024). Assim, a fibra oxidativa pode ser entendida menos como uma coleção de organelas independentes e mais como uma arquitetura espacial de produção, transmissão e utilização de energia.

Angiogênese: construir a interface entre circulação e metabolismo oxidativo

Se o aumento da capacidade mitocondrial amplia a capacidade de consumir oxigênio e oxidar substratos, a adaptação eficiente exige que a infraestrutura vascular acompanhe essa transformação. Os capilares são vasos com diâmetro inferior a aproximadamente 10 μm e constituem a interface fundamental para troca de gases, nutrientes e metabólitos entre sangue e tecido. Sua densidade e funcionalidade determinam a distância de difusão e contribuem para a adequação entre fluxo sanguíneo e demanda metabólica local (MANNING; RIVERA; SANTANA, 2024).

A angiogênese consiste na formação de novos vasos a partir da rede microvascular preexistente e pode ocorrer por diferentes mecanismos. Na angiogênese por brotamento, o aumento local de fatores pró-angiogênicos, particularmente VEGF, modifica permeabilidade vascular, matriz extracelular e comportamento das células endoteliais. A ligação de VEGF aos seus receptores, sobretudo VEGFR2, promove ativação endotelial e expressão de metaloproteinases de matriz, permitindo degradação localizada da membrana basal. Paralelamente, sinais envolvendo HIF, Ca²⁺, FAK e canais TRP/Orai participam da reorganização das junções endoteliais e da criação de um ambiente permissivo ao crescimento vascular (MANNING; RIVERA; SANTANA, 2024).

A célula endotelial que assume o fenótipo tip torna-se migratória e orienta o broto em direção ao gradiente de VEGF. A sinalização VEGFR2/VEGFR3 ativa DLL4, que atua sobre NOTCH1 nas células vizinhas, reduzindo nelas a sensibilidade ao VEGF e favorecendo o fenótipo proliferativo stalk. Surge, assim, uma divisão funcional dinâmica: a célula tip guia a progressão do vaso, enquanto as células stalk proliferam e constituem o corpo do novo capilar. A formação do lúmen, a anastomose com a rede existente, o estabelecimento de fluxo e o recrutamento posterior de pericitos completam progressivamente a maturação vascular. PDGF-B produzido pelo endotélio e a interação angiopoietina-1/Tie2 participam da estabilização do novo vaso (MANNING; RIVERA; SANTANA, 2024).

A angiogênese intussusceptiva oferece mecanismo adicional, no qual um vaso preexistente é subdividido longitudinalmente. Nesse caso, shear stress intraluminal, NO e VEGF podem participar do processo. O fluxo sanguíneo, portanto, não é apenas consequência da rede vascular: constitui também sinal para sua remodelação. O aumento repetido de fluxo durante o exercício produz forças de cisalhamento sobre o endotélio, favorecendo sinalização mecanossensível, produção de NO e remodelação vascular. Em paralelo, desequilíbrios transitórios entre demanda metabólica e oferta de oxigênio podem contribuir para sinalização dependente de HIF e VEGF.

A relação entre PGC-1α e angiogênese torna essa integração ainda mais interessante. O mesmo coativador transcricional associado à expansão da maquinaria mitocondrial participa de programas que relacionam metabolismo oxidativo e vascularização. Assim, biogênese mitocondrial e angiogênese não devem ser consideradas adaptações independentes. Do ponto de vista funcional, seria pouco vantajoso aumentar profundamente a capacidade mitocondrial de consumir O₂ sem reduzir simultaneamente as limitações à entrega desse O₂; inversamente, aumentar a capilarização de uma fibra com baixa capacidade oxidativa teria utilidade metabólica limitada. O fenótipo de endurance emerge precisamente da coordenação entre essas duas adaptações.

Essa integração ganha respaldo morfofuncional particularmente importante no estudo de Parry et al. (2024). As mitocôndrias imediatamente adjacentes aos capilares apresentam características bioenergéticas distintas das demais populações mitocondriais. Sua maior conectividade e maior ativação da cadeia respiratória sugerem que capilarização e organização mitocondrial constituem componentes espacialmente integrados de uma mesma infraestrutura oxidativa. A proximidade vascular não representa simplesmente menor distância para difusão de O₂: associa-se a uma organização específica da rede mitocondrial capaz de favorecer a conversão e a distribuição de energia dentro da fibra muscular (PARRY et al., 2024).

Lactato: produto glicolítico, combustível oxidativo e elo metabólico entre fibras

A compreensão dessa infraestrutura exige abandonar definitivamente a concepção do lactato como resíduo metabólico. A reação catalisada pela lactato desidrogenase é reversível e relaciona diretamente piruvato, lactato e o par redox NADH/NAD⁺. A formação de lactato a partir de piruvato permite regenerar NAD⁺ e, consequentemente, sustentar o fluxo glicolítico. O quociente lactato/piruvato relaciona-se intimamente ao estado redox citosólico NADH/NAD⁺, conferindo ao metabolismo do lactato importância também na homeostase redox (LIN; WANG; LI, 2022).

As isoformas da LDH participam dessa especialização metabólica. De maneira funcionalmente simplificada, LDHA favorece a conversão piruvato→lactato em tecidos e condições de elevada atividade glicolítica, enquanto LDHB apresenta características mais compatíveis com a reação lactato→piruvato em tecidos oxidativos, embora a reação real seja determinada pelas condições termodinâmicas e pelas concentrações locais de substratos e cofatores. Portanto, não se deve interpretar LDHA e LDHB como enzimas irreversivelmente “produtora” e “consumidora” de lactato. O ponto central é que a interconversão lactato-piruvato constitui um importante nó entre metabolismo energético e estado redox (LIN; WANG; LI, 2022).

Também o transporte do lactato apresenta especialização. MCT4 encontra-se funcionalmente associado à extrusão de lactato em fibras de perfil mais glicolítico, particularmente quando a produção intracelular aumenta intensamente, enquanto MCT1 possui importante papel na captação de lactato por fibras oxidativas. Os MCTs transportam monocarboxilatos juntamente com H⁺, estabelecendo uma ligação entre fluxo de lactato e regulação ácido-base. Cairns e Lindinger (2025) destacam que MCT1 e MCT4 constituem os principais reguladores do movimento de lactato através do sarcolema e fornecem base mecanística para o conceito de lactate shuttle.

Essa organização permite formular um modelo particularmente útil para compreender o exercício intenso. Fibras rápidas, mais glicolíticas, podem apresentar elevado fluxo glicolítico, grande formação de piruvato e conversão substancial deste em lactato. Parte desse lactato atravessa o sarcolema por MCT4 e entra no espaço intersticial e na circulação. Fibras oxidativas vizinhas, dotadas de maior conteúdo de MCT1, elevada capacidade mitocondrial e rica capilarização, podem captar lactato e convertê-lo novamente em piruvato, que então alimenta a oxidação mitocondrial. O lactato passa, portanto, a funcionar como vetor de carbono e energia entre regiões de elevada produção glicolítica e regiões com elevada capacidade oxidativa.

É necessário, contudo, introduzir uma precisão importante na hipótese de transferência de “lactato e prótons” das fibras tipo II para as fibras tipo I. Lactato⁻ e H⁺ podem ser cotransportados pelos MCTs, mas isso não significa que a fibra oxidativa simplesmente receba a “acidose” produzida pela fibra glicolítica para utilizá-la metabolicamente. O destino de lactato e H⁺ precisa ser distinguido. O lactato pode ser oxidado como combustível; os prótons integram um complexo sistema de tamponamento, transporte transmembrana e regulação ácido-base. A própria formação de lactato a partir de piruvato consome um próton na reação da LDH, razão pela qual não é bioquimicamente correto afirmar que a formação de lactato seja, por si só, a causa da acidose muscular.

A revisão de Cairns e Lindinger (2025) mostra, entretanto, que durante exercício de alta intensidade lactato e H⁺ aumentam simultaneamente e que a acidificação pode contribuir para a fadiga quando se torna suficientemente severa, particularmente nas fibras rápidas. Os autores relatam que fibras lentas apresentam alterações relativamente modestas de pH, enquanto fibras rápidas podem atingir acidificação substancialmente maior. Em condições severas, o aumento de H⁺ e de fosfato inorgânico diprotonado pode reduzir atividade das pontes cruzadas, sensibilidade miofibrilar ao Ca²⁺ e atividade da ATPase da miosina. O lactato, isoladamente, entretanto, apresenta pouco efeito deletério direto e pode inclusive exercer efeitos protetores em determinadas condições eletrofisiológicas (CAIRNS; LINDINGER, 2025).

Essa distinção é fundamental. O lactato não é simplesmente a molécula responsável pela fadiga; ao contrário, constitui substrato potencialmente valioso cuja redistribuição permite integração metabólica entre células e tecidos. A acidificação resulta do balanço entre múltiplas reações produtoras e consumidoras de prótons, da elevada taxa de hidrólise de ATP e da capacidade de tamponamento e transporte celular. Lactato e H⁺ permanecem associados fisiologicamente em diversos fluxos transmembrana, mas não são metabolicamente equivalentes.

Zona 2 e a construção preferencial de uma infraestrutura oxidativa

É nesse contexto que a hipótese relativa ao treinamento abaixo ou próximo ao LT1 se torna particularmente atraente. Em intensidades relativamente baixas, o recrutamento segue predominantemente o princípio do tamanho: unidades motoras de baixo limiar, associadas em grande proporção a fibras tipo I, são recrutadas primeiro e permanecem ativas durante períodos prolongados. À medida que a potência aumenta, unidades motoras adicionais e fibras de características progressivamente mais rápidas são incorporadas. Consequentemente, uma sessão prolongada abaixo ou em torno do LT1 pode proporcionar elevado tempo acumulado de contração precisamente às fibras mais oxidativas.

O aspecto decisivo não é que baixa intensidade produza necessariamente o maior sinal molecular instantâneo. Intensidades elevadas podem gerar perturbações muito maiores de AMP/ATP, Ca²⁺, glicogênio, ROS e outras variáveis por unidade de tempo e, consequentemente, produzir forte ativação de AMPK, CaMK, p38 MAPK e PGC-1α. A vantagem fisiológica do exercício de baixa intensidade está em permitir enorme acumulação de tempo contrátil com custo homeostático, neuromuscular e autonômico relativamente menor. Assim, é útil distinguir concentração do estímulo por unidade de tempo de dose total acumulada do estímulo.

Essa distinção oferece uma interpretação biologicamente mais rigorosa para a Zona 2. Ela não deve ser apresentada como intensidade “mágica” capaz de ativar vias que permanecem desligadas acima dela. Ao contrário, constitui uma região operacional em que grande volume de trabalho pode ser acumulado predominantemente por fibras oxidativas, produzindo repetidas perturbações energéticas, fluxos de Ca²⁺, alterações redox e aumentos sustentados de fluxo sanguíneo. A repetição dessas perturbações ao longo de centenas ou milhares de minutos de treinamento fornece estímulo cumulativo para expansão e remodelação mitocondrial e microvascular.

A posição do LT1 é particularmente interessante porque representa a região em que a produção sistêmica de lactato começa a superar de maneira detectável o comportamento basal, embora produção e utilização de lactato já ocorram continuamente abaixo desse ponto. Permanecer próximo, mas predominantemente abaixo ou em torno desse domínio, permite elevar consideravelmente o fluxo oxidativo sem produzir a mesma perturbação glicolítica, acidobásica e neuromuscular observada em intensidades superiores. O resultado potencial é uma elevada relação entre estímulo oxidativo acumulável e custo de recuperação.

Deve-se, porém, evitar uma extrapolação frequente: não está estabelecido que somente o treinamento abaixo do LT1 produza biogênese mitocondrial ou angiogênese, nem que essas adaptações ocorram exclusivamente nas fibras tipo I. Exercícios de maior intensidade também estimulam fortemente PGC-1α, biogênese mitocondrial e remodelação vascular e recrutam maior fração do pool de fibras musculares. A formulação cientificamente mais defensável é que o grande volume de exercício de baixa intensidade pode proporcionar uma maneira particularmente sustentável de expor repetidamente fibras oxidativas a estímulos bioenergéticos e hemodinâmicos, enquanto sessões intensas ampliam a magnitude e a distribuição do estímulo para unidades motoras adicionais.

A fibra tipo I como infraestrutura metabólica para a alta intensidade

A partir desses mecanismos, pode-se formular uma hipótese integrativa de grande relevância para o treinamento de endurance. O treinamento de grande volume em baixa intensidade construiria progressivamente uma infraestrutura oxidativa caracterizada por elevada densidade capilar, reduzida distância efetiva para trocas sangue-músculo, maior conteúdo e capacidade mitocondrial, organização espacial favorável das mitocôndrias em relação aos capilares e maior capacidade de transporte e utilização de substratos oxidáveis. Essa infraestrutura seria particularmente desenvolvida nas fibras repetidamente recrutadas durante o treinamento prolongado, isto é, predominantemente fibras tipo I e, dependendo da intensidade e duração, fibras tipo IIa.

Quando a intensidade posteriormente aumenta, o sistema não abandona essa infraestrutura. Ao contrário, passa a utilizá-la mais intensamente. O recrutamento de fibras tipo II aumenta o fluxo glicolítico e a formação de lactato. Fibras oxidativas vizinhas, bem capilarizadas e dotadas de elevada capacidade mitocondrial, permanecem metabolicamente ativas e podem funcionar como importantes sítios de captação e oxidação desse lactato. MCT4 favorece a saída de lactato das fibras com elevada produção glicolítica, enquanto MCT1 facilita sua entrada em fibras de maior perfil oxidativo. A rede capilar reduz barreiras ao transporte intercelular e sistêmico, enquanto LDH reconverte lactato e piruvato de acordo com o estado metabólico e redox local.

A arquitetura descrita por Parry et al. (2024) acrescenta uma dimensão espacial decisiva a essa hipótese. Mitocôndrias paravasculares apresentam maior ativação da cadeia transportadora de elétrons e maior conectividade entre si do que populações mitocondriais mais distantes dos capilares. Os autores propõem que essa organização seja compatível com uma espécie de power grid intracelular, no qual regiões mitocondriais próximas à circulação participam da geração de força próton-motriz que pode ser distribuída pela rede mitocondrial em direção às regiões de elevada demanda energética. A proximidade capilar, portanto, parece influenciar não apenas a entrega de O₂, mas a própria topologia funcional da bioenergética celular.

Isso conduz a uma interpretação mais sofisticada da importância da capilarização. Um capilar adicional não representa apenas “mais oxigênio”. Ele modifica a geometria da interface sangue-músculo, facilita a troca de substratos e metabólitos e potencialmente amplia as regiões celulares associadas às populações mitocondriais paravasculares altamente ativas. A adaptação microvascular pode, portanto, aumentar simultaneamente a capacidade de entrega de O₂, remoção e redistribuição de metabólitos e eficiência espacial da integração entre circulação e fosforilação oxidativa.

Nesse modelo, a alta intensidade passa a depender da infraestrutura construída em intensidades menores. Quanto maior a capacidade das fibras oxidativas para utilizar lactato, maior pode ser a redistribuição do carbono produzido glicoliticamente nas fibras rápidas para compartimentos capazes de oxidá-lo. Isso não significa que a fibra tipo I “neutralize” ilimitadamente o metabolismo da fibra tipo II, mas que o desempenho global resulta da interação entre capacidade glicolítica e capacidade oxidativa. A elevada νLa.max pode ser vantajosa quando grandes potências são necessárias, mas sua consequência metabólica depende da capacidade simultânea de utilização oxidativa do piruvato e do lactato. O próprio modelo de Mader enfatiza que desempenho de endurance emerge da interação entre capacidade oxidativa máxima e taxa máxima de formação de lactato, e não da maximização isolada de uma dessas propriedades (WACKERHAGE et al., 2022).

Essa concepção também ajuda a compreender por que atletas de endurance altamente treinados podem produzir potência elevada sem necessariamente apresentar acumulação precoce de lactato sanguíneo. A ausência de grande elevação da concentração sanguínea não significa ausência de produção. Concentração representa o resultado líquido entre aparecimento e desaparecimento. Um músculo com elevada capacidade oxidativa e de transporte pode apresentar grande turnover de lactato mantendo concentração relativamente estável. O treinamento pode, portanto, deslocar o equilíbrio entre formação, transporte e oxidação, permitindo maior potência antes que a taxa de aparecimento exceda persistentemente a capacidade de remoção.

Capilar, mitocôndria e lactato como sistema integrado de transferência energética

A síntese dos trabalhos analisados permite propor que o fenótipo muscular de endurance seja compreendido como uma rede de transferência energética em múltiplas escalas. Na escala molecular, ADP, AMP, Pi, Ca²⁺, NAD⁺/NADH e espécies reativas funcionam simultaneamente como componentes metabólicos e sinais regulatórios. Na escala organelar, a rede mitocondrial adapta seu conteúdo, composição, conectividade e posição espacial. Na escala celular, fibras com diferentes propriedades contráteis e metabólicas intercambiam substratos, particularmente lactato. Na escala microvascular, capilares regulam entrega de O₂ e nutrientes, remoção e transporte de metabólitos e integração entre fluxo sanguíneo e atividade metabólica.

A adaptação ao endurance pode, assim, ser concebida como redução progressiva das resistências existentes entre a energia potencial contida nos substratos e sua transformação em ATP no local da demanda mecânica. Mais capilares reduzem limitações de transporte; mais mitocôndrias ampliam a capacidade oxidativa; maior conectividade mitocondrial melhora a distribuição intracelular de energia; maior expressão e adequada distribuição de transportadores facilitam a transferência de substratos; e uma maquinaria enzimática adaptada permite que lactato e piruvato sejam rapidamente redistribuídos e oxidados.

Nesse contexto, a baixa intensidade assume uma função que transcende a simples “queima de gordura”. Seu valor potencial reside na possibilidade de acumular enorme quantidade de trabalho contrátil oxidativo e, consequentemente, elevada dose temporal de sinalização adaptativa sem gerar perturbação homeostática proporcionalmente elevada. A alta intensidade, por sua vez, não se opõe a essa adaptação: complementa-a ao recrutar fibras adicionais, elevar dramaticamente o fluxo energético e expor o sistema à necessidade de integrar grande produção glicolítica com elevada capacidade oxidativa.

Portanto, um modelo coerente de treinamento de endurance não deveria ser construído em torno da oposição entre baixa e alta intensidade, mas da sequência funcional entre construção de infraestrutura e utilização dessa infraestrutura. Grande volume de exercício abaixo ou próximo ao LT1 pode favorecer a consolidação de um compartimento muscular altamente oxidativo e vascularizado. Exercícios progressivamente mais intensos passam então a desafiar essa infraestrutura com maiores taxas de produção de ATP, maior recrutamento de fibras rápidas e maior fluxo de lactato entre compartimentos.

A hipótese central que emerge desse conjunto de evidências pode, portanto, ser formulada da seguinte maneira: o treinamento prolongado predominantemente abaixo ou próximo ao primeiro limiar não prepara o atleta para alta intensidade apenas por aumentar uma abstrata “base aeróbia”; ele pode construir uma infraestrutura celular e microvascular capaz de sustentar metabolicamente a própria alta intensidade. Fibras oxidativas repetidamente recrutadas desenvolvem maior capacidade mitocondrial e vascular; quando fibras rápidas são posteriormente recrutadas e aumentam o fluxo glicolítico, parte do lactato produzido pode ser exportada, transportada e utilizada pelas regiões de maior capacidade oxidativa. O capilar deixa de ser simples tubo de entrega de O₂, a mitocôndria deixa de ser uma organela isolada e o lactato deixa de ser um produto terminal: os três passam a constituir componentes interdependentes de uma rede de transferência de carbono, equivalentes redutores, oxigênio e energia.

Essa formulação deve, contudo, permanecer como hipótese integrativa, e não como demonstração direta de que “Zona 2 → fibras tipo I → capilares e mitocôndrias → consumo do lactato das fibras tipo II” constitua uma sequência causal exclusiva. Os trabalhos analisados sustentam fortemente cada um dos principais elos fisiológicos — sinalização da biogênese mitocondrial pelo exercício, mecanismos de angiogênese, especialização mitocondrial associada à proximidade capilar, heterogeneidade metabólica das fibras e transporte intercelular de lactato —, mas não constituem, em conjunto, um experimento longitudinal único demonstrando toda essa cadeia causal. Essa distinção fortalece, em vez de enfraquecer, a proposição: ela transforma uma narrativa intuitiva de treinamento em uma hipótese mecanística testável.

Do ponto de vista experimental, essa hipótese prevê que adaptações particularmente relevantes ao endurance deveriam ser identificadas não apenas por V̇O₂máx ou concentração sanguínea de lactato, mas pela combinação entre densidade capilar por fibra, relação capilar:fibra, conteúdo e localização mitocondrial, capacidade oxidativa, expressão de MCT1/MCT4, isoformas de LDH e comportamento do fluxo de lactato em diferentes intensidades. A observação de Parry et al. (2024), segundo a qual mitocôndrias próximas aos capilares possuem propriedades bioenergéticas particulares, acrescenta uma variável até recentemente pouco considerada: não importa apenas quantos capilares e quantas mitocôndrias existem, mas como ambos estão espacialmente organizados entre si.

Em última análise, a excelência metabólica do músculo de endurance parece resultar menos da maximização isolada de qualquer componente e mais da construção de uma arquitetura capaz de acoplar produção e utilização de energia através do espaço e do tempo. O treinamento prolongado em baixa intensidade oferece uma poderosa forma de construir essa arquitetura; a alta intensidade testa sua capacidade máxima de integração. A primeira amplia a infraestrutura sobre a qual a segunda pode operar. Nesse sentido, capilarização, biogênese mitocondrial e lactate shuttle não são fenômenos paralelos: constituem dimensões complementares de um mesmo processo adaptativo destinado a aumentar a capacidade do músculo de transportar, transformar e redistribuir energia.

Referências

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