A evolução da capacidade de endurance no reino animal: integração bioenergética, especialização metabólica e limites fisiológicos da atividade locomotora sustentada

por | out 8, 2026

A capacidade de sustentar atividade locomotora durante períodos prolongados constitui uma das manifestações mais complexas da integração fisiológica dos organismos animais. Ao longo da evolução, diferentes linhagens desenvolveram estratégias anatômicas, metabólicas, cardiovasculares, respiratórias e comportamentais que permitiram ampliar a duração dos deslocamentos, aumentar a eficiência na obtenção de recursos e responder às pressões seletivas impostas pela predação, pela competição e pelas migrações sazonais. Entretanto, a capacidade de endurance não deve ser compreendida simplesmente como uma expressão da aptidão aeróbia máxima ou da eficiência da fosforilação oxidativa. Trata-se de uma propriedade biológica emergente, determinada pela interação entre a disponibilidade de energia química, a capacidade de ressíntese de ATP, a organização estrutural e funcional dos músculos, os mecanismos de transporte de oxigênio e substratos, a eficiência biomecânica da locomoção e a preservação da homeostase durante o exercício. Em escalas temporais mais prolongadas, essa integração envolve ainda a disponibilidade alimentar, a termorregulação, a recuperação e a distribuição dos recursos energéticos entre crescimento, reprodução e manutenção dos tecidos. A análise comparada dessas características permite identificar princípios fisiológicos compartilhados entre espécies evolutivamente distantes, ao mesmo tempo que evidencia a diversidade de soluções desenvolvidas para responder a exigências ecológicas particulares (LINDSTEDT; NISHIKAWA, 2015; WEBER, 2009; YAP; SEROTA; WILLIAMS, 2017).

A fisiologia do exercício desenvolveu grande parte de seus modelos conceituais a partir de investigações realizadas em seres humanos, frequentemente organizadas em torno de variáveis como consumo máximo de oxigênio, limiares metabólicos, potência crítica, economia de movimento e tolerância ao exercício. Embora esses conceitos apresentem fundamentos bioenergéticos amplamente compartilhados entre os vertebrados, sua aplicação indiscriminada a outras espécies pode produzir interpretações equivocadas. Os animais selvagens não realizam atividade física com o propósito de maximizar adaptações fisiológicas ou desenvolver capacidades atléticas abstratas, mas respondem a exigências ecológicas nas quais a velocidade, a duração e a frequência dos deslocamentos representam componentes de estratégias mais amplas de sobrevivência e reprodução. Um predador especializado em perseguições breves e intensas, um ungulado adaptado à corrida prolongada, uma ave migratória capaz de atravessar oceanos e um mamífero marinho que realiza mergulhos repetidos apresentam capacidades locomotoras extraordinárias, mas essas capacidades não são necessariamente expressões equivalentes de um mesmo fenótipo fisiológico. A interpretação comparativa exige, portanto, distinguir potência metabólica instantânea, capacidade de exercício sustentável, resistência à fadiga, eficiência energética e capacidade de manter elevados níveis de atividade ao longo de períodos prolongados. Como enfatizam Lindstedt e Nishikawa (2015), as adaptações extremas encontradas na natureza raramente decorrem do surgimento de mecanismos bioquímicos inteiramente novos, mas frequentemente resultam de combinações particulares de estruturas e processos fisiológicos conservados ao longo da evolução.

Essa perspectiva adquire especial relevância quando se considera que o desempenho locomotor não depende exclusivamente da capacidade máxima dos sistemas envolvidos, mas também de sua coordenação funcional. A existência de uma elevada densidade mitocondrial, por exemplo, não assegura necessariamente maior capacidade de endurance se a oferta de oxigênio, a disponibilidade de substratos ou a eficiência mecânica não forem compatíveis com a demanda energética. Da mesma forma, uma elevada capacidade glicolítica não implica necessariamente reduzida resistência ao exercício, pois a interação entre glicólise, metabolismo oxidativo e mecanismos de transporte de metabólitos pode assumir organizações distintas entre espécies. A fisiologia comparada permite questionar modelos excessivamente reducionistas, nos quais determinada variável isolada é tratada como determinante universal do desempenho. Ao integrar investigações sobre a relação velocidade–duração, metabolismo do lactato, especialização muscular, migração, termorregulação e gasto energético sustentado, torna-se possível compreender o endurance como um fenômeno organizado em diferentes escalas temporais, desde as respostas celulares que ocorrem durante segundos de contração muscular até os processos evolutivos responsáveis pela diversificação das estratégias locomotoras e metabólicas (GLEESON, 1996; SPEAKMAN; KRÓL, 2005; BURNLEY, 2023).

A relação entre velocidade e duração como expressão dos limites bioenergéticos

A relação inversa entre intensidade e duração do exercício constitui uma das regularidades mais importantes da fisiologia locomotora. À medida que aumenta a velocidade de deslocamento ou a potência mecânica exigida, diminui o intervalo durante o qual o organismo consegue sustentar a atividade, refletindo alterações na demanda de ATP e na capacidade de manter condições fisiológicas compatíveis com a continuidade da contração muscular. Burnley (2023), ao examinar a relação velocidade–duração em diferentes representantes do reino animal, demonstra que essa propriedade pode ser descrita, em diversas espécies, por modelos matemáticos semelhantes àqueles utilizados na fisiologia humana. A relação hiperbólica entre velocidade e tempo limite permite estimar uma assíntota denominada velocidade crítica, frequentemente interpretada como uma fronteira funcional entre intensidades que permitem determinado grau de estabilidade metabólica e intensidades nas quais a tolerância ao exercício depende progressivamente da utilização de uma capacidade finita de trabalho acima dessa fronteira. No modelo de dois parâmetros, a distância percorrida pode ser representada pela expressão , em que corresponde à velocidade crítica e ao parâmetro associado à capacidade finita de exercício acima dessa velocidade. A relação entre os parâmetros fornece informações sobre a organização do desempenho locomotor, mas sua interpretação fisiológica exige cautela, particularmente quando se comparam espécies com diferentes modos de locomoção, capacidades respiratórias e mecanismos de fadiga.

A importância da velocidade crítica reside menos na possibilidade de atribuir a todas as espécies uma mesma fronteira metabólica e mais na identificação de uma propriedade funcional compartilhada: a existência de limites para a intensidade de exercício que pode ser sustentada durante períodos prolongados. Em humanos, a potência crítica apresenta relação com a fronteira entre os domínios pesado e severo de exercício, sendo caracterizada por diferenças importantes na cinética do consumo de oxigênio, no comportamento da fosfocreatina e na estabilidade de determinadas variáveis metabólicas. Entretanto, a identificação de uma relação hiperbólica em outro organismo não demonstra automaticamente que os mecanismos envolvidos sejam equivalentes. A determinação experimental da velocidade crítica depende da realização de esforços máximos de diferentes durações, condição relativamente simples de estabelecer em atletas humanos, mas frequentemente problemática em animais selvagens. Nesses organismos, a interrupção da atividade pode decorrer de fatores comportamentais, respostas ao estresse, alterações motivacionais ou condições ambientais, sem que tenha sido alcançado um limite metabólico comparável ao observado em protocolos humanos de exercício até a exaustão. Essa dificuldade metodológica é particularmente relevante nos estudos realizados com pequenos mamíferos, répteis e crustáceos, nos quais a padronização do esforço máximo exige procedimentos que podem modificar as próprias respostas fisiológicas investigadas (BURNLEY, 2023; YAP; SEROTA; WILLIAMS, 2017).

Os exemplos apresentados por Burnley (2023) demonstram que a velocidade crítica resulta da interação entre propriedades musculares e características sistêmicas do organismo. Em salamandras sem pulmões, por exemplo, a dependência da respiração cutânea impõe restrições particulares à transferência de oxigênio, contribuindo para uma capacidade locomotora sustentável relativamente baixa. Em lagartos, por outro lado, a temperatura corporal exerce influência importante sobre a relação velocidade–duração, podendo modificar substancialmente a velocidade crítica sem produzir alterações proporcionais no parâmetro associado à capacidade finita de exercício acima dessa intensidade. Essa observação demonstra que o desempenho sustentável não constitui uma propriedade exclusivamente determinada pela quantidade de mitocôndrias ou pela capacidade máxima de transporte circulatório de oxigênio. Nos ectotérmicos, a temperatura modifica a cinética enzimática, as propriedades contráteis, a atividade neuromuscular e os processos envolvidos na produção e utilização de ATP, alterando a capacidade de manter determinada velocidade. A comparação com crustáceos, particularmente caranguejos adaptados à locomoção terrestre, revela ainda que diferentes combinações de velocidade crítica e capacidade finita acima dessa velocidade podem produzir relações velocidade–duração bastante distintas. Essas diferenças não devem ser interpretadas simplesmente como superioridade ou inferioridade de uma espécie, mas como manifestações de estratégias locomotoras moldadas por pressões seletivas particulares.

A aplicação desses conceitos aos peixes exige uma distinção metodológica adicional. A velocidade crítica de natação, frequentemente denominada , costuma ser determinada por protocolos incrementais realizados em túneis de corrente, nos quais a velocidade da água aumenta progressivamente até que o animal não consiga manter a natação. Embora esse parâmetro seja amplamente utilizado para caracterizar a capacidade locomotora de diferentes espécies, ele não corresponde necessariamente à velocidade crítica estimada pela relação hiperbólica entre velocidade e tempo limite. Os dois procedimentos podem apresentar associações funcionais, mas dependem de modelos experimentais diferentes e não devem ser considerados intercambiáveis. Essa distinção ilustra um problema mais amplo da fisiologia comparada: conceitos semelhantes podem designar propriedades distintas quando são derivados de protocolos experimentais diferentes. A identificação de fronteiras metabólicas entre exercício sustentável e exercício de duração limitada exige, portanto, não apenas a observação do desempenho locomotor, mas também a caracterização das respostas fisiológicas que acompanham o aumento da intensidade.

Metabolismo do lactato, especialização muscular e diversidade das estratégias bioenergéticas

O metabolismo do lactato oferece um exemplo particularmente expressivo da diversidade funcional que pode emergir de mecanismos bioquímicos conservados. A conversão reversível do piruvato em lactato, catalisada pela lactato desidrogenase, participa da manutenção do equilíbrio redox citosólico e da continuidade do fluxo glicolítico, permitindo a regeneração de NAD⁺ em condições nas quais a demanda de ATP e as características do metabolismo celular favorecem essa reação. Embora a produção de lactato tenha sido historicamente associada à deficiência de oxigênio e ao metabolismo anaeróbio, essa interpretação é insuficiente para explicar sua dinâmica durante o exercício. O lactato também é produzido em condições de adequada disponibilidade de oxigênio e pode representar um substrato energético importante para diferentes tecidos. Sua concentração sanguínea resulta da interação entre produção, transporte, distribuição e utilização metabólica, não constituindo medida direta do fluxo glicolítico ou da participação relativa da fosforilação oxidativa. A revisão comparativa de Gleeson (1996) demonstra que essas relações apresentam diferenças importantes entre vertebrados, particularmente quanto ao destino do lactato produzido durante exercícios intensos e aos mecanismos responsáveis pela recuperação metabólica.

Nos peixes, a diferenciação entre musculatura vermelha e branca constitui um exemplo clássico de especialização funcional. A musculatura vermelha apresenta propriedades favoráveis à produção oxidativa de ATP e participa predominantemente da natação sustentada, enquanto a musculatura branca possui elevada capacidade de produção rápida de energia por vias glicolíticas, sendo recrutada de maneira importante durante movimentos explosivos, fugas e ataques. Entretanto, a distinção entre esses compartimentos musculares não significa separação absoluta entre metabolismo aeróbio e anaeróbio. As diferentes vias de ressíntese de ATP operam simultaneamente, e sua contribuição relativa depende da intensidade da atividade, do recrutamento muscular e das características metabólicas dos tecidos. Durante exercícios intensos, muitos peixes apresentam acúmulo expressivo de lactato na musculatura branca, mas esse metabólito pode permanecer temporariamente retido no tecido, em vez de ser rapidamente redistribuído pela circulação. Gleeson (1996) descreve que, em diversas espécies, parcela importante do lactato acumulado pode ser utilizada localmente como precursor para a ressíntese de glicogênio durante a recuperação, evidenciando uma organização metabólica distinta daquela frequentemente observada em mamíferos. A consequência fisiológica é particularmente relevante: uma concentração sanguínea relativamente baixa de lactato não significa necessariamente pequena produção muscular, assim como a recuperação da lactatemia não demonstra isoladamente a restauração das reservas energéticas intramusculares.

Em anfíbios e répteis, os destinos metabólicos do lactato também apresentam características particulares, incluindo sua utilização na restauração das reservas de glicogênio após atividades intensas. Nos mamíferos, por outro lado, a oxidação do lactato e sua redistribuição entre diferentes tecidos constituem componentes importantes da organização metabólica durante o exercício e a recuperação. A participação dos transportadores de monocarboxilatos, especialmente MCT1 e MCT4, contribui para a movimentação de lactato e prótons através das membranas celulares, embora a direção e a magnitude desses fluxos dependam dos gradientes eletroquímicos, das propriedades dos transportadores e das condições metabólicas locais. Em músculos com elevada capacidade oxidativa, o lactato pode ser utilizado como substrato para a produção mitocondrial de ATP, integrando-se à dinâmica de transferência de carbono e energia entre células e tecidos. Essa organização demonstra que a elevada produção de lactato não é necessariamente incompatível com intensa atividade oxidativa, pois os fluxos glicolítico e mitocondrial podem coexistir em diferentes proporções. A concentração observada no sangue representa apenas uma manifestação parcial desse sistema dinâmico, cuja interpretação exige considerar simultaneamente produção e utilização metabólica (GLEESON, 1996).

Essa diversidade apresenta implicações importantes para a utilização do conceito de limiar de lactato em animais selvagens. Os limiares identificados durante testes incrementais em humanos resultam de alterações na relação entre intensidade do exercício e comportamento da lactatemia, frequentemente associadas a mudanças no recrutamento muscular, no fluxo glicolítico e na capacidade de utilização do lactato. Entretanto, a existência de uma inflexão na curva sanguínea não permite atribuir automaticamente o mesmo significado fisiológico a diferentes espécies. Em organismos que apresentam retenção muscular expressiva, a lactatemia pode subestimar as alterações intramusculares; em animais com elevada capacidade de transporte e utilização intertecidual, a concentração sanguínea pode permanecer relativamente estável apesar de fluxos metabólicos intensos. Além disso, os protocolos incrementais utilizados em diferentes espécies podem apresentar durações de estágio, velocidades de progressão e critérios de interrupção que modificam substancialmente os resultados. Portanto, a extrapolação dos conceitos humanos de LT1, LT2 e máximo estado estável de lactato exige demonstração experimental de correspondência funcional, não sendo suficiente identificar concentrações sanguíneas semelhantes ou relações matemáticas aparentemente equivalentes. A principal contribuição da fisiologia comparada consiste justamente em demonstrar que mecanismos bioquímicos compartilhados podem produzir manifestações fisiológicas distintas em função da organização dos sistemas envolvidos.

A análise da musculatura responsável pela vibração da cauda das cascavéis amplia essa discussão ao questionar a suposta incompatibilidade entre elevada atividade glicolítica e produção oxidativa sustentada de ATP. Lindstedt e Nishikawa (2015) descrevem esse sistema muscular como um exemplo de organização fisiológica especializada, capaz de sustentar contrações repetitivas em frequência elevada mediante integração de processos metabólicos que, em interpretações simplificadas, seriam considerados funcionalmente antagônicos. A importância desse exemplo não reside em demonstrar ausência de limitações metabólicas, mas em evidenciar que a magnitude do fluxo glicolítico, isoladamente, não determina a capacidade de sustentar a contração. O desempenho depende da coordenação entre produção de ATP, transporte e utilização de metabólitos, regulação iônica, propriedades contráteis e manutenção das condições celulares necessárias à atividade muscular. Essa interpretação também recomenda cautela diante de modelos que atribuem a fadiga exclusivamente ao acúmulo de lactato ou à acidificação intracelular, uma vez que a tolerância ao exercício resulta de múltiplos processos interdependentes.

Integração cardiovascular, capacidade oxidativa e eficiência biomecânica na evolução do desempenho locomotor

A evolução de capacidades locomotoras extremas demonstra que o desempenho de endurance depende da integração funcional entre sistemas cuja especialização ocorre de maneira coordenada. O antílope-americano, ou pronghorn (Antilocapra americana), constitui um exemplo particularmente relevante dessa organização. Sua capacidade de sustentar velocidades elevadas está associada a características cardiovasculares, respiratórias e musculares que permitem compatibilizar a oferta de oxigênio com a demanda energética da locomoção. Lindstedt e Nishikawa (2015) utilizam esse animal para questionar interpretações segundo as quais o desempenho máximo seria determinado por um único componente fisiológico limitante. A capacidade de transportar oxigênio até os tecidos não depende exclusivamente do débito cardíaco ou da concentração sanguínea de hemoglobina, mas também da ventilação, das propriedades da circulação pulmonar, da distribuição regional do fluxo sanguíneo, da perfusão microvascular e da difusão de oxigênio até as mitocôndrias. Por sua vez, a utilização mitocondrial desse oxigênio depende da disponibilidade de substratos, da atividade das enzimas oxidativas e da regulação da fosforilação oxidativa em resposta à demanda de ATP. A existência de elevada capacidade funcional em um desses componentes não garante, isoladamente, desempenho excepcional se os demais sistemas não apresentarem capacidades compatíveis. A seleção natural pode, portanto, favorecer combinações de adaptações que ampliam a capacidade global do organismo sem necessariamente maximizar cada componente de maneira independente.

A integração entre metabolismo e biomecânica representa outra dimensão fundamental da evolução do endurance. A energia química disponibilizada pela hidrólise de ATP precisa ser convertida em força e trabalho mecânico, mas essa conversão depende das propriedades estruturais do sistema musculoesquelético, da arquitetura das fibras, da organização dos sarcômeros e da capacidade dos tecidos de armazenar e recuperar energia elástica. Lindstedt e Nishikawa (2015) discutem particularmente o papel da titina, proteína estrutural de grande dimensão que participa da organização sarcomérica e contribui para as propriedades elásticas do músculo. A possibilidade de que a titina desempenhe funções dinâmicas na modulação da rigidez muscular e no armazenamento de energia elástica amplia a interpretação tradicional da contração muscular, frequentemente concentrada nas interações entre actina e miosina. Embora a contribuição quantitativa desses mecanismos para a economia locomotora em animais selvagens ainda dependa de investigações específicas, a discussão demonstra que a eficiência do movimento não pode ser reduzida à capacidade mitocondrial ou à quantidade de ATP consumida pelas proteínas contráteis. A organização mecânica dos tecidos pode modificar a relação entre custo metabólico e trabalho externo, permitindo que diferentes espécies apresentem demandas energéticas distintas para realizar deslocamentos aparentemente semelhantes.

Os cangurus oferecem uma manifestação particularmente expressiva dessa integração. A locomoção por saltos utiliza propriedades elásticas das estruturas musculotendíneas, permitindo armazenar parte da energia mecânica durante determinadas fases do movimento e recuperá-la nas fases subsequentes. Esse mecanismo contribui para modificar a relação entre velocidade e custo energético, demonstrando que aumentos da velocidade de deslocamento não precisam produzir elevações proporcionais do consumo metabólico em todas as formas de locomoção. A eficiência biomecânica, entretanto, não deve ser confundida com ausência de custo energético, pois a manutenção da estabilidade corporal, a ativação muscular e a compensação das perdas mecânicas continuam exigindo ressíntese de ATP. A relevância evolutiva dessa estratégia reside na possibilidade de reduzir o custo relativo de determinados padrões locomotores, favorecendo deslocamentos prolongados em ambientes nos quais a economia de energia representa vantagem ecológica. Assim, o desempenho de endurance emerge não apenas da capacidade de produzir energia, mas também da eficiência com que o organismo utiliza essa energia para produzir movimento (LINDSTEDT; NISHIKAWA, 2015).

Migração de longa distância e especialização do metabolismo lipídico

Entre as manifestações mais extraordinárias da capacidade de endurance encontram-se as migrações de longa distância realizadas por aves, morcegos, insetos, peixes e mamíferos terrestres e marinhos. Essas atividades apresentam características fisiológicas distintas daquelas observadas em exercícios incrementais ou esforços máximos de curta duração, pois exigem manutenção prolongada da atividade locomotora, frequentemente associada à limitação das oportunidades de alimentação, hidratação e recuperação. Nas aves migratórias, particularmente nas espécies que realizam voos ininterruptos durante muitas horas ou dias, a necessidade de sustentar elevada potência aeróbia mediante utilização predominante de reservas energéticas internas constitui um desafio metabólico excepcional. A elevada densidade energética dos triacilgliceróis, associada à possibilidade de armazená-los com quantidade relativamente pequena de água, torna os lipídios particularmente vantajosos para organismos nos quais a massa corporal influencia diretamente o custo da locomoção. Entretanto, a vantagem energética do armazenamento lipídico não elimina as dificuldades relacionadas à sua mobilização e utilização em taxas elevadas. Ao contrário dos carboidratos, cuja disponibilidade intracelular e velocidade de utilização podem favorecer a produção rápida de ATP durante exercícios intensos, os ácidos graxos dependem de mecanismos especializados de liberação dos depósitos, transporte circulatório, captação celular, transferência intracelular e entrada nas vias oxidativas mitocondriais (WEBER, 2009; MCWILLIAMS; MULLER, 2026).

A capacidade de determinadas aves migratórias de sustentar elevada potência aeróbia com predominância da oxidação lipídica demonstra que a relação entre intensidade do exercício e seleção de substratos não constitui uma propriedade universalmente fixa. Em humanos, o aumento progressivo da intensidade costuma ser acompanhado por maior contribuição relativa dos carboidratos, fenômeno relacionado à demanda de ATP, ao recrutamento muscular e à regulação dos fluxos metabólicos. Entretanto, os animais especializados em voos migratórios prolongados apresentam adaptações que permitem mobilizar e oxidar lipídios em taxas excepcionalmente elevadas. McWilliams e Muller (2026) descrevem essa organização como uma modalidade funcional particular do metabolismo de endurance, denominada fourth metabolic gear, caracterizada pela combinação de elevada potência aeróbia e utilização predominante de gorduras. Essa proposta não representa a identificação de uma nova via bioquímica, pois a β-oxidação, o ciclo dos ácidos tricarboxílicos e a fosforilação oxidativa continuam constituindo os mecanismos fundamentais de produção de ATP a partir de ácidos graxos. A particularidade reside na integração de adaptações que ampliam a capacidade de fornecer substratos lipídicos à musculatura e utilizá-los em velocidades compatíveis com as exigências do voo. A interpretação é relevante porque demonstra que a capacidade de oxidar gorduras não depende apenas da quantidade de mitocôndrias ou da intensidade relativa do exercício, mas também de propriedades especializadas dos sistemas de transporte e regulação metabólica.

Entre os mecanismos envolvidos nessa especialização encontram-se as proteínas ligadoras de ácidos graxos, denominadas FABPs, que participam do transporte intracelular e da distribuição desses substratos entre diferentes compartimentos celulares. Weber (2009) destaca que a elevada capacidade de utilização lipídica em animais migratórios depende de mecanismos capazes de sustentar fluxos de substratos muito superiores aos observados em organismos não especializados. A atividade de proteínas relacionadas ao transporte de ácidos graxos, a capacidade de mobilização dos depósitos adiposos e a regulação das enzimas envolvidas na oxidação lipídica precisam apresentar compatibilidade funcional. Essa organização envolve ainda alterações na expressão gênica, incluindo mecanismos regulatórios associados aos receptores ativados por proliferadores de peroxissomos, ou PPARs, que participam do controle transcricional de proteínas envolvidas no metabolismo energético. Entretanto, seria inadequado atribuir a capacidade migratória excepcional à ativação isolada de determinado receptor ou à expressão de uma proteína específica. O fenótipo metabólico resulta de modificações coordenadas na estrutura muscular, no transporte de substratos, na capacidade oxidativa e nos mecanismos de regulação sistêmica, frequentemente desenvolvidas de maneira sazonal em resposta a alterações ambientais e endócrinas.

A composição dos lipídios armazenados também pode contribuir para essas adaptações. Weber (2009) discute o papel potencial de determinados ácidos graxos poli-insaturados na organização metabólica de animais migratórios, enquanto McWilliams e Muller (2026) ampliam essa perspectiva ao examinar modificações sazonais na composição das reservas lipídicas e das membranas celulares. Essas alterações podem influenciar propriedades físico-químicas das membranas, processos de sinalização e mecanismos envolvidos no transporte e na utilização dos substratos. Entretanto, a relação entre composição lipídica e desempenho não deve ser interpretada de maneira determinista. A presença de determinados ácidos graxos não demonstra, isoladamente, maior capacidade de endurance, e os efeitos observados em espécies migratórias não autorizam extrapolações diretas para estratégias nutricionais humanas. Além disso, a elevada utilização de lipídios exige mecanismos eficientes de manutenção da integridade celular, particularmente diante da possibilidade de peroxidação lipídica e das alterações do estado redox associadas ao metabolismo oxidativo prolongado. A capacidade antioxidante constitui, portanto, parte da organização fisiológica que permite sustentar elevadas taxas de produção de ATP sem comprometer a funcionalidade dos tecidos. Isso não significa que a produção de espécies reativas de oxigênio deva ser eliminada, uma vez que essas moléculas também participam de mecanismos de sinalização e adaptação celular, mas que sua produção e remoção precisam permanecer compatíveis com a manutenção da homeostase (MCWILLIAMS; MULLER, 2026).

Uma característica particularmente importante dessas adaptações é sua reversibilidade. Muitas aves migratórias apresentam alterações sazonais nas reservas energéticas, na composição corporal, nas propriedades musculares e na atividade de proteínas envolvidas no metabolismo, desenvolvendo temporariamente um fenótipo especializado para o deslocamento prolongado. Essa flexibilidade fenotípica demonstra que a capacidade de endurance não constitui necessariamente uma característica estática do organismo, mas pode variar em resposta às exigências ambientais e às diferentes fases de seu ciclo de vida. A preparação para a migração envolve acumulação de reservas, reorganização metabólica e modificações comportamentais, enquanto os períodos posteriores podem exigir redistribuição dos recursos energéticos para reprodução, manutenção e recuperação. Embora existam paralelos com as adaptações produzidas pelo treinamento físico humano, os mecanismos regulatórios e as pressões seletivas são distintos. Nas aves migratórias, a reorganização fisiológica integra um programa sazonal complexo, influenciado pelo fotoperíodo, pela disponibilidade alimentar e pela regulação endócrina, enquanto o treinamento humano representa uma intervenção organizada sobre processos de plasticidade fisiológica. A comparação é cientificamente produtiva quando permite identificar princípios compartilhados de adaptação, mas torna-se problemática quando pretende estabelecer equivalências diretas entre fenômenos evolutiva e ecologicamente diferentes.

Temperatura, dissipação de calor e limites da atividade metabólica

A produção sustentada de ATP durante a atividade muscular está inevitavelmente associada à geração de calor, cuja magnitude depende da taxa metabólica, da eficiência de conversão energética e das características do trabalho realizado. Em organismos endotérmicos, a manutenção da temperatura corporal exige mecanismos capazes de equilibrar produção e dissipação térmica, enquanto nos ectotérmicos a temperatura ambiental exerce influência direta sobre numerosas propriedades metabólicas e neuromusculares. Essa diferença não significa que os endotérmicos sejam independentes das condições térmicas externas ou que os ectotérmicos apresentem respostas exclusivamente passivas à temperatura. Em ambos os grupos, a capacidade de sustentar exercício depende da manutenção de condições térmicas compatíveis com a funcionalidade celular. Nos ectotérmicos, a elevação da temperatura dentro de determinada faixa pode acelerar reações enzimáticas e favorecer a produção de ATP, modificando a capacidade locomotora sustentável. Entretanto, temperaturas excessivamente elevadas podem comprometer a integridade das proteínas, alterar processos de transporte e regulação iônica e reduzir a tolerância ao exercício. Nos endotérmicos, a produção de calor durante atividade intensa pode exigir aumento da perfusão cutânea, evaporação e outros mecanismos de transferência térmica, introduzindo demandas circulatórias adicionais e potencialmente modificando a distribuição do fluxo sanguíneo entre tecidos ativos e superfícies de dissipação.

A importância da termorregulação torna-se particularmente evidente quando a atividade física se prolonga por períodos nos quais a produção acumulada de calor representa uma restrição significativa. Nas aves migratórias, a elevada taxa metabólica do voo precisa ser compatibilizada com mecanismos eficientes de transferência térmica para o ambiente, frequentemente sob condições variáveis de temperatura, umidade e circulação atmosférica. McWilliams e Muller (2026) incluem a prevenção do superaquecimento entre os desafios fundamentais do voo migratório prolongado, demonstrando que a capacidade de utilizar grandes quantidades de substratos energéticos não garante, isoladamente, a possibilidade de sustentar o exercício. A energia química liberada durante a oxidação precisa ser convertida parcialmente em trabalho mecânico, enquanto a parcela restante contribui para a produção de calor. Consequentemente, o aumento da capacidade oxidativa pode ampliar a potência metabólica disponível, mas também aumentar a exigência de dissipação térmica. A capacidade de endurance depende, portanto, de uma compatibilidade funcional entre metabolismo energético, biomecânica e transferência de calor, relação que pode assumir diferentes expressões conforme a espécie e o ambiente.

Essa perspectiva também é relevante para compreender os limites do gasto energético sustentado em escalas temporais mais amplas. Speakman e Król (2005), ao revisarem hipóteses sobre os limites da ingestão energética prolongada, discutem evidências de que a capacidade de dissipar calor pode restringir a quantidade de energia utilizada continuamente pelo organismo. Estudos experimentais realizados principalmente com roedores lactantes demonstraram que alterações da temperatura ambiental podem modificar a ingestão energética e a produção de leite, sugerindo que a transferência de calor constitui uma restrição importante em determinadas condições. Entretanto, os autores também analisam hipóteses alternativas, relacionadas à capacidade digestiva, à utilização periférica de energia e aos mecanismos de regulação neuroendócrina, reconhecendo que as evidências disponíveis não permitem atribuir todos os limites observados a um único mecanismo. A relevância dessa discussão para o endurance reside na identificação de uma distinção fundamental entre capacidade metabólica máxima e capacidade de sustentar continuamente elevada utilização de energia. Um organismo pode apresentar elevada capacidade de ressíntese de ATP durante exercício intenso e, ainda assim, encontrar restrições térmicas, nutricionais ou regulatórias que impeçam a manutenção prolongada de demandas energéticas extremas.

Gasto energético sustentado, compensação metabólica e história de vida

A compreensão do endurance em escalas temporais prolongadas exige considerar o organismo como um sistema que precisa distribuir recursos energéticos entre diferentes funções biológicas. O exercício locomotor representa apenas uma das parcelas do gasto energético total, que também inclui manutenção celular, termorregulação, atividade dos órgãos, crescimento, reprodução e processos de recuperação. A interpretação tradicional do gasto energético frequentemente pressupõe uma relação aproximadamente aditiva entre atividade física e despesa energética total, segundo a qual cada aumento do trabalho locomotor produziria elevação proporcional da energia utilizada diariamente. Entretanto, investigações comparativas realizadas em diferentes populações humanas e espécies animais demonstraram que essa relação pode ser modificada por mecanismos de compensação fisiológica. Pontzer (2018) apresenta o modelo de gasto energético restrito, segundo o qual aumentos persistentes da atividade física podem ser parcialmente compensados por alterações na energia destinada a outras funções. Essa proposta não significa que o exercício deixe de consumir energia ou que o gasto energético total permaneça invariável diante de qualquer aumento da atividade. O modelo descreve uma regulação dinâmica na qual a resposta inicial ao aumento da demanda locomotora pode ser acompanhada, ao longo do tempo, por ajustes em outros componentes do orçamento energético.

Os estudos realizados com populações humanas tradicionalmente ativas contribuíram significativamente para essa interpretação. Pontzer et al. (2015), ao investigarem adultos Hadza, caçadores-coletores da Tanzânia, observaram que o gasto energético total, medido por água duplamente marcada, não apresentava elevação proporcional aos indicadores de atividade locomotora após os ajustes relacionados à composição corporal. Embora os participantes realizassem deslocamentos cotidianos consideráveis, seus valores de gasto energético total não eram necessariamente superiores aos encontrados em populações industrializadas. Esses resultados sugerem que a atividade física habitual pode estar associada a mecanismos de compensação energética, mas não demonstram que o custo metabólico do movimento seja eliminado. A energia necessária à contração muscular continua sendo consumida, e a compensação pressupõe alterações em outras parcelas do gasto energético ou em aspectos comportamentais. A interpretação fisiológica torna-se particularmente importante quando se considera que a redução sustentada da energia destinada a determinadas funções pode apresentar consequências distintas conforme o estado nutricional, a intensidade da atividade e a capacidade individual de recuperação. Portanto, a compensação energética não deve ser compreendida como mecanismo ilimitado de proteção contra demandas excessivas, mas como parte de um sistema regulatório cuja capacidade de adaptação também apresenta restrições.

A análise comparativa dos primatas amplia essa discussão ao demonstrar que diferenças evolutivas no gasto energético total podem estar associadas às estratégias de história de vida. Pontzer et al. (2014), utilizando medidas obtidas por água duplamente marcada, observaram que diferentes espécies de primatas apresentavam gasto energético diário substancialmente inferior ao esperado para mamíferos placentários de massa corporal semelhante. Os autores relacionaram esse padrão às características evolutivas dos primatas, incluindo crescimento relativamente lento, reprodução espaçada e maior longevidade. A interpretação sugere que a quantidade total de energia utilizada diariamente pode representar uma característica evolutivamente regulada, influenciando a distribuição dos recursos entre manutenção, crescimento e reprodução. Essa perspectiva questiona modelos nos quais as diferenças metabólicas entre espécies são explicadas exclusivamente pela massa corporal ou pelo nível de atividade física. Embora a alometria continue sendo fundamental para compreender a organização fisiológica dos organismos, diferenças taxonômicas persistentes após o controle da massa corporal demonstram que a evolução também modifica a escala do orçamento energético e as estratégias de alocação de recursos.

A evolução humana apresenta uma configuração particularmente interessante dentro desse contexto. Pontzer et al. (2016) demonstraram que os seres humanos apresentam gasto energético total relativamente elevado em comparação com outros grandes primatas, mesmo após considerar diferenças de tamanho e composição corporal. Essa aceleração metabólica foi interpretada como parte de uma reorganização evolutiva associada às exigências energéticas de um cérebro relativamente grande e a características particulares da reprodução e do desenvolvimento humano. O resultado demonstra que a evolução não favorece necessariamente a redução do gasto energético absoluto ou a maximização da economia metabólica em todas as circunstâncias. Em determinadas linhagens, a ampliação da capacidade de obtenção e utilização de energia pode favorecer estratégias de história de vida energeticamente dispendiosas. Assim, a evolução da capacidade metabólica humana precisa ser compreendida em relação à alimentação, à organização social, ao desenvolvimento e às exigências reprodutivas, não podendo ser explicada exclusivamente pelas adaptações associadas à locomoção de longa distância. A capacidade de endurance representa um componente dessa história evolutiva, mas integra um conjunto mais amplo de transformações fisiológicas e comportamentais.

Pontzer (2017) aprofunda essa interpretação ao discutir as relações entre metabolismo, ecologia e evolução dos primatas, enfatizando que o gasto energético total pode apresentar diferenças substanciais entre espécies mesmo após o controle da massa corporal. Essa constatação possui implicações importantes para a fisiologia comparada, pois demonstra que a quantidade de energia utilizada durante a vida cotidiana não pode ser deduzida simplesmente da soma estimada dos custos de diferentes comportamentos. A atividade locomotora, a manutenção dos tecidos e as funções reprodutivas integram um orçamento energético cuja organização resulta de pressões seletivas e mecanismos regulatórios. A capacidade de realizar exercício prolongado precisa, portanto, ser distinguida da capacidade de sustentar elevados níveis de atividade durante todo o ciclo de vida. A primeira depende diretamente das propriedades dos sistemas locomotor e metabólico durante o esforço; a segunda envolve também a capacidade de obtenção de recursos, a distribuição da energia disponível e a preservação das funções necessárias à sobrevivência e à reprodução.

Comportamento locomotor, disponibilidade ambiental e organização temporal da atividade

A fisiologia comparada do endurance não pode ser dissociada do comportamento animal, pois a intensidade e a duração dos deslocamentos realizados em condições naturais não são determinadas exclusivamente pela capacidade máxima dos sistemas fisiológicos. Pontzer (2016) discute a possibilidade de que animais integrem informações sobre custo energético, velocidade de deslocamento e benefício esperado ao selecionar estratégias locomotoras. A decisão de caminhar, correr, acelerar ou interromper determinada atividade pode representar uma resposta funcional às condições ambientais e aos objetivos ecológicos do organismo. Deslocamentos rápidos podem reduzir o tempo necessário para alcançar alimento, escapar de predadores ou competir por recursos, mas também aumentar a demanda metabólica instantânea e reduzir a duração possível do esforço. Em outras circunstâncias, deslocamentos mais lentos podem favorecer a conservação energética, ainda que prolonguem o tempo necessário para alcançar determinado objetivo. A seleção comportamental da velocidade representa, portanto, um problema de otimização no qual diferentes custos e benefícios são integrados, não podendo ser interpretada simplesmente como expressão de uma porcentagem fixa do consumo máximo de oxigênio.

Essa perspectiva é particularmente importante para a interpretação de dados obtidos por rastreamento de animais em liberdade. O aumento da disponibilidade de dispositivos de localização, acelerometria e monitoramento fisiológico permite investigar padrões locomotores em escalas temporais anteriormente inacessíveis, mas também exige distinguir movimento observado de demanda metabólica efetiva. A distância percorrida não representa medida direta do gasto energético, pois o custo do deslocamento depende do modo de locomoção, da velocidade, da massa corporal, das condições ambientais e da possibilidade de utilizar recursos mecânicos externos, como correntes atmosféricas ou marítimas. Aves planadoras podem percorrer grandes distâncias utilizando energia ambiental para reduzir a necessidade de voo propulsionado continuamente, enquanto animais aquáticos podem modificar substancialmente o custo do deslocamento ao aproveitar correntes favoráveis. Consequentemente, espécies que percorrem distâncias semelhantes podem apresentar gastos energéticos muito diferentes, e o registro de movimento precisa ser interpretado mediante modelos validados para cada organismo e comportamento. Yap, Serota e Williams (2017) destacam precisamente a necessidade de aproximar os modelos experimentais de exercício das condições ecológicas efetivamente enfrentadas pelos animais, incorporando disponibilidade alimentar, atividade voluntária, intensidade, duração e consequências para reprodução e sobrevivência.

A organização temporal da atividade constitui outro componente importante dessa interpretação. O endurance não depende apenas da capacidade de manter determinada intensidade durante um esforço isolado, mas também das oportunidades de alimentação, repouso e restauração funcional entre períodos sucessivos de atividade. Yetish et al. (2015), ao investigarem padrões naturais de sono em sociedades humanas pré-industriais, demonstraram que a organização do repouso apresenta relações importantes com condições ambientais e ritmos biológicos. Embora esse estudo não permita estabelecer diretamente exigências de recuperação para animais migratórios ou atletas de endurance, ele contribui para contextualizar o sono como parte da organização temporal das funções fisiológicas. A recuperação não representa um processo exclusivamente muscular, mas envolve mecanismos neuroendócrinos, imunológicos, metabólicos e comportamentais cuja integração permite preservar a funcionalidade do organismo ao longo do tempo. Assim, a capacidade de realizar repetidamente esforços prolongados depende tanto das adaptações que sustentam a produção de ATP durante o movimento quanto das condições que permitem restaurar a homeostase entre episódios de atividade.

A disponibilidade de água e a manutenção do equilíbrio hidroeletrolítico também integram essa organização fisiológica, embora não possam ser reduzidas à quantidade de líquido ingerida. Rosinger et al. (2025), ao investigarem associações entre a concentração de cloreto de sódio na água de consumo, pressão arterial e albuminúria, demonstraram a relevância das características ambientais da água para a fisiologia humana em condições naturais. Esse estudo não constitui investigação direta do endurance, tampouco demonstra efeitos específicos da composição da água sobre o desempenho locomotor. Sua contribuição para a presente discussão é contextual: a manutenção da homeostase durante atividades prolongadas depende de condições ambientais e de mecanismos regulatórios que ultrapassam a disponibilidade de substratos energéticos. A composição dos recursos ingeridos, as perdas hídricas e eletrolíticas e a função renal representam componentes importantes da estabilidade fisiológica, particularmente em organismos submetidos a ambientes térmicos exigentes. A inclusão desse trabalho deve, portanto, permanecer restrita à discussão da interação entre ambiente e regulação sistêmica, evitando extrapolações indevidas para protocolos de exercício ou estratégias de hidratação não investigadas pelos autores.

Integração crítica: intensidade metabólica, sustentabilidade energética e evolução do endurance

A análise conjunta da literatura permite reconhecer que a capacidade de endurance apresenta pelo menos três dimensões fisiológicas relacionadas, mas conceitualmente distintas. A primeira corresponde à capacidade de sustentar determinada intensidade locomotora durante um esforço contínuo, dimensão investigada por modelos de velocidade crítica, relações velocidade–duração e respostas metabólicas ao exercício. A segunda corresponde à capacidade de manter elevada produção de ATP durante deslocamentos prolongados, exigindo adaptações especializadas no transporte e na utilização de oxigênio e substratos, na organização muscular, na eficiência biomecânica e na termorregulação. A terceira corresponde à sustentabilidade energética da atividade ao longo de períodos prolongados, envolvendo obtenção de recursos, compensação metabólica, recuperação e distribuição de energia entre funções biológicas. Embora essas dimensões compartilhem mecanismos fundamentais, não são equivalentes. Um animal pode apresentar elevada velocidade crítica sem possuir capacidade de realizar migrações extremamente longas, assim como uma espécie migratória pode sustentar deslocamentos extraordinários mediante estratégias que não implicam maximização da velocidade locomotora. Da mesma forma, a capacidade de realizar exercício intenso durante algumas horas não demonstra que o organismo possa repetir diariamente essa demanda durante semanas sem comprometer outras funções fisiológicas (SPEAKMAN; KRÓL, 2005; PONTZER, 2018; BURNLEY, 2023).

Essa distinção permite reinterpretar criticamente a relação entre capacidade oxidativa, metabolismo do lactato e tolerância ao exercício. A elevada capacidade mitocondrial constitui uma adaptação importante para a sustentação da atividade muscular, mas sua contribuição funcional depende da integração com a oferta de oxigênio, a disponibilidade de substratos e os mecanismos de regulação metabólica. O lactato, por sua vez, não representa simplesmente um produto residual associado à insuficiência de oxigênio, mas um intermediário metabólico cuja produção e utilização participam da organização energética dos tecidos. A diversidade observada entre peixes, anfíbios, répteis e mamíferos demonstra que a concentração sanguínea desse metabólito não possui significado fisiológico universalmente equivalente. Consequentemente, a identificação de limiares de lactato em animais selvagens exige validação específica, particularmente quando os organismos apresentam mecanismos de retenção muscular, redistribuição circulatória ou utilização metabólica diferentes daqueles observados em humanos. A existência de transições funcionais na relação entre intensidade e estabilidade metabólica não autoriza presumir identidade entre os indicadores utilizados para identificá-las. O princípio comparativo relevante consiste em reconhecer a existência de restrições à manutenção do fluxo energético, sem transformar determinado marcador sanguíneo em explicação universal dessas restrições (GLEESON, 1996; BURNLEY, 2023).

A extraordinária capacidade de determinadas aves migratórias de sustentar elevada oxidação lipídica reforça essa interpretação ao demonstrar que as relações entre intensidade, duração e seleção de substratos podem ser profundamente modificadas por adaptações evolutivas. Entretanto, a elevada utilização de gorduras não elimina a participação da glicólise nem modifica os fundamentos termodinâmicos e bioquímicos da produção de ATP. O desempenho resulta da reorganização de mecanismos existentes, cuja integração permite ampliar a capacidade funcional do organismo. De maneira semelhante, as propriedades biomecânicas de animais saltadores, a elevada capacidade cardiovascular de mamíferos corredores e as características metabólicas especializadas de determinados músculos demonstram que a seleção natural pode favorecer soluções diferentes para problemas locomotores relacionados. O desempenho extremo não representa necessariamente a maximização de uma única variável, mas o resultado de uma organização fisiológica coerente com as exigências ambientais enfrentadas pela espécie. Essa conclusão é compatível com a perspectiva integrativa de Lindstedt e Nishikawa (2015), segundo a qual a compreensão dos mecanismos moleculares precisa ser contextualizada pelas propriedades funcionais do organismo completo.

A extrapolação desses conhecimentos para a fisiologia humana do exercício exige reconhecer simultaneamente a conservação dos mecanismos bioenergéticos fundamentais e a especificidade das adaptações evolutivas. A identificação de elevada capacidade oxidativa em determinada espécie não demonstra que os mesmos resultados possam ser reproduzidos por intervenções isoladas de treinamento ou alimentação. Da mesma forma, a existência de mecanismos compensatórios de gasto energético não significa que o organismo possa sustentar indefinidamente cargas elevadas sem consequências fisiológicas. O treinamento de endurance constitui uma intervenção sobre sistemas adaptativos que precisam conciliar estímulo, disponibilidade energética e recuperação, enquanto a evolução de capacidades locomotoras extremas envolve processos seletivos desenvolvidos ao longo de muitas gerações. A comparação entre esses fenômenos é produtiva quando permite identificar mecanismos compartilhados e formular hipóteses experimentais, mas torna-se inadequada quando analogias funcionais são tratadas como evidências de equivalência fisiológica.

Conclusão

A evolução da capacidade de endurance no reino animal demonstra que a sustentação prolongada da atividade locomotora constitui uma propriedade emergente da integração entre mecanismos metabólicos, cardiovasculares, respiratórios, musculares, biomecânicos e comportamentais. A relação entre velocidade e duração do exercício revela a existência de restrições funcionais relativamente amplas, mas não implica identidade dos mecanismos limitantes entre espécies. O metabolismo do lactato evidencia que processos bioquímicos conservados podem apresentar organizações fisiológicas distintas, particularmente quanto à distribuição, retenção e utilização dos metabólitos produzidos durante a atividade muscular. A especialização de aves migratórias para elevada oxidação lipídica demonstra que a capacidade de sustentar potência aeróbia depende de adaptações coordenadas no armazenamento, transporte e utilização de substratos, enquanto mamíferos corredores, répteis, peixes e outros animais revelam combinações particulares de capacidade oxidativa, potência muscular e eficiência locomotora. Em escalas temporais mais amplas, a sustentabilidade do exercício depende também da disponibilidade de recursos, da dissipação térmica, da recuperação e da distribuição de energia entre diferentes funções biológicas, demonstrando que capacidade máxima de desempenho e capacidade de manter elevado gasto energético durante períodos prolongados representam propriedades relacionadas, mas distintas.

A principal contribuição da fisiologia comparada consiste em superar interpretações reducionistas que procuram explicar o endurance por uma variável isolada, seja ela consumo máximo de oxigênio, densidade mitocondrial, concentração sanguínea de lactato ou disponibilidade de determinado substrato energético. O desempenho locomotor resulta da compatibilidade funcional entre os componentes envolvidos, enquanto sua sustentabilidade depende da preservação da homeostase e da integração da atividade muscular ao orçamento energético global do organismo. Sob essa perspectiva, a evolução do endurance não representa simplesmente o desenvolvimento de uma capacidade crescente de produzir ATP, mas a diversificação de estratégias biológicas capazes de compatibilizar produção de energia, trabalho mecânico, estabilidade fisiológica e sucesso ecológico. Compreender essas estratégias permite ampliar os fundamentos conceituais da fisiologia do exercício e reconhecer que os limites do desempenho não são propriedades exclusivamente musculares ou metabólicas, mas expressões da organização integrada dos organismos ao longo de sua história evolutiva.

Referências

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