A biologia da resistência: da corrida de persistência à hegemonia africana e ao mosaico genético brasileiro

por | ago 23, 2026

A extraordinária performance de Yomif Kejelcha em Buenos Aires, em 23 de agosto de 2026, oferece uma oportunidade singular para revisitar uma das questões mais intrigantes da fisiologia humana: por que os corredores de longa distância do leste da África, particularmente do Quênia, da Etiópia e, mais recentemente, de Uganda, passaram a dominar de maneira tão persistente uma modalidade esportiva que exige uma combinação extrema de metabolismo aeróbico, economia locomotora, termorregulação e tolerância ao esforço prolongado? Kejelcha percorreu a meia maratona de Buenos Aires em 56min51s, recuperando o recorde mundial e tornando-se o primeiro homem a correr oficialmente os 21,1 km abaixo de 57 minutos, embora a marca ainda esteja sujeita ao processo de ratificação da World Athletics. O feito adquire ainda maior significado porque, em 2026, o etíope já havia se tornado o segundo homem a completar uma maratona oficial em menos de duas horas, com 1h59min41s em Londres, atrás do queniano Sabastian Sawe. A pergunta, portanto, ultrapassa o desempenho de um indivíduo: por que uma região específica do continente africano produz, há décadas, uma concentração tão extraordinária de corredores capazes de operar no limite superior da fisiologia humana?

A primeira parte da resposta talvez esteja muito mais distante no tempo do que a história do atletismo moderno. A corrida de resistência não é uma invenção recente da cultura esportiva; ela pode representar uma das capacidades locomotoras que participaram da própria construção biológica do gênero Homo. Bramble e Lieberman (2004) argumentaram que a corrida de resistência constitui uma capacidade derivada de Homo, provavelmente estabelecida há cerca de 2 milhões de anos, e que diversas características anatômicas do corpo humano são mais facilmente explicadas pela necessidade de correr durante longos períodos do que simplesmente pela marcha bípede. Entre elas estão pernas relativamente longas, redução da massa distal dos membros, tendões capazes de armazenar energia elástica, arco plantar, estabilização do tronco, desacoplamento entre cintura escapular e cabeça e um sistema particularmente eficiente de dissipação de calor. A evolução humana teria, portanto, produzido um organismo que não é particularmente veloz em sprints, mas é excepcionalmente competente em sustentar a locomoção aeróbica por longas distâncias.

Essa perspectiva é particularmente importante quando se considera a chamada persistence hunting, ou caça por persistência. Bramble e Lieberman (2004) não apresentam a caça por persistência como fato demonstrado, mas como uma hipótese evolutiva plausível: a corrida prolongada poderia ter permitido aos primeiros Homo perseguir animais até a exaustão térmica ou aproximar-se suficientemente da presa para utilizar armas de arremesso. Outra possibilidade seria a utilização da corrida para localizar ou alcançar recursos em ambientes abertos e semiáridos. O ponto biologicamente relevante é que essas hipóteses situam a resistência locomotora no contexto ecológico em que o gênero Homo evoluiu: ambientes quentes, necessidade de deslocamentos prolongados, obtenção de alimentos e elevada dependência da capacidade de dissipar calor. A abundância de glândulas écrinas, a redução dos pelos corporais e a morfologia corporal relativamente estreita e alongada constituem, nesse sentido, componentes de um sistema integrado de locomoção e termorregulação.

Entretanto, seria biologicamente inadequado transformar essa herança evolutiva comum a Homo sapiens em uma explicação simples para a hegemonia contemporânea dos africanos orientais. Todos os seres humanos descendem de populações africanas, e a capacidade de resistência é uma propriedade da espécie, não de uma população racial específica. O paradoxo interessante é outro: se a corrida de longa distância faz parte de uma história evolutiva compartilhada por toda a humanidade, por que, no esporte moderno, determinadas populações do leste africano expressam essa capacidade em níveis tão extremos?

A história do atletismo mostra que essa hegemonia é relativamente recente. Larsen (2003) documentou uma transformação dramática do cenário internacional: em 1986, atletas europeus representavam 48,3% dos vinte melhores desempenhos nas principais provas entre 800 m e maratona, enquanto atletas africanos representavam 26,6%; em 2003, a participação africana havia chegado a 85%, sendo 55,8% correspondente a quenianos. Larsen e Sheel (2015) mostraram que a transformação se aprofundou posteriormente: em 2015, atletas africanos representavam 91,7% das posições analisadas, e os quenianos, sozinhos, 53,3%. Portanto, não estamos diante simplesmente de uma característica imutável de uma população. Estamos diante de uma mudança histórica relativamente rápida na distribuição mundial da excelência esportiva, fenômeno que exige uma explicação igualmente histórica, ecológica, cultural, fisiológica e, possivelmente, genética.

A fisiologia oferece uma pista importante. O desempenho em corridas de longa distância não depende exclusivamente do VO₂max. Ele emerge da interação entre a capacidade máxima de transporte e utilização de oxigênio, a fração do VO₂max que pode ser sustentada durante a competição e a economia de corrida. Larsen (2003) observou que corredores quenianos de elite alcançam valores de VO₂max muito elevados, mas não necessariamente superiores aos de outros atletas de elite. O diferencial parece estar sobretudo na combinação entre elevada utilização fracional do VO₂max e baixo custo energético da corrida. Estudos comparativos também sugerem que corredores africanos altamente treinados podem sustentar uma fração elevada da capacidade aeróbica durante provas longas, embora parte dessa diferença possa refletir especificidade do treinamento e seleção esportiva, e não uma propriedade biológica inata.

A economia locomotora é particularmente interessante porque desloca a discussão do coração e do pulmão para a mecânica do corpo inteiro. Larsen e Sheel (2015) observaram que corredores quenianos apresentam menor custo energético em determinada velocidade, diferença que parece estar relacionada, pelo menos em parte, às dimensões corporais e à massa dos membros. O corpo alto, esguio e com pernas longas reduz determinadas demandas mecânicas da corrida e favorece uma economia locomotora excepcional. Isso dialoga diretamente com a hipótese evolutiva de Bramble e Lieberman: a corrida humana é um sistema mecânico de armazenamento e restituição de energia, no qual tendões, arco plantar, comprimento dos membros e estabilização corporal funcionam como componentes de uma máquina locomotora integrada. A excelência de um corredor, portanto, não é necessariamente a expressão de um coração extraordinário, mas da eficiência com que todo o sistema converte energia metabólica em deslocamento.

A altitude constitui outra peça dessa equação. Grande parte dos corredores de elite do Quênia e da Etiópia provém de regiões situadas aproximadamente entre 2.000 e 3.000 metros de altitude. Wilber e Pitsiladis (2012) propuseram que a combinação entre exposição crônica à altitude, treinamento em altitude, características somatotípicas, atividade física desde a infância, dieta e motivação socioeconômica oferece uma explicação muito mais consistente do que a hipótese de um único “gene da corrida”. A revisão mais recente de Grivas et al. (2024) chega a conclusão semelhante: a melhor explicação disponível é multifatorial, envolvendo atributos biomecânicos e fisiológicos, características do treinamento, fatores psicológicos e dieta, sem evidência convincente de uma influência genética específica capaz de explicar isoladamente a supremacia africana oriental.

A infância talvez seja um dos elementos mais subestimados dessa equação. Em várias regiões rurais do leste africano, correr não foi historicamente uma atividade artificialmente acrescentada à vida cotidiana, mas parte do deslocamento diário. Scott e Pitsiladis (2007) destacaram estudos mostrando que crianças quenianas que utilizavam a corrida como meio de transporte apresentavam VO₂max cerca de 30% superior ao de crianças que não o faziam. Isso não demonstra que correr para a escola produza automaticamente um campeão, mas demonstra algo conceitualmente mais importante: o fenótipo aeróbico é profundamente moldado pela interação entre desenvolvimento e ambiente. O indivíduo que cresce correndo não apenas treina; ele desenvolve, durante anos críticos, um organismo exposto repetidamente ao estímulo locomotor que posteriormente será convertido em treinamento sistemático.

A cultura esportiva potencializa esse substrato. Quando uma sociedade produz sucessivas gerações de campeões, o sucesso deixa de ser exclusivamente individual e transforma-se em infraestrutura cultural: crianças reconhecem corredores de elite, escolas identificam talentos, treinadores acumulam conhecimento, famílias percebem a corrida como possibilidade de mobilidade social e os próprios atletas passam a competir dentro de uma tradição de excelência. Grivas et al. (2024) enfatizam justamente a existência de sistemas de identificação de talentos, treinamento e suporte esportivo no Quênia e na Etiópia, além da forte motivação econômica associada à possibilidade de transformar uma carreira esportiva em mobilidade social. A corrida, nesse contexto, funciona simultaneamente como expressão biológica, prática cultural e estratégia econômica.

A hipótese genética, entretanto, não pode ser simplesmente descartada. A performance física é um fenótipo complexo, poligênico e altamente dependente do ambiente. Mais de uma centena de variantes genéticas já foi associada a diferenças individuais relacionadas à aptidão física, o que torna plausível algum componente hereditário da capacidade esportiva. O problema é outro: até o momento, os estudos realizados em atletas africanos não demonstraram uma assinatura genética única capaz de explicar sua supremacia. Scott e Pitsiladis (2007) encontraram elevada diversidade genética entre atletas africanos orientais de elite, em vez de uma população geneticamente homogênea. Estudos de DNA mitocondrial tampouco sustentaram a ideia de uma linhagem específica responsável pela excelência dos corredores etíopes.

O mesmo vale para os genes candidatos mais conhecidos. ACE e ACTN3 foram investigados repetidamente, mas não apresentaram diferenças capazes de explicar a dominância queniana e etíope. Em particular, o polimorfismo R577X do ACTN3, associado a determinadas características de desempenho em algumas populações, não mostrou associação consistente com a performance de corredores africanos orientais; tampouco foram observadas diferenças convincentes nas frequências de variantes do ACE entre atletas quenianos e etíopes e controles. A conclusão mais prudente é, portanto, que genes certamente participam da determinação da capacidade individual, mas não há evidência de que os quenianos ou etíopes possuam um “genoma da resistência” exclusivo. Como sintetizam os próprios autores, o fenótipo moldado pela interação entre múltiplos fatores parece exercer papel mais importante do que um genótipo isolado.

É precisamente nesse ponto que a conexão com o Brasil se torna biologicamente fascinante. Se a pergunta for “o brasileiro possui genes africanos que poderiam favorecer seu desempenho aeróbico?”, a resposta científica não pode ser simplesmente sim ou não. O Brasil não possui uma população geneticamente africana, europeia ou indígena em blocos separados; possui um extraordinário mosaico de ancestralidades. O estudo de Nunes et al. (2025), baseado em 2.723 genomas de brasileiros das cinco regiões do país, encontrou aproximadamente 59% de ancestralidade europeia, 27% africana e 13% indígena na amostra, embora as proporções variem regionalmente e individualmente. Mais importante ainda, a ancestralidade africana encontrada no Brasil não corresponde a uma única população: os genomas brasileiros carregam contribuições altamente diversas da África Ocidental, Centro-Ocidental, Oriental e Austral.

Essa observação é fundamental para a questão da corrida. A maior parte dos africanos trazidos compulsoriamente para o Brasil veio de regiões da África Ocidental, Centro-Ocidental e Sudeste, e não das populações específicas do Quênia e da Etiópia que hoje concentram a elite mundial da longa distância. A pesquisa genética brasileira mostra justamente a enorme diversidade dessa contribuição africana. Portanto, seria cientificamente incorreto afirmar que a ancestralidade africana do brasileiro equivale à ancestralidade genética dos corredores quenianos ou etíopes. “Africano” é uma categoria continental extraordinariamente ampla, e as diferenças entre populações africanas podem ser tão importantes quanto aquelas observadas entre populações de outros continentes.

O chamado “salada brasileira” torna essa questão ainda mais evidente. Os estudos de ancestralidade realizados no Brasil mostraram repetidamente que aparência física e ancestralidade genômica não são equivalentes. Na análise divulgada pela BBC Brasil em 2007, por exemplo, Daiane dos Santos apresentava aproximadamente 39,7% de ancestralidade africana, 40,8% europeia e 19,6% ameríndia, enquanto Neguinho da Beija-Flor apresentava 67,1% de ancestralidade europeia e 31,5% africana. O significado biológico desses resultados não está em atribuir uma identidade racial determinada por percentuais genômicos, mas justamente em demonstrar a dificuldade de inferir ancestralidade biológica a partir da aparência. A entrevista de Sérgio Pena reforça essa conclusão ao mostrar que a população brasileira possui uma herança tri-híbrida e que a associação entre cor da pele e ancestralidade genômica é tênue.

O grande estudo de Nunes et al. (2025) aprofundou essa imagem. A população brasileira contemporânea é descrita como um mosaico de haplótipos globais produzido por sucessivos eventos de mistura entre populações indígenas, africanas e europeias, com forte assimetria sexual na história dessa formação. Enquanto 71% das linhagens do cromossomo Y analisadas apresentaram origem europeia, 42% das linhagens mitocondriais eram africanas e 35% indígenas. Esse padrão é uma assinatura molecular da história social brasileira e demonstra que “miscigenação” não significa necessariamente mistura aleatória, simétrica ou consensual. A genética carrega, em seus cromossomos, a estrutura das relações históricas de poder.

Mas essa diversidade genética poderia afetar o rendimento aeróbico da população brasileira? Em princípio, sim, mas não da maneira simplista sugerida pela ideia de “sangue africano”. A capacidade aeróbica é um fenótipo poligênico que envolve transporte de oxigênio, débito cardíaco, volume sanguíneo, hemoglobina, função pulmonar, metabolismo oxidativo, capilarização, função mitocondrial, economia locomotora e resposta ao treinamento. Se diferentes ancestrais apresentam frequências diferentes de milhares de variantes envolvidas nesses processos, a combinação dessas variantes poderá contribuir para a variabilidade individual observada no Brasil. O próprio estudo de Nunes et al. mostra que a ancestralidade brasileira está associada a uma enorme diversidade de variantes genéticas e a sinais de seleção relacionados, entre outros aspectos, a metabolismo, imunidade e fertilidade. O que não podemos concluir, entretanto, é que uma determinada proporção de ancestralidade africana, europeia ou indígena prediga o VO₂max ou o potencial de maratona de um indivíduo.

A analogia mais adequada talvez seja a de uma receita extremamente complexa. O genoma brasileiro não é uma “mistura” homogênea em que três ingredientes simplesmente se dissolveram uns nos outros; ele é um mosaico no qual diferentes segmentos cromossômicos possuem histórias ancestrais distintas. Dois indivíduos classificados socialmente da mesma maneira podem carregar combinações genéticas muito diferentes, e dois indivíduos de aparências completamente distintas podem possuir perfis ancestrais surpreendentemente semelhantes. Assim, a ancestralidade continental funciona, no máximo, como uma variável populacional ampla; ela não substitui a avaliação do fenótipo fisiológico individual.

Existe, porém, uma segunda herança africana que talvez seja tão importante quanto a genética: a herança cultural. O Brasil recebeu milhões de africanos provenientes de diferentes sociedades, línguas e tradições, e essa população transformou profundamente alimentação, música, religião, dança, trabalho, modos de sociabilidade e práticas corporais. A genética revela que grupos africanos que talvez jamais tivessem entrado em contato na África foram reunidos compulsoriamente no Brasil e passaram a constituir um novo mosaico populacional. Nesse sentido, a conexão Brasil–África não está apenas no DNA: ela está no corpo cultural que determina como as pessoas se movimentam, comem, trabalham, treinam e percebem o próprio corpo.

A comparação com o leste africano permite, então, uma hipótese mais sofisticada. O sucesso queniano e etíope não parece resultar de uma única vantagem biológica ancestral, mas da convergência entre uma arquitetura corporal favorável, exposição precoce à atividade física, altitude, treinamento altamente especializado, dieta, tradição cultural, seleção esportiva e motivação econômica. O Brasil possui parte da matéria-prima genética da humanidade e uma enorme contribuição africana, mas não reproduziu o ambiente ecológico e cultural que transformou determinadas populações do leste africano em uma verdadeira civilização da corrida. A diferença talvez esteja menos no “que os brasileiros carregam” e mais no “que fazemos com aquilo que carregamos”.

Essa distinção tem consequências importantes para a ciência do esporte. Se quisermos compreender por que o Brasil, apesar de sua extraordinária diversidade genética e de sua enorme população, não produz uma quantidade proporcional de corredores de elite mundial, talvez seja mais produtivo estudar a interação entre ancestralidade, desenvolvimento, ambiente, oportunidades esportivas e cultura do treinamento do que procurar um marcador racial de desempenho. A própria literatura sobre os corredores africanos mostra que a genética pode definir parte da variabilidade individual, mas a expressão do potencial depende do ambiente. Larsen (2003) observou que a resposta ao treinamento em VO₂max, economia de corrida e enzimas oxidativas não diferia de maneira substancial entre quenianos e caucasianos, sugerindo que a excelência queniana não decorre simplesmente de uma maior treinabilidade.

A grande ironia biológica é que o mundo moderno talvez tenha criado exatamente o ambiente oposto daquele no qual a capacidade de resistência humana evoluiu. Bramble e Lieberman mostram um Homo adaptado à locomoção prolongada e à dissipação de calor; Grivas et al. observam que grande parte das populações rurais do leste africano ainda mantém níveis cotidianos de atividade física muito superiores aos das sociedades industrializadas. O corredor africano contemporâneo, nesse sentido, pode representar uma combinação particularmente eficiente entre um corpo humano ancestralmente preparado para resistência e uma cultura que ainda fornece, durante o desenvolvimento, uma quantidade extraordinária de estímulos locomotores, posteriormente refinados pelo treinamento científico.

A hegemonia africana nas corridas de longa distância, portanto, não precisa ser explicada pela existência de uma “raça de corredores”. A explicação mais biologicamente consistente é mais interessante: trata-se da convergência entre evolução, ecologia, morfologia, fisiologia, desenvolvimento, cultura e seleção esportiva. A humanidade nasceu na África, mas a excelência contemporânea do corredor africano oriental não é simplesmente uma relíquia genética dessa origem. É o resultado de uma história muito mais recente na qual determinados grupos transformaram uma capacidade humana universal em uma especialização cultural extraordinariamente eficiente. E o Brasil, justamente por ser uma das maiores experiências de mistura populacional da história moderna, oferece um laboratório natural privilegiado para investigar essa interação entre genoma e ambiente. O desafio científico não é descobrir se o brasileiro é “mais africano” ou “mais europeu”, mas compreender como diferentes mosaicos genéticos, quando submetidos a diferentes ambientes de desenvolvimento, treinamento e cultura, produzem fenótipos aeróbicos distintos.

Kejelcha correndo 21 quilômetros em 56min51s, portanto, representa mais do que a quebra de um recorde. Ele recoloca diante da fisiologia uma pergunta que começa na evolução de Homo, atravessa as paisagens de altitude do leste africano, passa pela história social da corrida e chega ao genoma brasileiro. A resposta provavelmente não está em um gene, nem em uma raça, nem sequer em uma única população. Ela está na interação entre o que a evolução construiu, o que a cultura preservou e o que o ambiente permite ao organismo expressar. A corrida de resistência pode ter sido uma das capacidades que ajudaram a construir o Homo sapiens; seis milhões de anos depois, a ciência do esporte talvez esteja apenas começando a compreender como diferentes sociedades transformam essa herança comum em desempenhos radicalmente diferentes.

Referências

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