Plasticidade Biológica do Músculo Esquelético no Exercício de Endurance: integração entre sinalização intracelular, remodelamento do fenótipo contrátil, biogênese mitocondrial e angiogênese

por | out 7, 2026

O treinamento de endurance constitui um dos exemplos mais expressivos de plasticidade fenotípica induzida pelo ambiente no organismo humano. Diferentemente de uma interpretação simplificada segundo a qual o exercício aeróbio apenas “aumentaria o número de mitocôndrias”, a adaptação ao treinamento resulta da integração temporal de múltiplos sinais gerados pela própria contração muscular: alterações na concentração intracelular de Ca²⁺, aumento do turnover de ATP, elevação relativa de ADP e AMP, mudanças no estado redox NAD⁺/NADH, redução do glicogênio muscular, ativação simpático-adrenérgica, alterações na tensão de O₂ e imposição de estímulos mecânicos e hemodinâmicos. Esses sinais são reconhecidos por proteínas sensoras e convertidos em respostas de transdução que modificam atividade enzimática, transcrição gênica, tradução proteica e, finalmente, estrutura e função celulares. É essa sequência — estímulo → sinal → sensor → transdução → expressão gênica → síntese proteica → remodelamento fenotípico — que fornece a base molecular para compreender a adaptação ao endurance (BAAR, 2022).

Iremos discutir quatro grandes adaptações biologicamente interdependentes: a remodelação cardiovascular associada ao chamado coração do atleta; a plasticidade das fibras musculares e das isoformas de cadeia pesada da miosina (MyHC); a expansão da maquinaria oxidativa por meio da biogênese mitocondrial; e a remodelação microvascular por angiogênese. No centro dessa integração encontram-se sistemas de sinalização como calcineurina–NFAT, CaMKII, AMPK, SIRT1, p38 MAPK e PKA, convergindo, em diferentes graus, para reguladores transcricionais entre os quais se destaca PGC-1α. O capítulo, portanto, desloca a interpretação do treinamento de uma descrição meramente fisiológica para uma explicação mecanística de como o músculo “reconhece” características distintas da sessão de exercício e transforma essas informações em adaptações relativamente específicas (BAAR, 2022).

  1. O fenótipo de endurance como propriedade biológica integrada

A performance de endurance não possui um único determinante fisiológico. Baar organiza seus principais fatores limitantes em três grandes componentes: consumo máximo de oxigênio (V̇O₂máx), fração do V̇O₂máx sustentável durante exercício prolongado — relacionada ao limiar de lactato — e eficiência mecânica. Cada uma dessas variáveis macroscópicas emerge, entretanto, de uma constelação de características celulares e sistêmicas, incluindo débito cardíaco, volume sistólico, massa eritrocitária, densidade capilar, quantidade e função mitocondrial, composição de fibras musculares e propriedades mecânicas do sistema músculo-tendíneo. Assim, a adaptação molecular não deve ser interpretada isoladamente: alterações celulares somente adquirem significado fisiológico quando modificam a capacidade de produção de ATP, transporte de O₂, utilização de substratos, geração de força ou resistência à fadiga (BAAR, 2022).

Essa perspectiva também ajuda a compreender por que indivíduos submetidos ao mesmo treinamento apresentam respostas tão diferentes. No estudo HERITAGE, por exemplo, indivíduos submetidos a um programa padronizado apresentaram enorme dispersão na magnitude do aumento do V̇O₂máx. Além disso, a responsividade não constitui necessariamente uma característica global do indivíduo: alguém pode apresentar pequena resposta do V̇O₂máx e, simultaneamente, grande melhora da pressão arterial, composição corporal ou metabolismo glicêmico. A adaptação deve, portanto, ser entendida como um fenótipo multidimensional, resultante da interação entre estímulo, genótipo, estado fisiológico inicial e histórico de treinamento (BOUCHARD et al., 1999; BARBER et al., 2022; BAAR, 2022).

Essa variabilidade constitui um argumento biológico contra prescrições rígidas de treinamento. Volume, intensidade, frequência e modalidade determinam diferentes combinações de perturbações moleculares. Além disso, modalidades distintas impõem custos mecânicos diferentes para uma mesma demanda metabólica. Corrida, ciclismo, remo e natação não podem ser considerados estímulos biologicamente equivalentes simplesmente porque apresentam duração ou intensidade metabólica semelhantes. O organismo adapta-se à configuração concreta do estresse, e não à categoria abstrata denominada “treinamento aeróbio” (BAAR, 2022).

  1. Adaptação cardíaca ao endurance: o coração do atleta como remodelamento fisiológico

Uma das adaptações centrais ao treinamento de endurance é o aumento do volume sistólico, contribuindo para elevar o débito cardíaco máximo e, consequentemente, a capacidade de transporte de O₂. O treinamento crônico produz uma forma de remodelamento cardíaco denominada hipertrofia cardíaca fisiológica, ou “coração do atleta”. Diferentemente da hipertrofia patológica, esse processo caracteriza-se predominantemente pelo aumento do volume ventricular acompanhado de aumento relativamente discreto da espessura da parede, preservando a função sistólica. Em termos celulares, ocorre adição preferencial de sarcômeros em série, aumentando o comprimento dos cardiomiócitos e favorecendo maior enchimento e volume ejetado (BLOMQVIST; SALTIN, 1983; SCHARHAG et al., 2002; BAAR, 2022).

A distinção entre hipertrofia fisiológica e patológica é particularmente importante porque um coração aumentado não representa necessariamente a mesma entidade biológica. No exercício de endurance, o aumento repetitivo do retorno venoso eleva o volume diastólico final e promove sobrecarga volumétrica ou preload, produzindo estiramento dos cardiomiócitos. A mecanotransdução desse estímulo envolve integrinas e sinalização PI3K–Akt/PKB, favorecendo crescimento celular fisiológico. Em contraste, a sobrecarga pressórica crônica patológica pode ativar vias dependentes de Ca²⁺–calcineurina–NFAT, associadas a hipertrofia, alteração da expressão gênica e eventual descompensação funcional (MOLTENTIN et al., 1998; SHIOI et al., 2000; MCMULLEN et al., 2003; BAAR, 2022).

Tem-se, portanto, um princípio conceitualmente importante: hipertrofia não é uma resposta molecular única. O mesmo desfecho macroscópico — aumento da massa cardíaca — pode resultar de programas moleculares diferentes e produzir consequências funcionais diametralmente opostas. No coração do atleta, a adaptação preserva ou aumenta a eficiência do bombeamento; na hipertrofia patológica, vias distintas podem culminar em fibrose, alterações da expressão gênica e deterioração progressiva da função. A fisiologia molecular permite, assim, distinguir estruturas aparentemente semelhantes pela natureza das vias responsáveis por sua formação (BAAR, 2022).

  1. Fibras musculares como fenótipos plásticos e não categorias rígidas

A classificação tradicional das fibras musculares em tipos I, IIa e IIx baseia-se principalmente na isoforma predominante da cadeia pesada da miosina (MyHC). A importância funcional dessa classificação decorre do fato de a atividade ATPásica da miosina relacionar-se diretamente à velocidade de encurtamento muscular. Fibras tipo I apresentam menor velocidade de encurtamento, alta capacidade oxidativa, elevada concentração de mioglobina e maior densidade capilar; fibras IIa ocupam posição intermediária, conciliando velocidade relativamente elevada e capacidade oxidativa considerável; fibras IIx apresentam maior velocidade de contração e atividade glicolítica, mas menor densidade mitocondrial e resistência à fadiga. Embora o genoma humano possua o gene MYH4 correspondente à MyHC IIb, essa isoforma não é significativamente expressa nos principais músculos esqueléticos humanos, ao contrário do observado em roedores (BÁRÁNY, 1967; SMERDU et al., 1994; BAAR, 2022).

Essa classificação, entretanto, não deve ser interpretada como uma taxonomia estática. Existem fibras híbridas que coexpressam mais de uma isoforma de MyHC, especialmente durante processos de transição fenotípica. Além disso, propriedades metabólicas e contráteis não mudam necessariamente de forma simultânea. Uma fibra pode aumentar substancialmente sua capacidade oxidativa sem necessariamente converter sua MyHC de IIa para I. Consequentemente, o treinamento pode modificar profundamente o metabolismo de uma fibra antes que ocorra — ou mesmo sem que ocorra — uma mudança completa de sua identidade contrátil (SCHIAFFINO, 2010; BAAR, 2022).

Essa distinção é essencial para compreender a adaptação ao endurance. Em períodos de treinamento de alguns meses, a mudança mais consistentemente observada não é uma transformação maciça de fibras II em fibras I, mas principalmente uma redução da expressão de IIx acompanhada de aumento de IIa. Transformações mais extensas II → I parecem exigir estímulos extraordinariamente prolongados. Baar destaca o caso de gêmeos monozigóticos com aproximadamente três décadas de níveis de atividade profundamente diferentes: o irmão treinado em endurance apresentava mais de 90% de fibras lentas em comparação com aproximadamente 38% no irmão relativamente inativo. Embora um estudo desse tipo não estabeleça sozinho causalidade universal, ele demonstra a magnitude potencial da plasticidade muscular ao longo de décadas (BATHGATE et al., 2018; BAAR, 2022).

O princípio geral proposto pode ser representado como um continuum:

aumento crônico da atividade contrátil → IIx → IIa → I

enquanto a redução prolongada da atividade favorece a direção oposta:

inatividade/denervação → I → IIa → IIx.

Esse comportamento é dramaticamente demonstrado experimentalmente pela estimulação elétrica crônica de baixa frequência, capaz de produzir transformações rápidas em direção ao fenótipo lento, e pela desnervação, que promove transformação em direção ao fenótipo rápido. A atividade neural não é, portanto, apenas um comando para produzir força: o padrão temporal de ativação do motoneurônio funciona como informação biológica capaz de regular o fenótipo da fibra muscular (PETTE; STARON, 1990; WEEDS et al., 1974; BAAR, 2022).

  1. Ca²⁺ como mensageiro da história contrátil: a via calcineurina–NFAT

Cada potencial de ação muscular desencadeia liberação maciça e transitória de Ca²⁺ pelo retículo sarcoplasmático. Entretanto, além desses pulsos rápidos responsáveis diretamente pela contração, padrões prolongados de atividade produzem componentes de Ca²⁺ de menor amplitude e maior duração. Essa diferença temporal é biologicamente importante: a célula não interpreta apenas “quanto” Ca²⁺ existe, mas também a frequência e duração de seus pulsos. O Ca²⁺ torna-se, dessa forma, simultaneamente um agente da contração e um sinal capaz de informar ao núcleo sobre o padrão de recrutamento muscular (CHIN et al., 1998; TOTHOVA et al., 2006; BAAR, 2022).

Um dos principais sensores desse sinal é a calcineurina, fosfatase dependente de Ca²⁺/calmodulina. Quando ativada, ela desfosforila proteínas NFAT (nuclear factor of activated T cells). A desfosforilação permite que NFAT migre do citoplasma para o núcleo, onde participa da ativação de genes característicos do fenótipo lento, incluindo MyHC lenta, troponinas específicas e mioglobina. Em fibras do sóleo, predominantemente lentas, NFAT encontra-se preferencialmente nuclear; em músculos rápidos, permanece predominantemente citoplasmático. A desnervação reduz sua localização nuclear, enquanto a estimulação crônica de baixa frequência aumenta sua translocação para o núcleo (CHIN et al., 1998; TOTHOVA et al., 2006; BAAR, 2022).

Esse mecanismo explica por que duração e padrão de recrutamento podem ser tão importantes quanto intensidade absoluta. Pulsos breves e intensos de Ca²⁺ associados a ativações rápidas não produzem necessariamente o mesmo efeito transcricional que uma exposição repetitiva e prolongada. A célula muscular dispõe, portanto, de mecanismos de decodificação da temporalidade do exercício. Contudo, calcineurina–NFAT não constitui um “interruptor” exclusivo da fibra lenta: PGC-1α, MEF2, MAPKs, TEAD1 e fatores reguladores miogênicos também participam do controle fenotípico. O tipo de fibra emerge de uma rede regulatória, e não da atividade de uma única molécula (LIN et al., 2002; BAAR, 2022).

  1. MyHC, MyoMirs e Sox6: como uma fibra mantém sua identidade

Um problema molecular particularmente interessante é explicar como uma fibra muscular consegue expressar predominantemente uma isoforma de MyHC enquanto mantém as demais relativamente silenciadas. Os genes das MyHC encontram-se organizados em dois agrupamentos evolutivamente conservados: um cluster lento/cardíaco, contendo MYH6 e MYH7, e um cluster rápido/desenvolvimental, contendo genes como MYH2, MYH1 e MYH4. Essa organização genômica favorece mecanismos coordenados de controle transcricional (BAAR, 2022).

Parte dessa seletividade envolve mecanismos epigenéticos. Para que um gene seja transcrito, a cromatina precisa assumir uma configuração permissiva. Modificações das histonas influenciam essa acessibilidade: H3K27me3 associa-se predominantemente ao silenciamento, enquanto H3K4me3 e H3K36me3 relacionam-se à cromatina transcricionalmente ativa. Experimentalmente, músculos de fenótipo rápido apresentam marcas ativadoras preferencialmente próximas a promotores de MyHC rápidas, enquanto músculos lentos apresentam essas marcas em regiões relacionadas à MyHC I. Quando a atividade muscular é reduzida e o fenótipo caminha de lento para rápido, essas marcas também se reorganizam, demonstrando que a identidade contrátil possui uma dimensão epigenética e reversível (JENUWEIN; ALLIS, 2001; PANDORF et al., 2009; BAAR, 2022).

Outro mecanismo particularmente elegante envolve os MyoMirs miR-208b e miR-499, microRNAs associados à expressão do programa lento. Esses miRNAs interferem na tradução de Sox6, fator transcricional que normalmente reprime genes lentos e favorece genes rápidos. Assim, quando o programa MyHC lento é ativado, são simultaneamente produzidos microRNAs que reprimem um repressor desse mesmo fenótipo. Forma-se, portanto, um circuito de reforço: MyHC lenta ↑ → MyoMirs ↑ → Sox6 ↓ → repressão do programa rápido ↑ → estabilização do fenótipo lento. Trata-se de um mecanismo de controle molecular capaz de explicar, ao menos parcialmente, a natureza quase binária da expressão das isoformas de MyHC em fibras maduras (VAN ROOIJ et al., 2009; QUIAT et al., 2011; BAAR, 2022).

  1. A contração como perturbação energética: ATP, ADP, AMP e AMPK

O exercício de endurance aumenta enormemente o fluxo de ATP sem provocar necessariamente grande redução de sua concentração intracelular. Isso ocorre porque fosfocreatina, adenilato quinase, glicólise e fosforilação oxidativa continuamente ressintetizam ATP. Consequentemente, uma pequena redução percentual de ATP pode produzir aumentos relativos muito maiores de ADP e AMP. A célula dispõe, assim, de um mecanismo extremamente sensível para detectar desequilíbrios entre demanda e oferta energética (HARDIE, 2011; BAAR, 2022).

A AMP-activated protein kinase (AMPK) ocupa posição central nesse sistema. Trata-se de um heterotrímero formado por subunidades α, β e γ. A subunidade α possui atividade catalítica; a β participa da organização do complexo e pode interagir com glicogênio; e a γ liga nucleotídeos adenínicos. O aumento de AMP/ADP, associado à fosforilação da Thr172, favorece ativação da AMPK. Dessa forma, quanto maior o desequilíbrio entre utilização e regeneração de ATP — situação particularmente evidente no exercício intenso — maior tende a ser o sinal energético transmitido pela AMPK (HARDIE, 2011; TERADA et al., 2005; BAAR, 2022).

É importante perceber que AMPK não mede simplesmente a intensidade externa do exercício em watts ou velocidade. Ela responde à perturbação energética intracelular. Portanto, a mesma potência absoluta pode produzir respostas moleculares diferentes dependendo do treinamento prévio, disponibilidade de glicogênio, massa muscular recrutada e capacidade mitocondrial. A “intensidade molecular” de uma sessão não é necessariamente idêntica à sua intensidade mecânica externa (EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

  1. Duração do exercício: CaMKII, NAD⁺ e SIRT1

Se AMPK constitui importante sensor da perturbação energética, a duração da atividade contrátil pode ser representada por outros sinais. Como cada contração exige liberação de Ca²⁺, períodos prolongados de atividade expõem repetidamente a célula a Ca²⁺ elevado. A CaMKII, quinase dependente de Ca²⁺/calmodulina particularmente abundante no músculo esquelético, pode traduzir essa repetição de eventos contráteis em sinalização molecular e aumentar a expressão de PGC-1α, conectando atividade contrátil prolongada ao desenvolvimento do fenótipo oxidativo (WU et al., 2002; BAAR, 2022).

Paralelamente, o exercício modifica o estado redox e a disponibilidade de NAD⁺. As sirtuínas constituem enzimas dependentes de NAD⁺, sendo SIRT1 particularmente relevante no núcleo e citoplasma. PGC-1α encontra-se entre seus alvos, e sua desacetilação está associada a maior atividade coativadora. Forma-se, assim, outra ponte entre metabolismo e expressão gênica: alterações metabólicas associadas à oxidação de substratos modificam NAD⁺, que influencia SIRT1, que por sua vez pode modular PGC-1α (RODGERS et al., 2005; BAAR, 2022).

A interpretação biologicamente mais interessante é que a fibra muscular possui sensores parcialmente diferentes para dimensões distintas do estímulo. Ca²⁺/CaMKII e NAD⁺/SIRT1 carregam informação relacionada à atividade metabólica prolongada; ADP/AMP–AMPK sinaliza desequilíbrio energético; glicogênio baixo favorece AMPK e p38 MAPK; e a resposta adrenérgica ativa PKA. Volume e intensidade não são, portanto, meros conceitos de planejamento esportivo: eles correspondem a perturbações celulares parcialmente distinguíveis (BAAR, 2022).

  1. Glicogênio, p38 MAPK e catecolaminas: o músculo reconhece o estresse do exercício

A redução do glicogênio muscular constitui outro sinal metabólico importante. A atividade da p38 MAPK aumenta quando o exercício é iniciado com baixa disponibilidade de glicogênio. A p38 MAPK pode fosforilar PGC-1α em seu domínio regulatório, aumentando sua atividade transcricional. Esse mecanismo fornece uma explicação molecular para a observação de que sessões realizadas com diferentes estados de disponibilidade de carboidratos podem produzir respostas de sinalização distintas, ainda que isso não signifique automaticamente que maximizar agudamente uma via molecular produza sempre melhor adaptação ou performance crônica (PUIGSERVER et al., 2001; EGAN et al., 2010; BAAR, 2022).

O estresse sistêmico do exercício também é comunicado ao músculo pelo sistema simpático. A epinefrina liga-se aos receptores β-adrenérgicos, aumentando cAMP e ativando protein kinase A (PKA). Essa via participa da glicogenólise e pode aumentar a transcrição de variantes de PGC-1α. Portanto, sessões intensas produzem simultaneamente sinais locais — perturbação energética e redução de glicogênio — e sinais sistêmicos — como catecolaminas — que convergem sobre programas adaptativos relacionados ao endurance (BAAR, 2022).

 PGC-1α: integrador molecular do fenótipo de endurance

PGC-1α (peroxisome proliferator-activated receptor gamma coactivator 1-alpha) ocupa posição central nesse modelo. É fundamental, contudo, distingui-lo de um fator de transcrição convencional. PGC-1α não reconhece diretamente sequências específicas do DNA; atua como coativador, interagindo com fatores de transcrição que efetivamente se ligam ao DNA e facilitando o recrutamento da maquinaria transcricional. Entre seus parceiros encontram-se NRF1, ERRα e PPARβ/δ, permitindo que PGC-1α participe respectivamente da regulação de genes mitocondriais, angiogênicos e envolvidos na oxidação lipídica (WU et al., 1999; LIN et al., 2002; BAAR, 2022).

O exercício regula PGC-1α em múltiplos níveis. Pode aumentar sua transcrição, particularmente por promotores alternativos que originam variantes como PGC-1α2/3; pode aumentar sua atividade por fosforilação dependente de p38 MAPK; e pode modificar sua acetilação por mecanismos envolvendo SIRT1 e acetiltransferases. Isso significa que o exercício não precisa esperar pela síntese de nova proteína para iniciar a resposta adaptativa: moléculas de PGC-1α preexistentes podem ser rapidamente modificadas pós-traducionalmente, enquanto uma segunda fase aumenta sua expressão gênica e disponibilidade proteica (PUIGSERVER et al., 2001; RODGERS et al., 2005; BAAR, 2022).

Entretanto, seria inadequado transformar PGC-1α em uma espécie de “molécula única do endurance”. A própria fisiologia molecular contemporânea demonstra redundância e convergência entre vias. A perda ou modificação de determinados elementos nem sempre elimina completamente a adaptação, indicando que sistemas biológicos possuem rotas alternativas. PGC-1α deve ser interpretado como um nó regulatório central dentro de uma rede, e não como causa isolada de todas as adaptações oxidativas (EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

  1. Biogênese mitocondrial: coordenação entre dois genomas

Uma das adaptações mais características do treinamento de endurance é o aumento da massa e capacidade oxidativa mitocondrial. O processo é especialmente complexo porque a mitocôndria possui seu próprio DNA, mas a maioria de suas proteínas é codificada pelo genoma nuclear. A biogênese mitocondrial exige, portanto, coordenação entre DNA nuclear e DNA mitocondrial, além de síntese citoplasmática, importação de proteínas e replicação do mtDNA (WU et al., 1999; BAAR, 2022).

PGC-1α contribui para essa coordenação coativando NRF1, que estimula a expressão de numerosos genes nucleares codificadores de proteínas mitocondriais e também aumenta a expressão do TFAM — mitochondrial transcription factor A. TFAM é sintetizado no citoplasma, importado para a mitocôndria e participa da transcrição e replicação do mtDNA. Estabelece-se, portanto, uma elegante comunicação núcleo–mitocôndria: PGC-1α → NRF1 → TFAM → transcrição/replicação do mtDNA, simultaneamente à expressão nuclear de proteínas destinadas à própria mitocôndria (WU et al., 1999; BAAR, 2022).

O resultado funcional não é simplesmente “mais mitocôndrias”. A célula aumenta a capacidade de produzir ATP por fosforilação oxidativa para uma determinada demanda, amplia a maquinaria envolvida na oxidação de lipídios e reduz a perturbação homeostática relativa produzida por determinada carga absoluta. Após treinamento, portanto, a mesma potência externa representa menor estresse relativo para a fibra porque existe maior infraestrutura oxidativa para atender ao fluxo energético necessário (HOLLOSZY, 1967; EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

Essa lógica ajuda a explicar uma propriedade fundamental do treinamento: a adaptação reduz o próprio sinal que inicialmente a produziu. Se uma sessão a 200 W gera grande perturbação de ADP/AMP, redução de glicogênio e ativação de AMPK em um indivíduo destreinado, o aumento subsequente da capacidade oxidativa fará com que os mesmos 200 W provoquem perturbação progressivamente menor. Para continuar produzindo adaptação, torna-se necessário modificar volume, intensidade ou configuração do estímulo. O princípio clássico da sobrecarga progressiva possui, portanto, uma fundamentação molecular (BAAR, 2022).

  1. Oxidação lipídica e flexibilidade metabólica

PGC-1α também interage com receptores PPAR, particularmente PPARβ/δ no músculo esquelético, aumentando a expressão de proteínas relacionadas à utilização de ácidos graxos. O treinamento de endurance expande, assim, não apenas a capacidade mitocondrial global, mas a capacidade de utilizar lipídios como substrato energético. A consequência é maior flexibilidade metabólica e menor dependência relativa de carboidratos em determinadas intensidades submáximas (PHILP et al., 2013; BAAR, 2022).

Isso não significa que o músculo treinado simplesmente “troque glicose por gordura”. À medida que a intensidade aumenta, a necessidade de rápida ressíntese de ATP continua favorecendo progressivamente o metabolismo de carboidratos. O treinamento desloca a relação entre intensidade absoluta e seleção de substrato porque aumenta a capacidade oxidativa; não elimina os princípios bioenergéticos que tornam carboidratos particularmente importantes em intensidades elevadas. A adaptação metabólica deve, portanto, ser entendida como ampliação da capacidade e flexibilidade de utilização de substratos, e não como substituição absoluta de um combustível por outro (EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

  1. Angiogênese: adaptando a oferta de O₂ à maquinaria oxidativa

Aumentar a capacidade mitocondrial sem ampliar adequadamente o transporte de O₂ criaria um desequilíbrio funcional. O treinamento de endurance promove, portanto, angiogênese, aumentando a razão capilar:fibra e melhorando a interface entre circulação e tecido muscular. O fenômeno é especialmente pronunciado nas fibras de maior perfil oxidativo e nos músculos cronicamente recrutados durante treinamento (ANDERSEN; HENRIKSSON, 1977; INGJER; BRODAL, 1978; BAAR, 2022).

PGC-1α conecta a adaptação mitocondrial à vascular. Por meio da coativação de ERRα, aumenta a expressão do vascular endothelial growth factor (VEGF) e de outros genes angiogênicos. VEGF estimula proliferação, migração e organização das células endoteliais e participa da formação de novos capilares. Experimentalmente, a ausência de ERRα compromete a capacidade de PGC-1α de aumentar VEGF e reduz a angiogênese induzida pelo exercício, sustentando a relevância da via PGC-1α–ERRα–VEGF (CHINSOMBOON et al., 2009; BAAR, 2022).

É importante distinguir essa via do mecanismo clássico da hipóxia mediado por HIF-1α. Quando a PO₂ é adequada, HIF-1α é hidroxilado por PHD e direcionado à degradação proteassomal. Em hipóxia, sua estabilização permite a ativação de genes como VEGF. Entretanto, os dados discutidos por Baar indicam que, embora HIF-1α possa influenciar a densidade capilar basal e responder à redução da PO₂, ele não parece ser indispensável para a angiogênese induzida pelo exercício. O eixo PGC-1α–ERRα parece assumir papel mais específico na remodelação vascular provocada pelo treinamento (NUNOMIYA et al., 2017; BAAR, 2022).

Essa distinção possui relevância conceitual: exercício e hipóxia não constituem sinais biologicamente equivalentes, ainda que ambos possam influenciar VEGF. A contração muscular produz uma assinatura molecular própria, combinando Ca²⁺, estado energético, glicogênio, catecolaminas, fluxo sanguíneo e alterações transitórias de PO₂. A adaptação vascular ao treinamento resulta dessa configuração integrada e não simplesmente da existência de “falta de oxigênio” no músculo (BAAR, 2022).

  1. A unidade funcional da adaptação: mitocôndria, capilar e fibra muscular

As adaptações mitocondrial, vascular e contrátil não devem ser consideradas processos independentes. Uma fibra submetida repetidamente a atividade prolongada aumenta sua maquinaria oxidativa, melhora a capacidade de oxidação lipídica e estimula a formação de capilares. Paralelamente, padrões crônicos de Ca²⁺ e sinalização calcineurina–NFAT podem favorecer expressão de genes associados ao fenótipo lento. O músculo torna-se, portanto, progressivamente especializado em sustentar elevada produção aeróbia de ATP com menor perturbação homeostática (LIN et al., 2002; EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

É precisamente essa integração que aproxima biologia molecular e fisiologia clássica. Maior densidade capilar reduz distâncias efetivas de difusão e amplia a interface de troca; maior conteúdo mitocondrial aumenta a capacidade oxidativa; maior expressão de enzimas de oxidação lipídica modifica a seleção de substratos; alterações do fenótipo contrátil influenciam custo energético e resistência à fadiga; e o remodelamento cardíaco aumenta o volume sistólico e a capacidade de entrega de O₂. O fenótipo de endurance emerge, portanto, de uma coadaptação central e periférica do sistema de transporte e utilização de energia (HOLLOSZY, 1967; ANDERSEN; HENRIKSSON, 1977; BAAR, 2022).

  1. Intensidade e volume como informações moleculares distintas

Uma contribuição didaticamente poderosa do modelo apresentado no capítulo é permitir reinterpretar intensidade e volume como variáveis capazes de gerar assinaturas moleculares diferentes. Sessões prolongadas fornecem exposição repetida a Ca²⁺ e alterações de NAD⁺, favorecendo sinalização CaMKII/SIRT1; esforços de maior intensidade aumentam o turnover de ATP e, consequentemente, ADP/AMP e AMPK; redução significativa de glicogênio potencializa AMPK e p38 MAPK; e estresse sistêmico crescente aumenta catecolaminas e PKA. Essas vias convergem parcialmente sobre PGC-1α, mas chegam até ele por caminhos diferentes (BAAR, 2022).

Isso fornece uma base molecular para compreender por que programas de endurance combinam grande volume de baixa intensidade com menor quantidade de trabalho intenso. O treinamento prolongado de baixa intensidade permite acumular enorme número de ciclos contráteis e grande sinal integrado de duração com custo mecânico e metabólico relativamente controlável, enquanto sessões intensas produzem perturbações energéticas mais pronunciadas e forte sinalização associada a AMPK, p38 MAPK e catecolaminas. Não existe, portanto, necessariamente uma única “intensidade ideal” para gerar adaptação: diferentes sessões podem fornecer componentes complementares do estímulo molecular (STÖGGL; SPERLICH, 2015; BAAR, 2022).

Essa interpretação também impede um equívoco frequente: maior sinal molecular agudo não equivale necessariamente a melhor programa de treinamento crônico. Uma sessão extremamente intensa pode maximizar determinada fosforilação ou expressão gênica, mas também produzir fadiga, dano, redução da qualidade das sessões subsequentes e menor volume acumulável. A adaptação crônica resulta da integração de estímulos repetidos durante semanas, meses e anos. Portanto, o treinamento ótimo deve maximizar não apenas a magnitude da resposta de uma sessão, mas a relação entre estímulo adaptativo, recuperação e capacidade de repetir trabalho de qualidade (BAAR, 2022).

  1. Plasticidade fenotípica: mais oxidativo não significa necessariamente “virar fibra tipo I”

Esse ponto merece especial atenção. O aumento da capacidade oxidativa provocado pelo endurance pode ocorrer muito mais rapidamente do que uma alteração substancial das isoformas de MyHC. Uma fibra IIa pode aumentar seu conteúdo mitocondrial, densidade capilar e atividade das enzimas oxidativas e tornar-se metabolicamente muito mais resistente à fadiga mantendo-se, entretanto, uma fibra IIa quanto à isoforma predominante de miosina. Plasticidade metabólica e plasticidade contrátil são fenômenos relacionados, mas não sinônimos (SCHIAFFINO, 2010; BAAR, 2022).

Essa distinção ajuda a resolver uma aparente contradição na fisiologia do treinamento. Atletas podem apresentar enormes ganhos de capacidade oxidativa em semanas ou meses sem transformação proporcional de fibras II em I. A adaptação inicial ocorre principalmente dentro das próprias fibras recrutadas: expansão mitocondrial, alterações enzimáticas, aumento da capacidade de utilização de lipídios, angiogênese e mudanças regulatórias. Transformações profundas da identidade contrátil parecem depender de uma história muito mais longa de recrutamento repetitivo (BATHGATE et al., 2018; BAAR, 2022).

  1. Do exercício agudo ao treinamento crônico: como nasce a adaptação

Uma sessão isolada de exercício não produz imediatamente um músculo “treinado”. Ela produz perturbações transitórias da homeostase. Ca²⁺ sobe repetidamente, ATP é hidrolisado, ADP e AMP aumentam, glicogênio diminui, NAD⁺ se modifica, catecolaminas aumentam e a PO₂ muscular pode cair. Essas alterações ativam sensores moleculares; os sensores ativam quinases, fosfatases e deacetilases; essas proteínas modificam fatores e coativadores transcricionais; genes específicos são ativados; RNAs são produzidos; proteínas são sintetizadas; e parte dessas proteínas permanece após o desaparecimento do estímulo agudo (EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

A repetição sistemática desse processo desloca progressivamente o estado basal do sistema. Cada sessão funciona como um pulso de sinalização; o treinamento corresponde à integração temporal desses pulsos. A adaptação crônica pode, portanto, ser compreendida como a soma não linear de sucessivos episódios de expressão gênica e remodelamento proteico. Isso explica por que frequência, recuperação, disponibilidade de substratos e distribuição de intensidade possuem relevância: todos modificam o contexto celular no qual o próximo estímulo será recebido (BAAR, 2022).

Considerações finais

A principal contribuição biológica do modelo discutido por Baar é demonstrar que o músculo esquelético não é simplesmente o órgão executor do movimento, mas um sistema sensorial e adaptativo altamente sofisticado. A fibra muscular detecta a frequência de sua própria ativação, o fluxo de utilização de ATP, sua disponibilidade de substratos, seu estado redox, o ambiente hormonal e a disponibilidade de oxigênio. Essas informações são transformadas em sinais intracelulares que alteram a expressão gênica e reorganizam estrutural e metabolicamente a célula. O treinamento de endurance é, portanto, uma forma repetida e controlada de perturbação da homeostase destinada a provocar remodelamento biológico (EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

Nesse contexto, PGC-1α emerge como importante ponto de convergência, mas não como explicação única da adaptação. CaMKII, SIRT1, AMPK, p38 MAPK e PKA informam diferentes dimensões do exercício; PGC-1α integra parte dessas informações e coordena programas mitocondriais, metabólicos e angiogênicos; calcineurina–NFAT, MyoMirs, Sox6 e mecanismos epigenéticos participam da identidade contrátil; e vias específicas de mecanotransdução promovem remodelamento cardíaco. O fenótipo de endurance resulta da interação entre essas redes, e não de uma cadeia molecular linear (CHIN et al., 1998; LIN et al., 2002; EGAN; ZIERATH, 2013; BAAR, 2022).

Finalmente, a distinção entre plasticidade metabólica e transformação do tipo de fibra é fundamental. O músculo pode tornar-se dramaticamente mais oxidativo sem necessariamente converter grandes proporções de fibras II em I. A adaptação mitocondrial e vascular ocorre relativamente rápido; alterações profundas na identidade contrátil parecem exigir estímulos crônicos muito mais prolongados. Essa temporalidade diferencial explica como meses de treinamento podem produzir enormes aumentos de capacidade aeróbia enquanto décadas de atividade específica podem progressivamente remodelar também o fenótipo contrátil. Em última análise, o músculo treinado representa a memória estrutural e molecular de milhares de episódios prévios de contração (BATHGATE et al., 2018; BAAR, 2022).

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