Durante grande parte do século XX, o lactato foi interpretado como o produto final de uma glicólise “anaeróbia”, associado à deficiência de oxigênio, à fadiga muscular e à formação de ácido láctico. Essa interpretação, embora historicamente compreensível, tornou-se bioquimicamente insuficiente à medida que estudos de cinética metabólica, transporte de monocarboxilatos e bioenergética mitocondrial demonstraram que o lactato é produzido continuamente mesmo em condições plenamente aeróbias e que sua concentração sanguínea representa apenas o resultado líquido entre produção, transporte, oxidação e utilização em diferentes tecidos. O conceito contemporâneo é substancialmente diferente: o lactato constitui um intermediário metabólico altamente dinâmico, capaz de transportar carbono entre compartimentos celulares e órgãos, participar da manutenção do estado redox citosólico, servir de substrato oxidativo para a mitocôndria e atuar como molécula sinalizadora. A glicólise e a oxidação mitocondrial, portanto, não devem ser concebidas como vias metabolicamente alternativas, mas como componentes funcionalmente acoplados de uma rede na qual o lactato ocupa posição central. (BROOKS, 1985; BROOKS, 2009; BROOKS, 2022).

Fonte: Lin Y, Wang Y, Li PF. Mutual regulation of lactate dehydrogenase and redox robustness. Front Physiol. 2022 Nov 4;13:1038421.
O primeiro grande marco dessa mudança histórica remonta aos experimentos de Otto Fritz Meyerhof, realizados principalmente entre o final da década de 1910 e o início da década de 1920 com preparações de músculo de rã. Meyerhof empregava músculos isolados, submetidos a contrações repetidas em condições desprovidas de oxigênio, permitindo comparar quantitativamente o trabalho mecânico produzido, o desaparecimento de glicogênio e a formação de lactato. Em uma de suas abordagens clássicas, o músculo era mantido em condições anaeróbias e estimulado eletricamente até apresentar acentuada atividade contrátil; posteriormente, a preparação era reexposta ao oxigênio. Durante a fase anaeróbia, observava-se acúmulo progressivo de lactato acompanhado de consumo de glicogênio, enquanto, durante a recuperação aeróbia, o lactato desaparecia e o consumo de oxigênio aumentava. Meyerhof demonstrou, assim, que o lactato não surgia simplesmente como uma consequência inespecífica da “falta de ar”, mas estava quantitativamente ligado à utilização do glicogênio durante a contração muscular. Seu trabalho estabeleceu ainda que apenas uma fração do lactato desaparecido durante a recuperação era diretamente oxidada a CO₂ e H₂O, enquanto uma parcela substancial era reconvertida em carboidrato. A experiência com músculo de rã foi, portanto, decisiva para revelar que a relação entre glicogênio, lactato e oxigênio constituía um processo metabólico integrado. (MEYERHOF, 1923; MEYERHOF, 1965).

Otto Fritz Meyerhof (1884-1951) – Barclay CJ, Curtin NA. The legacy of A. V. Hill’s Nobel Prize winning work on muscle energetics. J Physiol. 2022 Apr;600(7):1555-1578.
O significado histórico desse trabalho é ainda maior quando considerado à luz da fisiologia energética da época. Meyerhof demonstrou que, durante contrações anaeróbias, a quantidade de lactato formada apresentava relação quantitativa com o trabalho muscular, enquanto a reintrodução de oxigênio promovia o desaparecimento do lactato e a recuperação do substrato energético. Ele chegou a observar que um músculo de rã mantido em nitrogênio podia produzir uma quantidade considerável de tensão antes da exaustão, mostrando que a produção de lactato não era incompatível com a geração substancial de trabalho mecânico. O fenômeno levou à formulação do chamado ciclo do ácido láctico de Meyerhof e contribuiu decisivamente para a compreensão de que o metabolismo energético celular não podia ser explicado por uma simples dicotomia entre processos “aeróbios” e “anaeróbios”. Em reconhecimento à descoberta da relação quantitativa entre o consumo de oxigênio e o metabolismo do ácido láctico no músculo, Meyerhof recebeu metade do Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina de 1922, juntamente com Archibald V. Hill; por razões administrativas do Comitê Nobel, a cerimônia de entrega ocorreu em 1923. (MEYERHOF, 1923; NOBEL PRIZE OUTREACH, 2026).

Otto Fritz Meyerhof (1884-1951) e Archibald Vivian Hill (1886 –1977) – Barclay CJ, Curtin NA. The legacy of A. V. Hill’s Nobel Prize winning work on muscle energetics. J Physiol. 2022 Apr;600(7):1555-1578.
O segundo marco histórico foi estabelecido pelo casal Carl Ferdinand Cori e Gerty Theresa Cori, que deslocou a questão do metabolismo do lactato do interior do músculo para uma perspectiva sistêmica. Em 1929, os Cori demonstraram que o lactato produzido no músculo podia ser utilizado pelo fígado para a formação de glicogênio, estabelecendo experimentalmente aquilo que posteriormente ficou conhecido como ciclo de Cori. Seus estudos de metabolismo de carboidratos demonstraram que o lactato não precisava permanecer no músculo nem ser simplesmente eliminado: podia ser transportado pela circulação até o fígado, onde seu carbono era utilizado para formar novamente glicogênio e, posteriormente, glicose. Essa glicose poderia retornar à circulação e ser captada pelo músculo, fechando um circuito entre tecido muscular e fígado. O experimento de 1929 sobre a formação de glicogênio hepático a partir dos isômeros D- e L-lactato foi particularmente importante porque forneceu evidência experimental direta para a conversão hepática do lactato em carboidrato. O ciclo de Cori, portanto, acrescentou uma dimensão interorgânica ao metabolismo do lactato e demonstrou que o produto da glicólise muscular podia tornar-se precursor de novo combustível metabólico. (CORI; CORI, 1929; CORI; CORI, 1931).

Carl Ferdinand Cori (1896-1984) e Gerty Theresa Cori (1896-1957)
A importância dos Cori ultrapassou, contudo, a própria formulação do ciclo que recebeu seu nome. Seus estudos sobre glicogênio, lactato e metabolismo hepático contribuíram para estabelecer a existência de intermediários bioquímicos entre o armazenamento e a utilização da glicose. Posteriormente, Carl e Gerty Cori demonstraram que a degradação do glicogênio produz glicose-1-fosfato e identificaram mecanismos enzimáticos fundamentais desse processo, culminando na caracterização da fosforilase e na elucidação da regulação do metabolismo do glicogênio. Em 1947, o casal recebeu conjuntamente o Prêmio Nobel de Fisiologia ou Medicina, “pela descoberta do curso da conversão catalítica do glicogênio”. Assim, embora o ciclo de Cori seja uma das consequências mais conhecidas de seus trabalhos, o Nobel reconheceu um conjunto mais amplo de contribuições à bioquímica do metabolismo de carboidratos. Gerty Cori tornou-se, naquele ano, a primeira mulher laureada com o Nobel de Fisiologia ou Medicina. (NOBEL PRIZE OUTREACH, 2026; FREEMAN; KENNEDY, 2019).
A terceira grande transformação conceitual ocorreu décadas depois com George A. Brooks, inicialmente por meio da formulação da teoria do lactate shuttle em 1985 e, posteriormente, por estudos experimentais que demonstraram a capacidade oxidativa das mitocôndrias em relação ao lactato. A partir de estudos de cinética e de traçadores isotópicos em mamíferos, Brooks demonstrou que o lactato apresenta elevado turnover mesmo durante condições aeróbias e que o lactato produzido em determinados tecidos pode ser captado e oxidado por outros. Em vez de representar um depósito metabólico terminal que se acumularia durante a ausência de oxigênio e seria posteriormente removido, o lactato passou a ser entendido como um intermediário que conecta células glicolíticas a células oxidativas. Esse conceito explica, por exemplo, a transferência de lactato entre fibras musculares com diferentes propriedades metabólicas, entre músculo esquelético e coração e entre músculo, fígado, rins e cérebro. O ponto essencial da teoria é que a concentração de lactato não representa simplesmente “produção”; ela resulta de fluxos simultâneos de produção, transporte, captação e oxidação. (BROOKS, 1985; BROOKS, 2002; BROOKS, 2018).

Brooks GA. The Science and Translation of Lactate Shuttle Theory. Cell Metab. 2018 Apr 3;27(4):757-785.
O avanço decisivo ocorreu quando o conceito de lactate shuttle deixou de ser exclusivamente intercelular e passou a incluir um shuttle intracelular entre o citosol e a mitocôndria. Em 1999, Brooks e colaboradores demonstraram experimentalmente que mitocôndrias isoladas de fígado, coração e músculo esquelético de ratos eram capazes de oxidar lactato, apresentando taxas respiratórias e relações ADP/O compatíveis com sua utilização como substrato oxidativo. Em trabalho complementar, demonstraram a presença do transportador de monocarboxilatos MCT1 em mitocôndrias cardíacas e musculares. A combinação de transporte de lactato e atividade de lactato-desidrogenase associada à mitocôndria forneceu uma base experimental para a hipótese de que o lactato produzido no citosol pode ser direcionado à maquinaria oxidativa da própria célula. Dessa maneira, o lactato não precisa necessariamente ser exportado para outro tecido para ser utilizado: uma célula muscular pode produzir lactato pela glicólise e, dependendo das condições metabólicas, reutilizá-lo como substrato oxidativo dentro da própria rede mitocondrial. (BROOKS et al., 1999a; BROOKS et al., 1999b).
Do ponto de vista bioquímico, essa interpretação exige uma correção fundamental da associação entre lactato e acidose. A reação catalisada pela lactato-desidrogenase é representada por piruvato + NADH + H⁺ ⇌ lactato + NAD⁺. Portanto, a redução do piruvato a lactato consome um próton, em vez de produzi-lo. O aumento de lactato durante exercício intenso ocorre simultaneamente ao aumento da carga de prótons, mas não constitui a causa primária dessa acidificação. Grande parte da carga de prótons associada ao exercício deriva da hidrólise de ATP, particularmente quando a taxa de ressíntese de ATP por vias oxidativas não acompanha a demanda contrátil. Ao converter piruvato em lactato, a LDH simultaneamente regenera NAD⁺, permitindo a continuidade da glicólise, e consome H⁺, atenuando a perturbação ácido-base. A interpretação contemporânea, portanto, deve distinguir claramente lactatemia, produção de lactato, carga de prótons e acidose metabólica: são fenômenos relacionados, mas não equivalentes. (ROBERGS; GHIASVAND; PARKER, 2004; KEMP et al., 2005).

Robergs RA, Ghiasvand F, Parker D. Biochemistry of exercise-induced metabolic acidosis. Am J Physiol Regul Integr Comp Physiol. 2004 Sep;287(3):R502-16.
De onde vem os prótons durante o exercício?
| Processo metabólico | Reação/processo relevante | Efeito sobre H⁺ | Importância durante exercício intenso |
| Hidrólise de ATP | ATP + H₂O → ADP + Pi + H⁺ | Libera H⁺ | Principal fonte de H⁺ associada à contração muscular. Quanto maior a taxa de hidrólise de ATP, maior a liberação de prótons. |
| Hexoquinase | Glicose + ATP → G6P + ADP + H⁺ | +1 H⁺ por glicose | Contribui para a liberação de H⁺ quando a glicose sanguínea é utilizada como substrato glicolítico. |
| Fosfofrutoquinase (PFK) | F6P + ATP → F1,6BP + ADP + H⁺ | +1 H⁺ | Outra reação glicolítica diretamente associada à hidrólise de ATP e à liberação de H⁺. |
| Gliceraldeído-3-fosfato desidrogenase (GAPDH) | G3P + NAD⁺ + Pi → 1,3-BPG + NADH + H⁺ | Libera H⁺ | Contribui diretamente para o balanço de prótons da glicólise. A reação produz NADH e H⁺. |
| Piruvato-quinase | PEP + ADP + H⁺ → piruvato + ATP | Consome H⁺ | Atua no sentido de consumir H⁺; portanto, não é fonte líquida de acidificação. |
| Glicólise — glicose como substrato | Glicose → 2 piruvatos + 2 ATP + 2 NADH + 2 H⁺ | +2 H⁺ | Balanço líquido da glicólise quando a glicose sanguínea inicia a via. |
| Glicólise — glicogênio muscular | Glicogênio → 2 piruvatos + 3 ATP + 2 NADH + 1 H⁺ | +1 H⁺ | Menor liberação líquida de H⁺ que a utilização de glicose, segundo o balanço apresentado pelos autores. |
| Formação de lactato — LDH | Piruvato + NADH + H⁺ → lactato + NAD⁺ | −1 H⁺ por lactato | Consome H⁺. A formação de lactato retarda a acidose e simultaneamente regenera NAD⁺, permitindo a continuidade da glicólise. |
| Creatina-quinase / sistema fosfagênio | PCr + ADP + H⁺ → Cr + ATP | −1 H⁺ | Consome H⁺, sendo uma reação alcalinizante. Portanto, a utilização de fosfocreatina não é uma fonte de acidificação; o aumento de Pi durante exercício intenso deriva principalmente do maior turnover de ATP. |
| Pi como tampão | HPO₄²⁻ + H⁺ → H₂PO₄⁻ | Consome/tampona H⁺ | O Pi acumulado durante exercício intenso possui capacidade de tamponamento dentro da faixa fisiológica de pH muscular. |
| Proteínas e aminoácidos | Protonação de grupos ionizáveis | Tamponam H⁺ | Constituem parte importante do tamponamento intracelular, reduzindo a variação de H⁺ livre e, consequentemente, de pH. |
| Mitocôndria | Oxidação/fosforilação oxidativa | Remove/consome H⁺ | Durante exercício em estado estável, os H⁺ produzidos no citosol são predominantemente direcionados à mitocôndria e utilizados na respiração oxidativa. |
| Transporte lactato/H⁺ | Lactato⁻ + H⁺ via MCT | Remove H⁺ da célula | O transporte de lactato por MCT ocorre associado ao transporte de H⁺, auxiliando a remoção de prótons do músculo. |
| Troca Na⁺/H⁺ | Extrusão de H⁺ pelo sarcolema | Remove H⁺ | Mecanismo de remoção extracelular de H⁺ incluído pelos autores no balanço de acidose muscular. |
| Bicarbonato | H⁺ + HCO₃⁻ → H₂CO₃ → CO₂ + H₂O | Tampona H⁺ | Importante sistema de tamponamento extracelular e mecanismo associado à produção de CO₂ e à resposta ventilatória. |
| Processo metabólico | Reação/processo relevante | Efeito sobre H⁺ | Importância durante exercício intenso |
| Hidrólise de ATP | ATP + H₂O → ADP + Pi + H⁺ | Libera H⁺ | Principal fonte de H⁺ associada à contração muscular. Quanto maior a taxa de hidrólise de ATP, maior a liberação de prótons. |
Essa função do lactato na homeostase ácido-base está intimamente relacionada ao metabolismo redox. A reação da LDH mantém uma relação próxima de equilíbrio entre piruvato/lactato e NADH/NAD⁺, de modo que a formação de lactato permite retirar equivalentes redutores do pool de piruvato e regenerar NAD⁺ no citosol. Esse mecanismo é essencial para sustentar o fluxo glicolítico quando a demanda energética aumenta rapidamente. Assim, a formação de lactato não deve ser vista simplesmente como uma “saída” para o piruvato que não pôde entrar na mitocôndria; ela constitui uma estratégia metabólica para preservar a continuidade do fluxo glicolítico, enquanto o próprio lactato pode posteriormente ser transportado para outros compartimentos e oxidado. O lactato funciona, portanto, como uma espécie de moeda intermediária entre o metabolismo glicolítico e oxidativo, permitindo redistribuir carbono e equivalentes redox entre diferentes regiões da célula e entre diferentes tecidos. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2022).
O conceito de lactato como combustível mitocondrial modifica profundamente a interpretação do metabolismo energético durante o exercício. Quando captado por uma célula oxidativa, o lactato pode ser transportado por MCTs, convertido em piruvato pela LDH e direcionado à formação de acetil-CoA, entrando no ciclo do ácido cítrico e, posteriormente, na fosforilação oxidativa. Evidências experimentais demonstram que a utilização de lactato não constitui uma exceção restrita a situações patológicas ou de hipóxia, mas integra o metabolismo normal de tecidos oxidativos. A própria existência de MCT1 em mitocôndrias de músculo cardíaco e esquelético e a demonstração de oxidação mitocondrial direta de lactato forneceram suporte experimental para a extensão intracelular da teoria do lactate shuttle. Consequentemente, um aumento do lactato sanguíneo durante exercício não significa necessariamente que o organismo esteja “acumulando um resíduo”; pode significar que a taxa de aparecimento de lactato está elevada, enquanto simultaneamente ocorre intensa captação e oxidação em tecidos consumidores. (BROOKS et al., 1999a; BROOKS et al., 1999b; BROOKS, 2009).
O lactato também emergiu como molécula sinalizadora, ampliando ainda mais sua função além do simples fornecimento de carbono. Um dos mecanismos mais bem caracterizados envolve o receptor de lactato GPR81, também denominado HCAR1, um receptor acoplado à proteína Gi expresso especialmente no tecido adiposo. Estudos demonstraram que o lactato ativa GPR81 em concentrações fisiologicamente relevantes e reduz a lipólise dos adipócitos por inibição da adenilato ciclase, redução de cAMP e consequente modulação da atividade da proteína quinase A e das lipases. Trabalhos posteriores demonstraram uma relação autócrina/parácrina entre lactato e GPR81, na qual a própria produção de lactato pelo adipócito participa da resposta antilipolítica induzida pela insulina. O lactato passa, assim, a ser compreendido não apenas como substrato energético, mas como metabólito capaz de comunicar o estado energético de uma célula a sistemas regulatórios celulares e intercelulares. (MORLAND et al., 2008; AHMED et al., 2010).

Ahmed K, Tunaru S, Tang C, Müller M, Gille A, Sassmann A, Hanson J, Offermanns S. An autocrine lactate loop mediates insulin-dependent inhibition of lipolysis through GPR81. Cell Metab. 2010 Apr 7;11(4):311-9.
Essa função sinalizadora ajuda a explicar por que o lactato pode participar da regulação metabólica sistêmica. Durante o exercício, por exemplo, a elevação transitória do lactato modifica fluxos de substratos, transporte de monocarboxilatos e expressão de componentes relacionados ao metabolismo oxidativo. A exposição repetida ao lactato no contexto do exercício também está associada a adaptações que incluem aumento da capacidade oxidativa e remodelamento da maquinaria mitocondrial. Nesse sentido, o lactato pode ser entendido como um metabólito que informa à célula sobre o estado de fluxo glicolítico e disponibilidade energética. É importante, entretanto, evitar uma interpretação simplista segundo a qual qualquer elevação de lactato seria necessariamente benéfica: sua função depende da concentração, duração, tecido, estado redox e capacidade de utilização. A elevação aguda e transitória durante exercício é fisiologicamente distinta da hiperlactatemia persistente observada em condições patológicas. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2022).

Shang Q, Bian X, Zhu L, Liu J, Wu M, Lou S. Lactate Mediates High-Intensity Interval Training-Induced Promotion of Hippocampal Mitochondrial Function through the GPR81-ERK1/2 Pathway. Antioxidants (Basel). 2023 Dec 7;12(12):2087.
O cérebro constitui um exemplo particularmente expressivo da natureza dinâmica do lactato. Durante exercício intenso, quando a concentração arterial de lactato se eleva, o cérebro aumenta sua captação de lactato e pode utilizá-lo como substrato oxidativo. Estudos em humanos demonstraram que a captação cerebral de lactato aumenta proporcionalmente à sua disponibilidade arterial e que a utilização simultânea de glicose e lactato pode representar uma parcela substancial do metabolismo energético cerebral durante ativação. Evidências com traçadores isotópicos também demonstraram que o lactato pode ser efetivamente oxidado no cérebro humano. Dessa forma, a ideia clássica de que o cérebro seria metabolicamente dependente exclusivamente da glicose deve ser substituída por uma concepção mais flexível, na qual a disponibilidade relativa dos substratos determina sua contribuição oxidativa. Em situações de elevada atividade neuronal ou estresse metabólico, o lactato pode atuar como importante combustível complementar e, em determinadas circunstâncias, como substrato preferencial. (QUISTORFF; SECHER; VAN LIESHOUT, 2008).
Essa plasticidade torna-se ainda mais relevante em condições de lesão cerebral. Após traumatismo cranioencefálico, estudos com amostragem arterial e jugular e microdiálise cerebral demonstraram períodos de captação líquida de lactato pelo cérebro humano, sugerindo aumento da utilização desse substrato em uma situação na qual o metabolismo cerebral encontra-se profundamente alterado. Estudos com lactato marcado também demonstraram sua oxidação no cérebro humano. A interpretação mais consistente não é a de que o lactato seja simplesmente um “resíduo” produzido pelo cérebro lesionado, mas que ele pode constituir um substrato energético adicional recrutado quando as demandas metabólicas aumentam ou quando a disponibilidade/utilização de glicose sofre alterações. Essa propriedade reforça a ideia de que o lactato participa de uma rede metabólica de flexibilidade energética que se estende do músculo ao cérebro e conecta diferentes órgãos por meio da circulação. (GLADDEN, 2004; CARPENTER et al., 2015).
A relação entre lactato, mitocôndria e doença metabólica merece, contudo, uma interpretação particularmente cuidadosa. A elevação persistente do lactato em repouso pode refletir aumento da glicólise, redução da capacidade oxidativa, alterações no transporte de monocarboxilatos, alterações hepáticas ou renais na remoção do lactato, hipóxia tecidual ou combinações desses mecanismos. Estudos observacionais mostram associação entre lactato plasmático de jejum, resistência à insulina, obesidade, síndrome metabólica e risco futuro de diabetes tipo 2. Há também evidências relacionando lactato plasmático a marcadores de capacidade oxidativa mitocondrial e sensibilidade à insulina. Entretanto, lactato elevado não constitui, isoladamente, diagnóstico de disfunção mitocondrial: ele é um marcador metabólico inespecífico cujo significado depende do contexto fisiológico e clínico. A hipótese de que lactato persistentemente elevado possa refletir uma menor capacidade de processamento oxidativo é biologicamente plausível e sustentada por associações experimentais, mas não deve ser convertida em uma relação causal universal. (CHEN; VARASTEH; REAVEN, 1993; LIMA et al., 2019; RICHARD et al., 2024).

Jones TE, Pories WJ, Houmard JA, Tanner CJ, Zheng D, Zou K, Coen PM, Goodpaster BH, Kraus WE, Dohm GL. Plasma lactate as a marker of metabolic health: Implications of elevated lactate for impairment of aerobic metabolism in the metabolic syndrome. Surgery. 2019 Nov;166(5):861-866.
Essa distinção é especialmente importante no contexto da resistência à insulina e do diabetes tipo 2. A disfunção metabólica pode envolver redução da capacidade oxidativa muscular, alterações na quantidade ou organização da maquinaria mitocondrial, excesso de disponibilidade de substratos e alterações no controle do fluxo de piruvato. Nessas condições, uma maior fração do piruvato pode ser direcionada à formação de lactato, aumentando sua concentração sistêmica. Estudos contemporâneos indicam, entretanto, que a chamada “disfunção mitocondrial” do diabetes não significa necessariamente que cada mitocôndria individual esteja intrinsecamente defeituosa; em diversos contextos, a redução da capacidade oxidativa pode estar relacionada à menor quantidade de maquinaria mitocondrial disponível ou à incapacidade de ajustar a capacidade oxidativa à carga de substratos. O lactato, nesse cenário, pode funcionar simultaneamente como consequência de um desequilíbrio metabólico, como mecanismo adaptativo para manutenção do fluxo glicolítico e como sinalizador de alterações no estado energético celular. (SZENDRODI et al., 2007; SAAD et al., 2021).
A evolução histórica iniciada com Meyerhof, ampliada pelos Cori e radicalmente reinterpretada por Brooks revela, portanto, uma transformação profunda na compreensão do lactato. Meyerhof demonstrou que sua formação estava intimamente ligada ao metabolismo energético do músculo e à relação entre glicogênio e oxigênio; os Cori demonstraram que o lactato podia sair do músculo, alcançar o fígado e retornar ao metabolismo de carboidratos; Brooks demonstrou que o lactato constitui um substrato oxidativo móvel e que pode ser utilizado inclusive no interior da própria célula pela maquinaria mitocondrial. A esses três marcos acrescentaram-se posteriormente a identificação de transportadores específicos, a demonstração da oxidação mitocondrial, a caracterização de receptores como GPR81 e a demonstração de utilização cerebral. O resultado é uma mudança de paradigma: lactato não é simplesmente o produto final da glicólise; é um intermediário metabólico central que participa simultaneamente da homeostase redox, do controle ácido-base, da transferência intercelular de carbono, da produção de energia e da sinalização celular. (MEYERHOF, 1923; CORI; CORI, 1929; BROOKS, 1985; BROOKS, 2022).
A relevância dessa mudança conceitual para a fisiologia do exercício é particularmente importante porque impede que a concentração de lactato seja interpretada isoladamente como índice de “falta de oxigênio” ou como marcador direto de fadiga. O lactato sanguíneo é uma variável de fluxo resultante do balanço entre múltiplos tecidos produtores e consumidores e pode aumentar substancialmente mesmo na presença de elevada disponibilidade de oxigênio. Da mesma forma, sua remoção durante e após o exercício não representa simplesmente “limpeza de um resíduo”, mas envolve oxidação direta em tecidos consumidores, reconversão hepática em glicose e glicogênio e redistribuição contínua entre compartimentos. O lactato constitui, portanto, uma interface quantitativa entre glicólise, metabolismo oxidativo, equilíbrio redox e comunicação interorgânica. É precisamente essa característica que explica sua importância contemporânea tanto para a fisiologia do exercício quanto para a compreensão da flexibilidade metabólica e de suas alterações nas doenças cardiometabólicas. (BROOKS, 2009; BROOKS, 2018; BROOKS, 2022).
Referências
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BROOKS, G. A. Cell–cell and intracellular lactate shuttles. The Journal of Physiology, v. 587, n. 23, p. 5591-5600, 2009. DOI: 10.1113/jphysiol.2009.178350.
BROOKS, G. A. The science and translation of lactate shuttle theory. Cell Metabolism, v. 27, n. 4, p. 757-785, 2018. DOI: 10.1016/j.cmet.2018.03.008.
BROOKS, G. A. Lactate in contemporary biology: a phoenix risen. The Journal of Physiology, v. 600, n. 5, p. 1229-1251, 2022. DOI: 10.1113/JP280955.
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