Resumo
A exposição repetida ao calor por meios passivos, particularmente por meio da sauna, constitui um estímulo biológico capaz de produzir respostas integradas nos sistemas termorregulatório, cardiovascular, hematológico, autonômico, metabólico e celular. Quando utilizada em associação ao treinamento físico, especialmente imediatamente após o exercício, a sauna pode ampliar a carga térmica acumulada sem impor uma carga mecânica adicional, favorecendo adaptações relacionadas à expansão do volume plasmático, à redução da temperatura corporal e da frequência cardíaca durante o exercício sob calor e, em determinadas populações e protocolos, à melhora de indicadores de capacidade aeróbia e desempenho de endurance. Paralelamente, evidências epidemiológicas e experimentais sugerem que a exposição regular à sauna pode estar associada a benefícios cardiovasculares e metabólicos e a menor risco de mortalidade cardiovascular e por todas as causas. Particularmente relevante é a observação de que elevada aptidão cardiorrespiratória e uso frequente de sauna apresentam associações conjuntas mais favoráveis com a sobrevivência do que cada exposição isoladamente, sugerindo efeitos biológicos complementares. Esses resultados, contudo, devem ser interpretados com rigor, pois grande parte da evidência sobre longevidade é observacional e deriva predominantemente de coortes masculinas finlandesas. A sauna, portanto, não deve ser entendida como substituto do exercício, mas como uma forma de estresse térmico passivo que pode complementar tanto as adaptações ao treinamento quanto, potencialmente, estratégias voltadas à saúde e à preservação funcional ao longo da vida.
Desenvolvimento
A termorregulação representa uma dimensão central da fisiologia humana durante o exercício e durante qualquer condição que imponha aumento substancial da temperatura corporal. A atividade muscular produz grande quantidade de calor, e apenas uma pequena fração da energia metabólica é convertida em trabalho mecânico externo. O restante precisa ser dissipado para impedir elevações progressivas da temperatura corporal incompatíveis com a manutenção da homeostase. Para isso, o organismo aumenta o fluxo sanguíneo cutâneo, promove vasodilatação periférica e estimula a produção de suor. Quando o ambiente é quente ou quando a umidade limita a evaporação, a capacidade de dissipação térmica diminui e o sistema cardiovascular passa a enfrentar uma competição crescente entre a necessidade de perfundir os músculos ativos e a necessidade de transportar calor para a superfície corporal. O resultado é aumento da frequência cardíaca, maior estresse cardiovascular, elevação da percepção de esforço e redução progressiva da capacidade de sustentar determinada intensidade de exercício. A aclimatação ao calor modifica precisamente essa relação, permitindo que uma mesma carga externa seja tolerada com menor perturbação fisiológica. (KIRBY et al., 2021; HENDERSON et al., 2021).
A aclimatação térmica é tradicionalmente obtida por meio do exercício realizado em ambiente quente ou pela utilização de estratégias que dificultam a dissipação do calor, como roupas adicionais. Nessa situação, o aumento da temperatura corporal resulta simultaneamente da produção metabólica de calor pelo exercício e da redução da capacidade de transferência desse calor para o ambiente. Trata-se, portanto, de uma forma de estresse térmico ativo, na qual hipertermia, trabalho muscular, perturbação metabólica e carga mecânica ocorrem de forma integrada. A sauna, por outro lado, representa uma forma de estresse térmico passivo, na qual a elevação da temperatura corporal é produzida predominantemente pela transferência de calor do ambiente para o organismo. Embora ambos os estímulos possam ativar mecanismos termorregulatórios e cardiovasculares parcialmente semelhantes, eles não são fisiologicamente equivalentes. O treinamento ativo no calor acrescenta simultaneamente carga metabólica e mecânica, enquanto a exposição passiva permite aumentar a carga térmica sem exigir trabalho muscular adicional. Essa distinção é fundamental para compreender por que a sauna pode ser utilizada como complemento, e não necessariamente como substituição, da exposição ativa ao calor. (AHOKAS et al., 2025; KIRBY et al., 2021).
O princípio biológico subjacente é que as adaptações ao treinamento não dependem exclusivamente da quantidade de trabalho mecânico executado, mas também da natureza e da magnitude da perturbação homeostática produzida pelo estímulo. A hipertermia é, por si só, um poderoso estressor fisiológico. A elevação da temperatura corporal provoca redistribuição do fluxo sanguíneo, aumento da frequência cardíaca, ativação de mecanismos neuroendócrinos e autonômicos e alterações na sinalização celular. Entre as respostas potencialmente envolvidas estão a indução de proteínas de choque térmico, alterações na sinalização redox e mecanismos relacionados à manutenção da homeostase proteica e celular. Dessa forma, a exposição térmica repetida pode ser interpretada dentro de uma lógica hormética: uma perturbação aguda suficientemente intensa para ativar mecanismos adaptativos, mas adequadamente dosada para permitir recuperação e adaptação subsequente. É importante, contudo, distinguir plausibilidade mecanística de demonstração causal. A existência de respostas moleculares ao calor não significa, por si só, que cada uma delas seja responsável diretamente pela melhora do desempenho ou pela redução do risco de doença observada em estudos populacionais. (HENDERSON et al., 2021; PATRICK; JOHNSON, 2021).
Entre as adaptações mais consistentemente associadas à exposição repetida ao calor encontra-se a expansão do volume plasmático. Essa resposta possui grande relevância funcional porque o aumento do volume intravascular pode favorecer o retorno venoso e o enchimento cardíaco, contribuindo para a manutenção do volume sistólico e do débito cardíaco. Simultaneamente, uma maior disponibilidade de volume circulante pode facilitar a manutenção do fluxo sanguíneo cutâneo necessário à dissipação de calor sem comprometer na mesma magnitude a perfusão dos músculos ativos. A expansão plasmática também contribui para reduzir o impacto relativo da desidratação e da hemoconcentração durante o exercício. Portanto, embora não represente isoladamente toda a adaptação à aclimatação térmica, constitui um dos mecanismos mais plausíveis pelos quais a exposição repetida ao calor pode reduzir o custo cardiovascular de determinada intensidade de exercício. (SCOON et al., 2007; KIRBY et al., 2021).
O estudo de Scoon e colaboradores constitui uma das primeiras demonstrações experimentais diretas do potencial da sauna pós-exercício para modificar respostas fisiológicas relacionadas ao desempenho de endurance. Seis corredores competitivos e triatletas realizaram aproximadamente treze sessões de sauna durante três semanas, imediatamente após seus treinamentos habituais. As exposições tiveram duração média de aproximadamente 31 minutos e ocorreram em temperatura próxima de 90 °C. Após a intervenção, os participantes apresentaram aumento de 7,1% no volume plasmático e de 5,6% no volume sanguíneo total. Essas alterações indicam que a exposição passiva ao calor, quando repetida de forma sistemática, é capaz de produzir adaptações hematológicas e hemodinâmicas relevantes mesmo sem modificar necessariamente o programa principal de treinamento. (SCOON et al., 2007).
A modificação do volume sanguíneo foi acompanhada por melhora substancial da tolerância ao exercício. O tempo até a exaustão aumentou aproximadamente 32%, valor que os autores estimaram corresponder a uma melhoria de cerca de 1,9% em uma prova competitiva de endurance contra o relógio. As alterações individuais no desempenho apresentaram associação com as modificações no volume plasmático e no volume sanguíneo total, reforçando a hipótese de que adaptações cardiovasculares e hematológicas contribuíram para o efeito observado. É necessário, entretanto, interpretar esses resultados dentro das limitações metodológicas do estudo. A amostra era extremamente pequena, composta por apenas seis participantes, e o desfecho principal consistia em tempo até a exaustão, variável que não é diretamente equivalente ao desempenho competitivo. O estudo demonstra, portanto, uma resposta fisiologicamente importante e biologicamente plausível, mas não permite estabelecer com precisão a magnitude universal do efeito ergogênico da sauna. (SCOON et al., 2007).
Uma investigação posterior, com desenho experimental mais robusto, avaliou os efeitos da sauna pós-exercício em vinte corredores treinados de meio-fundo, incluindo homens e mulheres. Durante três semanas, o grupo experimental manteve seu treinamento habitual e realizou sessões de sauna imediatamente após determinadas sessões de exercício, aproximadamente três vezes por semana, com duração média de 28 ± 2 minutos e temperatura entre 101 e 108 °C. Comparativamente ao grupo-controle, os participantes expostos à sauna apresentaram redução de aproximadamente 0,2 °C na temperatura retal máxima, redução de 0,8 °C na temperatura da pele e diminuição de 11 batimentos por minuto na frequência cardíaca durante o teste padronizado de tolerância ao calor. Foram observados ainda aumentos superiores no VO₂max absoluto, de aproximadamente 0,27 L·min⁻¹, e na velocidade correspondente a 4 mmol·L⁻¹ de lactato, de aproximadamente 0,6 km·h⁻¹. Esses resultados demonstram que a exposição passiva repetida ao calor pode produzir adaptações termorregulatórias mensuráveis e, em corredores treinados, associar-se também à melhora de indicadores de capacidade de exercício. (KIRBY et al., 2021).
O significado fisiológico dessas alterações deve ser compreendido como uma redução da perturbação homeostática produzida por determinada carga externa. Uma frequência cardíaca menor durante exercício padronizado sob calor sugere menor necessidade de compensação cardiovascular, enquanto a redução da temperatura corporal indica maior eficiência dos mecanismos envolvidos na dissipação e tolerância ao calor. Essas respostas podem resultar da interação entre expansão do volume plasmático, modificações na distribuição do fluxo sanguíneo, alterações na resposta sudomotora e adaptações no controle termorregulatório. A melhora da velocidade associada a determinada concentração de lactato, por sua vez, não deve ser interpretada como evidência de um efeito isolado sobre o metabolismo do lactato. Essa variável constitui um marcador integrado da capacidade de exercício e pode ser influenciada por alterações na disponibilidade e utilização de oxigênio, perfusão muscular, distribuição do fluxo sanguíneo, economia de movimento e tolerância fisiológica à intensidade. Assim, a melhora observada provavelmente resulta de uma reorganização sistêmica da resposta ao exercício e não da modificação de um único mecanismo metabólico. (KIRBY et al., 2021; AHOKAS et al., 2025).
Um aspecto particularmente relevante do estudo de Kirby e colaboradores é que a continuação da intervenção até sete semanas não produziu uma progressão proporcional de todas as adaptações. Entre os participantes que prolongaram o protocolo, apenas a temperatura retal máxima apresentou redução adicional significativa, de aproximadamente 0,1 °C, enquanto os demais indicadores não demonstraram novas melhorias estatisticamente significativas. Esse resultado sugere que as adaptações à exposição térmica apresentam comportamento não linear e podem atingir um platô após determinado período. A consequência prática dessa observação é importante: aumentar indefinidamente a quantidade de exposição ao calor não implica necessariamente ganhos progressivos. É biologicamente mais coerente considerar a existência de uma fase inicial de aquisição de adaptações, seguida por uma fase em que a exposição térmica poderia ter função predominantemente de manutenção. (KIRBY et al., 2021).
A sauna realizada imediatamente após o exercício apresenta uma vantagem fisiológica e logística particular. Ao término de uma sessão de treinamento, a temperatura corporal já se encontra elevada em consequência da produção metabólica de calor. A entrada imediata em um ambiente quente prolonga ou intensifica a perturbação térmica sem exigir que o atleta continue produzindo trabalho mecânico. Dessa forma, é possível dissociar parcialmente a carga térmica da carga mecânica e metabólica. Essa característica pode ser particularmente útil em programas nos quais o aumento adicional do volume de exercício seria indesejável por interferir na recuperação ou na qualidade das sessões subsequentes. A sauna, nesse contexto, não acrescenta uma nova sessão de treinamento muscular, mas adiciona uma dimensão específica de estresse fisiológico à sessão já realizada. (KIRBY et al., 2021; SCOON et al., 2007).
Essa possibilidade de aumentar a exposição térmica com baixo custo mecânico explica por que a combinação entre treinamento ativo no calor e exposição passiva pode ser fisiologicamente interessante. O exercício no calor possui elevada especificidade, pois reproduz a condição em que o atleta precisa simultaneamente produzir trabalho muscular, sustentar o metabolismo energético e regular a temperatura corporal. A sauna, por outro lado, permite aumentar a dose térmica sem reproduzir a mesma perturbação muscular. Uma combinação racional dos dois estímulos pode, portanto, permitir que parte da aclimatação seja obtida por exposição ativa e parte por exposição passiva. Não existe, entretanto, evidência suficiente para afirmar que uma proporção fixa entre treinamento térmico ativo e sauna seja ideal para todos os indivíduos. Protocolos como a utilização de aproximadamente dois terços de sessões ativas e um terço de sessões passivas representam estratégias práticas possíveis, mas não devem ser apresentados como uma prescrição universalmente validada. (KIRBY et al., 2021; AHOKAS et al., 2025).
A análise sistemática mais recente da literatura exige, contudo, uma interpretação mais cautelosa do que aquela frequentemente encontrada em materiais promocionais sobre treinamento térmico. Ahokas e colaboradores identificaram quatorze estudos elegíveis, envolvendo 194 participantes, dos quais nove investigaram os efeitos agudos da exposição ao calor após o exercício e cinco avaliaram intervenções de maior duração. Os resultados referentes à recuperação aguda foram inconsistentes, com estudos demonstrando benefícios, ausência de efeito e, em alguns casos, resultados potencialmente desfavoráveis. Nas intervenções crônicas, foram observadas evidências de melhora do desempenho de corrida, particularmente em determinadas condições ambientais, mas não foi identificado um efeito consistente sobre a performance no ciclismo ou sobre o VO₂max. A heterogeneidade dos protocolos, modalidades esportivas, métodos de aquecimento, temperaturas, durações e populações estudadas impediu a realização de uma meta-análise quantitativa robusta. Assim, embora existam resultados promissores, a literatura ainda não permite concluir que a exposição passiva ao calor produza melhora universal do desempenho ou da recuperação. (AHOKAS et al., 2025).
Essa heterogeneidade torna-se evidente também quando se analisam os efeitos sobre a recuperação neuromuscular. Em um estudo crossover realizado com jogadores de basquetebol, uma sessão de aproximadamente vinte minutos de sauna infravermelha após exercício de força e pliometria atenuou a redução subsequente do desempenho no salto com contramovimento e reduziu a percepção de dor muscular. Entretanto, embora a exposição térmica tenha produzido respostas cardiovasculares e autonômicas agudas, não foram identificadas diferenças claras na recuperação autonômica noturna entre a condição de sauna e a recuperação passiva. Esses resultados sugerem que determinadas formas de aquecimento passivo podem influenciar a recuperação funcional e perceptiva, mas não autorizam generalizações para todos os tipos de sauna, protocolos ou modalidades esportivas. (AHOKAS et al., 2023).
Os mecanismos celulares propostos para explicar os possíveis efeitos do calor também exigem distinção entre hipótese e evidência demonstrada. A exposição térmica pode induzir proteínas de choque térmico, modificar a sinalização redox e desencadear respostas transitórias relacionadas à inflamação e à proteção celular. Entretanto, uma resposta molecular aguda não representa automaticamente um benefício funcional. A revisão de Ahokas e colaboradores observou que os estudos de recuperação pós-exercício demonstraram efeitos limitados ou inconsistentes sobre marcadores indiretos de dano muscular e inflamação. Além disso, em diversas investigações não foram realizadas medidas diretas de temperatura intramuscular, apesar da possível relevância dessa variável para determinadas respostas celulares. Assim, a indução de proteínas de choque térmico e outros mecanismos associados à hormese térmica constitui uma explicação biologicamente plausível, mas ainda não uma demonstração causal definitiva para todos os benefícios atribuídos à sauna. (AHOKAS et al., 2025; HENDERSON et al., 2021).
A relevância da exposição passiva ao calor, entretanto, ultrapassa o contexto estritamente esportivo. A sauna produz uma resposta cardiovascular aguda que compartilha determinadas características com o exercício aeróbio, incluindo aumento da frequência cardíaca, aumento do débito cardíaco e redistribuição do fluxo sanguíneo para a circulação cutânea. Ao mesmo tempo, a vasodilatação induzida pelo calor reduz a resistência vascular periférica. É importante, contudo, não confundir semelhança fisiológica parcial com equivalência entre os dois estímulos. Durante a sauna não ocorre a contração muscular sustentada, o aumento do gasto energético ou o conjunto de adaptações musculoesqueléticas e metabólicas característicos do exercício. A sauna não substitui, portanto, a atividade física. Sua importância potencial reside justamente no fato de fornecer um estímulo adicional, parcialmente sobreposto e parcialmente distinto, que pode complementar determinadas adaptações induzidas pelo exercício. (KUNUTSOR et al., 2018; PATRICK; JOHNSON, 2021).
A literatura epidemiológica sobre sauna e longevidade é particularmente relevante nesse contexto. Estudos derivados da coorte finlandesa Kuopio Ischemic Heart Disease Risk Factor Study identificaram associações dose-dependentes entre frequência de utilização da sauna e menor risco de eventos cardiovasculares fatais. Em comparações com indivíduos que utilizavam sauna apenas uma vez por semana, aqueles que relataram frequência de duas a três sessões semanais apresentaram menor risco de mortalidade cardiovascular, enquanto associações ainda mais pronunciadas foram observadas entre os que utilizavam sauna quatro a sete vezes por semana. Também foram relatadas associações inversas com morte súbita cardíaca, doença coronariana fatal e mortalidade por todas as causas. Em uma das sínteses desses resultados, a frequência de duas a três sessões semanais foi associada a risco aproximadamente 27% menor de mortalidade cardiovascular, enquanto a frequência de quatro a sete sessões foi associada a redução de aproximadamente 50%, em comparação com uma sessão semanal. Esses dados sugerem uma relação dose–resposta, mas não demonstram causalidade. (PATRICK; JOHNSON, 2021).
A duração das sessões também parece estar associada aos desfechos observacionais. Na mesma linha de investigação, exposições mais prolongadas foram associadas a relações mais favoráveis com determinados indicadores de mortalidade do que sessões muito curtas. Em síntese apresentada por Patrick e Johnson, sessões de duração igual ou superior a aproximadamente dezenove minutos apresentaram associação mais forte com menor risco de morte súbita cardíaca do que sessões de onze minutos ou menos. Esses achados são compatíveis com a hipótese de que não apenas a frequência, mas também a dose térmica acumulada, seja relevante para os efeitos fisiológicos da exposição crônica ao calor. Contudo, como se trata de associação observacional, não é possível excluir completamente fatores de estilo de vida, condições socioeconômicas ou outras características dos frequentadores habituais de sauna que possam contribuir para os resultados observados. (PATRICK; JOHNSON, 2021).
Os mecanismos propostos para explicar uma possível relação entre sauna e saúde cardiovascular são múltiplos. A exposição repetida ao calor pode contribuir para redução da pressão arterial, melhora da complacência arterial e da função endotelial, redução da rigidez vascular e modificações favoráveis no sistema nervoso autonômico. Também foram descritas alterações relacionadas ao estresse oxidativo e à função ventricular. O conjunto dessas respostas é particularmente interessante porque a disfunção endotelial, a rigidez arterial, a hipertensão e o desequilíbrio autonômico participam da fisiopatologia de diversas doenças cardiovasculares. Entretanto, a existência de mecanismos biologicamente plausíveis não elimina a necessidade de estudos experimentais capazes de demonstrar que as alterações fisiológicas induzidas pela sauna são responsáveis, de forma causal, pela redução de eventos clínicos observada nas coortes. (KUNUTSOR et al., 2018; PATRICK; JOHNSON, 2021).
A combinação entre exercício físico e sauna merece atenção especial porque ambos os estímulos podem atuar sobre vias fisiológicas parcialmente convergentes. A aptidão cardiorrespiratória elevada está consistentemente associada à menor incidência de doenças cardiovasculares e à menor mortalidade por todas as causas. O exercício melhora a função endotelial, reduz a pressão arterial, modifica favoravelmente o metabolismo da glicose e dos lipídios, reduz a inflamação crônica de baixo grau e aumenta a capacidade funcional cardiovascular e muscular. A sauna, por sua vez, pode induzir respostas hemodinâmicas, vasculares, autonômicas e celulares que apresentam alguma sobreposição com essas adaptações, embora sejam produzidas sem a participação do trabalho muscular ativo. A hipótese central, portanto, é que a associação entre exercício e sauna não represente simplesmente a soma de dois estímulos independentes, mas a possibilidade de interação entre mecanismos complementares. (KUNUTSOR et al., 2018; PATRICK; JOHNSON, 2021).
Essa hipótese recebeu suporte observacional particularmente interessante no estudo prospectivo de Kunutsor e colaboradores, que avaliou conjuntamente a aptidão cardiorrespiratória e a frequência de utilização da sauna em homens de meia-idade. Comparativamente ao grupo com baixa aptidão cardiorrespiratória e baixa frequência de sauna, a combinação de elevada aptidão e uso frequente de sauna apresentou hazard ratio de 0,42 para mortalidade cardiovascular e de 0,60 para mortalidade por todas as causas. Para comparação, elevada aptidão com baixa frequência de sauna apresentou hazard ratios de 0,50 e 0,63, respectivamente, enquanto baixa aptidão associada a alta frequência de sauna apresentou valores de 0,72 para mortalidade cardiovascular e 0,78 para mortalidade por todas as causas. A combinação das duas exposições apresentou, portanto, a associação mais favorável com a sobrevivência. (KUNUTSOR et al., 2018).
Esses resultados são particularmente importantes porque indicam que a sauna não parece simplesmente reproduzir os efeitos da aptidão física. Se esse fosse o caso, seria esperado que a alta frequência de sauna eliminasse ou substituísse substancialmente a importância da aptidão cardiorrespiratória. Entretanto, a associação mais favorável ocorreu justamente na presença simultânea de alta aptidão e uso frequente da sauna. Os autores interpretaram esses achados como compatíveis com um possível efeito multiplicativo ou adicional das duas exposições. Essa interpretação é biologicamente plausível porque, embora exercício e sauna compartilhem determinadas respostas cardiovasculares, o exercício produz adaptações musculares, metabólicas e cardiorrespiratórias que não podem ser obtidas simplesmente pela exposição passiva ao calor. A sauna poderia, portanto, acrescentar adaptações vasculares, hemodinâmicas, autonômicas e celulares a um organismo já submetido aos estímulos do treinamento físico regular. (KUNUTSOR et al., 2018).
Ao mesmo tempo, é necessário enfatizar uma limitação fundamental: esses resultados não demonstram que adicionar sauna ao exercício necessariamente prolongará a vida ou reduzirá a mortalidade individual de forma causal. O estudo é prospectivo e realizou ajustes para diversos fatores de risco, mas continua sendo observacional. A frequência de sauna foi obtida por autorrelato, existe possibilidade de confundimento residual e a amostra era predominantemente composta por homens caucasianos finlandeses, o que limita a generalização direta para mulheres e outras populações. A associação entre elevada aptidão física e uso frequente de sauna pode refletir, em parte, um conjunto mais amplo de comportamentos relacionados à saúde. Portanto, a interpretação correta não é que a sauna esteja comprovadamente prolongando a vida, mas que seu uso regular está associado, de forma consistente e biologicamente plausível, a melhores desfechos de saúde e sobrevivência, especialmente quando combinado a elevada aptidão cardiorrespiratória. (KUNUTSOR et al., 2018).
Além da evidência observacional, existem estudos experimentais sugerindo que a sauna pode complementar determinadas adaptações cardiovasculares ao exercício. Em um ensaio clínico randomizado de oito semanas envolvendo adultos fisicamente pouco ativos e portadores de pelo menos um fator de risco cardiovascular, a combinação de exercício regular com sessões de sauna após o exercício produziu efeitos adicionais sobre variáveis como aptidão cardiorrespiratória, pressão arterial sistólica e colesterol total quando comparada ao exercício sem sauna. Embora essa população seja substancialmente diferente de atletas treinados, o estudo demonstra que a associação entre exercício e estresse térmico passivo pode produzir respostas adicionais em determinadas condições fisiológicas. Os resultados não podem ser extrapolados automaticamente para populações altamente treinadas, mas reforçam a hipótese de complementaridade entre os dois estímulos. (LEE et al., 2022).
A discussão sobre saúde e longevidade também inclui possíveis efeitos da exposição térmica sobre o sistema nervoso autônomo. A frequência cardíaca aumenta durante a sauna como consequência da vasodilatação periférica e da necessidade de manutenção do débito cardíaco, mas o período subsequente à exposição pode envolver respostas autonômicas distintas. Estudos analisados em revisões sobre o tema sugerem alterações na variabilidade da frequência cardíaca e em indicadores relacionados à atividade parassimpática após sessões de sauna. Também foram descritos efeitos sobre a frequência cardíaca de repouso e possíveis modificações autonômicas após exposições repetidas. Essas respostas são fisiologicamente relevantes porque o equilíbrio entre os sistemas simpático e parassimpático participa da regulação cardiovascular e está associado a diversos indicadores prognósticos. Contudo, a variabilidade da frequência cardíaca é influenciada por múltiplos fatores, e não se pode interpretar uma alteração isolada como demonstração direta de redução de risco cardiovascular. (PATRICK; JOHNSON, 2021).
A exposição repetida ao calor também tem sido discutida no contexto da inflamação, do estresse oxidativo e dos processos associados ao envelhecimento biológico. O envelhecimento é acompanhado por alterações progressivas da função vascular, aumento da rigidez arterial, alterações metabólicas, disfunção endotelial e aumento de marcadores de inflamação crônica de baixo grau. Tanto o exercício quanto o estresse térmico representam estímulos capazes de ativar respostas celulares agudas que, quando repetidas e adequadamente toleradas, podem desencadear processos adaptativos. Nesse sentido, a sauna tem sido proposta como uma forma de hormese térmica potencialmente capaz de induzir mecanismos de proteção celular. A literatura disponível apresenta associações entre o uso regular de sauna e menor incidência ou mortalidade relacionada a determinadas doenças associadas ao envelhecimento, mas os mecanismos causais ainda não estão completamente estabelecidos. (PATRICK; JOHNSON, 2021).
A discussão sobre longevidade deve, portanto, ser conduzida com precisão conceitual. Existe uma diferença fundamental entre demonstrar que uma intervenção está associada a maior longevidade e demonstrar que ela efetivamente causa aumento da expectativa de vida. Os estudos finlandeses fornecem evidência epidemiológica prospectiva de longa duração e apresentam relações dose-dependentes que fortalecem a plausibilidade de uma associação real. No entanto, não constituem ensaios clínicos randomizados de mortalidade. É extremamente improvável, por razões práticas, que seja realizado um estudo experimental suficientemente longo e amplo para randomizar indivíduos durante décadas à prática ou não de sauna e utilizar a mortalidade como desfecho primário. Por essa razão, a ciência da longevidade frequentemente depende da convergência entre evidência observacional, estudos de intervenção sobre mecanismos intermediários e plausibilidade biológica. É nesse conjunto, e não em uma demonstração causal isolada, que deve ser situada a atual evidência sobre sauna e sobrevivência. (KUNUTSOR et al., 2018; PATRICK; JOHNSON, 2021).
Também existem indícios de que a sauna produz efeitos agudos que transcendem a termorregulação e a função cardiovascular. Um estudo experimental sobre o denominado estado de totonou, associado à alternância entre sauna, resfriamento e repouso, identificou modificações eletroencefalográficas, redução do tempo de resposta em tarefas comportamentais e alterações subjetivas relacionadas ao relaxamento. Esses resultados não constituem evidência de aumento de longevidade nem demonstram diretamente melhora crônica da função autonômica, mas reforçam a compreensão de que a exposição térmica é um estímulo sistêmico capaz de influenciar também a atividade neural e a experiência subjetiva. (CHANG et al., 2023).
A segurança da sauna também precisa ser considerada dentro de uma perspectiva individualizada. Para a maioria dos indivíduos saudáveis, a sauna é geralmente considerada uma prática bem tolerada, mas a exposição ao calor produz alterações hemodinâmicas significativas e não deve ser tratada como fisiologicamente trivial. A vasodilatação pode reduzir a pressão arterial e favorecer hipotensão postural, especialmente em pessoas predispostas, desidratadas ou sob determinadas medicações. Cautela é particularmente necessária em condições cardiovasculares instáveis, em situações de hipotensão importante, após eventos cardiovasculares recentes ou na presença de determinadas cardiopatias graves. Mesmo estudos que discutem uma boa tolerabilidade da sauna em algumas populações cardiovasculares enfatizam a necessidade de individualização clínica. Portanto, recomendações de exposição térmica para indivíduos com doença cardiovascular estabelecida devem considerar diagnóstico, estabilidade clínica, medicações e supervisão médica apropriada. (KUNUTSOR et al., 2018).
Do ponto de vista esportivo, a principal aplicação prática da sauna é compreendê-la como uma forma de carga térmica adicional. A magnitude do estímulo dependerá da temperatura, umidade, duração da sessão, frequência semanal, momento em relação ao exercício, estado prévio de aclimatação e características individuais do atleta. Os protocolos que produziram resultados promissores em corredores utilizaram exposições repetidas durante aproximadamente três semanas, geralmente realizadas imediatamente após o treinamento e com duração próxima de trinta minutos. Esses protocolos constituem referências experimentais úteis, mas não devem ser transformados automaticamente em uma prescrição universal. A dose térmica necessária para produzir adaptação provavelmente varia de acordo com o tamanho corporal, nível de treinamento, modalidade esportiva, ambiente habitual e objetivo da intervenção. (SCOON et al., 2007; KIRBY et al., 2021; AHOKAS et al., 2025).
Para atletas, a estratégia biologicamente mais consistente parece ser considerar o calor dentro da própria arquitetura da carga de treinamento. Sessões de exercício ativo no calor podem fornecer especificidade para competições realizadas sob alta temperatura, enquanto a sauna pós-exercício pode ampliar a exposição térmica sem exigir aumento equivalente da carga mecânica. Para indivíduos cujo objetivo principal é saúde, e não desempenho, a sauna pode representar uma modalidade adicional de estresse fisiológico potencialmente favorável à função cardiovascular, especialmente quando integrada — e não contraposta — à prática regular de exercício. Em ambos os casos, o conceito central é o mesmo: a exposição ao calor constitui um estímulo biológico cuja resposta depende da dose, da frequência, da tolerância individual e da interação com o estado fisiológico prévio. (KUNUTSOR et al., 2018; LEE et al., 2022; PATRICK; JOHNSON, 2021).
A interpretação integrada da evidência sugere, portanto, uma perspectiva mais ampla sobre a sauna. No contexto da performance, a exposição passiva ao calor pode favorecer adaptações termorregulatórias e cardiovasculares e, particularmente em corredores, foi associada à expansão do volume plasmático, redução da frequência cardíaca e da temperatura corporal durante exercício sob calor e melhora de determinados indicadores de desempenho. No contexto da saúde, o uso regular de sauna está associado a menor risco de mortalidade cardiovascular e por todas as causas e a efeitos potencialmente favoráveis sobre pressão arterial, função vascular, rigidez arterial e regulação autonômica. No contexto da longevidade, a evidência mais interessante emerge justamente da combinação entre elevada aptidão cardiorrespiratória e exposição frequente à sauna, associação que apresentou os resultados mais favoráveis de sobrevivência nas coortes disponíveis. Isso sugere que exercício e calor passivo podem atuar sobre dimensões complementares da fisiologia humana. (KUNUTSOR et al., 2018; PATRICK; JOHNSON, 2021).
Em síntese, a sauna deve ser compreendida como um estímulo fisiológico ativo em termos biológicos, embora passivo do ponto de vista mecânico. Ela não exige contração muscular nem substitui os efeitos estruturais, metabólicos e funcionais do exercício, mas é capaz de provocar respostas cardiovasculares, termorregulatórias, autonômicas e celulares que podem complementar aquelas produzidas pelo treinamento físico. A evidência mais sólida para desempenho concentra-se em adaptações à tolerância ao calor e em estudos realizados principalmente com corredores, enquanto a evidência sobre saúde e longevidade combina estudos mecanísticos, ensaios de intervenção e grandes coortes observacionais. A associação particularmente favorável entre alta aptidão cardiorrespiratória e uso frequente de sauna reforça a ideia de que o maior potencial da exposição passiva ao calor talvez não esteja em substituir o exercício, mas em ampliar o repertório de estímulos fisiológicos disponíveis para promover desempenho, saúde cardiovascular e preservação funcional. Ainda assim, a magnitude causal desses efeitos sobre a longevidade permanece não demonstrada, e a utilização da sauna deve respeitar as características individuais, a tolerância ao calor e, especialmente em pessoas com doença cardiovascular, a avaliação clínica apropriada. (AHOKAS et al., 2025; KIRBY et al., 2021; SCOON et al., 2007; KUNUTSOR et al., 2018; LEE et al., 2022; PATRICK; JOHNSON, 2021).
Referências
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AHOKAS, Essi K.; HENNESSY, Richard S.; HANSTOCK, Helen G.; KYRÖLÄINEN, Heikki; IHALAINEN, Johanna K. Effects of post-exercise heat exposure on acute recovery and training-induced performance adaptations: a systematic review. Sports Medicine – Open, v. 11, art. 106, 2025. DOI: 10.1186/s40798-025-00910-0.
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