A intensidade do exercício é uma das principais variáveis que determinam a natureza do estímulo biológico produzido pelo treinamento. Entretanto, a prática esportiva ainda utiliza com frequência sistemas de zonas baseados exclusivamente em percentuais da frequência cardíaca máxima, da frequência cardíaca de reserva, da velocidade máxima ou da potência máxima. Embora esses procedimentos sejam simples e operacionalmente úteis, eles pressupõem, implicitamente, que a mesma fração de uma variável máxima representa uma perturbação fisiológica semelhante em indivíduos diferentes. A evidência disponível demonstra que essa equivalência é apenas aproximada. Em corredores recreacionais, por exemplo, Nuuttila et al. (2025) demonstraram erros relevantes quando LT1 e LT2 foram estimados a partir de âncoras fixas de frequência cardíaca, velocidade, VO₂ ou percepção de esforço, sendo as estimativas baseadas em velocidade relativamente mais precisas e as derivadas de RPE, em média, as menos precisas. Os próprios autores concluem que a intensidade do exercício é mais adequadamente organizada a partir de limiares metabólicos do que simplesmente por porcentagens arbitrárias de valores máximos. (NUUTTILA et al., 2025).
Essa distinção é biologicamente importante porque a intensidade não é apenas um número expresso em quilômetros por hora, watts ou batimentos por minuto. Ela determina a magnitude da perturbação da homeostase e, consequentemente, os mecanismos celulares e moleculares mobilizados para restaurá-la e adaptar o organismo a futuras exposições. A hidrólise de ATP no músculo esquelético pode aumentar dramaticamente durante o exercício, exigindo ressíntese contínua por meio do sistema fosfagênio, da glicólise e da fosforilação oxidativa. À medida que a intensidade aumenta, modificam-se a participação relativa dessas vias, o recrutamento de unidades motoras, o fluxo sanguíneo muscular, a utilização de substratos, a cinética do consumo de oxigênio e o equilíbrio entre produção, transporte e utilização do lactato. (HECK; WACKERHAGE, 2024).
Por essa razão, a divisão das zonas de treinamento deve, idealmente, refletir domínios fisiológicos e não apenas faixas numéricas convencionais. O modelo contemporâneo de três domínios distingue, de forma geral, o domínio moderado, situado abaixo do primeiro limiar metabólico; o domínio pesado, localizado entre o primeiro e o segundo limiares; e o domínio severo, acima do segundo limiar e até intensidades próximas ou superiores àquelas associadas ao consumo máximo de oxigênio. Essa organização possui maior significado fisiológico porque, em cada domínio, a cinética do VO₂, o comportamento do lactato, a sustentabilidade da carga e os mecanismos predominantes de fadiga apresentam características diferentes. (JAMNICK et al., 2020; NUUTTILA et al., 2025).
A frequência cardíaca permanece extremamente útil nesse contexto, mas seu significado deve ser corretamente compreendido. A FC representa uma resposta cronotrópica do sistema cardiovascular à demanda imposta pelo exercício; ela não mede diretamente a taxa de glicólise, a concentração de lactato, o consumo de oxigênio ou a oxigenação do músculo. Além da intensidade externa, a frequência cardíaca pode ser modificada pela temperatura, desidratação, estresse, fadiga, sono, altitude e deriva cardiovascular. Assim, dois atletas podem apresentar 150 bpm e estar submetidos a estados metabólicos distintos. O problema, portanto, não é utilizar a frequência cardíaca, mas utilizá-la como se fosse uma medida direta e universal da intensidade metabólica. Os resultados de Nuuttila et al. (2025) reforçam essa limitação ao mostrar que âncoras fixas baseadas em FC apresentam erro na estimativa dos limiares e que a posição relativa dos limiares pode variar entre indivíduos e populações. (NUUTTILA et al., 2025).
A percepção subjetiva do esforço, por sua vez, acrescenta uma dimensão biologicamente diferente. O RPE representa uma integração perceptiva de sinais provenientes dos sistemas cardiovascular, respiratório, muscular e nervoso. Por isso, um atleta experiente pode aprender a reconhecer sensações associadas a intensidades sustentáveis, de transição ou muito elevadas. Entretanto, essa percepção não é uma medida direta de uma variável metabólica específica e sua precisão depende, entre outros fatores, da experiência do indivíduo. No estudo de Nuuttila et al. (2025), as estimativas derivadas de RPE apresentaram os maiores erros médios entre as âncoras avaliadas, embora os autores reconheçam que o RPE pode ser particularmente útil quando utilizado em associação com outras variáveis e na ausência de avaliação direta dos limiares. (NUUTTILA et al., 2025).
A primeira tentativa de aproximar a prescrição da intensidade da fisiologia metabólica consistiu na utilização da concentração sanguínea de lactato. O lactato, entretanto, não deve ser interpretado como um simples produto residual ou marcador de “anaerobiose”. A concentração observada no sangue representa o resultado dinâmico de processos simultâneos de produção, transporte, intercâmbio entre tecidos, utilização oxidativa e remoção. O treinamento modifica vários desses componentes, incluindo a capacidade oxidativa muscular, a densidade mitocondrial, a capilarização e o transporte de monocarboxilatos. A literatura clássica sobre o MLSS já demonstrava que adaptações ao treinamento podem alterar substancialmente a relação entre carga externa e lactatemia, inclusive por modificações na depuração e no transporte do lactato. (BILLAT et al., 2003).
A utilização de uma concentração fixa de 2 mmol·L⁻¹ representa uma das abordagens mais simples para estimar uma intensidade predominantemente aeróbica. Seu valor prático reside na facilidade de aplicação: durante um teste incremental, identifica-se a velocidade ou potência correspondente a esse valor e utiliza-se essa carga como referência para a prescrição. Entretanto, do ponto de vista biológico, não há razão para esperar que 2 mmol·L⁻¹ representem exatamente a mesma transição fisiológica em todos os indivíduos. A concentração basal, a taxa de aparecimento do lactato, a capacidade oxidativa, o transporte entre fibras e tecidos e a depuração sistêmica variam substancialmente entre atletas. Assim, o método de 2 mmol·L⁻¹ deve ser entendido como uma âncora operacional, e não como uma fronteira metabólica universal.
O mesmo raciocínio se aplica ao método de 4 mmol·L⁻¹, historicamente associado ao conceito de OBLA (Onset of Blood Lactate Accumulation). Sua popularidade decorreu, em grande medida, da conveniência de estabelecer um valor comum para identificar uma região de elevada perturbação metabólica. Entretanto, a própria literatura que investigou o MLSS demonstra ampla variabilidade interindividual na concentração de lactato observada em intensidades máximas sustentáveis. Billat et al. (2003) relataram concentrações estáveis variando amplamente entre indivíduos, enquanto diferentes estudos apresentaram valores de MLSS distribuídos aproximadamente entre 2 e mais de 7 mmol·L⁻¹, dependendo do protocolo e da população estudada. Portanto, embora 4 mmol·L⁻¹ possa ser uma referência histórica útil, não constitui uma fronteira biológica universal. (BILLAT et al., 2003).
O conceito de OBLA apresenta, portanto, valor operacional, mas sua interpretação deve ser cautelosa. Utilizar 4 mmol·L⁻¹ pressupõe que diferentes indivíduos alcançam uma condição fisiologicamente comparável quando atingem essa concentração. Contudo, o lactato sanguíneo é resultado da interação entre aparecimento e desaparecimento do lactato, e indivíduos podem apresentar a mesma concentração sanguínea em cargas, taxas metabólicas e estados de equilíbrio distintos. Beneke, Hütler e Leithäuser (2000) observaram que sujeitos com maior desempenho máximo apresentavam maiores cargas de MLSS, enquanto a concentração de lactato associada ao MLSS não se relacionava diretamente com a capacidade máxima. Isso demonstra que a concentração isolada e a intensidade correspondente são dimensões fisiologicamente diferentes. (BENEKE; HÜTLER; LEITHÄUSER, 2000).
A necessidade de superar as limitações dos valores fixos estimulou o desenvolvimento dos métodos individualizados. Entre eles, o LT1, ou primeiro limiar de lactato, procura identificar a primeira mudança sistemática na relação entre intensidade e concentração de lactato, geralmente associada ao momento em que a concentração se eleva acima da linha de base. Fisiologicamente, essa transição é relevante porque separa, de forma aproximada, o domínio moderado daquele em que a perturbação metabólica começa a se tornar progressivamente mais pronunciada. O problema metodológico é que não existe uma única definição universal de LT1. Dependendo do critério utilizado, podem ser identificados valores diferentes no mesmo indivíduo. Ainda assim, sua principal vantagem em relação aos valores fixos é procurar identificar uma mudança na resposta individual, e não simplesmente impor uma concentração previamente definida. (HECK; WACKERHAGE, 2024).
O LT2, ou segundo limiar de lactato, representa outra região de transição, associada a uma alteração mais pronunciada no comportamento da curva lactato-intensidade e à aproximação do limite superior da intensidade sustentável. Também aqui não existe uma definição metodológica única. LT2, limiar anaeróbio, OBLA, IAT e MLSS são conceitos relacionados, mas não sinônimos perfeitos. A simplificação que os trata como se todos identificassem exatamente o mesmo fenômeno pode gerar interpretações equivocadas. Heck e Wackerhage (2024) enfatizam explicitamente que o MLSS é distinto do LT1 e representa uma intensidade superior, correspondendo à maior intensidade na qual a concentração de lactato permanece estável ao longo do tempo. (HECK; WACKERHAGE, 2024).
O método Dmax procura resolver parte desse problema utilizando a própria geometria da curva de lactato. Após o ajuste matemático da relação entre intensidade e lactatemia, identifica-se o ponto da curva que apresenta a maior distância perpendicular em relação à linha formada entre dois pontos de referência. A principal vantagem conceitual é abandonar a imposição de uma concentração fixa como 2 ou 4 mmol·L⁻¹ e utilizar o comportamento individual da curva. Entretanto, o Dmax não identifica uma entidade biológica independente da metodologia: seu resultado depende da qualidade da curva, do número e duração dos estágios, da forma de ajuste matemático e dos pontos utilizados para construir a análise. Por isso, sua grande utilidade está na padronização objetiva da interpretação de uma curva individual, mas o resultado não deve ser automaticamente confundido com o MLSS ou com uma fronteira fisiológica universalmente definida (FAUDE; KINDERMANN; MEYER, 2009; JAMNICK et al., 2020).
Os métodos de limiar anaeróbio individual, entre os quais o IAT ocupa posição histórica importante, partem justamente da premissa de que a concentração de lactato associada a uma transição metabólica não precisa ser idêntica entre indivíduos. A literatura revisada por Billat et al. (2003) mostra que intensidades classificadas como limiar individual podem estar associadas a concentrações de lactato bastante diferentes, reforçando a inadequação de transformar um único valor de concentração em regra universal. O valor desses métodos está na tentativa de adaptar a análise à resposta individual; sua limitação reside no fato de que diferentes algoritmos e critérios podem produzir diferentes estimativas. (BILLAT et al., 2003).
O MLSS — Maximum Lactate Steady State ocupa posição especial porque não é simplesmente um ponto estimado em uma curva incremental. Ele é determinado diretamente pela resposta do lactato durante exercício em carga constante. Tradicionalmente, identifica-se o MLSS como a maior intensidade em que a concentração de lactato permanece suficientemente estável durante o esforço. Heck e Wackerhage (2024) descrevem o protocolo clássico como uma série de exercícios de aproximadamente 30 minutos, com medições seriadas de lactato e um critério de estabilidade inferior a 1 mmol·L⁻¹ durante os últimos 20 minutos. Por exigir múltiplas sessões em diferentes intensidades, esse método é operacionalmente trabalhoso, mas é justamente por avaliar diretamente a sustentabilidade metabólica da carga que se tornou uma referência para validação de métodos indiretos. (HECK; WACKERHAGE, 2024).
A superioridade conceitual do MLSS como medida direta, entretanto, não significa que ele seja uma resposta definitiva para todas as questões relacionadas ao desempenho. Beneke, Hütler e Leithäuser (2000) demonstraram que o MLSS representa a maior carga mantida sem acúmulo contínuo de lactato, mas também mostraram que atletas com maior capacidade máxima apresentam maiores cargas de MLSS mesmo quando a concentração de lactato associada ao estado estável não apresenta uma relação simples com o desempenho. Isso significa que a melhora do desempenho não depende apenas de “ter um lactato mais baixo”, mas de ser capaz de produzir maior potência ou velocidade em determinada condição metabólica. (BENEKE; HÜTLER; LEITHÄUSER, 2000).
Essa distinção é fundamental para compreender a adaptação ao treinamento. O objetivo fisiológico não é necessariamente reduzir a concentração absoluta de lactato em todas as situações, mas deslocar a relação entre intensidade e resposta metabólica. Um atleta mais adaptado pode produzir maior potência ou velocidade antes de atingir determinada perturbação metabólica. Parte dessa adaptação está relacionada ao aumento da capacidade oxidativa, à expansão do conteúdo e da função mitocondrial, à melhora da capilarização, à alteração da utilização de substratos e ao aperfeiçoamento dos mecanismos de transporte e utilização do lactato. A literatura sobre transporte de monocarboxilatos demonstra que proteínas como MCT1 e MCT4 apresentam distribuição e funções distintas, com o MCT1 particularmente associado a tecidos oxidativos e o MCT4 mais relacionado a fibras e células de elevada capacidade glicolítica. (BILLAT et al., 2003; BONEN, 2001).
A relação entre treinamento e adaptação molecular explica por que a identificação correta das zonas possui importância prática. Exercícios realizados abaixo do primeiro limiar podem ser sustentados por períodos prolongados e permitem acumular grande volume de trabalho com menor perturbação aguda da homeostase. Esse tipo de estímulo repetido está associado a adaptações relacionadas à capacidade oxidativa, ao metabolismo mitocondrial, à capilarização e à utilização periférica de oxigênio. A principal característica desse domínio não é simplesmente ser “fácil”, mas permitir elevado tempo acumulado de exposição a uma determinada demanda metabólica. Assim, uma prescrição baseada em uma FC que, para determinado atleta, esteja acima do LT1 pode transformar aquilo que deveria ser uma sessão predominantemente moderada em uma sessão realizada no domínio pesado, alterando o estímulo e o custo fisiológico da sessão (NUUTTILA et al., 2025; JAMNICK et al., 2020).
No domínio situado entre LT1 e LT2, geralmente denominado domínio pesado, o organismo continua sendo capaz de atingir determinadas condições de estabilidade, mas a cinética fisiológica é diferente daquela observada abaixo do primeiro limiar. A contribuição glicolítica aumenta, a concentração de lactato se eleva para um novo patamar e o custo fisiológico de manter a intensidade é superior. Esse domínio pode ser particularmente relevante para estimular adaptações que aumentem a capacidade de sustentar intensidades elevadas, mas seu uso exige maior precisão, porque uma pequena diferença de potência ou velocidade pode modificar substancialmente o tempo tolerável e a perturbação produzida. Nuuttila et al. (2025) ressaltam que nenhuma intensidade fixa conseguiu posicionar todos os indivíduos no domínio pesado, o que constitui um argumento direto contra a prescrição universal baseada, por exemplo, em 80% da FCmáx ou em uma determinada velocidade relativa. (NUUTTILA et al., 2025).
Acima da transição entre os domínios pesado e severo, a fisiologia muda novamente. O consumo de oxigênio pode apresentar um componente lento progressivo e, em intensidades suficientemente elevadas, não alcançar estabilidade antes da fadiga, aproximando-se progressivamente do VO₂máx. Nixon et al. (2021) descrevem precisamente essa distinção: dependendo da intensidade, o VO₂ pode atingir rapidamente um estado estável, atingir estabilidade mais tardiamente ou continuar aumentando até que o VO₂máx seja alcançado e o exercício se torne intolerável. Essa diferença não é meramente descritiva; ela determina quanto tempo um atleta consegue permanecer naquela intensidade e, portanto, como a sessão deve ser estruturada. (NIXON et al., 2021).
É nesse ponto que a comparação entre MLSS e Critical Power/Critical Speed se torna particularmente importante. O modelo de potência ou velocidade crítica foi desenvolvido a partir da relação entre intensidade e tempo tolerável. A Critical Power ou Critical Speed representa uma assíntota matemática derivada dessa relação e está associada a uma fronteira entre intensidades que podem ser sustentadas por períodos relativamente prolongados e intensidades que conduzem à exaustão em tempo finito. A grande vantagem prática é que CP ou CS podem ser estimadas sem coleta sanguínea e, em determinadas situações, a partir de testes de campo. (BILLAT et al., 2003).
Entretanto, MLSS e Critical Speed não são necessariamente idênticos. Nixon et al. (2021), estudando corredores bem treinados, encontraram uma velocidade crítica significativamente superior à velocidade determinada como MLSS. Mais importante, observaram que o VO₂ permanecia estável em uma intensidade superior ao MLSS, enquanto acima da Critical Speed o consumo de oxigênio aumentava progressivamente até o VO₂máx. Os autores concluíram que, quando o estado metabólico máximo é definido pela capacidade de estabilizar o VO₂, a Critical Speed parece representar melhor essa fronteira do que o MLSS determinado pelo critério convencional de estabilidade do lactato. (NIXON et al., 2021).
Esse resultado tem implicações importantes para a discussão sobre “padrão-ouro”. O MLSS continua sendo o padrão de referência para a determinação direta do máximo estado estável de lactato segundo a definição clássica. Entretanto, isso não significa que ele represente necessariamente a única ou a definitiva fronteira do metabolismo sustentável. Dependendo da variável utilizada para definir estabilidade — lactato sanguíneo, VO₂ pulmonar ou outro conjunto de respostas fisiológicas — a fronteira estimada pode ser diferente. O próprio debate contemporâneo sobre o máximo estado metabólico estável decorre dessa constatação: diferentes biomarcadores não representam exatamente o mesmo fenômeno e não precisam produzir o mesmo valor de intensidade (HECK; WACKERHAGE, 2024; NIXON et al., 2021).
É precisamente nesse cenário que a análise do consumo de oxigênio adquire importância. Enquanto o lactato fornece uma janela para o equilíbrio entre processos de aparecimento e desaparecimento desse metabólito, o VO₂ representa a resposta oxidativa sistêmica do organismo. A medida contínua do consumo de oxigênio permite relacionar a potência ou velocidade externa à demanda metabólica necessária para sustentá-la. Duas intensidades que produzem respostas semelhantes de frequência cardíaca podem apresentar custos de oxigênio diferentes; da mesma forma, o treinamento pode permitir que uma determinada velocidade ou potência seja realizada com menor demanda relativa de VO₂. A análise do VO₂ acrescenta, portanto, uma dimensão sistêmica que não pode ser obtida pela frequência cardíaca isoladamente (NIXON et al., 2021).
O VO₂ Master possui interesse específico nessa abordagem por permitir a avaliação portátil da resposta de consumo de oxigênio e da ventilação durante o exercício. Em um teste incremental ou em protocolos de carga constante, podem ser analisadas a relação entre VO₂ e potência ou velocidade, a resposta temporal do VO₂ ao aumento da carga, o custo de oxigênio associado a determinada intensidade e a frequência cardíaca correspondente a cada resposta metabólica observada. Isso altera a lógica da prescrição: em vez de assumir que 85% da FCmáx representa uma determinada zona, é possível identificar a intensidade fisiologicamente relevante e, posteriormente, verificar qual frequência cardíaca está associada àquela intensidade naquele indivíduo.
Essa inversão metodológica é particularmente importante. A frequência cardíaca deixa de ser utilizada para descobrir o domínio fisiológico e passa a ser utilizada para monitorar, no cotidiano, uma intensidade previamente caracterizada. Por exemplo, se uma avaliação demonstra que o LT1 de determinado atleta está associado a 210 W, 10,5 km·h⁻¹, determinado comportamento de VO₂ e 142 bpm, a frequência cardíaca de 142 bpm passa a ter um significado fisiológico contextualizado. Se outro atleta apresenta o mesmo LT1 em 165 bpm, não existe razão fisiológica para obrigá-lo a treinar em 142 bpm apenas porque esse valor corresponde à “Zona 2” de outra pessoa. Essa individualização é coerente com os resultados de Nuuttila et al. (2025), que demonstram a variabilidade dos limiares em relação às âncoras tradicionais. (NUUTTILA et al., 2025).
A avaliação sistêmica do VO₂, contudo, não responde completamente à pergunta sobre o que está acontecendo nos músculos responsáveis pelo movimento. Um atleta pode apresentar determinada resposta pulmonar e cardiovascular enquanto músculos específicos apresentam diferentes padrões de utilização e disponibilidade de oxigênio. É nesse nível que a oximetria muscular por espectroscopia no infravermelho próximo, ou NIRS, acrescenta uma informação complementar. O Moxy Monitor permite acompanhar a saturação muscular de oxigênio, SmO₂, no tecido localizado sob o sensor, bem como uma medida relacionada à quantidade total de hemoglobina no volume de tecido avaliado.
A SmO₂ não deve ser interpretada como uma medida direta do consumo muscular de oxigênio. Ela representa uma consequência do equilíbrio dinâmico entre a oferta e a utilização de oxigênio no volume de tecido avaliado. Uma redução da SmO₂ durante o exercício pode refletir aumento da extração e utilização de oxigênio em relação à sua oferta, enquanto o comportamento durante a recuperação permite observar a dinâmica da reoxigenação. O valor fisiológico dessa informação reside, portanto, na possibilidade de acompanhar como um músculo específico responde ao aumento da carga, algo que não pode ser deduzido diretamente a partir da frequência cardíaca ou mesmo do VO₂ pulmonar.
A integração entre VO₂ e SmO₂ permite distinguir, conceitualmente, a resposta sistêmica da resposta periférica. Considere-se, por exemplo, dois ciclistas produzindo a mesma potência e apresentando frequência cardíaca semelhante. O VO₂ pode indicar que ambos possuem custo metabólico sistêmico semelhante, mas o comportamento da SmO₂ em vasto lateral, gastrocnêmio ou outro músculo avaliado pode revelar padrões distintos de desoxigenação. Isso não significa, isoladamente, que um atleta seja “melhor” ou “pior”, mas pode indicar diferenças na distribuição da carga muscular, na capacidade de extração periférica de oxigênio, na perfusão ou na contribuição relativa daquele músculo para a tarefa.
Essa abordagem também possui interesse para a identificação das adaptações ao treinamento. O endurance não é determinado exclusivamente pela capacidade do coração de aumentar o débito cardíaco. O desempenho depende da integração entre transporte central de oxigênio e sua utilização periférica. Adaptações como aumento da densidade capilar, expansão da capacidade oxidativa e modificações no transporte e utilização de substratos podem deslocar a relação entre carga externa, VO₂, lactato e oxigenação muscular. A literatura sobre o MLSS já destacava a importância do transporte de lactato e das adaptações do músculo oxidativo como componentes potenciais do aumento da capacidade de sustentar intensidades mais elevadas. (BILLAT et al., 2003).
A determinação das zonas ganha, assim, importância porque o tempo de permanência em cada domínio constitui uma forma de controlar a dose biológica do treinamento. Não basta saber que um atleta realizou 90 minutos de exercício ou acumulou determinado número de quilômetros. É necessário saber quanto desse tempo foi efetivamente realizado abaixo do LT1, entre LT1 e LT2 ou acima da fronteira para o domínio severo. Trinta minutos realizados logo abaixo do LT1 não representam o mesmo estímulo de trinta minutos acima do LT2, mesmo que a diferença de velocidade ou potência seja pequena. As respostas metabólicas, neuromusculares e cardiorrespiratórias, assim como o tempo até a fadiga, são diferentes entre os domínios. (NIXON et al., 2021).
A distribuição do tempo entre essas regiões deve, portanto, estar relacionada ao objetivo da adaptação. O treinamento predominantemente abaixo do primeiro limiar permite acumular grande volume com recuperação relativamente mais rápida e fornece repetidos estímulos à maquinaria oxidativa. O treinamento no domínio pesado permite prolongar a exposição a uma perturbação metabólica superior e pode ser utilizado para aumentar a capacidade de sustentar altas frações do desempenho máximo. O treinamento severo, por sua vez, produz maior perturbação e exige que a sessão seja organizada em função do tempo tolerável, do número de repetições, da recuperação e do objetivo específico. A recente literatura citada por Nuuttila et al. (2025) também destaca que exercícios realizados nos domínios pesado, severo e extremo, mas não necessariamente no domínio moderado isoladamente, podem produzir aumentos de VO₂máx e limiares após períodos de treinamento, ressaltando que a intensidade e a dose precisam ser interpretadas conjuntamente. (INGLIS et al., 2024).
Isso não significa, entretanto, que exista uma única distribuição ideal de zonas aplicável a todos os atletas. O efeito do treinamento depende do estado inicial, da modalidade, da duração das sessões, do volume semanal, da recuperação e da capacidade individual de responder ao estímulo. O mesmo protocolo relativo pode produzir respostas diferentes porque dois indivíduos posicionados em “80% da FCmáx” podem não estar no mesmo domínio fisiológico. Essa é uma das principais razões pelas quais a prescrição baseada em limiares individuais possui maior coerência biológica do que aquela baseada exclusivamente em percentuais fixos. (NUUTTILA et al., 2025).
A utilização combinada de lactato, VO₂, frequência cardíaca, velocidade ou potência, RPE e oximetria muscular permite construir uma representação mais completa da fisiologia do atleta. O lactato informa sobre a resposta metabólica e o equilíbrio dinâmico entre aparecimento e remoção; o VO₂ caracteriza a resposta oxidativa sistêmica; a potência ou velocidade quantifica a carga externa; a frequência cardíaca acompanha a resposta cardiovascular; o RPE traduz a percepção integrada do esforço; e a SmO₂ acrescenta informações sobre a dinâmica local entre disponibilidade e utilização de oxigênio no músculo monitorado. Nenhuma dessas variáveis deve ser considerada uma substituta absoluta das demais.
Essa integração também permite compreender por que o “padrão-ouro” depende da pergunta formulada. Se a pergunta é qual a maior intensidade capaz de manter a concentração sanguínea de lactato estável segundo um critério definido, o MLSS determinado diretamente por cargas constantes é a referência. Se a questão é identificar a maior intensidade associada à estabilização do VO₂ e a fronteira funcional entre exercício pesado e severo, a Critical Speed ou Critical Power pode, em determinadas populações e protocolos, fornecer uma aproximação superior. Se o objetivo é caracterizar a resposta oxidativa durante um teste incremental ou de carga constante, a análise direta do VO₂ acrescenta uma dimensão que a lactatemia isolada não fornece. Se a pergunta diz respeito ao comportamento periférico de um músculo específico, a NIRS oferece uma informação localizada que não pode ser obtida por nenhuma dessas variáveis sistêmicas.
Por isso, seria incorreto afirmar simplesmente que o lactato “é mais preciso” do que o VO₂ ou que o VO₂ Master e o Moxy “substituem” o lactato. Essas tecnologias respondem a perguntas fisiológicas diferentes. A grande vantagem de integrar os métodos é justamente reduzir o risco de interpretar uma única variável como representação completa do organismo. O lactato fornece uma informação metabólica sanguínea; o VO₂ descreve a resposta oxidativa sistêmica; a SmO₂ permite observar uma dimensão periférica localizada. Quando as três são relacionadas à potência ou velocidade, à frequência cardíaca e ao RPE, a definição das zonas torna-se substancialmente mais individualizada.
A consequência prática é uma mudança de paradigma. A pergunta não deveria ser apenas “qual é a minha Zona 2 em batimentos por minuto?”, mas “em que intensidade ocorrem as principais transições fisiológicas do meu organismo e quais valores práticos de potência, velocidade, frequência cardíaca e percepção correspondem a essas transições?”. Uma vez identificados os domínios, as ferramentas simples utilizadas no dia a dia — relógio, monitor cardíaco, medidor de potência, velocidade e percepção subjetiva — tornam-se muito mais úteis, porque passam a estar ancoradas em uma avaliação fisiológica individual.
Assim, a frequência cardíaca não deve ser abandonada; deve ser contextualizada. O RPE não deve ser considerado inferior por ser subjetivo; deve ser calibrado pela experiência e pela fisiologia. O lactato não deve ser reduzido a valores mágicos de 2 ou 4 mmol·L⁻¹; deve ser interpretado como parte de uma resposta metabólica dinâmica e individual. O MLSS deve ser reconhecido como uma referência direta para a sustentabilidade do lactato, mas não necessariamente como a única definição possível de máximo estado metabólico estável. A Critical Power e a Critical Speed oferecem outra perspectiva sobre a fronteira entre intensidades sustentáveis e não sustentáveis. O VO₂ acrescenta a dimensão da resposta oxidativa sistêmica e a oximetria muscular permite aproximar a avaliação da fisiologia periférica do músculo em exercício.
Em última análise, zonas de treinamento não são faixas de números previamente existentes em um relógio; são representações operacionais de diferentes estados fisiológicos. Quanto melhor esses estados forem identificados, maior será a capacidade de controlar não apenas a intensidade, mas também o tempo de exposição a cada estímulo e, consequentemente, a dose de treinamento direcionada às adaptações metabólicas, cardiovasculares, respiratórias e musculares que sustentam a melhoria do desempenho.
| Método | O que identifica ou estima | Principal valor | Principal limitação |
| % FCmáx | Intensidade relativa baseada na resposta cardíaca máxima | Simplicidade e aplicabilidade diária | A mesma %FCmáx não representa necessariamente o mesmo domínio fisiológico |
| FC de reserva | Intensidade relativa ajustada à FC de repouso | Individualiza parcialmente a resposta cardiovascular | Continua sendo uma medida indireta do metabolismo |
| RPE/Borg | Percepção integrada do esforço | Excelente para autorregulação e monitoramento subjetivo | Influenciado por experiência, fadiga, motivação e contexto |
| Velocidade/potência | Carga externa | Alta precisão e reprodutibilidade | A mesma carga externa pode gerar respostas fisiológicas diferentes |
| 2 mmol·L⁻¹ | Âncora fixa de lactato | Simples e prática | Não representa a mesma transição fisiológica para todos |
| 4 mmol·L⁻¹ / OBLA | Âncora fixa historicamente associada a alta perturbação metabólica | Fácil identificação em testes incrementais | Grande variabilidade individual; não equivale necessariamente ao MLSS |
| LT1 | Primeira transição metabólica da curva de lactato | Referência para o limite superior do domínio moderado | Diferentes critérios podem produzir valores diferentes |
| LT2 | Segunda transição metabólica estimada | Útil para caracterizar intensidades elevadas | Não possui definição operacional única |
| Dmax | Ponto matemático de maior inflexão geométrica da curva | Utiliza a forma individual da resposta | Dependente do protocolo e do algoritmo |
| IAT | Limiar estimado a partir da resposta individual de lactato | Evita valores universais fixos | Diferentes métodos de cálculo podem divergir |
| MLSS | Maior carga com estabilidade definida de lactato | Referência direta para sustentabilidade da lactatemia | Exige múltiplas sessões de carga constante |
| Critical Power/Critical Speed | Fronteira derivada da relação intensidade–tempo | Estimativa não invasiva da fronteira entre domínios pesado e severo | Dependente do modelo e dos testes utilizados |
| VO₂ | Resposta oxidativa sistêmica e sua cinética | Permite analisar custo metabólico e estabilidade do VO₂ | Requer instrumentação e protocolo adequados |
| NIRS/Moxy | Dinâmica local da oxigenação muscular | Informa sobre a relação entre disponibilidade e utilização local de O₂ | Representa apenas o volume de tecido monitorado |
| Abordagem integrada | Relação entre carga externa e respostas metabólicas, sistêmicas e periféricas | Maior riqueza fisiológica para individualização | Maior complexidade de avaliação e interpretação |
Referências
BENEKE, R.; HÜTLER, M.; LEITHÄUSER, R. M. Maximal lactate-steady-state independent of performance. Medicine and Science in Sports and Exercise, v. 32, n. 6, p. 1135-1139, 2000.
BILLAT, V. L. et al. The concept of maximal lactate steady state: a bridge between biochemistry, physiology and sport science. Sports Medicine, v. 33, n. 6, p. 407-426, 2003.
BONEN, A. The expression of lactate transporters (MCT1 and MCT4) in heart and muscle. European Journal of Applied Physiology, v. 86, p. 6-11, 2001.
FAUDE, O.; KINDERMANN, W.; MEYER, T. Lactate threshold concepts: how valid are they? Sports Medicine, v. 39, n. 6, p. 469-490, 2009.
HECK, H.; WACKERHAGE, H. The maximal lactate steady state: origin, methods and physiological significance. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, v. 16, art. 36, 2024.
INGLIS, E. C. et al. Heavy-, severe-, and extreme-, but not moderate-intensity exercise increase V̇O₂max and thresholds after 6 weeks of training. Medicine and Science in Sports and Exercise, 2024.
JAMNICK, N. A. et al. An examination and critique of current methods to determine exercise intensity. Sports Medicine, v. 50, p. 1729-1756, 2020.
NIXON, R. J. et al. Steady-state V̇O₂ above MLSS: evidence that critical speed better represents maximal metabolic steady state in well-trained runners. European Journal of Applied Physiology, v. 121, p. 3133-3144, 2021.
NUUTTILA, O.-P. et al. The accuracy of fixed intensity anchors to estimate lactate thresholds in recreational runners. European Journal of Applied Physiology, v. 125, p. 2161-2171, 2025.
Imagem: Rachel Tanugi