Da carga externa à fisiologia celular: limiares ventilatórios, lactato, mitocôndrias e a organização do treinamento de endurance

por | ago 16, 2026

Resumo

A prescrição do treinamento de endurance deve ser fundamentada na resposta fisiológica individual ao exercício, e não exclusivamente em percentuais fixos de frequência cardíaca, velocidade ou potência. As diferentes zonas de intensidade representam domínios fisiológicos caracterizados por alterações progressivas na demanda energética, no metabolismo oxidativo e glicolítico, na produção e remoção de lactato, na ventilação pulmonar e na capacidade de manutenção da homeostase metabólica. O primeiro limiar ventilatório ou de lactato (VT1/LT1) representa uma transição na qual aumenta a participação glicolítica e a necessidade de transporte e oxidação de lactato, enquanto o segundo limiar (VT2/LT2) corresponde a uma intensidade próxima ao limite superior de estabilidade metabólica, acima da qual a perturbação fisiológica se torna progressivamente incompatível com a sustentação prolongada do exercício. O lactato, nesse contexto, não deve ser interpretado como mero produto residual do metabolismo anaeróbio, mas como importante intermediário metabólico, continuamente produzido, transportado e oxidado por diferentes tecidos e fibras musculares.

O treinamento de endurance promove adaptações integradas nos sistemas cardiovascular, vascular e muscular, incluindo aumento da capacidade oxidativa mitocondrial, capilarização, utilização de substratos, transporte e oxidação de lactato e capacidade de utilização de oxigênio pelo músculo esquelético. Essas adaptações permitem realizar determinada potência ou velocidade com menor perturbação metabólica e deslocam progressivamente os limiares para intensidades externas mais elevadas. A biogênese mitocondrial resulta da integração de diferentes sinais produzidos durante a contração muscular, incluindo alterações na disponibilidade energética, cálcio intracelular e atividade de vias como AMPK e PGC-1α. Evidências indicam que tanto o treinamento de baixo volume e alta intensidade quanto o treinamento de elevado volume e baixa intensidade podem contribuir para essas adaptações por mecanismos parcialmente distintos.

A distribuição da intensidade constitui, portanto, elemento fundamental da periodização. O modelo polarizado, caracterizado por grande volume de treinamento abaixo do primeiro limiar, pequena proporção de trabalho próximo aos limiares e doses estrategicamente aplicadas de alta intensidade, apresenta evidências favoráveis para determinadas adaptações e para o aumento do VO₂peak, embora não possa ser considerado universalmente superior a todas as demais estratégias. Meta-análise recente demonstrou vantagem do treinamento polarizado para a melhora do VO₂peak, mas não encontrou superioridade consistente para todos os demais indicadores de desempenho de endurance.

A interpretação integrada de VO₂, ventilação, frequência cardíaca, lactato, potência ou velocidade permite identificar com maior precisão as transições fisiológicas individuais e estabelecer zonas de treinamento biologicamente fundamentadas. Dessa perspectiva, a chamada Zona 2 não constitui simplesmente uma faixa arbitrária de intensidade, mas uma região funcional na qual o atleta consegue acumular elevado volume de trabalho com perturbação metabólica relativamente controlada, favorecendo adaptações periféricas e centrais relevantes para o desempenho. A individualização dessas zonas é particularmente importante porque existe ampla variabilidade interindividual na relação entre percentuais fixos de frequência cardíaca e os diferentes limiares fisiológicos.

Assim, o desempenho de endurance deve ser compreendido como resultado da interação entre capacidade máxima de transporte e utilização de oxigênio, capacidade oxidativa muscular, metabolismo de substratos, dinâmica do lactato, eficiência neuromuscular e capacidade de sustentar determinado esforço ao longo do tempo. O objetivo do treinamento não é apenas aumentar o VO₂max, mas ampliar a intensidade que pode ser sustentada com elevada eficiência metabólica e menor deterioração fisiológica. A avaliação dos limiares e a distribuição individualizada das cargas constituem, portanto, ferramentas essenciais para transformar a fisiologia do exercício em prescrição de treinamento cientificamente fundamentada.

Palavras-chave: exercício de endurance; treinamento aeróbio; limiar ventilatório; limiar de lactato; VO₂max; metabolismo oxidativo; mitocôndria; lactato; Zona 2; treinamento polarizado.

Desenvolvimento

A compreensão contemporânea do treinamento de endurance exige abandonar a ideia de que as chamadas “zonas de treinamento” representam simplesmente faixas arbitrárias de frequência cardíaca, velocidade ou potência. A intensidade externa — expressa em watts, velocidade, ritmo ou frequência cardíaca — constitui apenas uma manifestação observável de um conjunto muito mais complexo de fenômenos fisiológicos que ocorrem simultaneamente no músculo esquelético, no sistema cardiovascular, no metabolismo energético, na ventilação pulmonar e no sistema nervoso. As zonas de treinamento adquirem significado biológico quando são relacionadas às transições fisiológicas que ocorrem à medida que aumenta a demanda energética do exercício. Nesse contexto, os conceitos de primeiro limiar ventilatório, segundo limiar ventilatório, limiares de lactato, máximo estado estável de lactato, utilização de substratos, metabolismo mitocondrial e distribuição da intensidade tornam-se elementos de uma mesma estrutura fisiológica.

A divisão do exercício de endurance em três grandes domínios de intensidade — abaixo do primeiro limiar, entre o primeiro e o segundo limiar e acima do segundo limiar — possui uma vantagem conceitual importante: ela não parte de percentuais fixos de frequência cardíaca ou de potência, mas das respostas fisiológicas do próprio indivíduo. O primeiro limiar representa uma transição a partir da qual o aumento da intensidade começa a produzir modificações sistemáticas na dinâmica metabólica e ventilatória; o segundo representa uma transição muito mais elevada, relacionada à perda progressiva da capacidade de sustentar a homeostase metabólica durante exercício contínuo. Assim, as zonas não são propriedades absolutas da frequência cardíaca ou da velocidade: são propriedades do organismo submetido a determinada demanda metabólica.

Essa distinção é particularmente importante porque indivíduos com o mesmo valor de frequência cardíaca máxima podem apresentar capacidades aeróbias, limiares ventilatórios e respostas metabólicas muito diferentes. Mesmo dentro de um mesmo indivíduo, a relação entre frequência cardíaca e intensidade externa pode modificar-se em função da modalidade esportiva, temperatura, estado de hidratação, fadiga acumulada, disponibilidade de glicogênio, duração do exercício e estado de treinamento. Estudos recentes demonstram justamente uma elevada variabilidade interindividual entre diferentes métodos utilizados para definir a chamada “Zona 2”, mostrando que percentuais fixos da frequência cardíaca máxima podem apresentar correspondência limitada com marcadores fisiológicos individualizados. Em ciclistas, o VT1 e a intensidade correspondente à máxima oxidação de gordura apresentaram maior alinhamento do que métodos baseados exclusivamente em percentuais fixos da frequência cardíaca máxima.

O primeiro limiar ventilatório, frequentemente denominado VT1, representa uma mudança qualitativa na resposta ventilatória ao aumento da carga. Em intensidades inferiores, o metabolismo oxidativo consegue sustentar grande parte da produção de ATP necessária à contração muscular sem alterações desproporcionais na ventilação. À medida que a intensidade aumenta, entretanto, a contribuição glicolítica cresce, a produção e a utilização de lactato aumentam e a dinâmica ácido-base começa a modificar-se. O aumento da ventilação nesse momento não deve ser interpretado simplesmente como uma resposta à “falta de oxigênio”. A ventilação é regulada por múltiplos sinais metabólicos e químicos, entre eles alterações na concentração de CO₂, nos íons H⁺ e na interação entre metabolismo muscular, sangue e centros respiratórios.

O conceito de limiar, portanto, não significa que exista uma mudança abrupta entre metabolismo “aeróbio” e “anaeróbio”. Essa interpretação binária é fisiologicamente inadequada. Os sistemas energético oxidativo e glicolítico funcionam simultaneamente em praticamente todas as intensidades de exercício. O que muda é a contribuição relativa de cada processo, a velocidade de produção e utilização dos metabólitos e a capacidade do organismo de manter essas reações em equilíbrio. O exercício progressivo representa, nesse sentido, uma transição contínua entre diferentes estados metabólicos, e não a passagem instantânea de um sistema energético para outro.

Essa consideração é fundamental para interpretar o lactato. Durante muito tempo, o lactato foi tratado como um simples subproduto da deficiência de oxigênio e como responsável pela fadiga muscular. A fisiologia contemporânea apresenta uma interpretação muito mais sofisticada. O lactato é continuamente produzido e utilizado mesmo durante condições plenamente aeróbias. Ele pode ser formado em fibras musculares mais glicolíticas, transportado para fibras mais oxidativas e utilizado como substrato energético pelo próprio músculo, pelo coração e por outros tecidos. O chamado lactate shuttle descreve justamente essa integração entre produção, transporte e oxidação do lactato.

Isso modifica profundamente a interpretação da curva de lactato. Um aumento do lactato sanguíneo não significa simplesmente que o músculo “ficou sem oxigênio”. Significa que a taxa de aparecimento de lactato no sangue passou a superar, em determinada medida e circunstância, a taxa de remoção do compartimento sanguíneo. Essa diferença é extremamente importante. Produção e remoção ocorrem simultaneamente, e o lactato sanguíneo observado representa o resultado líquido dessas duas taxas. Por isso, dois indivíduos podem apresentar a mesma concentração de lactato, mas por mecanismos fisiológicos diferentes.

A capacidade de remover e oxidar lactato depende, entre outros fatores, do fluxo sanguíneo muscular, da densidade capilar, da expressão de transportadores de monocarboxilatos, especialmente MCT1, da atividade das enzimas oxidativas e da capacidade mitocondrial. O músculo treinado para endurance apresenta maior capacidade de utilizar lactato como substrato oxidativo. Nesse sentido, o treinamento não apenas reduz a produção relativa de lactato para uma determinada carga; ele também aumenta a capacidade de processar e utilizar o lactato produzido. O lactato deixa, portanto, de ser interpretado como mero marcador de “metabolismo anaeróbio” e passa a ser entendido como parte integrante da comunicação e do fluxo metabólico entre compartimentos celulares.

Essa integração ajuda a compreender por que o primeiro limiar possui importância especial para o treinamento de endurance. Abaixo dessa intensidade, a produção de lactato permanece relativamente baixa em relação à capacidade de remoção e oxidação. À medida que a intensidade se aproxima do VT1/LT1, aumenta progressivamente a participação da glicólise e a necessidade de transportar e oxidar lactato. O organismo ainda consegue manter uma situação de equilíbrio dinâmico, mas começa a operar em um estado metabolicamente mais exigente.

É nesse contexto que o treinamento de baixa intensidade adquire significado biológico. O chamado treinamento em Zona 2 não deve ser compreendido simplesmente como “pedalar ou correr devagar”. Seu valor está relacionado ao estímulo repetido de grandes volumes de trabalho em uma intensidade suficientemente elevada para impor demanda metabólica relevante, mas suficientemente baixa para permitir longa duração e recuperação relativamente rápida. O resultado é uma exposição repetida do músculo a sinais que favorecem adaptações oxidativas.

A contração muscular altera o estado energético celular, a concentração de cálcio, o estado redox e diferentes vias de sinalização intracelular. Esses sinais convergem sobre reguladores da expressão gênica, entre os quais se destaca o coativador transcricional PGC-1α. A repetição dessas perturbações metabólicas ao longo de semanas e meses promove alterações na expressão de proteínas mitocondriais, na capacidade oxidativa e na organização funcional do músculo. A biogênese mitocondrial não ocorre simplesmente porque uma determinada intensidade “liga” uma chave molecular; ela resulta da acumulação de respostas agudas repetidas ao longo do treinamento.

A consequência funcional é particularmente importante. Um músculo com maior capacidade mitocondrial consegue produzir maior quantidade de ATP por vias oxidativas para uma determinada demanda contrátil. Isso significa que, para uma mesma velocidade ou potência externa, uma proporção maior da energia pode ser fornecida aerobicamente e uma menor dependência relativa de processos glicolíticos pode ser necessária. Com isso, a produção de lactato e o custo metabólico relativo da tarefa podem diminuir para uma mesma carga externa. Esse fenômeno contribui para deslocar os limiares para intensidades externas maiores.

É necessário, entretanto, evitar uma simplificação recorrente: a ideia de que todo o benefício do treinamento de baixa intensidade deriva exclusivamente do aumento do número de mitocôndrias. A adaptação do músculo é sistêmica. O treinamento de endurance modifica simultaneamente a densidade capilar, o fluxo sanguíneo, o transporte de substratos, a utilização de ácidos graxos, a atividade enzimática, a função mitocondrial, o controle do metabolismo glicolítico e a regulação do cálcio. Além disso, volume e intensidade podem produzir adaptações mitocondriais diferentes. A literatura mostra que o volume de treinamento pode exercer papel importante sobre o conteúdo mitocondrial, enquanto a intensidade relativa também influencia características funcionais da respiração mitocondrial.

A utilização de gordura durante o exercício também precisa ser compreendida nesse contexto. Em intensidades relativamente baixas e moderadas, a oxidação de ácidos graxos pode contribuir significativamente para a produção de ATP. À medida que a intensidade aumenta, cresce a contribuição relativa dos carboidratos. Isso não significa, entretanto, que exista uma intensidade em que a gordura simplesmente “desliga” e o carboidrato “liga”. Ambos os substratos continuam sendo utilizados; ocorre uma alteração progressiva da contribuição relativa de cada um.

A capacidade de oxidar gordura em uma determinada intensidade depende da disponibilidade de ácidos graxos, transporte para o músculo, entrada nas mitocôndrias, capacidade oxidativa mitocondrial e demanda energética. O treinamento de endurance aumenta a capacidade de utilizar gordura em uma mesma carga absoluta. Consequentemente, um atleta treinado pode realizar determinada potência com menor dependência relativa da glicólise e maior participação oxidativa. Essa maior flexibilidade metabólica contribui para preservar glicogênio muscular durante exercícios prolongados.

O conceito de durabilidade emerge justamente dessa interação entre metabolismo, intensidade e duração. Um atleta pode apresentar excelente desempenho em um teste incremental relativamente curto e, ainda assim, apresentar deterioração importante da eficiência metabólica após várias horas de exercício. A capacidade de manter determinada potência ou velocidade com menor deterioração da economia, da utilização de substratos e da resposta fisiológica representa uma dimensão distinta da capacidade máxima. Nesse sentido, o treinamento de endurance não busca apenas aumentar o VO₂max, mas aumentar a capacidade de sustentar uma elevada fração da capacidade aeróbia por longos períodos.

O segundo limiar, por sua vez, marca uma condição fisiológica muito mais próxima do limite superior do domínio pesado. Dependendo do método empregado, pode ser associado ao VT2, ponto de compensação respiratória, LT2, OBLA ou outras definições de limiar. Esses conceitos não são necessariamente equivalentes, embora frequentemente apresentem relações estreitas. A literatura demonstra que existe considerável diversidade conceitual na definição dos limiares de lactato e que diferentes protocolos podem produzir estimativas distintas. Por isso, não é adequado tratar “LT2”, “VT2”, “MLSS” e “FTP” como sinônimos universais.

O máximo estado estável de lactato possui uma interpretação particularmente útil: representa aproximadamente a maior intensidade na qual o lactato sanguíneo pode permanecer relativamente estável durante exercício prolongado, embora algum grau de produção e remoção continue ocorrendo. Acima dessa intensidade, a produção de lactato e as alterações associadas ao metabolismo energético tornam-se progressivamente incompatíveis com a manutenção de um estado metabólico estável durante esforços prolongados. Isso ajuda a compreender por que a região entre os dois limiares é tão importante para o treinamento, mas também por que o volume de treinamento nessa região precisa ser cuidadosamente administrado.

A organização da intensidade ao longo da semana ou do ciclo de treinamento constitui outro aspecto central. Atletas de endurance de alto nível frequentemente apresentam grande quantidade de treinamento em baixa intensidade, intercalada com menor quantidade de estímulos realmente intensos. Essa distribuição não significa que o treinamento intenso seja desnecessário. Pelo contrário, os estímulos de alta intensidade são fundamentais para desenvolver componentes que não são maximizados exclusivamente por longos períodos de baixa intensidade, incluindo VO₂max, capacidade de sustentar elevadas taxas de produção energética, recrutamento de fibras musculares e tolerância a intensidades próximas ou superiores aos limiares superiores.

A lógica fisiológica é, portanto, complementar. O treinamento de baixa intensidade fornece grande quantidade de trabalho com custo relativamente baixo de recuperação e promove adaptações periféricas fundamentais ao metabolismo oxidativo. O treinamento de alta intensidade produz estímulos de grande magnitude sobre o sistema cardiovascular, o transporte de oxigênio, o recrutamento neuromuscular e o metabolismo energético. A combinação dos dois pode ser superior à tentativa de transformar a maior parte do treinamento em uma intensidade intermediária permanentemente exigente.

É justamente nesse ponto que surge a lógica da distribuição polarizada da intensidade. Em determinados contextos, uma grande proporção do treinamento é realizada abaixo do primeiro limiar, enquanto uma pequena proporção é realizada em intensidades elevadas, deixando relativamente menos tempo na região intermediária. Estudos experimentais comparando diferentes distribuições de intensidade encontraram vantagens da abordagem polarizada para diversas variáveis de desempenho de endurance, embora a superioridade não deva ser interpretada como uma regra universal aplicável independentemente do atleta, modalidade, fase da periodização e objetivo competitivo.

A expressão “80/20”, frequentemente utilizada para descrever esse conceito, também merece cautela. Ela não significa necessariamente que exatamente 80% de todos os minutos devam ser realizados em Zona 1 ou 2 e exatamente 20% em alta intensidade. A distribuição depende da forma de contabilização, da duração das sessões, da modalidade e da fase do treinamento. Mais importante do que reproduzir uma proporção numérica rígida é compreender o princípio fisiológico: grande volume de trabalho de baixa intensidade, associado a doses estrategicamente posicionadas de intensidade elevada.

Isso explica também por que “treinar sempre um pouco forte” pode ser uma estratégia problemática. A região intermediária — entre VT1 e VT2 — é suficientemente intensa para gerar considerável estresse fisiológico, mas não necessariamente suficientemente intensa para produzir o mesmo estímulo máximo que sessões próximas ao VO₂max. Ao mesmo tempo, o custo de recuperação é significativamente maior que o de uma sessão verdadeiramente fácil. Quando uma parcela excessiva do treinamento permanece nessa região, o atleta pode acumular fadiga sem necessariamente obter o melhor estímulo de cada extremo da curva.

A frequência cardíaca deve ser interpretada dentro desse modelo como variável de resposta, e não como causa da zona. A frequência cardíaca informa como o sistema cardiovascular está respondendo à demanda, mas não mede diretamente a produção de ATP, a oxidação mitocondrial, a utilização de gordura ou a taxa de produção de lactato. Temperatura, hidratação, estado autonômico, cafeína, fadiga e duração do exercício podem modificar a frequência cardíaca sem que a potência externa tenha mudado. Da mesma forma, uma determinada frequência cardíaca pode corresponder a diferentes intensidades metabólicas em indivíduos diferentes.

Por isso, a avaliação fisiológica integrada possui enorme vantagem. A combinação de consumo de oxigênio, ventilação, frequência cardíaca, potência ou velocidade e, quando possível, lactato sanguíneo permite interpretar a resposta do organismo a partir de múltiplos níveis. O VO₂ informa a demanda e a capacidade de utilização sistêmica de oxigênio; a ventilação fornece informação sobre as transições ventilatórias; o lactato oferece informação sobre o equilíbrio entre aparecimento e remoção; a frequência cardíaca demonstra a resposta cardiovascular; e a potência ou velocidade representa a manifestação externa do trabalho realizado.

Essa abordagem integrada é especialmente importante quando se pretende determinar VT1 e VT2. Uma alteração de potência associada a mudanças concordantes em ventilação, VO₂, frequência cardíaca e lactato possui significado fisiológico muito maior do que uma zona calculada simplesmente como determinado percentual da frequência cardíaca máxima. A individualização torna-se ainda mais importante porque os marcadores de Zona 2 apresentam ampla variabilidade entre pessoas.

O treinamento de endurance pode, portanto, ser entendido como um processo de deslocamento progressivo das relações entre demanda energética e resposta fisiológica. O objetivo não é simplesmente fazer o atleta “ficar com a frequência cardíaca mais baixa”. O objetivo é permitir que ele produza determinada potência ou velocidade com menor perturbação metabólica e, simultaneamente, seja capaz de sustentar maior potência ou velocidade antes que ocorram as transições fisiológicas representadas pelos limiares.

Em termos celulares, isso significa que o músculo treinado consegue realizar mais trabalho utilizando sua maquinaria oxidativa. Em termos sistêmicos, significa maior capacidade de transportar e utilizar oxigênio. Em termos metabólicos, significa maior capacidade de oxidar gordura e carboidratos de maneira flexível, utilizar lactato como substrato e preservar glicogênio. Em termos funcionais, significa maior economia e capacidade de sustentar o exercício. E, em termos de desempenho, significa deslocar para a direita as relações entre velocidade ou potência e as respostas fisiológicas.

A grande contribuição dessa perspectiva é mostrar que “Zona 2” não deve ser tratada como uma entidade isolada. Ela é apenas uma representação operacional de uma determinada região do domínio fisiológico de exercício. O verdadeiro objeto de interesse é a biologia que sustenta essa região: capacidade mitocondrial, metabolismo oxidativo, utilização de substratos, transporte de lactato, perfusão muscular, controle ventilatório e capacidade de manter homeostase metabólica.

Da mesma maneira, o treinamento intenso não deve ser concebido como o oposto fisiológico do treinamento de baixa intensidade. Os dois representam estímulos diferentes sobre o mesmo sistema adaptativo. A baixa intensidade permite acumular grande volume de trabalho e desenvolver a infraestrutura oxidativa; a alta intensidade explora e amplia a capacidade funcional desse sistema. A excelência no endurance resulta da interação entre essas adaptações, e não da maximização isolada de qualquer uma delas.

Em última análise, o princípio central que emerge dessa compreensão é que a intensidade do treinamento deve ser interpretada biologicamente. A pergunta mais importante não é simplesmente “qual é a minha Zona 2?”, mas “qual carga externa corresponde, para este indivíduo e neste momento, a uma condição metabólica suficientemente baixa para permitir grande volume de trabalho e suficientemente elevada para produzir adaptações relevantes?”. Essa resposta é necessariamente individual e pode mudar com o treinamento, a modalidade, a fadiga e as condições ambientais.

A fisiologia do endurance pode, assim, ser compreendida como uma progressão que conecta o estímulo externo à resposta celular: a potência ou velocidade determina a demanda energética; a demanda modifica o recrutamento muscular e o fluxo metabólico; o fluxo altera a produção e utilização de lactato, o consumo de oxigênio e a ventilação; a repetição desses estímulos produz adaptações vasculares, metabólicas e mitocondriais; e essas adaptações, por sua vez, modificam a potência ou velocidade que o organismo consegue sustentar antes de atingir os diferentes limiares. O treinamento eficaz é justamente o processo de manipular essa relação de maneira sistemática.

Nesse sentido, compreender as zonas de treinamento significa, em última instância, compreender a fisiologia da célula muscular. A Zona 2 não é apenas uma faixa no relógio esportivo; é uma manifestação prática de determinado estado bioenergético. O VT1 não é apenas um ponto na curva ventilatória; representa uma transição na capacidade de sustentar a homeostase metabólica. O lactato não é um resíduo; é um intermediário metabólico dinamicamente produzido, transportado e oxidado. A mitocôndria não é apenas a “usina energética” da célula; constitui um centro integrado de controle do fluxo de substratos, produção de ATP, estado redox e adaptação ao exercício. E a distribuição da intensidade não é apenas uma estratégia de periodização; é uma forma de administrar diferentes estímulos biológicos para produzir adaptações complementares.

A consequência prática é direta: quanto maior a precisão com que se consegue identificar as transições fisiológicas individuais, maior a possibilidade de prescrever treinamento coerente com a biologia daquele atleta. Em vez de impor zonas determinadas por fórmulas populacionais, torna-se possível construir zonas a partir das respostas reais do organismo, utilizando conjuntamente ventilação, consumo de oxigênio, frequência cardíaca, lactato, potência, velocidade e percepção de esforço. Essa abordagem transforma a prescrição de treinamento de uma classificação arbitrária de intensidades em uma aplicação direta da fisiologia integrada do exercício.

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