FISIOLOGIA DA MANIFESTAÇÃO DA POTÊNCIA NO CICLISMO: RELAÇÃO POTÊNCIA–DURAÇÃO, POTÊNCIA CRÍTICA E INTEGRAÇÃO DOS DETERMINANTES METABÓLICOS, CARDIORRESPIRATÓRIOS E MUSCULARES

por | ago 11, 2026

A capacidade de produzir potência mecânica durante o exercício ciclístico constitui uma manifestação integrada dos sistemas neuromuscular, energético, cardiovascular, respiratório e muscular periférico. A potência produzida, entretanto, não representa uma propriedade fisiológica estática, pois sua magnitude é determinada fundamentalmente pela duração durante a qual determinado nível de produção mecânica pode ser sustentado. À medida que a duração do exercício aumenta, a potência máxima sustentável diminui de maneira sistemática, estabelecendo uma relação potência–duração que constitui uma das formas mais abrangentes de caracterizar o perfil funcional de um ciclista. Essa relação permite ultrapassar a interpretação isolada de variáveis como potência máxima, potência média de 20 minutos, FTP ou consumo máximo de oxigênio (VO₂max), oferecendo uma representação integrada da capacidade de produzir trabalho em diferentes domínios temporais. A manifestação da potência deve, portanto, ser compreendida como um fenômeno contínuo, no qual diferentes mecanismos fisiológicos assumem importância relativa conforme a duração e a intensidade do exercício (LEO et al., 2022).

A relação entre trabalho muscular e tempo de exercício foi inicialmente formalizada por Monod e Scherrer (1965), que demonstraram que a capacidade de trabalho de um grupo muscular poderia ser descrita matematicamente por uma relação entre potência e duração. Esse conceito foi posteriormente incorporado à fisiologia do exercício sob a denominação de Critical Power (CP), ou potência crítica, tornando-se um importante modelo para a compreensão da tolerância ao exercício de alta intensidade. No modelo clássico, a relação potência–duração apresenta comportamento hiperbólico, no qual a potência tende assintoticamente a um valor denominado potência crítica. A formulação matemática pode ser expressa por P = CP + W′/t ou, em sua forma linearizada, W = CP·t + W′, em que P representa a potência, t o tempo de exercício, W o trabalho realizado e W′ a constante de curvatura correspondente à quantidade finita de trabalho que pode ser realizada acima da CP. Assim, quando o trabalho é representado em função do tempo, a inclinação da regressão corresponde à CP, enquanto o intercepto representa W′ (MONOD; SCHERRER, 1965; JONES et al., 2010).

A interpretação fisiológica da CP requer, contudo, cautela. Ela não deve ser entendida simplesmente como a maior potência que um indivíduo poderia manter indefinidamente, embora essa interpretação seja frequentemente utilizada de maneira simplificada. A CP constitui uma assíntota matemática da relação potência–duração e uma referência fisiológica que separa diferentes domínios de intensidade. Abaixo desse limite, em condições experimentais apropriadas, as respostas fisiológicas podem alcançar um estado relativamente estável; acima dele, determinadas variáveis fisiológicas continuam a se deteriorar até a interrupção do exercício. A realização de exercício acima da CP implica consumo progressivo de W′, cuja utilização está associada à contribuição de fontes energéticas não oxidativas e às alterações metabólicas e contráteis que acompanham o desenvolvimento da fadiga. Dessa forma, CP não representa simplesmente um marcador de lactato e tampouco é sinônimo de FTP ou de qualquer outro limiar determinado por metodologia específica. Trata-se de um constructo fisiológico e matemático próprio, embora apresente relações importantes com os limiares metabólicos, ventilatórios e com a fronteira superior do domínio pesado de exercício (JONES et al., 2010; POOLE; WARD; GARDNER; WHIPP, 1988).

O W′ merece interpretação igualmente cuidadosa. Embora seja frequentemente denominado “capacidade anaeróbia”, essa equivalência é excessivamente simplificadora. W′ representa uma quantidade finita de trabalho que pode ser realizada acima da CP e engloba contribuições de diferentes processos fisiológicos, não sendo exclusivamente equivalente ao estoque de fosfagênios, à glicólise anaeróbia ou a qualquer compartimento energético isolado. A relação t = W′/(P − CP) demonstra que, para uma potência constante acima da CP, quanto maior a diferença entre a potência imposta e a CP, menor será o tempo teoricamente tolerável até o esgotamento de W′. A importância desse conceito reside justamente na integração entre a magnitude do esforço e a duração tolerável, permitindo compreender por que determinada potência pode ser sustentada por períodos muito diferentes dependendo do estado funcional do indivíduo (JONES et al., 2010).

A potência máxima constitui outro componente fundamental do perfil funcional do ciclista. A potência pico obtida durante poucos segundos de esforço máximo está fortemente relacionada à capacidade neuromuscular de produzir força e velocidade de contração, à massa muscular recrutada, à coordenação motora e à capacidade de mobilizar rapidamente os sistemas energéticos anaeróbios. Potência máxima, entretanto, não é sinônimo de capacidade anaeróbia total. Um ciclista pode produzir uma potência pico extremamente elevada durante poucos segundos e apresentar desempenho relativamente modesto em esforços de vários minutos; inversamente, um ciclista especializado em endurance pode apresentar potência pico inferior, mas conservar elevada fração de sua potência máxima durante períodos prolongados. Consequentemente, uma única medida de potência máxima é insuficiente para descrever o fenótipo de desempenho (LEO et al., 2022).

Essa limitação é superada pela construção da Power–Duration Curve (PDC), ou curva potência–duração. Na prática, a PDC é obtida pela determinação da maior potência média que o ciclista consegue produzir em diferentes durações. Esses valores são denominados Mean Maximal Power (MMP), ou potência média máxima. Podem ser determinados, por exemplo, os melhores valores de 5 segundos, 10 segundos, 30 segundos, 1 minuto, 3 minutos, 5 minutos, 8 minutos, 10 minutos, 20 minutos, 30 minutos e 60 minutos. Cada ponto representa a maior potência média registrada em uma janela temporal correspondente àquela duração. A análise de arquivos de potência provenientes de treinamento e competição permite, portanto, construir uma curva individualizada sem que todos os esforços máximos precisem necessariamente ser realizados em uma única sessão (LEO et al., 2022).

A forma da curva fornece informações fisiológicas que não podem ser obtidas a partir de uma única potência de referência. A região de curta duração é predominantemente influenciada pela capacidade neuromuscular e pelos mecanismos de fornecimento rápido de energia, enquanto a região intermediária envolve progressivamente maior participação da potência aeróbia e da capacidade de tolerar elevada perturbação metabólica. À medida que a duração se prolonga, a capacidade oxidativa, o transporte e a utilização de oxigênio, a capacidade de manter o equilíbrio metabólico e a resistência à fadiga passam a determinar de maneira crescente a potência sustentável. Consequentemente, dois ciclistas podem apresentar CP semelhante e, ainda assim, possuir curvas potência–duração substancialmente distintas. Um deles pode apresentar maior potência nos esforços de 5 a 60 segundos, caracterizando um perfil mais explosivo, enquanto outro pode apresentar maior potência relativa nas durações de 20 a 60 minutos, caracterizando maior capacidade de endurance. A PDC, portanto, não apenas quantifica o desempenho: ela descreve a distribuição temporal da capacidade de produzir potência (LEO et al., 2022).

A determinação da CP pode ser realizada por diferentes modelos matemáticos. No modelo linear trabalho–tempo, cada esforço máximo realizado até a exaustão fornece um valor de trabalho, calculado pela multiplicação da potência média pelo tempo. A regressão entre trabalho e tempo permite estimar a CP pela inclinação da reta e W′ pelo intercepto. Alternativamente, pode-se ajustar diretamente a relação hiperbólica potência–tempo ou utilizar transformações matemáticas equivalentes. A escolha do modelo e, sobretudo, a seleção das durações utilizadas influenciam a estimativa final. Por esse motivo, CP não deve ser considerada uma constante fisiológica absolutamente invariável: seu valor depende da metodologia empregada, da faixa temporal dos esforços, da qualidade dos esforços máximos, do estado de treinamento e de fatores relacionados à especificidade do exercício (JONES et al., 2010; LEO et al., 2022).

Nesse contexto, o teste de 3 minutos all-out adquiriu grande interesse por possibilitar uma estimativa relativamente rápida da CP. No protocolo clássico, o indivíduo realiza três minutos de exercício verdadeiramente máximo, sendo a potência observada no final do esforço, denominada end-test power (EP), utilizada como estimativa da CP, enquanto o trabalho realizado acima dessa potência pode fornecer uma estimativa de W′. O racional fisiológico é que, após a rápida utilização da capacidade de produzir potência acima da CP, a potência tende a estabilizar-se em um nível próximo da potência crítica. A validade dessa interpretação, entretanto, depende de condições experimentais rigorosas, particularmente da realização efetivamente all-out, da familiarização do indivíduo, do ajuste correto da resistência e da especificidade do ergômetro. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2026 reuniu vinte estudos e 284 participantes para avaliar especificamente a confiabilidade e a validade do teste de 3 minutos all-out na estimativa de CP e W′, reforçando seu potencial como método eficiente, mas também a necessidade de considerar as condições metodológicas capazes de afetar seus resultados (QUITTMANN; PIEHL, 2026).

É fundamental, entretanto, não confundir o teste de 3 minutos all-out com a própria curva potência–duração. O teste fornece essencialmente um ponto de duração relativamente curta e uma estimativa específica de CP e W′ dentro do modelo empregado. Ele não descreve diretamente a potência máxima de 5 ou 10 segundos, tampouco caracteriza adequadamente a capacidade de sustentar potência durante 20, 30 ou 60 minutos. Assim, embora o teste de 3 minutos seja extremamente útil para uma avaliação rápida, a caracterização completa da manifestação da potência exige uma distribuição mais ampla de durações. A PDC pode ser construída a partir de esforços máximos realizados especificamente para esse propósito ou, em condições de campo, a partir dos melhores esforços registrados ao longo de um período suficientemente representativo de treinamento e competição (LEO et al., 2022).

A associação entre a PDC e as respostas fisiológicas permite avançar de uma avaliação predominantemente mecânica para uma análise integrada da fisiologia do desempenho. A potência representa o trabalho mecânico externo produzido por unidade de tempo, mas não informa isoladamente quanto oxigênio está sendo consumido, qual é a contribuição relativa dos diferentes sistemas energéticos, como o músculo está utilizando o oxigênio disponível ou qual é o custo fisiológico necessário para produzir determinada potência. Por essa razão, a utilização simultânea de análise de potência, consumo de oxigênio, frequência cardíaca, lactato e oxigenação muscular pode transformar a avaliação em uma caracterização substancialmente mais completa do fenótipo fisiológico do ciclista.

O consumo de oxigênio, mensurado por análise respiratória, permite determinar a relação entre potência externa e demanda metabólica aeróbia. Durante exercício incremental, o aumento progressivo da potência é acompanhado por aumento do VO₂ até que, próximo da potência aeróbia máxima, o consumo de oxigênio atinja seu valor máximo ou pico, dependendo dos critérios utilizados. Entretanto, durante exercícios de curta duração e intensidade muito elevada, especialmente nos primeiros minutos, o VO₂ apresenta uma cinética temporal e não responde instantaneamente à demanda energética imposta pelo músculo. Existe, portanto, uma contribuição energética inicial proveniente de fontes não oxidativas, enquanto o sistema oxidativo aumenta progressivamente sua participação. A cinética do VO₂ constitui, justamente, a expressão dinâmica dessa transição e é fundamental para compreender a relação entre potência, metabolismo e tolerância ao exercício (POOLE; JONES, 2012).

Essa característica ajuda a compreender por que um esforço de três minutos pode produzir valores elevados de VO₂, eventualmente próximos daqueles observados no VO₂max individual, sem que o maior VO₂ medido durante esse teste deva automaticamente ser denominado VO₂max. O conceito de VO₂max pressupõe que o indivíduo tenha atingido uma condição fisiológica compatível com sua capacidade máxima de consumo de oxigênio e que critérios apropriados tenham sido utilizados para sua identificação. Em um teste de 3 minutos all-out, o objetivo primário é produzir potência máxima e esgotar rapidamente a capacidade de trabalho acima da CP; o VO₂ observado resulta da interação entre elevada demanda metabólica, cinética do consumo de oxigênio e contribuição energética anaeróbia. Assim, o maior valor de VO₂ observado nesse contexto pode ser denominado VO₂peak do teste, mas não deve ser automaticamente interpretado como VO₂max. Essa distinção é particularmente importante quando se pretende utilizar o valor para caracterizar a capacidade aeróbia máxima do indivíduo (BURNLEY; DOUST; VANHATALO, 2006; POOLE; JONES, 2017).

O conceito de VO₂peak é, nesse sentido, particularmente útil quando o maior valor observado durante determinado teste não permite demonstrar inequivocamente que o sistema cardiorrespiratório atingiu seu limite máximo. VO₂peak significa, essencialmente, o maior VO₂ efetivamente observado em determinada condição experimental. A diferença conceitual é fundamental: enquanto VO₂max é uma propriedade fisiológica que se pretende identificar, VO₂peak é uma característica observacional do teste. Um indivíduo pode apresentar um VO₂peak elevado sem que seja possível demonstrar que esse valor corresponde ao seu verdadeiro VO₂max. Em um teste incremental convencional, a identificação do VO₂max tem sido historicamente associada à ocorrência de um platô do VO₂ apesar do incremento adicional da carga. Outros critérios, como elevada frequência cardíaca, razão de troca respiratória e concentração sanguínea de lactato, podem fornecer evidências complementares, mas nenhum deles, isoladamente, demonstra necessariamente que o limite máximo do consumo de oxigênio foi atingido. Além disso, a própria definição operacional de platô depende do método de análise, da duração dos estágios e da janela temporal utilizada para calcular o VO₂ (MIDGLEY; CARROLL, 2009; POOLE; JONES, 2017).

Essa distinção torna-se particularmente relevante no teste de 3 minutos all-out. O protocolo consiste em iniciar o exercício com intensidade extremamente elevada e mantê-lo durante aproximadamente três minutos, de modo que uma parcela substancial da energia necessária à produção de potência seja fornecida inicialmente pelos sistemas anaeróbios, particularmente pelo sistema fosfagênio e pela glicólise. O protocolo foi originalmente desenvolvido para determinar a potência de final de teste e estimar a CP, mas Burnley, Doust e Vanhatalo (2006) demonstraram também que o procedimento produz valores de VO₂peak semelhantes aos obtidos em testes incrementais convencionais. No estudo original, o VO₂peak médio no all-out não diferiu significativamente daquele obtido no teste incremental, demonstrando que um esforço supramáximo pode, em determinadas condições, provocar resposta de VO₂ equivalente à obtida por um protocolo incremental.

Esse resultado, contudo, não significa que qualquer VO₂peak obtido durante um all-out possa ser denominado automaticamente VO₂max. O fato de dois protocolos produzirem valores semelhantes constitui evidência de validade convergente, mas não demonstra, por si só, que o valor observado em cada protocolo represente o limite fisiológico absoluto do consumo de oxigênio. Para essa finalidade, procedimentos de verificação são particularmente úteis. Após um teste incremental máximo e um período adequado de recuperação, o indivíduo realiza uma carga supramáxima; a obtenção de um VO₂ semelhante ao do teste incremental fornece evidência adicional de que o verdadeiro VO₂max foi atingido. A lógica desse procedimento consiste justamente em verificar a estabilidade do valor máximo diante de uma nova demanda fisiológica (MIDGLEY; CARROLL, 2009).

A fisiologia do all-out ajuda a compreender por que o VO₂ pode atingir valores muito elevados sem que a potência mecânica correspondente seja predominantemente aeróbia. No início do esforço, a demanda energética aumenta praticamente de forma instantânea, enquanto a resposta do consumo de oxigênio apresenta uma cinética relativamente lenta. Existe, portanto, um desacoplamento temporal entre a demanda energética e a resposta oxidativa. Durante os primeiros segundos, ATP e fosfocreatina, seguidos pela glicólise, fornecem parcela importante da energia necessária. À medida que o exercício prossegue, a contribuição oxidativa aumenta progressivamente. Assim, uma potência extremamente elevada no início do teste não implica que o metabolismo aeróbio esteja produzindo energia suficiente para sustentá-la (POOLE; JONES, 2012).

Esse fenômeno torna-se particularmente evidente quando potência e VO₂ são analisados simultaneamente. Durante um all-out, a potência pode iniciar-se em valores muito elevados e declinar progressivamente em consequência da depleção de fosfocreatina, do acúmulo de metabólitos e da fadiga neuromuscular, enquanto o VO₂ continua aumentando. O fato de o VO₂ aumentar enquanto a potência diminui não constitui uma contradição fisiológica; ao contrário, evidencia a diferença entre a cinética da demanda energética e a cinética da resposta oxidativa. O VO₂ pulmonar, portanto, não representa simplesmente o oxigênio utilizado para produzir a potência mecânica naquele instante. O valor medido na boca corresponde à resposta integrada de todo o organismo ao exercício e apresenta atraso em relação às alterações instantâneas da demanda metabólica muscular (POOLE; JONES, 2012).

O recrutamento muscular exerce papel adicional nesse processo. Exercícios de intensidade muito elevada exigem o recrutamento de grande quantidade de unidades motoras, incluindo fibras musculares do tipo II. É inadequado classificá-las simplesmente como fibras “anaeróbias”, pois fibras rápidas também possuem mitocôndrias e capacidade oxidativa. Entretanto, apresentam características metabólicas e contráteis que favorecem elevada produção de potência e grande participação das vias glicolíticas. Durante o exercício supramáximo, portanto, a participação dessas fibras aumenta substancialmente, elevando a demanda energética total do músculo e, progressivamente, sua contribuição oxidativa. Estudos sobre recrutamento muscular e cinética do VO₂ demonstram que o comportamento do componente lento do VO₂ está relacionado à dinâmica do recrutamento muscular e ao elevado custo energético associado ao recrutamento de fibras rápidas (VANHATALO et al., 2011).

Consequentemente, durante os minutos finais de um all-out, o VO₂ pode aproximar-se de seu valor máximo justamente quando a potência mecânica já sofreu redução considerável. O valor elevado de VO₂, portanto, não deve ser convertido diretamente em uma estimativa da proporção aeróbia da potência produzida. A potência mecânica observada em determinado instante é resultado da interação entre as contribuições energética oxidativa e não oxidativa, enquanto o VO₂ observado representa uma resposta sistêmica com dinâmica própria. Essa distinção é essencial para evitar a interpretação equivocada de que um VO₂ elevado durante exercício supramáximo significaria que a potência correspondente estaria sendo sustentada predominantemente pelo metabolismo aeróbio.

Por exemplo, em GXT aonde o VO₂ sustentado do ciclista situou-se aproximadamente entre 72 e 73 mL·kg⁻¹·min⁻¹, no all-out, o VO₂ pode alcançar valores substancialmente superiores quando analisado em janelas temporais adequadas, embora a potência já esteja em processo de redução. Mesmo se o arquivo bruto de dados do all-out apresente valores instantâneos superiores a 80 mL·kg⁻¹·min⁻¹, a interpretação fisiológica deve privilegiar médias temporais e não picos isolados. Valores muito elevados observados imediatamente após a interrupção do exercício não podem ser considerados automaticamente evidência de aumento adicional da capacidade aeróbia, pois a resposta do VO₂ continua refletindo a demanda metabólica do esforço imediatamente precedente.

Embora o valor de 83 mL·kg⁻¹·min⁻¹ seja plausível em nosso exemplo como VO₂peak durante exercício supramáximo, especialmente porque o esforço recruta grande quantidade de massa muscular e provoca elevada ativação oxidativa, a simples obtenção de um valor superior ao registrado no GXT não demonstra que o atleta possua um VO₂max de 83 mL·kg⁻¹·min⁻¹. Para sustentar essa conclusão seria necessário demonstrar que o valor representa um limite fisiológico máximo, reprodutível e verificável, e não apenas uma resposta máxima específica daquele protocolo. A denominação mais rigorosa, portanto, é VO₂peak supramáximo.

A questão apresenta ainda um aspecto fisiológico mais profundo: o VO₂max não é determinado exclusivamente pela capacidade oxidativa do músculo. O transporte de oxigênio depende de uma cadeia integrada que envolve ventilação pulmonar, difusão pulmonar, capacidade de transporte do sangue, débito cardíaco, distribuição do fluxo sanguíneo e extração periférica de oxigênio. O valor máximo observado resulta da interação desses componentes. Um protocolo que modifica de maneira importante o padrão de recrutamento muscular pode alterar a demanda periférica e a resposta cardiorrespiratória sem necessariamente modificar a capacidade máxima intrínseca do sistema de transporte de oxigênio. Dessa maneira, diferenças entre valores máximos observados em diferentes protocolos não devem ser interpretadas automaticamente como diferenças na capacidade aeróbia máxima do indivíduo (POOLE; JONES, 2012; JONES et al., 2010).

A utilização da espectroscopia no infravermelho próximo por meio do Moxy Monitor acrescenta uma dimensão periférica à avaliação. A espectroscopia no infravermelho próximo permite acompanhar alterações na oxigenação do tecido muscular por meio da variável SmO₂, relacionada ao balanço entre disponibilidade de oxigênio e sua utilização pelo músculo. A resposta da SmO₂ durante diferentes níveis de potência fornece informações complementares àquelas obtidas pelo VO₂ pulmonar, porque o VO₂ representa uma resposta integrada do organismo, enquanto a SmO₂ fornece uma janela para o comportamento local do tecido muscular avaliado. A combinação de VO₂ e SmO₂ permite, assim, investigar não apenas quanto oxigênio está sendo consumido pelo organismo, mas como a oxigenação muscular se modifica à medida que a demanda energética aumenta.

A inclusão do lactato sanguíneo acrescenta outra variável metabólica importante, mas igualmente exige interpretação cuidadosa. O lactato não deve ser considerado simplesmente um marcador direto de metabolismo anaeróbio ou sinônimo de fadiga. Sua concentração sanguínea representa o resultado dinâmico entre produção, utilização, oxidação e remoção, além da distribuição entre diferentes compartimentos. Durante um teste incremental, a análise seriada do lactato pode auxiliar na identificação de mudanças sistemáticas na resposta metabólica associadas aos limiares fisiológicos. A interpretação mais robusta ocorre quando lactato, VO₂, frequência cardíaca, potência e, quando disponível, SmO₂ são analisados conjuntamente, em vez de atribuir a um único marcador a definição de um fenômeno fisiológico complexo.

Nesse contexto, LT1 e LT2 devem ser entendidos como referências funcionais dentro da resposta ao exercício incremental, e não como pontos matematicamente universais que possam ser identificados exclusivamente por uma variável. LT1 representa uma primeira transição metabólica relevante, enquanto LT2 corresponde a uma intensidade mais elevada, associada a maior perturbação metabólica e à aproximação do domínio severo. A CP apresenta relação conceitual importante com a fronteira superior desse domínio, mas não deve ser simplesmente substituída pelo LT2 ou pelo FTP. Diferentes métodos podem produzir valores próximos ou divergentes porque cada constructo é definido por critérios metodológicos e fisiológicos distintos (POOLE; WARD; GARDNER; WHIPP, 1988; JONES et al., 2010).

No ciclista do nosso exemplo, imaginemos que o GXT tenha apresentado LT1 aproximadamente entre 250 e 254 W e LT2 funcional aproximadamente entre 300 e 305 W, valores que coincidem de maneira muito próxima com aqueles obtidos em teste de lactato realizado anteriormente. O teste de lactato teria identificado LT1 em aproximadamente 254 W, MLSS estimado em 296 W e LT2 funcional entre 300 e 305 W. A conclusão desse exame também posicionou a região crítica de desempenho aproximadamente entre 290 e 300 W. A concordância independente entre a resposta do lactato e a resposta cardiorrespiratória fortalece a interpretação dos limiares e demonstra que a diferença observada entre os valores de VO₂ dos diferentes protocolos não decorre simplesmente de uma determinação inadequada dos limiares metabólicos.

O contraste entre os testes torna-se, portanto, fisiologicamente mais interessante. No GXT, o atleta apresentou aproximadamente 72–73 mL·kg⁻¹·min⁻¹ de VO₂peak; no all-out, atingiu valores de VO₂ substancialmente superiores, simultaneamente à redução progressiva da potência mecânica. A interpretação mais adequada não consiste em afirmar que um teste “descobriu” um VO₂max de 83 mL·kg⁻¹·min⁻¹ que o outro não conseguiu detectar. Os resultados demonstram, de maneira mais segura, que o exercício supramáximo produziu uma resposta de VO₂ mais elevada do que o protocolo incremental utilizado, provavelmente em razão da combinação entre recrutamento muscular, contribuição progressiva do metabolismo oxidativo, cinética retardada do VO₂ e características específicas da demanda supramáxima (BURNLEY; DOUST; VANHATALO, 2006; VANHATALO et al., 2011).

A magnitude do VO₂peak pode ser influenciada, portanto, pela duração do exercício, taxa de incremento da carga, estado de fadiga, estratégia de esforço, massa muscular recrutada e condições ambientais. Comparações entre valores de VO₂ obtidos em diferentes protocolos devem considerar não apenas o número absoluto, mas também como, quando e sob qual demanda mecânica esse valor foi produzido. Essa perspectiva é particularmente importante em estudos que utilizam protocolos supramáximos, nos quais a resposta respiratória apresenta uma dinâmica que não pode ser interpretada como simples reflexo instantâneo da potência mecânica.

A questão da diferença entre o desempenho indoor e aquele observado na rua introduz ainda outro componente fisiológico relevante. Se a capacidade relatada de sustentar aproximadamente 360 W durante 30 minutos na rua for confirmada por um sistema de potência comparável ao utilizado no laboratório, essa potência situa-se substancialmente acima do LT2 funcional identificado nos testes laboratoriais em nosso exemplo. Antes de atribuir essa diferença exclusivamente à hipertermia, entretanto, devem ser excluídas diferenças de calibração, medição de potência, ergômetro, dinâmica mecânica, cadência e posição corporal. Uma vez controladas essas variáveis, a termorregulação constitui hipótese fisiologicamente plausível. No ciclismo outdoor, o deslocamento corporal produz fluxo de ar e aumenta significativamente a convecção; em ambiente indoor, a ausência de velocidade relativa do ar pode reduzir a dissipação de calor e aumentar a temperatura corporal para uma mesma potência metabólica. Essa diferença pode alterar o débito cardíaco disponível para o músculo, a distribuição do fluxo sanguíneo e a tolerância ao exercício prolongado. Contudo, essa hipótese requer confirmação experimental específica e não deve ser apresentada como explicação definitiva.

A integração dessas variáveis permite propor uma avaliação experimental composta por etapas complementares. A primeira consiste em um teste incremental destinado à determinação dos limiares fisiológicos e à caracterização da relação entre potência, VO₂, frequência cardíaca, lactato e SmO₂. A segunda consiste em esforços máximos de duração variável destinados a construir a curva potência–duração e determinar CP e W′. O teste de 3 minutos all-out pode ser incorporado como método eficiente para estimar CP e W′, mas, quando o objetivo é produzir um perfil de potência completo e cientificamente mais robusto, deve ser combinado com esforços máximos de diferentes durações (LEO et al., 2022; QUITTMANN; PIEHL, 2026).

Um desenho experimental particularmente eficiente pode utilizar inicialmente um aquecimento padronizado, seguido de um teste incremental com estágios de aproximadamente três minutos e incrementos de potência definidos individualmente. O lactato pode ser coletado nos segundos finais de cada estágio sem interromper a pedalada, enquanto VO₂, frequência cardíaca e SmO₂ são registrados continuamente. Após recuperação adequada, pode-se realizar o esforço de três minutos all-out. Em sessões adicionais, esforços máximos de aproximadamente 3, 5, 8 e 12 minutos permitem estimar CP e W′ por regressão trabalho–tempo, enquanto esforços mais longos ou dados de treinamento e competição podem completar a região correspondente às maiores durações da PDC. Essa estratégia evita tentar obter toda a curva em uma única sessão e reduz o risco de que a fadiga acumulada distorça os pontos de duração mais longa.

A representação final do perfil deve, portanto, ultrapassar a apresentação de uma única potência de referência. A PDC deve apresentar a potência média máxima em função do tempo, podendo utilizar escala logarítmica no eixo temporal para facilitar a visualização das diferentes regiões. Sobre essa curva podem ser identificados os valores de potência máxima de curta duração, a região de potência anaeróbia, a potência aeróbia máxima, a CP e as potências correspondentes aos principais limiares fisiológicos. A análise complementar pode associar cada região da curva às respostas de VO₂, lactato, frequência cardíaca e SmO₂, permitindo interpretar não apenas quanto de potência o ciclista consegue produzir, mas quais mecanismos fisiológicos sustentam essa produção.

A importância dessa abordagem reside justamente na possibilidade de distinguir fenótipo de desempenho de uma simples classificação baseada em potência absoluta. Um ciclista com elevada potência de curta duração, mas queda acentuada da potência à medida que o tempo aumenta, apresenta perfil fisiológico distinto daquele que possui potência pico inferior, porém pequena redução relativa entre esforços de curta e longa duração. A primeira configuração sugere maior capacidade de manifestação neuromuscular e anaeróbia, enquanto a segunda evidencia maior capacidade de sustentar elevada produção energética oxidativa e maior resistência à fadiga. A PDC torna essa diferença simultaneamente visual e quantitativamente mensurável (LEO et al., 2022).

A interpretação integrada também permite compreender por que a potência máxima representa apenas uma extremidade do espectro funcional. A capacidade de produzir potência durante poucos segundos depende fortemente da ativação neuromuscular, da capacidade de produzir força e velocidade de contração e da disponibilidade imediata de energia por vias de elevada taxa de produção. À medida que a duração aumenta, tornam-se progressivamente mais importantes a capacidade oxidativa, o transporte e a utilização de oxigênio, a capacidade de manter a homeostase metabólica, o recrutamento muscular sustentável e a resistência à fadiga. Entre esses extremos, CP e W′ fornecem uma estrutura quantitativa para representar a relação entre intensidade e tolerância ao exercício.

Assim, a manifestação da potência no ciclismo deve ser compreendida como uma propriedade emergente da interação entre capacidade neuromuscular, disponibilidade e utilização de substratos energéticos, transporte e utilização de oxigênio, metabolismo oxidativo e não oxidativo, regulação cardiovascular, resposta muscular periférica e mecanismos associados à fadiga. A potência máxima representa apenas a extremidade de curta duração desse continuum; a CP constitui uma referência fundamental na região de transição entre os domínios de intensidade; W′ expressa a capacidade finita de realizar trabalho acima dessa referência; e a PDC integra esses fenômenos em uma representação contínua da capacidade funcional do ciclista.

O teste de 3 minutos all-out acrescenta a essa estrutura uma condição experimental particularmente interessante, na qual a demanda energética inicial excede substancialmente a capacidade de fornecimento oxidativo e, ao longo do exercício, ocorre progressiva aproximação da resposta oxidativa ao seu limite. Seu valor científico, portanto, não reside apenas na possibilidade de estimar CP e W′, mas também na oportunidade de estudar simultaneamente a interação entre potência mecânica, metabolismo anaeróbio, metabolismo oxidativo, recrutamento muscular e cinética do VO₂. Entretanto, a resposta de VO₂ observada durante esse protocolo deve ser interpretada segundo sua natureza temporal e sistêmica, não sendo legítimo converter automaticamente seu maior valor observado em VO₂max.

No presente caso, a designação mais cientificamente rigorosa para o maior valor obtido durante o all-out é, portanto, VO₂peak supramáximo, e não VO₂max, a menos que sua equivalência com o VO₂max seja demonstrada por procedimento de verificação ou por critérios experimentais apropriados. Essa distinção não diminui a importância do resultado; ao contrário, evidencia que o protocolo revelou uma característica fisiológica que o GXT não apresentou com a mesma magnitude. A diferença entre os valores deve ser interpretada como informação sobre a interação entre cinética do VO₂, recrutamento muscular e demanda energética supramáxima, e não simplesmente como discrepância entre dois números (BURNLEY; DOUST; VANHATALO, 2006; MIDGLEY; CARROLL, 2009; POOLE; JONES, 2017).

Em síntese, a avaliação fisiológica do ciclista alcança maior validade interpretativa quando potência externa e respostas internas são analisadas como componentes de um mesmo sistema. A PDC descreve a expressão mecânica do desempenho ao longo do tempo; CP e W′ fornecem parâmetros quantitativos para a relação entre intensidade e tolerância ao exercício; VO₂ caracteriza a demanda oxidativa sistêmica; lactato contribui para a identificação das transições metabólicas; frequência cardíaca fornece informação integrada sobre a resposta cardiovascular; e SmO₂ acrescenta uma perspectiva periférica sobre a oxigenação muscular. O conjunto dessas informações permite transformar a avaliação de potência de uma simples descrição do desempenho externo em uma investigação fisiológica dos mecanismos que determinam a capacidade de produzir e sustentar trabalho mecânico. É precisamente essa integração entre fenótipo mecânico e mecanismos fisiológicos que confere à análise potência–duração seu maior valor científico e aplicado.

REFERÊNCIAS

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JONES, Andrew M.; VANHATALO, Anni; BURNLEY, Mark; MORTON, Richard H.; POOLE, David C. Critical power: implications for determination of VO₂max and exercise tolerance. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 42, n. 10, p. 1876–1890, 2010. DOI: 10.1249/MSS.0b013e3181d9cf7f.

LEO, Paul; SPRAGG, Jonathan; PODOLOGAR, Tadej; LAWLEY, James S.; MUJIKA, Iñigo. Power profiling and the power-duration relationship in cycling: a narrative review. European Journal of Applied Physiology, v. 122, p. 301–316, 2022. DOI: 10.1007/s00421-021-04833-y.

MIDGLEY, Adrian W.; CARROLL, Sean. Emergence of the verification phase procedure for confirming “true” VO₂max. Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports, v. 19, p. 313–322, 2009. DOI: 10.1111/j.1600-0838.2009.00898.x.

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