A Mecanotransdução Endocárdica como Mecanismo Integrador do Remodelamento Excêntrico Cardíaco Induzido pelo Treinamento de Endurance: uma hipótese para explicar a superioridade adaptativa do treinamento prolongado em Zona 2

por | jul 28, 2026

Introdução

A extraordinária capacidade do sistema cardiovascular de adaptar-se ao treinamento físico constitui uma das mais sofisticadas manifestações de plasticidade biológica observadas em organismos adultos. Entre todas as adaptações induzidas pelo exercício, poucas apresentam maior relevância fisiológica do que o remodelamento cardíaco observado em atletas de endurance, caracterizado pelo aumento da cavidade ventricular esquerda, discreto espessamento das paredes, preservação ou melhora da função sistólica e diastólica, aumento do volume sistólico e expressivo incremento da reserva funcional cardíaca. Diferentemente da hipertrofia patológica observada na hipertensão arterial, nas valvopatias ou nas cardiomiopatias, o chamado athlete’s heart representa um processo adaptativo fisiológico reversível, acompanhado por angiogênese proporcional, ausência de fibrose significativa, manutenção da arquitetura miocárdica e preservação da eficiência mecânica do ventrículo esquerdo.

Nas últimas décadas, avanços na biologia molecular demonstraram que essas adaptações estruturais não representam simplesmente uma resposta passiva ao aumento da carga de trabalho cardíaca, mas decorrem da ativação coordenada de vias intracelulares altamente reguladas. Atualmente, reconhece-se que a hipertrofia fisiológica induzida pelo exercício depende predominantemente da ativação do eixo IGF-1/IGF-1R–PI3K–Akt, associado ao aumento da biogênese mitocondrial, da angiogênese, da eficiência energética, da sobrevivência celular e da manutenção da homeostase oxidativa. Em contraste, a hipertrofia patológica envolve predominantemente vias neuro-hormonais e inflamatórias, acompanhadas por fibrose intersticial, ativação de genes fetais, remodelamento metabólico desfavorável e progressiva deterioração funcional. Essa distinção demonstra que não é o aumento da massa cardíaca em si que determina o fenótipo fisiológico ou patológico, mas sim a natureza do estímulo mecânico e das vias de sinalização ativadas em resposta a esse estímulo.

Sob o ponto de vista hemodinâmico, a adaptação cardíaca ao treinamento de endurance sempre foi explicada pelo conceito clássico de sobrecarga volumétrica. Durante o exercício aeróbico ocorre aumento do retorno venoso, da pré-carga e do volume diastólico final, promovendo maior distensão das fibras miocárdicas e consequente aumento do volume sistólico pelo mecanismo de Frank-Starling. A repetição crônica desse estímulo produziria o remodelamento excêntrico característico dos atletas de endurance, enquanto exercícios predominantemente resistidos, associados a maiores elevações pressóricas, favoreceriam adaptações predominantemente concêntricas. Embora esse modelo permaneça amplamente aceito e seja sustentado por extensa literatura experimental e clínica, ele apresenta uma limitação conceitual importante: descreve adequadamente o fenômeno hemodinâmico, mas pouco explica os mecanismos celulares capazes de converter deformações mecânicas transitórias em crescimento estrutural permanente do ventrículo esquerdo.

Paralelamente, uma revolução conceitual ocorreu na biologia cardiovascular com o desenvolvimento da mecanobiologia. Atualmente sabe-se que células cardiovasculares não respondem apenas a estímulos químicos ou hormonais, mas são capazes de detectar forças físicas, convertendo-as em sinais bioquímicos através de um processo denominado mecanotransdução. Canais mecanossensíveis como Piezo1, complexos de integrinas, proteínas de adesão focal, moléculas do citoesqueleto, proteínas dos discos intercalares e reguladores nucleares como YAP/TAZ constituem uma sofisticada rede molecular capaz de detectar estiramento, tensão, pressão, deformação cíclica e shear stress, desencadeando alterações de expressão gênica que regulam proliferação celular, angiogênese, remodelamento tecidual e adaptação funcional. Essas vias são atualmente reconhecidas como componentes centrais da homeostase cardiovascular e do remodelamento cardíaco, tanto fisiológico quanto patológico.

Nesse contexto, outra mudança igualmente relevante ocorreu na compreensão da biologia do endocárdio. Tradicionalmente considerado apenas um revestimento endotelial passivo da superfície interna das cavidades cardíacas, o endocárdio passou a ser reconhecido como um tecido altamente especializado, funcionalmente integrado ao miocárdio e dotado de intensa atividade parácrina. Evidências acumuladas demonstram que células endocárdicas respondem diretamente às forças hemodinâmicas produzidas pelo fluxo sanguíneo e pela deformação da parede ventricular, atuando como sensores biomecânicos capazes de modular a proliferação de cardiomiócitos, a angiogênese, o desenvolvimento das trabéculas, a regeneração miocárdica e o remodelamento estrutural através da secreção de moléculas como Neuregulina-1, VEGF, BMP, fatores da via Notch e óxido nítrico. Dessa forma, o endocárdio deixou de ser considerado um simples revestimento anatômico para assumir papel central como interface funcional entre as forças mecânicas intracavitárias e a resposta biológica adaptativa do miocárdio.

Curiosamente, apesar do extraordinário desenvolvimento dessas áreas de conhecimento, elas permaneceram praticamente desconectadas dentro da fisiologia do exercício. A literatura do treinamento esportivo continua interpretando o remodelamento cardíaco predominantemente sob a ótica da sobrecarga volumétrica, enquanto a literatura da mecanobiologia concentra-se nos mecanismos celulares de percepção e transdução de forças mecânicas, raramente relacionando esses mecanismos às diferentes intensidades e características do treinamento aeróbico. Consequentemente, permanece sem resposta uma questão fisiológica fundamental: por que o treinamento prolongado realizado em intensidades leves a moderadas, próximas ao primeiro limiar fisiológico, mostra-se extraordinariamente eficiente em promover remodelamento cardíaco funcional, mesmo impondo menor estresse metabólico, neuroendócrino e pressórico do que exercícios de alta intensidade?

Propõe-se, neste artigo, uma hipótese integradora capaz de estabelecer uma ponte entre essas duas áreas do conhecimento. A hipótese central é que o principal estímulo biológico para o remodelamento excêntrico fisiológico não seja simplesmente a sobrecarga volumétrica, mas a dose acumulada de deformação diastólica do endocárdio. Durante exercícios prolongados realizados em intensidades correspondentes à Zona 2, a frequência cardíaca permanece suficientemente baixa para preservar longo tempo de enchimento ventricular, permitindo que o ventrículo opere repetidamente próximo ao seu volume diastólico máximo durante dezenas de milhares de ciclos cardíacos consecutivos. Nessas condições, o endocárdio seria submetido a intenso estiramento cíclico, ativando mecanossensores como Piezo1, integrinas, proteínas associadas ao complexo focal de adesão e reguladores nucleares mecanossensíveis, culminando na secreção parácrina de fatores tróficos capazes de coordenar angiogênese, crescimento fisiológico dos cardiomiócitos e remodelamento excêntrico do ventrículo esquerdo. Sob essa perspectiva, o verdadeiro determinante da adaptação cardíaca deixaria de ser apenas a magnitude instantânea da carga hemodinâmica, passando a ser a integral temporal da deformação mecânica diastólica, isto é, o tempo acumulado durante o qual o endocárdio permanece exposto a elevados níveis de strain fisiológico.

Essa hipótese não contradiz os modelos clássicos de remodelamento cardíaco induzido pelo exercício. Ao contrário, procura fornecer o mecanismo biológico capaz de explicar como a sobrecarga volumétrica é convertida em crescimento estrutural organizado. Ao integrar conhecimentos provenientes da fisiologia cardiovascular, da biologia do endocárdio, da mecanobiologia celular e da ciência do treinamento esportivo, propõe-se um modelo conceitual no qual o treinamento prolongado em Zona 2 constitui não apenas um estímulo metabólico de baixa intensidade, mas sobretudo um poderoso estímulo de mecanotransdução cardíaca, potencialmente responsável pela ativação coordenada dos programas moleculares que culminam no desenvolvimento do coração fisiológico do atleta.

 

  1. Sobrecarga Volumétrica, Remodelamento Excêntrico e os Limites da Teoria Clássica: em busca do mecanismo biológico da adaptação cardíaca ao endurance

A observação de que atletas de endurance desenvolvem corações estruturalmente maiores, com aumento predominante do volume ventricular esquerdo e preservação da função sistólica e diastólica, constitui um dos paradigmas mais antigos da fisiologia cardiovascular. Desde as primeiras descrições do chamado Athlete’s Heart, a literatura reconhece que o treinamento aeróbico produz um padrão característico de remodelamento cardíaco, denominado hipertrofia fisiológica excêntrica, caracterizado pelo aumento simultâneo do comprimento e da espessura dos cardiomiócitos, acompanhado por expansão proporcional da vascularização coronariana, preservação da arquitetura extracelular e manutenção da eficiência mecânica do ventrículo esquerdo. Diferentemente da hipertrofia patológica, o remodelamento fisiológico é completamente integrado à função cardiovascular, melhora o desempenho durante o exercício e apresenta elevada reversibilidade após períodos prolongados de destreinamento.

Diversos estudos ecocardiográficos e por ressonância magnética demonstram que atletas submetidos a anos de treinamento aeróbico apresentam aumento do volume diastólico final, maior complacência ventricular, maior volume sistólico máximo e redução da frequência cardíaca tanto em repouso quanto durante exercícios submáximos. Wilson, Ellison e Cable sintetizam esses achados mostrando que programas prolongados de treinamento promovem aumento aproximado de 20% no volume sistólico, acompanhado por dilatação fisiológica das quatro câmaras cardíacas e discreto aumento da espessura parietal, adaptações que elevam significativamente a capacidade de débito cardíaco máximo sem comprometer a eficiência ventricular.

Essas observações consolidaram o conceito de que o principal estímulo responsável pelo remodelamento do atleta seria a sobrecarga volumétrica crônica. Segundo esse modelo, o aumento repetitivo do retorno venoso durante o exercício aeróbico eleva o volume diastólico final, aumentando a tensão exercida sobre a parede ventricular durante a diástole. A repetição desse fenômeno ao longo de milhares de sessões de treinamento induziria crescimento progressivo da cavidade ventricular, elevando o volume sistólico e reduzindo o custo cardíaco relativo para um determinado débito cardíaco. Esse conceito, originalmente associado ao modelo de Morganroth, permanece como fundamento da interpretação fisiológica do remodelamento cardíaco induzido pelo endurance, ainda que hoje se reconheça que a dicotomia entre hipertrofia concêntrica e excêntrica seja mais complexa do que inicialmente proposto.

Entretanto, sob uma perspectiva estritamente biológica, afirmar que o ventrículo cresce porque é submetido à sobrecarga volumétrica representa uma descrição fenomenológica, mas não uma explicação mecanística. Sobrecarga volumétrica não constitui um mecanismo molecular; trata-se de uma condição hemodinâmica. A questão fundamental permanece: como o aumento transitório do volume intracavitário é percebido pelas células cardíacas e convertido em programas permanentes de remodelamento estrutural? Em outras palavras, qual é o sensor biológico capaz de transformar deformação mecânica em crescimento cardíaco organizado?

A própria literatura contemporânea sobre hipertrofia fisiológica sugere que essa pergunta permanece parcialmente em aberto. Nakamura e Sadoshima demonstram que a natureza da hipertrofia depende menos da duração da carga cardíaca e muito mais do tipo de estímulo mecânico e das vias celulares ativadas em resposta a esse estímulo. Exercícios de endurance, embora representem uma forma repetitiva de sobrecarga mecânica, induzem hipertrofia fisiológica, enquanto sobrecargas pressóricas intermitentes, mesmo quando episódicas, podem desencadear remodelamento patológico. Essa distinção indica que não é simplesmente a magnitude da carga que determina o fenótipo adaptativo, mas a forma como essa carga é detectada e interpretada biologicamente pelo tecido cardíaco.

Essa interpretação torna-se ainda mais evidente quando se analisam as respostas moleculares induzidas pelo treinamento. O exercício aeróbico ativa seletivamente programas celulares associados à sobrevivência, eficiência metabólica, angiogênese, proliferação vascular, biogênese mitocondrial e crescimento organizado dos cardiomiócitos. Entre essas vias, destaca-se o eixo IGF-1/IGF-1R–PI3K–Akt, atualmente considerado o principal regulador da hipertrofia fisiológica induzida pelo exercício. Sua ativação promove aumento coordenado da síntese proteica, preservação mitocondrial, resistência ao estresse oxidativo, manutenção da função contrátil e crescimento equilibrado do ventrículo, sem indução de fibrose ou reativação significativa do programa gênico fetal.

Contudo, embora essas vias estejam hoje relativamente bem caracterizadas, permanece pouco esclarecido qual estímulo primário desencadeia sua ativação durante o treinamento aeróbico. A maior parte da literatura limita-se a afirmar que o exercício induz IGF-1, PI3K e Akt, sem discutir detalhadamente qual variável fisiológica funciona como gatilho inicial desse processo. Essa lacuna conceitual é particularmente importante porque o exercício modifica simultaneamente dezenas de parâmetros fisiológicos, incluindo frequência cardíaca, pressão arterial, retorno venoso, estresse oxidativo, atividade simpática, concentração de catecolaminas, temperatura, hipóxia tecidual e deformação mecânica das estruturas cardiovasculares. Distinguir qual desses estímulos representa o verdadeiro iniciador do remodelamento permanece um dos desafios centrais da biologia do exercício.

Uma análise mais cuidadosa da fisiologia cardiovascular sugere que o comportamento do volume sistólico durante o exercício pode fornecer uma pista importante. Em indivíduos saudáveis, o volume sistólico aumenta progressivamente com a intensidade até atingir um platô em intensidades moderadas, geralmente entre 40 e 60% do VO₂máx em indivíduos sedentários e em intensidades substancialmente maiores em atletas treinados. A partir desse ponto, o aumento adicional do débito cardíaco ocorre predominantemente às custas do incremento da frequência cardíaca. A explicação clássica para esse fenômeno reside na redução progressiva da duração da diástole. À medida que a frequência cardíaca aumenta, o tempo disponível para enchimento ventricular diminui, limitando o aumento adicional do volume diastólico final apesar do contínuo aumento da demanda metabólica.

Esse comportamento fisiológico possui implicações potencialmente profundas para a compreensão do remodelamento cardíaco. Se o objetivo biológico do treinamento fosse maximizar apenas o estresse metabólico ou o consumo de oxigênio, exercícios realizados próximos ao VO₂máx deveriam produzir o maior estímulo adaptativo para o crescimento ventricular. Entretanto, a prática esportiva e a literatura sobre treinamento demonstram exatamente o oposto. O desenvolvimento da capacidade aeróbica de longo prazo depende predominantemente de elevados volumes de treinamento realizados em intensidades leves a moderadas, próximas ao primeiro limiar fisiológico, enquanto exercícios de alta intensidade representam apenas pequena fração da carga anual de treinamento dos atletas de endurance. Essa aparente contradição sugere que o principal sinal adaptativo para o remodelamento cardíaco talvez não seja a intensidade metabólica do exercício, mas outra variável fisiológica que atinge seu valor máximo justamente nessas intensidades moderadas.

Sob essa perspectiva, merece atenção o fato de que, durante exercícios realizados próximos ao primeiro limiar fisiológico, coexistem três condições potencialmente únicas: elevada pré-carga, longo tempo de enchimento ventricular e enorme número de ciclos cardíacos consecutivos operando próximo ao máximo volume diastólico fisiológico. Em uma sessão de três horas realizada a aproximadamente 120 batimentos por minuto, o coração completa mais de vinte mil ciclos de enchimento e ejeção. Cada um desses ciclos submete o endocárdio, os cardiomiócitos, a matriz extracelular e o citoesqueleto a deformações mecânicas repetitivas. Diferentemente do exercício de alta intensidade, no qual a taquicardia reduz significativamente a duração da diástole, o treinamento prolongado em Zona 2 maximiza simultaneamente o tempo de exposição ao enchimento ventricular e o número absoluto de eventos mecânicos aos quais o coração é submetido.

Essa interpretação conduz naturalmente a uma reformulação da hipótese clássica da sobrecarga volumétrica. Talvez o verdadeiro estímulo adaptativo não seja o aumento do volume ventricular em si, mas a exposição cumulativa do tecido cardíaco ao estiramento diastólico fisiológico. Em vez de considerar apenas a magnitude da deformação, torna-se biologicamente plausível considerar também sua duração e repetição ao longo do tempo. Assim, a variável fisiologicamente relevante deixaria de ser simplesmente o volume diastólico final instantâneo e passaria a ser a dose acumulada de deformação diastólica, resultante da integração entre intensidade do estiramento e número de ciclos cardíacos realizados sob essa condição.

Essa mudança de perspectiva aproxima a fisiologia do treinamento da moderna mecanobiologia. Em diversos sistemas biológicos, adaptações estruturais não dependem apenas da intensidade da força aplicada, mas da combinação entre magnitude, frequência, duração e repetição do estímulo mecânico. Tecidos ósseos, musculares, tendíneos, vasculares e cartilaginosos respondem precisamente a esse princípio. Não há razões biológicas para supor que o miocárdio constitua exceção. Ao contrário, evidências recentes demonstram que praticamente todas as células cardiovasculares possuem sofisticados sistemas de mecanossensibilidade capazes de transformar deformações físicas em programas de expressão gênica. Se esse princípio também se aplicar ao endocárdio — como sugerem estudos recentes de biologia cardiovascular —, então a superioridade adaptativa do treinamento prolongado em Zona 2 poderá ser compreendida não apenas sob a ótica da fisiologia hemodinâmica, mas como consequência direta da otimização da mecanotransdução cardíaca.

É justamente essa possibilidade que será explorada na próxima seção, na qual serão discutidas as evidências de que o endocárdio representa muito mais do que um simples revestimento interno das cavidades cardíacas, atuando como um verdadeiro órgão mecanossensor capaz de converter forças hemodinâmicas em sinais parácrinos responsáveis pelo crescimento fisiológico do miocárdio.

 

  1. O Endocárdio como Órgão Mecanossensor: uma nova perspectiva sobre o remodelamento cardíaco induzido pelo treinamento de endurance

A compreensão do remodelamento cardíaco fisiológico sofreu profunda transformação na última década com a consolidação do conceito de mecanobiologia cardiovascular. Tradicionalmente, a resposta adaptativa do coração ao exercício era interpretada quase exclusivamente sob a ótica do cardiomiócito, considerado a principal unidade sensora e efetora das adaptações estruturais induzidas pelo treinamento. Entretanto, avanços recentes em biologia celular demonstraram que o coração constitui um sistema mecanobiológico integrado, no qual diferentes populações celulares participam ativamente da percepção das forças hemodinâmicas e da coordenação das respostas adaptativas. Nesse contexto, o endocárdio emerge como um dos componentes mais relevantes e, paradoxalmente, um dos menos explorados pela fisiologia do exercício.

Durante décadas, o endocárdio foi considerado apenas uma monocamada endotelial cuja principal função consistiria em reduzir o atrito entre o sangue e a parede ventricular. Essa visão, entretanto, tornou-se progressivamente insustentável diante das evidências acumuladas na biologia do desenvolvimento cardiovascular. Atualmente reconhece-se que o endocárdio constitui um tecido altamente especializado, metabolicamente ativo e funcionalmente integrado ao miocárdio, desempenhando papel fundamental na embriogênese cardíaca, na formação das trabéculas, no desenvolvimento do sistema de condução, na angiogênese coronariana, na regeneração miocárdica e na manutenção da homeostase ventricular. Mais importante ainda, estudos recentes demonstram que o endocárdio atua como um verdadeiro centro de sinalização parácrina, capaz de modular diretamente o crescimento, a diferenciação e a sobrevivência dos cardiomiócitos.

Essa mudança conceitual representa um ponto de inflexão importante para a fisiologia do exercício. Se o endocárdio possui capacidade secretora e controla diversos processos envolvidos no crescimento do miocárdio, torna-se biologicamente plausível que parte das adaptações estruturais observadas em atletas seja iniciada não pelo cardiomiócito propriamente dito, mas pelo tecido que primeiro experimenta as alterações hemodinâmicas produzidas pelo exercício. Sob essa perspectiva, o endocárdio deixa de ser um mero revestimento anatômico para assumir a função de interface biomecânica entre o sangue circulante e o miocárdio.

A base dessa nova interpretação reside na extraordinária sensibilidade mecânica das células endocárdicas. Diferentemente da maioria dos tecidos do organismo, o endocárdio encontra-se continuamente exposto às forças físicas produzidas pelo fluxo sanguíneo intracavitário e pela deformação cíclica da parede ventricular. Cada ciclo cardíaco modifica simultaneamente pressão intracavitária, tensão parietal, curvatura da superfície endocárdica, velocidade do fluxo, direção do shear stress e magnitude do estiramento celular. Em consequência, as células endocárdicas desenvolveram sofisticados sistemas capazes de detectar essas alterações biomecânicas e convertê-las em respostas biológicas específicas, processo atualmente conhecido como mecanotransdução. Haack e Abdelilah-Seyfried descrevem o endocárdio como um verdadeiro sensor das forças biofísicas produzidas pelo fluxo sanguíneo e pela contratilidade cardíaca, responsável por modular programas de crescimento miocárdico durante o desenvolvimento e também em condições fisiológicas e patológicas.

O conceito de mecanotransdução baseia-se na capacidade das células de converter deformações físicas em alterações de expressão gênica. Diferentemente dos receptores clássicos, ativados por ligantes químicos, os mecanossensores respondem diretamente à deformação da membrana plasmática, do citoesqueleto ou da matriz extracelular. O resultado final é a ativação de cascatas intracelulares que regulam proliferação, diferenciação, metabolismo, síntese proteica, remodelamento da matriz extracelular e sobrevivência celular. No sistema cardiovascular, esse mecanismo tornou-se reconhecido como elemento central da adaptação tanto fisiológica quanto patológica às cargas hemodinâmicas. Revisão recente sobre mecanotransdução cardiovascular demonstra que praticamente todas as adaptações estruturais do sistema cardiovascular dependem da integração entre estímulos mecânicos, proteínas sensoras, reorganização do citoesqueleto e ativação de programas transcricionais específicos.

Entre os mecanossensores atualmente conhecidos, destacam-se os canais iônicos Piezo1. Descobertos há pouco mais de uma década, esses canais revolucionaram a compreensão da mecanobiologia por constituírem os primeiros sensores moleculares capazes de responder diretamente à deformação da membrana plasmática. Quando submetidos a estiramento, pressão ou shear stress, os canais Piezo1 sofrem alteração conformacional que permite influxo de cálcio para o interior celular, desencadeando rápida ativação de múltiplas vias de sinalização. Atualmente sabe-se que Piezo1 encontra-se amplamente distribuído em células endoteliais, cardiomiócitos, fibroblastos cardíacos e células musculares lisas vasculares, participando da regulação da angiogênese, do remodelamento cardíaco, da resposta inflamatória e da adaptação às cargas hemodinâmicas.

Entretanto, Piezo1 representa apenas um dos componentes de uma rede mecanossensora muito mais complexa. A percepção das forças mecânicas depende também de proteínas de adesão focal mediadas por integrinas, do citoesqueleto de actina, da transmissão de força através dos costâmeros, da matriz extracelular e da ativação de reguladores nucleares como YAP e TAZ. Wang e colaboradores demonstram que essas estruturas funcionam como um sistema integrado de transmissão mecânica, no qual deformações inicialmente percebidas na superfície celular propagam-se através do citoesqueleto até o núcleo, promovendo alterações sustentadas na expressão gênica. Dessa forma, a mecanotransdução deixa de ser compreendida como um evento localizado para constituir um processo contínuo de comunicação entre membrana plasmática, citoesqueleto, organelas e núcleo celular.

Esse modelo apresenta notável compatibilidade com a fisiologia do treinamento de endurance. Durante uma sessão prolongada de exercício em Zona 2, o ventrículo esquerdo permanece submetido durante várias horas a elevado enchimento diastólico, produzindo deformações repetitivas da superfície endocárdica. Cada ciclo cardíaco representa um evento mecânico capaz de ativar simultaneamente canais Piezo1, complexos de integrinas, proteínas do citoesqueleto e reguladores nucleares sensíveis à tensão mecânica. Considerando que uma sessão de três horas pode envolver mais de vinte mil ciclos cardíacos, o treinamento prolongado deixa de representar apenas um estímulo metabólico para constituir um gigantesco experimento de mecanotransdução repetitiva.

Outro aspecto particularmente relevante diz respeito ao tipo de força predominante em diferentes intensidades de exercício. A maior parte dos estudos de mecanobiologia cardiovascular concentra-se no papel do shear stress produzido pelo fluxo sanguíneo sobre o endotélio vascular. Entretanto, durante o exercício aeróbico prolongado, especialmente em intensidades próximas ao primeiro limiar fisiológico, o coração permanece submetido não apenas ao shear stress, mas principalmente ao estiramento cíclico decorrente do elevado volume diastólico final. Essa distinção pode ser decisiva. Enquanto exercícios máximos aumentam intensamente pressão intraventricular e frequência cardíaca, reduzindo progressivamente o tempo de enchimento, o treinamento em Zona 2 mantém elevada pré-carga associada a longo tempo diastólico, potencializando precisamente o tipo de deformação mecânica à qual o endocárdio parece ser mais sensível.

Essa interpretação permite reinterpretar o conceito clássico de sobrecarga volumétrica sob uma perspectiva mecanobiológica. A sobrecarga volumétrica deixa de ser vista como o agente adaptativo propriamente dito e passa a representar a condição física necessária para ativação repetitiva dos mecanismos celulares de percepção mecânica. Em outras palavras, o volume diastólico elevado não seria o estímulo biológico final, mas o evento hemodinâmico responsável por produzir deformação suficiente para ativar os sistemas mecanossensores do endocárdio.

Uma consequência particularmente interessante dessa interpretação é que ela explica por que sessões extremamente intensas, embora metabolicamente mais exigentes, podem não representar o estímulo ideal para promover remodelamento excêntrico. Em intensidades muito elevadas, a taquicardia progressiva reduz significativamente o tempo de enchimento ventricular, diminuindo a duração do estiramento diastólico apesar do aumento do débito cardíaco. Já durante exercícios prolongados em intensidades moderadas, a combinação entre elevada pré-carga, longa diástole e enorme número de ciclos cardíacos mantém o endocárdio continuamente exposto ao padrão mecânico mais favorável à ativação sustentada da mecanotransdução. Dessa forma, a superioridade adaptativa do treinamento em Zona 2 deixa de depender exclusivamente de argumentos metabólicos e passa a encontrar respaldo também na física das forças que atuam sobre o coração.

Entretanto, a simples percepção mecânica não explica, por si só, o crescimento do ventrículo esquerdo. Para que a deformação do endocárdio resulte em remodelamento estrutural permanente, torna-se necessária a existência de mecanismos capazes de converter sinais mecânicos em comunicação biológica entre endocárdio e miocárdio. É precisamente nesse ponto que emergem os sistemas de sinalização parácrina mediados por Neuregulina-1, VEGF, óxido nítrico, BMP, Notch e outros fatores angiocrinos secretados pelo endocárdio. A compreensão dessa comunicação molecular constitui o próximo elo necessário para avaliar a plausibilidade da hipótese aqui proposta e será objeto da seção seguinte.

  1. Comunicação Parácrina entre Endocárdio e Miocárdio: o elo biológico entre a deformação mecânica e o remodelamento cardíaco fisiológico

Se a hipótese proposta estiver correta, o estiramento repetitivo do endocárdio durante o treinamento prolongado não constitui o evento biológico final responsável pelo remodelamento cardíaco, mas apenas o estímulo inicial de uma cascata de sinalização muito mais complexa. Em qualquer sistema biológico, forças mecânicas somente podem produzir adaptações estruturais permanentes quando são convertidas em respostas bioquímicas capazes de modificar a expressão gênica, a síntese proteica, a proliferação celular e a organização tecidual. Assim, entre a deformação mecânica produzida pelo enchimento ventricular e o crescimento fisiológico do ventrículo esquerdo necessariamente deve existir um sistema de comunicação celular capaz de integrar esses dois fenômenos. A literatura contemporânea demonstra que esse sistema existe e que o endocárdio desempenha papel central nesse processo.

Durante muitos anos acreditou-se que o crescimento do miocárdio fosse regulado quase exclusivamente por fatores neuro-hormonais sistêmicos, como catecolaminas, angiotensina II e hormônio do crescimento. Entretanto, estudos desenvolvidos inicialmente em embriologia cardíaca demonstraram que o desenvolvimento normal do coração depende intensamente da comunicação parácrina entre endocárdio e miocárdio. Muito antes de constituir um simples revestimento interno da cavidade ventricular, o endocárdio atua como um tecido secretor altamente especializado, capaz de produzir moléculas que regulam proliferação, diferenciação, metabolismo, angiogênese e organização espacial dos cardiomiócitos. Essa comunicação bidirecional é indispensável tanto para o desenvolvimento embrionário quanto para a manutenção da arquitetura cardíaca adulta.

Haack e Abdelilah-Seyfried demonstram que inúmeras etapas da morfogênese cardíaca dependem diretamente da sinalização endocárdica. A formação das trabéculas ventriculares, o desenvolvimento das valvas, a organização do sistema de condução e a própria expansão do miocárdio ocorrem sob influência de fatores produzidos pelas células endocárdicas em resposta às forças hemodinâmicas presentes no interior das cavidades cardíacas. Particularmente interessante para a hipótese aqui apresentada é o fato de que essa atividade secretora não ocorre de maneira constitutiva, mas é fortemente modulada pelas alterações de fluxo sanguíneo, deformação da parede ventricular e tensão mecânica exercida sobre o endocárdio. Em outras palavras, o próprio desenvolvimento cardíaco normal já constitui um exemplo clássico de mecanotransdução mediada pelo endocárdio.

Embora grande parte dessas observações tenha sido inicialmente realizada em modelos embrionários, diversos estudos posteriores demonstraram que mecanismos semelhantes permanecem ativos no coração adulto. Hoje reconhece-se que o endotélio cardíaco continua produzindo ampla variedade de moléculas biologicamente ativas capazes de modular diretamente a função e a adaptação dos cardiomiócitos. Entre essas moléculas destacam-se Neuregulina-1 (NRG-1), fator de crescimento endotelial vascular (VEGF), proteínas da família BMP, fatores da via Notch, óxido nítrico (NO), prostaciclinas e diversas citocinas angiocrinas envolvidas na manutenção da homeostase cardíaca. Essas substâncias não apenas preservam a função ventricular, mas regulam processos fundamentais como angiogênese, sobrevivência celular, metabolismo energético, proliferação vascular e remodelamento fisiológico do miocárdio.

Entre todos esses mediadores, provavelmente nenhum desperta maior interesse para a presente hipótese do que a Neuregulina-1. Produzida predominantemente por células endoteliais e endocárdicas, a NRG-1 atua através dos receptores tirosina-quinase ErbB2 e ErbB4 presentes na superfície dos cardiomiócitos. A ativação dessa via estimula proliferação celular durante o desenvolvimento, promove sobrevivência dos cardiomiócitos adultos, melhora o acoplamento excitação-contração, preserva a função mitocondrial e reduz processos apoptóticos. Estudos experimentais demonstram ainda que a sinalização NRG-1/ErbB encontra-se aumentada após programas de treinamento aeróbico, sendo atualmente considerada um dos principais mecanismos de cardioproteção induzidos pelo exercício. Embora a maior parte desses estudos tenha enfatizado os efeitos metabólicos da NRG-1, sua origem predominantemente endotelial e endocárdica sugere fortemente que sua secreção possa ser influenciada pelos estímulos mecânicos aos quais essas células são continuamente submetidas.

Outro componente fundamental dessa comunicação é o VEGF. Classicamente reconhecido como o principal regulador da angiogênese, o VEGF apresenta importância muito maior do que simplesmente promover crescimento vascular. Durante a hipertrofia fisiológica, o aumento da massa miocárdica somente pode ocorrer de forma adaptativa se acompanhado por expansão proporcional da rede capilar coronariana. Caso contrário, desenvolve-se desequilíbrio entre oferta e demanda de oxigênio, favorecendo hipóxia, fibrose e remodelamento patológico. A literatura demonstra que o exercício induz importante aumento da expressão de VEGF, favorecendo neoangiogênese paralela ao crescimento dos cardiomiócitos e preservando a difusão de oxigênio através do tecido cardíaco. Esse acoplamento entre hipertrofia e angiogênese constitui uma das principais diferenças entre o remodelamento fisiológico e o patológico.

A produção de óxido nítrico representa outro aspecto particularmente relevante. Muito além de seu conhecido efeito vasodilatador, o NO exerce papel central na mecanotransdução cardiovascular. Sua produção aumenta em resposta ao shear stress e ao estiramento mecânico das células endoteliais, modulando diretamente a função mitocondrial, a sinalização redox, a proliferação celular e o remodelamento vascular. No miocárdio, o NO participa da regulação do relaxamento ventricular, melhora a eficiência do acoplamento excitação-contração e limita respostas hipertróficas desorganizadas. Dessa forma, a secreção local de NO pelo endocárdio pode representar um importante elo entre deformação mecânica e preservação da qualidade funcional da hipertrofia induzida pelo treinamento.

A hipótese torna-se ainda mais consistente quando analisada à luz das vias moleculares clássicas da hipertrofia fisiológica. Tanto Nakamura e Sadoshima quanto Bass-Stringer e colaboradores destacam que a ativação do eixo IGF-1–PI3K–Akt constitui o principal programa molecular responsável pelo crescimento adaptativo do coração do atleta. Entretanto, esses autores concentram sua análise predominantemente nas vias intracelulares já ativadas, discutindo relativamente pouco quais mecanismos iniciam essa ativação durante o exercício.

Essa observação permite propor uma integração conceitual importante. Em vez de considerar IGF-1/PI3K/Akt como o estímulo primário do remodelamento cardíaco, torna-se mais coerente interpretá-los como vias efetoras finais, ativadas após uma sequência hierárquica de eventos iniciada pela deformação mecânica do endocárdio. Nesse modelo, o enchimento ventricular elevado produziria estiramento da superfície endocárdica, ativando canais Piezo1, integrinas e proteínas associadas ao citoesqueleto. Esses mecanossensores desencadeariam secreção local de fatores angiocrinos, entre eles NRG-1, VEGF e NO, que, por sua vez, modulam a ativação de vias intracelulares como PI3K/Akt nos cardiomiócitos adjacentes. Dessa forma, a mecanotransdução deixaria de representar um processo paralelo à sinalização molecular clássica, passando a constituir seu evento iniciador.

Essa interpretação apresenta uma vantagem conceitual importante. Ela explica por que o remodelamento cardíaco fisiológico apresenta notável organização espacial. Se os fatores de crescimento forem produzidos localmente pelo endocárdio em resposta às deformações mecânicas da parede ventricular, a adaptação ocorrerá precisamente nas regiões submetidas às maiores cargas fisiológicas, preservando proporcionalidade entre crescimento miocárdico, angiogênese, remodelamento vascular e expansão da cavidade ventricular. Essa organização dificilmente seria obtida apenas por ação de hormônios circulantes sistêmicos.

Outro aspecto frequentemente negligenciado diz respeito ao fato de que a deformação mecânica produzida durante o exercício não é uniforme ao longo do ciclo cardíaco. Durante a sístole predominam elevação pressórica, encurtamento dos cardiomiócitos e redução do volume cavitário. Já durante a diástole ocorre exatamente o fenômeno oposto: aumento do volume ventricular, distensão da parede e expansão da superfície endocárdica. Essa distinção reforça ainda mais a hipótese aqui apresentada. Caso o principal estímulo adaptativo decorra realmente da deformação diastólica, então o treinamento realizado em intensidades capazes de preservar longo tempo de enchimento ventricular deverá produzir maior ativação dessa comunicação parácrina do que exercícios realizados sob intensa taquicardia, nos quais a duração da diástole encontra-se significativamente reduzida.

Essa interpretação leva a uma consequência fisiológica particularmente interessante. A variável biologicamente relevante deixa de ser simplesmente o volume diastólico final e passa a ser o tempo acumulado durante o qual o endocárdio permanece submetido ao estiramento fisiológico. Em outras palavras, duas sessões de treinamento que produzam volumes diastólicos semelhantes poderão gerar respostas adaptativas distintas caso difiram substancialmente na duração da exposição ao enchimento ventricular. Esse conceito aproxima a fisiologia cardiovascular de princípios já consolidados em outras áreas da mecanobiologia, nas quais a magnitude da força aplicada raramente constitui a única variável determinante da resposta adaptativa; frequência, duração, repetição e padrão temporal do estímulo frequentemente apresentam importância igual ou superior.

Contudo, para que esse modelo possa explicar integralmente o remodelamento cardíaco do atleta, ainda resta compreender como as forças percebidas pelo endocárdio são transmitidas fisicamente ao interior das células e convertidas em reorganização estrutural do tecido cardíaco. Essa etapa depende de um conjunto de proteínas mecanossensíveis que conectam membrana plasmática, citoesqueleto, matriz extracelular e núcleo celular. Entre essas proteínas, destaca-se particularmente a vinculina, cuja participação na adaptação mecânica do coração poderá representar um dos elementos mais importantes — e menos explorados — da fisiologia do treinamento de endurance. É precisamente esse componente estrutural que será discutido na próxima seção, integrando mecanobiologia, transmissão de força e remodelamento fisiológico do coração do atleta.

 

  1. Vinculina, Integrinas e o Citoesqueleto como Sistema de Transmissão de Força: uma possível explicação molecular para a hipertrofia fisiológica do atleta

Embora a hipótese apresentada até o momento atribua ao endocárdio papel central na iniciação do remodelamento cardíaco induzido pelo treinamento de endurance, ela permanece incompleta enquanto não se compreende como as forças mecânicas aplicadas à superfície ventricular são transmitidas para o interior das células e convertidas em reorganização estrutural permanente do tecido cardíaco. A mecanotransdução não depende apenas da existência de sensores mecânicos na membrana celular, mas também de um sofisticado sistema de transmissão de forças capaz de conectar o ambiente extracelular ao núcleo. Nesse sistema, proteínas estruturais tradicionalmente estudadas apenas sob a perspectiva da arquitetura celular passam a assumir papel funcional decisivo. Entre elas, poucas despertam tanto interesse quanto a vinculina.

A vinculina é uma proteína adaptadora localizada principalmente nos costâmeros, nas adesões focais e nos discos intercalares, regiões responsáveis por conectar o citoesqueleto de actina à matriz extracelular e às células adjacentes. Durante muitos anos sua função foi considerada predominantemente estrutural, atuando como elemento de estabilização mecânica das junções celulares. Entretanto, estudos desenvolvidos nas últimas duas décadas demonstraram que a vinculina constitui, na realidade, uma proteína mecanossensível altamente dinâmica, cuja conformação molecular, interação com outras proteínas e atividade biológica dependem diretamente da magnitude das forças mecânicas às quais é submetida. A vinculina passou, portanto, a ser compreendida não apenas como um componente estrutural do citoesqueleto, mas como um verdadeiro transdutor de sinais mecânicos.

Essa mudança de paradigma possui profundas implicações para a fisiologia do exercício. O cardiomiócito encontra-se continuamente submetido a ciclos de alongamento e encurtamento durante toda a vida. Cada batimento cardíaco produz deformações sucessivas da membrana plasmática, da matriz extracelular, das miofibrilas e dos discos intercalares. A estabilidade desse sistema depende da capacidade das proteínas mecanossensíveis de suportar milhões de ciclos de deformação sem perda da integridade estrutural. A vinculina ocupa posição estratégica exatamente nesse ponto de convergência, estabilizando as conexões entre integrinas, talina, filamentos de actina e proteínas da matriz extracelular, ao mesmo tempo em que transmite ao interior celular informações sobre a intensidade e a direção das forças aplicadas.

Essa função torna-se particularmente relevante durante o exercício de endurance. Diferentemente de tecidos submetidos a cargas intermitentes relativamente baixas, o coração do atleta realiza centenas de milhões de ciclos mecânicos adicionais ao longo dos anos de treinamento. Sob tais condições, a simples resistência estrutural torna-se insuficiente para explicar a preservação funcional do tecido cardíaco. É necessário admitir que essas proteínas não apenas resistam às forças aplicadas, mas adaptem continuamente sua organização em resposta às alterações da carga mecânica. Nesse contexto, a vinculina emerge como uma das principais candidatas a participar do remodelamento fisiológico do coração do atleta.

A literatura contemporânea em mecanobiologia reforça essa interpretação. Wang e colaboradores demonstram que a transmissão das forças mecânicas através do sistema cardiovascular depende de um complexo integrado formado por integrinas, Piezo, citoesqueleto de actina, adesões focais, FAK (Focal Adhesion Kinase) e reguladores nucleares como YAP/TAZ. A deformação inicialmente percebida na membrana celular desencadeia reorganização progressiva do citoesqueleto, modificando a tensão intracelular e promovendo alterações sustentadas da expressão gênica. Dentro desse sistema, proteínas adaptadoras como a vinculina desempenham papel fundamental ao controlar a eficiência da transmissão das forças mecânicas entre membrana, citoesqueleto e núcleo.

Essa organização hierárquica apresenta extraordinária coerência biológica. Canais Piezo detectam deformações locais da membrana; integrinas conectam a membrana à matriz extracelular; talina e vinculina estabilizam essas conexões sob tensão crescente; FAK converte alterações mecânicas em fosforilação de proteínas sinalizadoras; YAP e TAZ regulam finalmente programas de transcrição gênica associados ao crescimento celular. Assim, o remodelamento cardíaco deixa de ser interpretado como simples consequência de estímulos humorais, passando a representar a expressão final de um processo contínuo de transmissão física de forças através do tecido cardíaco.

Entre todos esses componentes, a vinculina possui uma característica particularmente interessante: sua ativação depende diretamente da tensão mecânica. Em repouso, a molécula permanece em conformação autoinibida. À medida que aumenta a força transmitida pelas integrinas e pela actina, ocorre abertura conformacional da proteína, expondo sítios adicionais de ligação para múltiplos parceiros moleculares. Consequentemente, quanto maior a tensão exercida sobre o sistema de adesão celular, maior tende a ser sua capacidade de recrutamento de novas proteínas estruturais e de sinalização. Trata-se, portanto, de um mecanismo elegantemente adaptado para detectar não apenas a presença da força, mas sua intensidade e duração.

Essa propriedade possui implicações diretas para a hipótese apresentada neste trabalho. Durante sessões prolongadas de treinamento em Zona 2, o coração permanece submetido a milhares de ciclos consecutivos de elevado enchimento ventricular. Cada ciclo produz deformação relativamente moderada, porém repetitiva, da superfície endocárdica e do citoesqueleto dos cardiomiócitos. Em vez de gerar sobrecargas abruptas, como ocorre em situações de hipertensão aguda ou exercícios predominantemente pressóricos, o treinamento aeróbico prolongado produz um padrão de tensão mecânica sustentada e fisiológica. Sob tais condições, proteínas como a vinculina permanecem continuamente recrutadas para estabilizar e reorganizar as conexões entre matriz extracelular, membrana celular e aparato contrátil, favorecendo adaptações progressivas sem desencadear dano estrutural significativo.

Esse comportamento difere profundamente daquele observado na hipertrofia patológica. Nessa condição, o aumento abrupto da pós-carga produz elevação desproporcional da tensão parietal, frequentemente acompanhada por desorganização dos discos intercalares, ruptura de adesões focais, ativação inflamatória, fibrose e remodelamento extracelular. Em contraste, a hipertrofia fisiológica induzida pelo exercício caracteriza-se por manutenção da arquitetura dos discos intercalares, preservação da matriz extracelular e reorganização altamente coordenada do citoesqueleto. Essa diferença sugere que a natureza da força mecânica — e não apenas sua magnitude — determina profundamente a qualidade da resposta adaptativa.

Nesse contexto, merece atenção especial a relação entre a vinculina e a cardiomiopatia hipertrófica. Mutações no gene VCL, responsável pela síntese da vinculina, vêm sendo associadas a diferentes formas de cardiomiopatia dilatada e cardiomiopatia hipertrófica, evidenciando que alterações na transmissão mecânica intracelular podem, por si só, modificar profundamente o remodelamento cardíaco. Ainda que essas doenças possuam natureza genética, elas demonstram um princípio biológico fundamental: a integridade do sistema de transmissão de forças constitui requisito indispensável para o crescimento fisiológico do miocárdio. Em outras palavras, não basta que existam estímulos mecânicos apropriados; é necessário que as células possuam capacidade de percebê-los, distribuí-los e convertê-los em respostas adaptativas organizadas.

Essa observação apresenta implicação particularmente interessante para atletas portadores de variantes genéticas relacionadas à vinculina. É possível que diferenças individuais na eficiência da transmissão mecânica intracelular influenciem a magnitude do remodelamento cardíaco induzido pelo treinamento, contribuindo para explicar parte da enorme variabilidade observada entre atletas submetidos a cargas de treinamento semelhantes. Embora essa possibilidade permaneça especulativa, ela representa uma linha promissora para futuras investigações envolvendo genética esportiva e mecanobiologia cardiovascular.

Outro aspecto pouco explorado refere-se à interação funcional entre vinculina e Piezo1. Embora tradicionalmente estudadas separadamente, essas proteínas participam de diferentes etapas do mesmo processo mecanobiológico. Piezo1 atua como sensor inicial da deformação da membrana, produzindo influxo de cálcio e ativação imediata de vias intracelulares. A vinculina, por sua vez, organiza fisicamente a transmissão das forças através do citoesqueleto, estabilizando as conexões estruturais necessárias para que essas forças alcancem o núcleo celular. Assim, mais do que mecanismos independentes, Piezo1 e vinculina parecem representar componentes complementares de um único sistema integrado de mecanotransdução cardiovascular.

A integração entre essas observações permite propor um refinamento importante da hipótese apresentada anteriormente. O remodelamento cardíaco induzido pelo treinamento prolongado provavelmente não depende apenas da ativação de mecanossensores isolados, mas da coordenação funcional de uma rede mecanobiológica composta por Piezo1, integrinas, vinculina, talina, FAK, YAP/TAZ e vias parácrinas endocárdicas. Cada componente dessa rede participa de uma etapa específica da conversão das forças mecânicas em crescimento fisiológico. A deformação do endocárdio inicia o processo; Piezo1 detecta a tensão da membrana; integrinas e vinculina transmitem essa força ao citoesqueleto; FAK e YAP/TAZ convertem deformação em sinalização gênica; finalmente, fatores parácrinos e vias como IGF-1–PI3K–Akt executam o programa de crescimento dos cardiomiócitos.

Essa visão integrada permite compreender por que o treinamento de endurance produz adaptações tão distintas das observadas em outras formas de sobrecarga cardíaca. O coração do atleta deixa de ser interpretado como simples consequência da repetição de elevadas cargas hemodinâmicas, passando a representar o resultado de uma extraordinária capacidade biológica de perceber, distribuir, interpretar e responder a estímulos mecânicos fisiológicos. Sob essa perspectiva, o verdadeiro substrato do remodelamento cardíaco deixa de ser apenas a hipertrofia dos cardiomiócitos e passa a ser a adaptação coordenada de todo o sistema mecanobiológico cardíaco.

Essa interpretação conduz naturalmente ao capítulo seguinte, no qual todos os elementos discutidos até aqui serão integrados em um único modelo conceitual, propondo que o treinamento prolongado em Zona 2 maximize aquilo que pode representar a variável fisiológica central do remodelamento cardíaco: a dose acumulada de mecanotransdução diastólica. Trata-se do elo final capaz de unificar hemodinâmica, mecanobiologia, sinalização parácrina e ciência do treinamento em uma única hipótese fisiológica integrativa.

  1. Uma Hipótese Integrativa para o Remodelamento Cardíaco Induzido pelo Treinamento de Endurance: a Dose Acumulada de Mecanotransdução Diastólica como Variável Adaptativa Primária

As evidências discutidas nas seções anteriores permitem propor um modelo conceitual que integra conhecimentos oriundos da fisiologia cardiovascular, da mecanobiologia, da biologia do endocárdio e da ciência do treinamento. Individualmente, nenhuma dessas áreas explica de forma satisfatória por que atletas de endurance desenvolvem remodelamento excêntrico fisiológico de maneira tão consistente, nem por que programas de treinamento caracterizados por elevado volume em baixa intensidade permanecem predominantes mesmo após décadas de evolução da metodologia de treinamento. Entretanto, quando analisadas em conjunto, essas evidências sugerem que todas descrevem diferentes etapas de um mesmo fenômeno biológico.

Historicamente, a adaptação cardíaca ao treinamento aeróbico foi interpretada como consequência da sobrecarga volumétrica crônica. Esse conceito permanece válido sob o ponto de vista hemodinâmico, porém apresenta natureza essencialmente descritiva. A sobrecarga volumétrica representa a condição física à qual o coração é submetido, mas não identifica qual variável é efetivamente reconhecida pelas células nem como essa informação é convertida em remodelamento estrutural permanente. Em termos biológicos, volume ventricular não constitui um sinal molecular. O que as células são capazes de perceber são deformações da membrana plasmática, alterações na tensão do citoesqueleto, mudanças nas forças transmitidas pelas integrinas, modificações do shear stress e variações na rigidez da matriz extracelular. Em outras palavras, a biologia responde a forças mecânicas, e não diretamente ao volume intracavitário.

Essa distinção aparentemente sutil modifica profundamente a interpretação do remodelamento cardíaco. O aumento do volume diastólico final passa a ser compreendido como a condição hemodinâmica responsável por produzir deformação suficiente do endocárdio e das estruturas mecanossensíveis adjacentes. O verdadeiro estímulo adaptativo deixa de ser a sobrecarga volumétrica em si e passa a ser a mecanotransdução desencadeada por essa sobrecarga.

Essa mudança de perspectiva permite compreender um aspecto da fisiologia do exercício que permanece pouco explicado pelos modelos tradicionais. Se o principal determinante da adaptação cardíaca fosse simplesmente a intensidade da sobrecarga hemodinâmica, exercícios realizados próximos ao VO₂máx deveriam produzir o maior remodelamento cardíaco. Entretanto, a prática esportiva demonstra exatamente o contrário. Desde corredores de fundo até ciclistas profissionais, remadores, triatletas e atletas de ultradistância, observa-se notável convergência metodológica em torno de programas caracterizados por enorme volume de treinamento realizado predominantemente em intensidades inferiores ao segundo limiar fisiológico. Essa estratégia permanece presente em diferentes escolas de treinamento, diferentes modalidades esportivas e diferentes gerações de atletas, sugerindo que responde a um princípio biológico robusto, ainda que parcialmente compreendido.

A hipótese aqui proposta oferece uma possível explicação para esse fenômeno. Durante exercícios realizados próximos ao primeiro limiar fisiológico, o ventrículo esquerdo opera em uma condição particularmente favorável do ponto de vista mecanobiológico. A frequência cardíaca permanece suficientemente baixa para preservar longo tempo de enchimento ventricular; o retorno venoso mantém elevado volume diastólico final; o estresse simpático permanece relativamente controlado; e o coração realiza dezenas de milhares de ciclos consecutivos sob elevado grau de deformação fisiológica da parede ventricular. O resultado é uma exposição prolongada e repetitiva do endocárdio a um padrão mecânico potencialmente ideal para ativação dos mecanismos de mecanotransdução.

Essa interpretação permite introduzir um novo conceito fisiológico: a Dose Acumulada de Mecanotransdução Diastólica (Diastolic Mechanotransduction Dose – DMD). Diferentemente da carga mecânica instantânea, a DMD representa a quantidade total de estímulo mecanobiológico recebida pelo tecido cardíaco durante uma sessão de treinamento. Essa dose não depende apenas da magnitude da deformação da parede ventricular, mas também da duração dessa deformação, da frequência com que ela ocorre e do número total de ciclos cardíacos aos quais o coração é submetido.

Conceitualmente, esse estímulo poderia ser representado pela integral da deformação mecânica ao longo do tempo:

onde representa o strain diastólico fisiológico experimentado pelo endocárdio ao longo do exercício.

Essa formulação possui significado biológico importante. Dois treinamentos capazes de produzir o mesmo volume diastólico final instantâneo poderão gerar doses completamente diferentes de mecanotransdução caso diferenciem quanto ao tempo de exposição ao enchimento ventricular. Da mesma forma, sessões extremamente intensas, embora produzam maior demanda metabólica, poderão apresentar menor DMD em consequência da redução progressiva do tempo diastólico provocada pela taquicardia.

Essa hipótese também permite reinterpretar o comportamento do volume sistólico durante o exercício. Tradicionalmente, o platô do volume sistólico é considerado apenas uma limitação fisiológica decorrente da redução do enchimento ventricular em frequências cardíacas elevadas. Entretanto, sob a ótica aqui proposta, esse platô pode representar exatamente o ponto em que o coração deixa de operar sob máxima eficiência mecanobiológica. Enquanto a intensidade aumenta inicialmente, o enchimento ventricular também aumenta, ampliando progressivamente a deformação diastólica do endocárdio. A partir do momento em que a redução da diástole passa a limitar o enchimento, a deformação mecânica deixa de aumentar e pode até diminuir, apesar da crescente demanda metabólica. Em consequência, a intensidade correspondente ao máximo volume sistólico sustentado poderia coincidir aproximadamente com a intensidade capaz de produzir maior taxa de mecanotransdução fisiológica.

Essa possibilidade apresenta extraordinária coerência com a literatura do treinamento esportivo. A maior parte do volume anual realizado por atletas de endurance situa-se exatamente em intensidades próximas ao primeiro limiar fisiológico, região caracterizada por elevada eficiência energética, baixo estresse autonômico, manutenção do equilíbrio ácido-base e capacidade de sustentar longos períodos de exercício contínuo. A hipótese aqui proposta acrescenta uma nova dimensão a essa interpretação: além de favorecer adaptações metabólicas, essas intensidades poderiam maximizar também a exposição cumulativa do sistema mecanobiológico cardíaco ao padrão de deformação responsável pelo remodelamento excêntrico fisiológico.

Outro aspecto particularmente interessante refere-se à natureza cíclica desse estímulo. Diferentemente de praticamente todos os outros órgãos do organismo, o coração permanece continuamente ativo durante toda a vida. Em consequência, qualquer pequena alteração na intensidade ou na duração da deformação mecânica produzida a cada batimento torna-se extraordinariamente significativa quando integrada ao longo de milhares ou milhões de ciclos. Uma sessão de quatro horas realizada a 120 batimentos por minuto representa aproximadamente vinte e nove mil eventos consecutivos de deformação do endocárdio. Sob tais condições, mesmo pequenas diferenças na magnitude do strain diastólico poderão resultar em enormes diferenças na dose total de mecanotransdução recebida pelas células cardíacas.

Essa interpretação também oferece uma possível explicação para a especificidade do remodelamento observado em atletas de ultradistância. Competições como Ironman, Ultraman ou Race Across America impõem ao sistema cardiovascular períodos excepcionalmente prolongados de enchimento ventricular sustentado, produzindo doses acumuladas de mecanotransdução provavelmente muito superiores às observadas em modalidades caracterizadas por esforços predominantemente intervalados ou explosivos. Embora esses eventos imponham também elevado estresse metabólico, sua principal característica do ponto de vista cardiovascular talvez seja justamente a manutenção prolongada da deformação fisiológica do ventrículo esquerdo.

Importante ressaltar que a hipótese proposta não implica que exercícios de alta intensidade sejam destituídos de importância para o remodelamento cardíaco. Pelo contrário, sessões intervaladas provavelmente ativam adaptações complementares relacionadas ao aumento do VO₂máx, da contratilidade miocárdica, da função autonômica e da capacidade cronotrópica. O que se propõe é que o componente específico responsável pela expansão fisiológica da cavidade ventricular possa depender predominantemente da dose acumulada de mecanotransdução diastólica, enquanto outras adaptações cardiovasculares sejam determinadas por mecanismos distintos.

Sob essa perspectiva, o treinamento de endurance passa a ser interpretado como a combinação de diferentes estímulos biológicos especializados. O treinamento intervalado desenvolveria predominantemente potência aeróbica, contratilidade e capacidade de transporte de oxigênio; o treinamento prolongado em Zona 2, por sua vez, forneceria o ambiente mecanobiológico necessário para expansão fisiológica da cavidade ventricular, aumento do volume sistólico e otimização da eficiência cardíaca. Essa complementaridade pode explicar por que praticamente todos os modelos contemporâneos de periodização combinam elevado volume em baixa intensidade com pequena proporção de exercícios intensos.

É importante reconhecer, entretanto, que a hipótese aqui apresentada permanece especulativa em um aspecto fundamental. Atualmente inexistem estudos que demonstrem diretamente que o aumento da deformação diastólica do endocárdio durante o exercício induza maior secreção de Neuregulina-1, VEGF, óxido nítrico ou outros fatores angiocrinos em magnitude suficiente para explicar o remodelamento cardíaco observado em atletas. Da mesma forma, ainda não foram realizados estudos correlacionando strain endocárdico, ativação de Piezo1, reorganização da vinculina, sinalização FAK/YAP e crescimento ventricular em diferentes intensidades de treinamento. Consequentemente, o modelo proposto deve ser interpretado como uma hipótese mecanística integradora construída a partir de evidências indiretas, porém biologicamente consistentes.

Essa característica, entretanto, constitui simultaneamente sua principal limitação e sua maior contribuição potencial. Em vez de encerrar uma discussão, a hipótese abre uma nova agenda de pesquisa. Ao deslocar o foco da simples sobrecarga volumétrica para a mecanotransdução diastólica, propõe-se uma nova variável fisiológica passível de investigação experimental. Se confirmada, essa abordagem poderá modificar profundamente a compreensão dos mecanismos pelos quais o treinamento de endurance remodela o coração humano, estabelecendo uma ponte definitiva entre fisiologia do exercício e mecanobiologia cardiovascular.

  1. Implicações da Hipótese para a Ciência do Treinamento: uma possível explicação biológica para a predominância do treinamento prolongado em Zona 2

A hipótese da carga integrada de mecanotransdução diastólica apresenta implicações que extrapolam a biologia celular, alcançando diretamente alguns dos princípios mais consolidados da ciência do treinamento esportivo. Curiosamente, diversas estratégias metodológicas utilizadas há décadas pelos maiores treinadores de endurance foram estabelecidas muito antes da compreensão dos mecanismos moleculares atualmente conhecidos. A predominância do treinamento em baixa intensidade, a necessidade de elevado volume semanal, a distribuição polarizada das intensidades e a utilização relativamente parcimoniosa de exercícios de alta intensidade sempre apresentaram forte respaldo empírico, embora frequentemente carecessem de fundamentação biológica suficientemente integrada. Sob essa perspectiva, a hipótese aqui proposta oferece uma possível ponte entre observação prática e fisiologia molecular.

Um dos fenômenos mais intrigantes da literatura do treinamento reside na extraordinária convergência metodológica observada entre modalidades aparentemente distintas. Corredores de longa distância, ciclistas profissionais, esquiadores de fundo, remadores, nadadores de águas abertas e triatletas de alto rendimento apresentam programas de treinamento caracterizados por elevada proporção de exercícios realizados em intensidades leves a moderadas. Independentemente da modalidade, do país ou da escola metodológica, aproximadamente 70 a 90% do tempo total de treinamento é realizado abaixo do segundo limiar fisiológico, frequentemente próximo ao primeiro limiar ventilatório ou lactato. Essa regularidade dificilmente pode ser atribuída ao acaso, sugerindo a existência de um princípio biológico comum subjacente ao desenvolvimento da capacidade de endurance.

As explicações tradicionalmente oferecidas para esse fenômeno concentram-se predominantemente nas adaptações metabólicas do músculo esquelético. Argumenta-se que o treinamento em baixa intensidade favorece biogênese mitocondrial, aumento da densidade capilar, expansão da capacidade oxidativa, maior utilização de lipídios, preservação do glicogênio muscular e redução do estresse autonômico, permitindo elevado volume semanal sem comprometimento excessivo da recuperação. Essas adaptações são amplamente documentadas e constituem fundamentos sólidos da fisiologia do exercício. Entretanto, elas não explicam integralmente por que o próprio coração apresenta remodelamento estrutural tão marcante justamente em modalidades caracterizadas por grande volume de treinamento prolongado.

Sob a perspectiva apresentada neste trabalho, parte dessa resposta pode residir no fato de que o coração e o músculo esquelético compartilham uma característica fundamental: ambos respondem intensamente a estímulos mecânicos repetitivos. Entretanto, diferentemente do músculo esquelético, cuja ativação depende da contração voluntária, o coração permanece ativo continuamente. Consequentemente, pequenas diferenças na duração da diástole ou no volume de enchimento ventricular acumulam-se ao longo de dezenas de milhares de ciclos durante uma única sessão de treinamento. Essa característica confere ao treinamento prolongado um potencial adaptativo singular, impossível de ser reproduzido por exercícios curtos, mesmo quando realizados em elevada intensidade.

Essa interpretação modifica parcialmente a maneira pela qual o volume de treinamento é tradicionalmente compreendido. Na ciência do treinamento, volume costuma ser definido em termos de tempo, distância, trabalho mecânico ou gasto energético. Entretanto, do ponto de vista mecanobiológico, talvez seja mais apropriado considerar que o coração acumula não simplesmente horas de treinamento, mas eventos sucessivos de deformação fisiológica. Uma sessão de quatro horas de ciclismo em intensidade moderada não representa apenas quatro horas de exercício, mas aproximadamente trinta mil ciclos consecutivos de enchimento ventricular próximo ao máximo fisiológico. Cada um desses ciclos constitui um evento potencial de mecanotransdução.

Essa perspectiva permite reinterpretar inclusive o conceito de especificidade do treinamento. Tradicionalmente considera-se que adaptações específicas decorrem da semelhança entre o estímulo aplicado e a demanda competitiva. Entretanto, sob o ponto de vista cardiovascular, talvez a variável verdadeiramente específica não seja a modalidade esportiva, mas o padrão hemodinâmico ao qual o ventrículo esquerdo é submetido. Modalidades como ciclismo, corrida, esqui de fundo, remo e natação compartilham exatamente essa característica: produzem períodos prolongados de elevado retorno venoso, manutenção da diástole relativamente preservada e enorme número de ciclos cardíacos realizados sob intensa deformação fisiológica da parede ventricular.

Essa hipótese também oferece uma interpretação alternativa para o treinamento polarizado. Habitualmente, a distribuição aproximadamente 80/20 é explicada como estratégia destinada a maximizar adaptações periféricas enquanto minimiza fadiga acumulada. Embora esse argumento permaneça válido, ele talvez represente apenas parte da explicação. Sob a ótica da mecanobiologia cardiovascular, o treinamento polarizado poderia constituir uma estratégia extremamente elegante de combinar dois estímulos biológicos distintos e complementares. O grande volume realizado em Zona 2 forneceria elevada carga integrada de mecanotransdução diastólica, favorecendo remodelamento ventricular, aumento do volume sistólico e expansão da reserva funcional cardíaca. Os exercícios de alta intensidade, por sua vez, promoveriam adaptações predominantemente relacionadas ao aumento do VO₂máx, da contratilidade, da capacidade cronotrópica, da potência aeróbica e da eficiência neuromuscular. Dessa forma, a distribuição polarizada deixaria de ser compreendida apenas como estratégia de manejo da fadiga, passando a representar a combinação deliberada de dois programas adaptativos biologicamente distintos.

Essa interpretação torna-se ainda mais interessante quando analisada sob a perspectiva evolutiva. Durante a maior parte da história evolutiva do gênero Homo, atividades físicas predominantes consistiam em deslocamentos prolongados realizados em intensidade moderada, associados ocasionalmente a esforços intensos de curta duração. A hipótese do “persistence hunting” propõe que a capacidade de sustentar exercício aeróbico prolongado constituiu importante vantagem adaptativa para nossos ancestrais. Caso essa hipótese esteja correta, é plausível admitir que os sistemas mecanobiológicos responsáveis pelo remodelamento cardíaco tenham evoluído precisamente para responder a esse padrão de atividade física, caracterizado por elevado número de ciclos cardíacos sob enchimento ventricular sustentado. Assim, a predominância contemporânea do treinamento em Zona 2 talvez represente não apenas uma estratégia metodológica eficiente, mas a exploração de um programa adaptativo profundamente conservado ao longo da evolução humana.

Outra consequência importante diz respeito às modalidades de ultraendurance. Competições como Ironman, Ultraman, Race Across America e ultramaratonas impõem ao sistema cardiovascular uma condição praticamente única: manutenção de elevado retorno venoso durante períodos excepcionalmente prolongados. Sob a hipótese aqui proposta, esses eventos constituiriam o ambiente fisiológico capaz de produzir as maiores cargas integradas de mecanotransdução diastólica conhecidas. Evidentemente, competições dessa natureza também acarretam estresse oxidativo, inflamação, alterações transitórias de biomarcadores cardíacos e fadiga sistêmica importante. Entretanto, tais respostas agudas não necessariamente invalidam sua contribuição para o remodelamento fisiológico de longo prazo, assim como microlesões musculares não impedem a hipertrofia esquelética induzida pelo treinamento resistido. O aspecto decisivo passa a ser o equilíbrio entre estímulo adaptativo e capacidade de recuperação.

É importante destacar que essa interpretação não implica que “mais volume” seja sempre melhor. Como qualquer processo biológico, a mecanotransdução apresenta limites fisiológicos. Exposição excessiva a deformações mecânicas, particularmente na presença de recuperação insuficiente, predisposição genética ou remodelamento prévio, poderá ultrapassar a capacidade adaptativa do tecido cardíaco e favorecer respostas inflamatórias, fibrose focal ou remodelamento adverso. Assim, a própria hipótese da carga integrada de mecanotransdução sugere a existência de uma relação dose-resposta não linear, na qual tanto a insuficiência quanto o excesso de estímulo podem ser biologicamente desfavoráveis.

Essa consideração possui relevância especial diante da crescente discussão sobre possíveis efeitos adversos do exercício extremo. Estudos recentes descrevem maior prevalência de fibrose miocárdica focal, arritmias atriais e alterações estruturais discretas em alguns atletas submetidos durante décadas a volumes excepcionais de treinamento. Embora a relação causal entre esses achados e o exercício permaneça controversa, a hipótese aqui apresentada oferece um possível modelo para investigá-la. Em vez de considerar apenas quilometragem acumulada ou carga externa de treinamento, futuras pesquisas poderiam quantificar a carga integrada de mecanotransdução diastólica ao longo da carreira esportiva, avaliando sua associação com remodelamento fisiológico e eventual transição para remodelamento maladaptativo.

Finalmente, essa hipótese também possui implicações metodológicas relevantes para a avaliação do treinamento. Atualmente, métricas como TRIMP, TSS, Banister TRIMP, potência normalizada e carga interna procuram estimar o impacto fisiológico das sessões de exercício. Entretanto, todas elas foram desenvolvidas fundamentalmente a partir de variáveis metabólicas, cardiovasculares ou mecânicas sistêmicas. Nenhuma considera diretamente a deformação mecânica do ventrículo esquerdo como componente específico da carga de treinamento. Caso a hipótese aqui apresentada seja confirmada, torna-se concebível o desenvolvimento de novos índices capazes de estimar a carga integrada de mecanotransdução cardíaca utilizando parâmetros como frequência cardíaca, duração da sessão, volume sistólico estimado, strain ventricular obtido por ecocardiografia e características individuais do enchimento diastólico. Isso representaria uma mudança paradigmática na forma de quantificar o estímulo cardiovascular imposto pelo treinamento de endurance.

Assim, a hipótese da carga integrada de mecanotransdução diastólica não pretende substituir os modelos clássicos da fisiologia do exercício, mas ampliá-los. Ela propõe que, paralelamente às adaptações metabólicas, neurais e periféricas amplamente reconhecidas, exista um componente mecanobiológico específico responsável pelo remodelamento estrutural do coração do atleta. Se essa interpretação for confirmada experimentalmente, o treinamento prolongado em Zona 2 deixará de ser compreendido apenas como uma estratégia para desenvolver metabolismo aeróbico, passando a ser reconhecido como o principal estímulo biológico para a remodelação mecanoestrutural do ventrículo esquerdo.

  1. Limitações da Hipótese, Perspectivas Experimentais e Conclusão

A hipótese apresentada ao longo desta revisão propõe que o remodelamento excêntrico fisiológico do coração do atleta resulte predominantemente da ativação repetitiva dos mecanismos de mecanotransdução desencadeados pela deformação diastólica do endocárdio durante exercícios prolongados realizados em intensidades próximas ao primeiro limiar fisiológico. Trata-se de uma hipótese integrativa construída a partir de conhecimentos consolidados em diferentes áreas da biologia cardiovascular, porém cuja cadeia causal completa ainda não foi demonstrada experimentalmente. Essa distinção é fundamental. Diversos componentes do modelo encontram-se amplamente estabelecidos na literatura; entretanto, sua integração em um único mecanismo fisiológico permanece inédita e necessita de validação.

Entre os aspectos mais bem fundamentados encontram-se o remodelamento excêntrico induzido pelo treinamento de endurance, a existência de mecanossensores cardiovasculares, a função parácrina do endocárdio e o papel central das vias IGF-1–PI3K–Akt na hipertrofia fisiológica. Também se encontra amplamente demonstrado que células endocárdicas respondem ao shear stress e ao estiramento mecânico por meio da ativação de canais Piezo1, integrinas e proteínas associadas ao citoesqueleto, modulando processos como angiogênese, sobrevivência celular e remodelamento miocárdico. Da mesma forma, estudos em mecanobiologia estabeleceram que proteínas estruturais como vinculina, talina, FAK e YAP/TAZ constituem componentes essenciais da conversão de forças mecânicas em programas de expressão gênica. O ponto ainda não demonstrado consiste na ligação direta entre essas observações e o padrão hemodinâmico específico produzido pelo treinamento prolongado em Zona 2.

Até o momento, não existem estudos que tenham comparado diferentes intensidades de exercício quanto à magnitude do strain diastólico endocárdico, à ativação de Piezo1 ou à secreção local de fatores parácrinos como Neuregulina-1 e VEGF. Tampouco foram publicados experimentos que correlacionem a carga acumulada de deformação diastólica com a magnitude do remodelamento ventricular observado após programas de treinamento. Consequentemente, a hipótese aqui apresentada deve ser interpretada como um modelo fisiológico plausível, porém ainda dependente de confirmação experimental.

Entretanto, uma das maiores virtudes de uma hipótese científica reside justamente em sua capacidade de gerar previsões testáveis. Nesse aspecto, o modelo proposto apresenta elevado poder preditivo.

Se a hipótese estiver correta, indivíduos submetidos a programas de treinamento caracterizados por elevado tempo acumulado em intensidades próximas ao primeiro limiar fisiológico deverão apresentar maior remodelamento excêntrico ventricular do que indivíduos expostos predominantemente a exercícios intervalados de alta intensidade, mesmo quando o gasto energético total for semelhante. Da mesma forma, espera-se que a magnitude do remodelamento cardíaco apresente melhor correlação com parâmetros de deformação diastólica ventricular do que com variáveis tradicionais como frequência cardíaca média, quilometragem semanal ou consumo energético acumulado.

Outra previsão particularmente interessante diz respeito ao comportamento dos biomarcadores moleculares. Caso a mecanotransdução endocárdica represente realmente o evento iniciador do remodelamento fisiológico, torna-se razoável esperar aumento transitório da expressão ou da atividade de mediadores como Neuregulina-1, VEGF, óxido nítrico e componentes das vias FAK/YAP após sessões prolongadas de treinamento realizadas em intensidades moderadas. Estudos utilizando biópsias experimentais, modelos animais, cultura de células endocárdicas submetidas a estiramento cíclico ou análises transcriptômicas poderão avaliar diretamente essa possibilidade.

O desenvolvimento recente das técnicas de imagem cardiovascular oferece oportunidades particularmente promissoras para testar essa hipótese em seres humanos. A ecocardiografia por speckle tracking permite quantificar deformações miocárdicas com elevada resolução temporal, enquanto a ressonância magnética cardíaca com feature tracking possibilita caracterização detalhada do strain ventricular e da dinâmica de deformação das paredes cardíacas. Embora essas técnicas tenham sido desenvolvidas principalmente para avaliação da função miocárdica, sua aplicação ao estudo do treinamento esportivo poderá fornecer informações inéditas sobre o padrão de deformação diastólica produzido por diferentes intensidades de exercício.

Paralelamente, avanços recentes em biologia molecular permitem quantificar expressão gênica, fosforilação de proteínas mecanossensíveis, reorganização do citoesqueleto e alterações transcriptômicas induzidas por estímulos mecânicos. A combinação dessas ferramentas com modelos experimentais de treinamento poderá finalmente responder se a deformação diastólica constitui realmente o estímulo primário responsável pela ativação dos programas moleculares que culminam na hipertrofia fisiológica do atleta.

Outra consequência importante da hipótese apresentada refere-se ao próprio conceito de carga de treinamento. Atualmente, praticamente todos os modelos de quantificação da carga baseiam-se em parâmetros externos, como potência, velocidade e distância percorrida, ou em parâmetros internos, como frequência cardíaca, lactato, percepção subjetiva de esforço e consumo de oxigênio. Embora essas variáveis descrevam adequadamente o custo metabólico do exercício, nenhuma quantifica diretamente o estímulo mecânico recebido pelo tecido cardíaco.

Caso a hipótese da carga integrada de mecanotransdução diastólica seja confirmada, será necessário reconhecer que o coração possui uma carga biológica específica, distinta daquela experimentada pelo músculo esquelético. Nesse contexto, torna-se concebível o desenvolvimento futuro de modelos matemáticos capazes de estimar a carga mecanobiológica cardíaca a partir da integração entre frequência cardíaca, tempo de enchimento ventricular, strain diastólico e duração do exercício. Essa abordagem poderá representar um novo paradigma para o monitoramento do treinamento de endurance, permitindo distinguir com maior precisão estímulos predominantemente metabólicos daqueles destinados ao remodelamento estrutural cardíaco.

Sob uma perspectiva mais ampla, a hipótese também reforça a necessidade de aproximar duas áreas que historicamente evoluíram de maneira relativamente independente: a fisiologia do exercício e a mecanobiologia cardiovascular. Enquanto a primeira concentrou seus esforços na compreensão das adaptações sistêmicas ao treinamento, a segunda dedicou-se predominantemente ao estudo da resposta celular às forças mecânicas. A integração desses conhecimentos pode representar um passo importante para explicar fenômenos adaptativos que permanecem parcialmente compreendidos apesar de décadas de investigação.

Por fim, a hipótese apresentada possui implicações que transcendem o treinamento esportivo. Caso a mecanotransdução diastólica realmente constitua um mecanismo central do remodelamento cardíaco fisiológico, estratégias destinadas a reproduzir esse estímulo poderão adquirir relevância terapêutica em programas de reabilitação cardiovascular, insuficiência cardíaca, cardiotoxicidade induzida por quimioterapia e prevenção do remodelamento ventricular adverso. Assim, compreender como o coração do atleta cresce de forma fisiológica poderá contribuir não apenas para otimizar o desempenho esportivo, mas também para o desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas destinadas a preservar ou restaurar a função cardíaca.

Conclusão

O remodelamento cardíaco observado em atletas de endurance constitui uma das mais notáveis adaptações fisiológicas do organismo humano. Embora tradicionalmente explicado pelo conceito de sobrecarga volumétrica, esse modelo permanece insuficiente para descrever os mecanismos celulares responsáveis pela conversão de forças hemodinâmicas transitórias em crescimento estrutural permanente do ventrículo esquerdo.

Ao integrar conhecimentos provenientes da fisiologia cardiovascular, da mecanobiologia, da biologia do endocárdio e da ciência do treinamento, esta revisão propõe que o elemento central desse processo possa ser a carga integrada de mecanotransdução diastólica, definida como a exposição cumulativa do sistema mecanobiológico cardíaco à deformação fisiológica produzida pelo enchimento ventricular durante o exercício.

Nesse modelo, o endocárdio deixa de ser interpretado como simples revestimento interno das cavidades cardíacas e passa a assumir o papel de órgão mecanossensor capaz de detectar deformações diastólicas repetitivas, ativar redes de mecanotransdução envolvendo Piezo1, integrinas, vinculina, FAK e YAP/TAZ, promover comunicação parácrina com o miocárdio por meio de fatores como Neuregulina-1, VEGF e óxido nítrico e, finalmente, desencadear programas moleculares associados à hipertrofia fisiológica, angiogênese e remodelamento excêntrico.

Sob essa perspectiva, a superioridade adaptativa do treinamento prolongado realizado em Zona 2 deixa de depender exclusivamente de suas reconhecidas vantagens metabólicas e passa a encontrar também uma fundamentação mecanobiológica. A longa duração da diástole, o elevado enchimento ventricular e o enorme número de ciclos cardíacos realizados nessas intensidades poderiam maximizar a carga integrada de mecanotransdução diastólica, fornecendo o estímulo específico necessário para o desenvolvimento do coração fisiológico do atleta.

Embora permaneça especulativa e dependa de confirmação experimental, essa hipótese apresenta elevada coerência com o conhecimento contemporâneo sobre remodelamento cardíaco, mecanobiologia e adaptação ao exercício. Mais do que oferecer uma resposta definitiva, ela propõe uma nova forma de formular a pergunta fundamental: o coração adapta-se ao volume de sangue que recebe ou às forças mecânicas que esse volume produz sobre seu sistema mecanobiológico?

É justamente a resposta a essa pergunta que poderá orientar a próxima geração de pesquisas sobre a biologia do treinamento de endurance.

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