A organização biológica do metabolismo aeróbio no endurance: da homeostase energética aos novos determinantes fisiológicos do desempenho

por | jul 25, 2026

Durante grande parte do século XX, o desempenho em modalidades de endurance foi interpretado como consequência direta da capacidade máxima de transporte de oxigênio. A descoberta do consumo máximo de oxigênio (VO₂máx) consolidou um paradigma segundo o qual o limite do desempenho estaria essencialmente associado à potência do sistema cardiorrespiratório. Nas décadas seguintes, tornou-se evidente que atletas com valores semelhantes de VO₂máx frequentemente apresentavam desempenhos bastante diferentes, indicando que outros mecanismos fisiológicos determinavam a capacidade de sustentar exercício prolongado. Essa constatação conduziu ao desenvolvimento dos conceitos de limiar de lactato, limiares ventilatórios e economia de movimento, formando o conhecido modelo tridimensional do desempenho em endurance: potência aeróbia máxima, fração sustentável dessa potência e custo energético do movimento. Entretanto, a produção científica da última década demonstra que esse modelo, embora continue válido, tornou-se insuficiente para explicar o desempenho em provas de longa duração, especialmente maratonas, Ironman, Ultraman, RAAM e demais eventos de ultraendurance.

Essa mudança conceitual decorre principalmente de uma nova compreensão da homeostase energética. Sob uma perspectiva evolutiva, o organismo não foi selecionado para produzir potência máxima durante poucos minutos, mas para preservar a estabilidade fisiológica enquanto realiza trabalho mecânico durante horas ou dias. O verdadeiro objetivo biológico do metabolismo não é maximizar velocidade, mas minimizar perturbações internas enquanto mantém a produção contínua de ATP. A eficiência fisiológica, portanto, representa uma estratégia adaptativa destinada a conservar reservas energéticas, limitar o acúmulo de metabólitos potencialmente desestabilizadores e reduzir o desgaste estrutural imposto aos tecidos.

Sob essa perspectiva, o lactato deixou de representar um marcador de falência metabólica para tornar-se um dos principais mediadores da integração energética do organismo. Durante décadas, acreditou-se que sua produção refletia deficiência de oxigênio e predominância do metabolismo anaeróbio. Hoje sabe-se que essa interpretação estava equivocada. O lactato é produzido continuamente, mesmo em condições plenamente aeróbias, funcionando como elo metabólico entre glicólise e fosforilação oxidativa. Em vez de representar um resíduo, constitui um importante combustível oxidativo, precursor gliconeogênico e molécula sinalizadora capaz de coordenar adaptações celulares em múltiplos tecidos.

A teoria do Lactate Shuttle, desenvolvida por George Brooks e continuamente refinada nas últimas décadas, modificou profundamente a interpretação da fisiologia do exercício. O lactato é continuamente transferido entre fibras musculares glicolíticas e oxidativas, entre músculo e coração, músculo e cérebro, músculo e fígado e mesmo entre compartimentos intracelulares. Seu transporte ocorre por proteínas específicas da família dos transportadores de monocarboxilatos (MCT), cuja expressão aumenta com o treinamento aeróbio. Dessa forma, o aumento da concentração sanguínea de lactato durante exercício intenso não representa simplesmente aumento da produção, mas o resultado dinâmico entre produção, transporte, reutilização e oxidação. Quanto maior a capacidade oxidativa dos tecidos, maior tende a ser a utilização do lactato como substrato energético.

Essa mudança conceitual possui implicações diretas para a interpretação dos chamados limiares fisiológicos. O aumento progressivo da concentração sanguínea de lactato não corresponde ao momento em que o metabolismo “se torna anaeróbio”, mas ao ponto em que a taxa de aparecimento do lactato passa a exceder temporariamente sua remoção. Trata-se de um desequilíbrio cinético entre produção e utilização, e não de uma transição binária entre metabolismo aeróbio e anaeróbio. Consequentemente, expressões clássicas como “limiar anaeróbio” tornam-se fisiologicamente imprecisas, embora permaneçam historicamente difundidas.

Essa mesma interpretação explica por que os limiares ventilatórios acompanham de maneira tão consistente as alterações observadas na cinética do lactato. O trabalho clássico de Beaver, Wasserman e Whipp demonstrou que o aumento desproporcional da produção de dióxido de carbono decorre do tamponamento dos íons hidrogênio liberados durante a dissociação do ácido lático pelo sistema bicarbonato. O CO₂ adicional produzido nesse processo estimula o aumento da ventilação pulmonar, permitindo que a troca gasosa identifique, de forma não invasiva, a transição metabólica anteriormente detectada apenas por meio da coleta seriada de lactato. O método V-Slope representou um marco justamente por transformar essa resposta fisiológica em procedimento objetivo e reprodutível para identificação do primeiro limiar ventilatório.

Embora os limiares ventilatórios e de lactato representem manifestações distintas de um mesmo processo fisiológico, não são necessariamente idênticos. O primeiro reflete uma resposta integrada do sistema respiratório ao aumento do CO₂ produzido pelo tamponamento metabólico, enquanto o segundo corresponde diretamente ao comportamento da concentração de lactato no sangue. Em indivíduos saudáveis, ambos apresentam elevada concordância, justificando sua utilização como marcadores equivalentes para prescrição do treinamento. Entretanto, diferenças metodológicas, protocolos incrementais distintos, duração dos estágios, velocidade de coleta sanguínea e critérios matemáticos empregados podem produzir pequenas divergências entre os dois métodos. Essa constatação explica por que atualmente se recomenda interpretar os limiares como zonas fisiológicas de transição, e não como pontos absolutos e invariáveis.

Essa visão é reforçada pela extensa revisão conduzida por Faude e colaboradores, que analisou criticamente dezenas de métodos de determinação dos limiares de lactato. Os autores demonstram que numerosos critérios matemáticos foram propostos ao longo das últimas cinco décadas — concentração fixa de 4 mmol·L⁻¹, Dmax, OBLA, limiar individual, entre outros — porém nenhum deles apresenta validade universal para todos os indivíduos e modalidades esportivas. O principal consenso atual não reside na superioridade de um método específico, mas no reconhecimento de que o comportamento completo da curva de lactato fornece mais informações fisiológicas do que qualquer ponto isolado nela determinado. O deslocamento da curva para cargas superiores representa adaptação metabólica global, refletindo aumento da capacidade oxidativa, maior densidade mitocondrial, maior expressão de transportadores de lactato e melhora da eficiência metabólica. Assim, o treinamento modifica o sistema fisiológico como um todo, e não apenas um único limiar.

Essa interpretação prepara o terreno para uma mudança ainda mais profunda ocorrida nos últimos anos: a substituição da ideia de limiares como marcadores isolados pela compreensão de que diferentes intensidades de exercício representam domínios fisiológicos distintos, cada um caracterizado por perturbações homeostáticas específicas. É justamente essa organização em domínios metabólicos que passou a fundamentar os modelos contemporâneos de prescrição do treinamento de endurance, integrando lactato, ventilação, potência, frequência cardíaca e respostas musculares em um único sistema fisiológico.

O monitoramento da homeostase muscular: a oximetria como elo entre a fisiologia sistêmica e a fisiologia celular

Durante décadas, a avaliação fisiológica do atleta de endurance esteve fundamentada em variáveis sistêmicas como consumo de oxigênio, frequência cardíaca, ventilação pulmonar, potência mecânica e concentração sanguínea de lactato. Embora essas medidas continuem sendo indispensáveis, todas apresentam uma característica comum: descrevem respostas integradas do organismo inteiro, mas fornecem apenas informações indiretas sobre o comportamento metabólico do músculo que efetivamente realiza o trabalho. A crescente compreensão de que a fadiga se desenvolve inicialmente em nível celular estimulou o desenvolvimento de métodos capazes de monitorar diretamente o equilíbrio entre oferta e utilização de oxigênio no tecido muscular. Nesse contexto, a espectroscopia funcional no infravermelho próximo (Near Infrared Spectroscopy – NIRS) representa uma das mais importantes inovações da fisiologia aplicada ao esporte nas últimas duas décadas.

A NIRS baseia-se na emissão de luz em comprimentos de onda capazes de atravessar os tecidos biológicos e sofrer absorção diferenciada pela hemoglobina oxigenada, hemoglobina reduzida e, em menor grau, pela mioglobina. A partir dessa interação óptica torna-se possível estimar continuamente a saturação muscular de oxigênio (SmO₂), refletindo o equilíbrio dinâmico entre o fornecimento de oxigênio pela microcirculação e sua utilização pelas mitocôndrias durante o exercício. Diferentemente da oximetria arterial convencional, a SmO₂ não representa simplesmente o conteúdo arterial de oxigênio, mas uma variável funcional intimamente relacionada à atividade metabólica do músculo em exercício.

A revisão sistemática publicada por Perrey, Quaresima e Ferrari representa atualmente uma das mais abrangentes sínteses sobre o emprego da NIRS na ciência do esporte. Após analisar 191 estudos envolvendo mais de 3.400 participantes, os autores concluíram que a oximetria muscular constitui uma ferramenta robusta para monitorar a capacidade oxidativa do músculo esquelético em diferentes modalidades esportivas, podendo complementar informações provenientes da potência mecânica, da frequência cardíaca e da ventilação pulmonar. Além disso, destacam que a principal vantagem da técnica consiste na obtenção de informações em tempo real sobre a resposta metabólica local do músculo durante o exercício, permitindo compreender fenômenos que permanecem ocultos quando apenas variáveis sistêmicas são analisadas.

Sob uma perspectiva fisiológica, a SmO₂ pode ser interpretada como um marcador contínuo da homeostase oxidativa muscular. Durante intensidades inferiores ao primeiro limiar fisiológico, a extração de oxigênio aumenta discretamente enquanto o fluxo sanguíneo acompanha adequadamente a demanda metabólica, mantendo pequena redução da saturação muscular. À medida que a intensidade se aproxima do domínio pesado, a extração de oxigênio torna-se progressivamente maior, refletindo o aumento da atividade mitocondrial e da necessidade energética. Em intensidades severas, a oferta de oxigênio aproxima-se de seu limite funcional, levando à acentuada dessaturação muscular. Assim, a curva da SmO₂ fornece uma representação contínua da interação entre transporte e utilização de oxigênio, integrando componentes cardiovasculares, microcirculatórios e mitocondriais.

Entretanto, a interpretação da SmO₂ exige cautela. Durante algum tempo acreditou-se que adaptações ao treinamento necessariamente deveriam resultar em maiores valores mínimos de saturação muscular durante testes incrementais. A recente metanálise conduzida por Yogev e colaboradores questiona essa hipótese. Após analisar intervenções de treinamento de endurance, os autores observaram que a SmO₂ mínima frequentemente permanece inalterada após o treinamento, apesar de aumentos significativos na potência máxima e no VO₂máx. Esses resultados sugerem que a adaptação fisiológica não consiste em preservar maior quantidade de oxigênio residual no músculo, mas em aumentar a quantidade de trabalho mecânico produzida para um mesmo grau de dessaturação. Em outras palavras, atletas treinados aprendem a utilizar de forma mais eficiente a disponibilidade local de oxigênio, deslocando a relação entre potência produzida e saturação muscular.

Essa interpretação aproxima a oximetria muscular dos conceitos contemporâneos de economia e eficiência. O treinamento não altera necessariamente o limite inferior da oxigenação muscular, mas modifica profundamente a capacidade oxidativa das fibras musculares, a densidade mitocondrial, a capilarização, a expressão de transportadores de lactato e a cinética do consumo de oxigênio. Consequentemente, o músculo torna-se capaz de gerar maior potência mantendo equilíbrio metabólico por períodos mais prolongados. A SmO₂ passa, assim, a representar não apenas um indicador de oferta de oxigênio, mas um marcador funcional da eficiência metabólica local.

Sob essa perspectiva, a integração entre VO₂, lactato, potência e NIRS amplia significativamente a compreensão da fisiologia do endurance. Enquanto o VO₂ descreve a demanda energética global do organismo, o lactato informa o equilíbrio sistêmico entre produção e remoção de metabólitos, a potência expressa o resultado mecânico produzido e a SmO₂ revela como o tecido muscular responde localmente ao desafio energético. Nenhuma dessas variáveis substitui as demais; ao contrário, elas descrevem diferentes níveis de organização biológica de um mesmo fenômeno fisiológico.

Essa abordagem multimodal torna-se particularmente relevante quando interpretada à luz dos conceitos de durabilidade e resiliência fisiológica. Durante exercícios prolongados, pequenas alterações na oxigenação muscular podem preceder modificações detectáveis na frequência cardíaca, no VO₂ ou mesmo na concentração sanguínea de lactato. A monitorização contínua da SmO₂ oferece, portanto, uma oportunidade inédita para acompanhar o início da deterioração funcional do músculo antes que ela se manifeste em nível sistêmico. Sob esse aspecto, a oximetria muscular deixa de representar apenas mais uma variável fisiológica e passa a constituir uma ferramenta para monitorar, em tempo real, a preservação da homeostase metabólica que caracteriza atletas verdadeiramente duráveis.

Conclusão

A evolução da fisiologia do endurance ao longo dos últimos cinquenta anos revela uma mudança paradigmática na compreensão do desempenho humano. Inicialmente, a investigação concentrou-se na capacidade máxima de transporte de oxigênio, consolidando o VO₂máx como principal indicador da aptidão aeróbia. Posteriormente, os limiares de lactato e ventilatórios demonstraram que o desempenho depende muito mais da intensidade que pode ser sustentada do que da potência máxima isoladamente. A teoria do Lactate Shuttle transformou a interpretação do lactato, substituindo a antiga concepção de subproduto anaeróbio pela de intermediário metabólico central, combustível oxidativo e molécula sinalizadora. Em seguida, a organização dos domínios fisiológicos do exercício permitiu compreender que diferentes intensidades representam diferentes estados de perturbação da homeostase, oferecendo base fisiológica para os modelos contemporâneos de distribuição da intensidade do treinamento, particularmente o treinamento polarizado.

Mais recentemente, os conceitos de durabilidade, fatigabilidade, repetibilidade e resiliência fisiológica ampliaram esse modelo ao reconhecer que a capacidade funcional do atleta não é estática, mas sofre deterioração progressiva durante o exercício prolongado. O desempenho deixa de depender apenas da magnitude inicial das variáveis fisiológicas e passa a refletir, sobretudo, a velocidade com que essas variáveis se degradam diante do estresse acumulado. Sob essa perspectiva, atletas de endurance distinguem-se não apenas pela elevada capacidade de produzir energia, mas principalmente pela habilidade de preservar a homeostase metabólica durante longos períodos de esforço.

Nesse novo cenário, tecnologias como a espectroscopia funcional no infravermelho próximo representam um avanço natural da avaliação fisiológica. Ao permitir monitorar continuamente a oxigenação muscular, a NIRS aproxima a investigação científica do local onde efetivamente ocorre a produção de energia: a fibra muscular. Integrada às medidas tradicionais de consumo de oxigênio, potência, frequência cardíaca e lactato, essa tecnologia inaugura uma abordagem verdadeiramente sistêmica e multiescalar da fisiologia do exercício.

Em conjunto, os trabalhos analisados convergem para uma conclusão comum: o desempenho em endurance não deve mais ser compreendido como a simples expressão da potência aeróbia máxima, mas como a manifestação integrada da capacidade do organismo de manter sua estabilidade funcional diante de perturbações metabólicas crescentes. Sob uma perspectiva biológica e evolutiva, a aptidão para o endurance representa, antes de tudo, a capacidade de preservar a homeostase produzindo a maior quantidade possível de trabalho mecânico ao menor custo fisiológico. A eficiência metabólica, a organização inteligente da carga de treinamento e a resistência à deterioração funcional emergem, assim, como os verdadeiros pilares da performance em provas de longa duração.

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