O desempenho em modalidades de endurance depende fundamentalmente da capacidade do organismo em sustentar elevadas taxas de produção aeróbia de energia por períodos prolongados. Embora o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx) permaneça como um importante indicador da capacidade cardiorrespiratória, tornou-se evidente, ao longo das últimas cinco décadas, que variáveis submáximas apresentam maior capacidade discriminatória entre atletas altamente treinados e maior sensibilidade para monitorar adaptações decorrentes do treinamento. Entre essas variáveis, destacam-se o primeiro limiar de lactato (LT1) e o segundo limiar de lactato (LT2), considerados atualmente os principais marcos fisiológicos para avaliação funcional, prescrição de treinamento e monitoramento da performance em esportes de resistência.
O interesse científico pelos limiares de lactato surgiu a partir da constatação de que a concentração sanguínea de lactato não aumenta linearmente com a intensidade do exercício. Durante protocolos incrementais, observa-se inicialmente uma fase caracterizada por concentrações estáveis de lactato, seguida por um primeiro aumento sistemático acima dos níveis basais e, posteriormente, por uma aceleração exponencial da curva lactacidêmica. Esses dois pontos de inflexão refletem mudanças progressivas na relação entre produção, transporte e remoção do lactato e representam diferentes estados metabólicos do organismo durante o exercício incremental. Entretanto, apesar de sua ampla utilização, os conceitos de LT1 e LT2 permanecem entre os temas mais debatidos da fisiologia do exercício devido à diversidade de metodologias empregadas para sua determinação e à ausência de consenso absoluto quanto às suas definições fisiológicas.
Historicamente, o lactato foi interpretado como um produto final do metabolismo anaeróbio decorrente da deficiência de oxigênio muscular. Essa concepção predominou por várias décadas e fundamentou a terminologia “limiar anaeróbio”. Entretanto, avanços na bioquímica muscular demonstraram que a produção de lactato ocorre continuamente, inclusive em repouso, sendo intensificada conforme aumenta a taxa glicolítica. Atualmente reconhece-se que o lactato representa um importante intermediário metabólico, atuando como substrato energético para fibras oxidativas, coração, fígado e diversos tecidos, além de desempenhar funções sinalizadoras intracelulares. Dessa forma, o aumento de sua concentração sanguínea não representa simplesmente insuficiência de oxigênio, mas sim o resultado do desequilíbrio transitório entre sua taxa de produção e sua capacidade sistêmica de remoção. Essa mudança conceitual deslocou o foco da interpretação do lactato como marcador de anaerobiose para um indicador da dinâmica metabólica global do organismo durante o exercício.
Dentro dessa perspectiva moderna, Skinner e McLellan propuseram o conhecido modelo trifásico do exercício incremental, posteriormente detalhado por Binder e colaboradores. Nesse modelo, a Fase I corresponde ao domínio de exercício leve, no qual praticamente todo o ATP é fornecido por vias oxidativas e a concentração sanguínea de lactato permanece próxima aos valores de repouso. Na transição para a Fase II ocorre o primeiro aumento sistemático da concentração de lactato acima da linha de base, caracterizando o LT1. Nessa intensidade, a produção muscular de lactato torna-se discretamente superior à sua oxidação local, porém o organismo ainda apresenta elevada capacidade de redistribuição e remoção sistêmica, permitindo a manutenção de concentrações relativamente estáveis durante exercícios prolongados. À medida que a intensidade continua aumentando, aproxima-se o limite máximo em que produção e remoção permanecem equilibradas. Esse ponto corresponde ao LT2, acima do qual ocorre acúmulo progressivo de lactato, acidose metabólica crescente e redução importante da tolerância ao exercício prolongado.
Essa interpretação fisiológica explica por que os limiares de lactato se tornaram referências centrais para a organização do treinamento contemporâneo. O LT1 representa a intensidade máxima sustentável durante muitas horas de exercício contínuo, sendo associado ao desenvolvimento da base aeróbia, da capacidade oxidativa e da eficiência metabólica. O LT2, por sua vez, delimita a maior intensidade capaz de manter equilíbrio entre produção e remoção de lactato durante aproximadamente 30 a 60 minutos, constituindo um excelente marcador da potência aeróbia sustentável e da performance em provas de endurance. Diversos estudos demonstram que ambos apresentam correlações superiores às observadas para o VO₂máx na predição do desempenho competitivo entre atletas altamente treinados.
Apesar desse sólido embasamento fisiológico, a identificação prática do LT1 e do LT2 está longe de ser padronizada. Ao longo das últimas décadas foram propostos mais de vinte e cinco métodos distintos para determinação desses pontos, utilizando critérios baseados em concentrações absolutas de lactato, alterações relativas da curva lactacidêmica, modelos matemáticos, procedimentos estatísticos ou respostas ventilatórias. Essa diversidade metodológica constitui uma das principais razões para a dificuldade de comparação entre estudos científicos e entre laboratórios de avaliação fisiológica. Faude, Kindermann e Meyer identificaram pelo menos vinte e cinco conceitos distintos de limiar de lactato, classificando-os em três grandes categorias: métodos baseados em concentrações fixas de lactato, métodos que detectam o primeiro aumento acima da linha de base e métodos destinados a estimar o estado de máxima estabilidade do lactato ou mudanças abruptas na inclinação da curva.
As metodologias utilizadas para identificação do LT1 podem ser agrupadas inicialmente nos métodos de concentração fixa. O mais tradicional é o limiar de 2 mmol·L⁻¹, originalmente proposto como aproximação prática do limiar aeróbio. Sua principal vantagem reside na simplicidade operacional, permitindo rápida identificação durante testes incrementais. Entretanto, diversos estudos demonstram grande variabilidade interindividual na concentração de lactato correspondente ao verdadeiro início do acúmulo sistêmico. Atletas altamente treinados frequentemente apresentam LT1 abaixo de 2 mmol·L⁻¹, enquanto indivíduos destreinados podem atingir esse valor em intensidades muito baixas. Consequentemente, a utilização indiscriminada de concentrações fixas tende a reduzir a precisão fisiológica da avaliação individual.
Como alternativa, desenvolveram-se métodos individualizados destinados a identificar o primeiro aumento consistente da concentração de lactato acima dos valores basais. Nessa abordagem, o LT1 é definido como o primeiro estágio do teste incremental em que o lactato apresenta elevação persistente em relação ao repouso, excedendo a variabilidade analítica do método laboratorial. Essa estratégia possui maior fundamentação fisiológica, pois considera a resposta metabólica individual em vez de assumir concentrações absolutas idênticas para todos os indivíduos. Todavia, sua identificação depende da qualidade da curva lactacidêmica, da duração dos estágios do protocolo incremental, da frequência de coleta e da experiência do avaliador.
Outra metodologia amplamente utilizada para determinação do LT1 baseia-se na análise gráfica da curva de lactato por modelos matemáticos. Entre eles destacam-se os métodos Dmax, modelos exponenciais, regressões segmentadas e algoritmos de ajuste polinomial. Esses procedimentos procuram identificar objetivamente mudanças na inclinação da curva, reduzindo parte da subjetividade inerente à inspeção visual. Entretanto, diferentes modelos matemáticos frequentemente produzem estimativas distintas para o mesmo conjunto de dados, especialmente quando o protocolo incremental apresenta poucos estágios ou intervalos excessivamente longos entre as coletas de lactato. Consequentemente, recomenda-se que cada laboratório utilize sempre o mesmo algoritmo analítico, garantindo reprodutibilidade longitudinal das avaliações.
A identificação do LT2 apresenta complexidade ainda maior. Historicamente, o método mais conhecido corresponde ao limiar fixo de 4 mmol·L⁻¹, frequentemente denominado OBLA (Onset of Blood Lactate Accumulation). Durante muitos anos acreditou-se que essa concentração representaria universalmente o ponto de transição entre metabolismo predominantemente aeróbio e anaeróbio. Entretanto, estudos posteriores demonstraram que a concentração correspondente ao máximo estado estável de lactato varia amplamente entre indivíduos, podendo situar-se entre aproximadamente 2 e 10 mmol·L⁻¹, dependendo do nível de treinamento, da modalidade esportiva, da massa muscular recrutada e das características fisiológicas individuais. Essa grande variabilidade limita significativamente a validade fisiológica do critério fixo de 4 mmol·L⁻¹.
Atualmente, considera-se que o padrão-ouro para identificação funcional do LT2 corresponde ao Máximo Estado Estável de Lactato (Maximal Lactate Steady State – MLSS). O MLSS é definido como a maior intensidade de exercício capaz de manter equilíbrio entre produção e remoção de lactato durante exercício contínuo prolongado. Sua determinação exige a realização de diversos testes de carga constante, geralmente com duração mínima de 30 minutos, realizados em dias diferentes. A intensidade correspondente ao MLSS é aquela em que o aumento da concentração de lactato entre os minutos 10 e 30 não ultrapassa 1 mmol·L⁻¹. Caso esse incremento seja superior, considera-se que a intensidade testada excedeu a capacidade máxima de equilíbrio metabólico. Embora seja reconhecido como o método fisiologicamente mais robusto para determinação do LT2, sua aplicação clínica e esportiva é limitada pelo elevado tempo necessário para execução dos múltiplos testes.
Beneke realizou importante contribuição metodológica ao comparar diferentes critérios utilizados para determinação do MLSS. Seus resultados demonstraram que protocolos de apenas vinte minutos tendem a superestimar a intensidade correspondente ao estado estável de lactato quando comparados a testes de trinta minutos. O autor concluiu que a determinação válida do MLSS deve utilizar exercícios constantes de pelo menos trinta minutos e considerar como critério máximo um aumento de lactato inferior a 1 mmol·L⁻¹ entre o décimo e o trigésimo minuto. Essa recomendação permanece como referência metodológica na literatura contemporânea.
Na tentativa de reduzir a necessidade de múltiplos testes constantes, diversos métodos procuram estimar o LT2 diretamente durante protocolos incrementais. Entre eles destacam-se o Dmax, o Dmax modificado, o Lactate Turn Point (LTP), os métodos log-log, modelos exponenciais e procedimentos baseados em regressão segmentada. Todos procuram identificar o ponto em que ocorre mudança abrupta na inclinação da curva lactacidêmica, assumindo que esse comportamento corresponde aproximadamente ao MLSS. Embora apresentem boas correlações com o desempenho competitivo, a concordância individual com o verdadeiro MLSS permanece variável, razão pela qual sua utilização deve ser interpretada como estimativa indireta, e não como medida fisiológica definitiva.
Paralelamente às metodologias invasivas baseadas em lactato sanguíneo, desenvolveram-se técnicas não invasivas fundamentadas nas respostas ventilatórias durante o teste cardiopulmonar. Binder e colaboradores propõem que o primeiro limiar ventilatório (VT1) corresponde fisiologicamente ao LT1, enquanto o segundo limiar ventilatório (VT2), também denominado Respiratory Compensation Point (RCP), apresenta estreita relação com o LT2. O VT1 caracteriza-se pelo primeiro aumento sistemático do equivalente ventilatório para oxigênio (VE/VO₂) sem aumento concomitante do equivalente ventilatório para dióxido de carbono (VE/VCO₂), refletindo o início do tamponamento bicarbonato do lactato produzido. Já o VT2 ocorre quando tanto VE/VO₂ quanto VE/VCO₂ aumentam simultaneamente, acompanhados da queda da pressão expirada de CO₂ (PETCO₂), indicando que a hiperventilação compensatória torna-se insuficiente para neutralizar o aumento da acidose metabólica.
Apesar da elevada correlação entre limiares ventilatórios e lactacidêmicos, esses fenômenos não são rigorosamente equivalentes. O lactato representa uma variável metabólica diretamente mensurada, enquanto as respostas ventilatórias refletem adaptações respiratórias secundárias às alterações ácido-base e ao controle neural da ventilação. Assim, embora VT1 e VT2 constituam excelentes estimativas práticas de LT1 e LT2, especialmente quando a mensuração de lactato não está disponível, diferenças individuais podem ocorrer em função do protocolo de teste, da eficiência ventilatória e das características fisiológicas do atleta.
Nos últimos anos, a importância prática dos limiares tornou-se ainda mais evidente com a consolidação dos modelos contemporâneos de distribuição da intensidade do treinamento. Seiler demonstrou que atletas de elite organizam aproximadamente 80% do volume de treinamento abaixo do LT1 e apenas cerca de 20% acima do LT2, caracterizando o chamado modelo polarizado. Nessa abordagem, a maior parte do treinamento ocorre em intensidades suficientemente baixas para promover elevado volume semanal com reduzido estresse metabólico, enquanto pequenas quantidades de treinamento intenso estimulam adaptações centrais e periféricas associadas ao desempenho competitivo. Consequentemente, a identificação precisa de LT1 e LT2 deixou de representar apenas uma ferramenta diagnóstica, tornando-se elemento central da periodização moderna do treinamento de endurance.
Em síntese, o conhecimento acumulado nas últimas décadas demonstra que LT1 e LT2 representam muito mais do que simples concentrações específicas de lactato. Constituem estados fisiológicos complexos que refletem a integração entre metabolismo muscular, transporte sistêmico de lactato, controle ventilatório, capacidade oxidativa e adaptações decorrentes do treinamento. Embora múltiplas metodologias estejam disponíveis para sua determinação, nenhuma é universalmente superior em todas as situações. Métodos individualizados baseados na resposta da curva lactacidêmica e, sempre que possível, validados pelo MLSS permanecem como as abordagens fisiologicamente mais consistentes. Da mesma forma, os limiares ventilatórios constituem excelentes alternativas não invasivas quando obtidos mediante análise criteriosa dos dados ergoespirométricos. O desafio contemporâneo não consiste apenas em identificar esses limiares, mas compreender suas limitações metodológicas, sua base fisiológica e sua correta aplicação na avaliação e prescrição do treinamento em atletas de endurance.
Referências
BENEKE, Ralph. Methodological aspects of maximal lactate steady state: implications for performance testing. European Journal of Applied Physiology, v. 89, p. 95–99, 2003.
BINDER, Ronald K. et al. Methodological approach to the first and second lactate threshold in incremental cardiopulmonary exercise testing. European Journal of Cardiovascular Prevention & Rehabilitation, v. 15, n. 6, p. 726–734, 2008.
FAUDE, Oliver; KINDERMANN, Wilfried; MEYER, Tim. Lactate threshold concepts: how valid are they? Sports Medicine, v. 39, n. 6, p. 469–490, 2009.
SEILER, Stephen. What is best practice for training intensity and duration distribution in endurance athletes? International Journal of Sports Physiology and Performance, v. 5, n. 3, p. 276–291, 2010.