LACTATO COMO MOLÉCULA-CHAVE NA SAÚDE METABÓLICA, FUNÇÃO MITOCONDRIAL E CARCINOGÊNESE: UMA REVISÃO INTEGRATIVA A PARTIR DA FISIOLOGIA DO EXERCÍCIO

por | jun 11, 2026

1. Introdução

Por mais de um século, o lactato ocupou um lugar paradoxal na fisiologia: reconhecido como produto inevitável da glicólise, foi simultaneamente relegado ao estatuto de resíduo metabólico, agente de fadiga e marcador de hipóxia tecidual. Essa visão, consolidada pelos trabalhos seminais de Otto Meyerhof e Archibald Hill no início do século XX — ambos laureados com o Prêmio Nobel —, permeou décadas de livros-didáticos e orientou práticas clínicas e esportivas fundadas em premissas que a ciência contemporânea demonstrou serem equivocadas.

A ruptura com esse paradigma começou a se delinear nas décadas de 1980 e 1990, quando George A. Brooks propôs a hipótese da Lactate Shuttle — ou Shuttle do Lactato —, demonstrando que o lactato é continuamente produzido sob condições plenamente aeróbicas e que sua transferência entre células produtoras e consumidoras cumpre funções metabólicas essenciais. A partir desse marco, o lactato passou a ser visto como combustível energético preferencial, precursor gliconeogênico de maior relevância quantitativa e molécula sinalizadora com efeitos autócrinos, parácrinos e endócrinos, o que levou Brooks a cunhar o termo “lactormônio” para designar suas propriedades regulatórias.

2. O Lactato Revisitado: De Resíduo a Molécula Central do Metabolismo Intermediário

2.1 Desmistificando a produção de lactato

O lactato não é um produto do metabolismo anaeróbico. Ele é o produto obrigatório da glicólise, independentemente da disponibilidade de oxigênio. Essa afirmação reflete o consenso científico atual e tem implicações profundas tanto para a fisiologia do exercício quanto para a patofisiologia das doenças crônicas.

A glicólise, via metabólica que converte glicose em piruvato no citosol celular, gera inevitavelmente lactato como produto terminal, uma vez que a enzima lactato desidrogenase A (LDHA) catalisa a redução de piruvato a lactato em condições de alta demanda glicolítica. Esse processo ocorre de forma contínua em condições aeróbicas normais, sendo regulado pelo estado redox citoplasmático (relação NADH/NAD+) e pela capacidade mitocondrial de oxidar substratos. A concentração de repouso do lactato no sangue arterial de indivíduos saudáveis é de aproximadamente 1 mmol/L, com uma relação lactato/piruvato em torno de 10, valores que refletem o equilíbrio dinâmico entre produção e depuração, ambas ocorrendo simultaneamente sob plena oxigenação.

Durante o exercício de moderada intensidade, a produção de lactato aumenta progressivamente, mas a capacidade mitocondrial de oxidá-lo nos músculos oxidativos (fibras tipo I e IIA), no coração e no fígado mantém os níveis sanguíneos relativamente estáveis. É somente quando a taxa de produção supera a capacidade de depuração — em intensidades mais elevadas — que ocorre a elevação exponencial do lactato sanguíneo, fenômeno classicamente mal interpretado como “limite anaeróbico”.

2.2 Funções fisiológicas do lactato

Em face ao exposto, o lactato exerce ao menos três funções fisiológicas fundamentais: (i) substrato energético preferencial para músculos oxidativos, coração e cérebro; (ii) principal precursor gliconeogênico, contribuindo para a manutenção da glicemia durante o exercício e em estados de estresse metabólico; e (iii) molécula de sinalização, com efeitos sobre a expressão gênica, a biogênese mitocondrial, a lipólise, a regulação imunológica e a neuroproteção.

No que diz respeito ao papel energético, durante o exercício de alta intensidade, até 75–80% do lactato produzido pelos músculos glicolíticos é oxidado na mitocôndria dos próprios músculos oxidativos, ou transportado para o coração e outros órgãos altamente oxidativos, onde é convertido em piruvato e acetil-CoA para entrada no ciclo de Krebs. O transportador monocarboxilato isoforma 1 (MCT1), localizado na membrana interna mitocondrial em conjunto com a LDH mitocondrial e a citocromo oxidase, forma o complexo de oxidação mitocondrial do lactato (mLOC), estrutura descrita por Brooks e colaboradores que possibilita a oxidação direta do lactato na mitocôndria.

Como molécula sinalizadora, o lactato atua por meio de receptores acoplados à proteína G, em particular o receptor hidroxicarboxílico ácido 1 (HCAR-1, anteriormente denominado GPR81), expresso em adipócitos, neurônios, células musculares e diversas linhagens cancerígenas. Através do HCAR-1, o lactato inibe a lipólise no tecido adiposo branco durante o exercício intenso e modula a atividade do cAMP/CREB, impactando a expressão de MCT1, PGC-1α e múltiplas vias metabólicas. O cérebro, igualmente, utiliza o lactato como combustível preferencial — especialmente em condições de maior demanda neuronal — por meio do shuttle astrocíto-neurônio, no qual os astrócitos produzem lactato que é então oxidado pelos neurônios.

3. Lactato e Mitocôndrias: O Elo Entre Exercício, Saúde e Doença

3.1 Mitocôndrias como termômetro da saúde metabólica

Um dos conceitos mais recorrentes é que a função mitocondrial representa o denominador comum entre saúde, longevidade e doença crônica. De fato, a disfunção mitocondrial parece estar na raiz de quase todas as doenças crônicas: diabetes tipo 2, síndrome metabólica, doenças cardiovasculares, alguns cânceres, Alzheimer. E o mais fascinante é que tudo isso é possível de ser medido indiretamente por meio das curvas de lactato e oxidação de gordura no exercício.

As mitocôndrias, classicamente definidas como as “usinas de energia” celulares, realizam a fosforilação oxidativa, processo que converte gradientes de prótons gerados pela cadeia respiratória em ATP. Além disso, são o principal locus de oxidação de ácidos graxos (beta-oxidação), de regulação do estado redox celular e de integração de vias sinalizadoras relacionadas a apoptose, estresse oxidativo e biogênese. A capacidade mitocondrial de metabolizar lactato — e não apenas piruvato e ácidos graxos — representa uma dimensão adicional de sua função que permaneceu subestimada por décadas.

Em indivíduos com disfunção mitocondrial — categoria que inclui pacientes com diabetes tipo 2, obesidade, síndrome metabólica e sedentarismo crônico —, a capacidade de oxidar gordura durante o exercício de baixa intensidade é marcadamente reduzida, com concomitante elevação precoce do lactato sanguíneo. Neste contexto, apresenta-se um contraste paradigmático: um atleta de elite como Tadej Pogačar, em intensidade de Zona 2 (aproximadamente 200–250 W), apresenta lactato sanguíneo de 1,5–2,0 mmol/L e taxa de oxidação de gordura de 1,5–2,0 g/min; enquanto um indivíduo sedentário com síndrome metabólica, na mesma intensidade relativa de percepção de esforço — equivalente a cerca de 50–70 W —, pode apresentar lactato de 4–5 mmol/L e oxidação de gordura mínima ou nula.

Essa diferença reflete não apenas o volume mitocondrial aumentado nos atletas (que pode ser de 2 a 3 vezes maior em resposta ao treinamento de endurance), mas também a qualidade funcional das mitocôndrias — seu conteúdo em enzimas oxidativas, densidade de transportadores de substratos e capacidade de acoplar a cadeia respiratória à síntese de ATP.

3.2 Lactato como biomarcador de flexibilidade metabólica

Entende-se por flexibilidade metabólica — a capacidade do organismo de alternar eficientemente entre gordura e carboidrato como substratos energéticos em resposta às demandas — contexto que eleva o lactato ao papel de biomarcador central dessa capacidade. Em indivíduos metabolicamente saudáveis, o exercício de baixa a moderada intensidade é sustentado predominantemente pela oxidação de ácidos graxos; à medida que a intensidade aumenta, ocorre a transição gradual para a oxidação de carboidratos, com aumento correspondente, mas controlado, do lactato. Em indivíduos com disfunção metabólica, essa transição é precoce e abrupta, indicando que as mitocôndrias são incapazes de processar gordura eficientemente, forçando uma dependência excessiva da glicólise mesmo em intensidades baixas.

Essa inflexibilidade metabólica, refletida nas curvas de lactato e de quociente respiratório (QR) durante o exercício, tem correlato direto com o estado de resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau e maior risco cardiovascular. San Millán sublinha que a medição do QR em repouso e durante o exercício, em associação com as curvas de lactato, fornece um retrato funcional da saúde mitocondrial que os exames laboratoriais convencionais não conseguem capturar adequadamente. Em indivíduos com resistência à insulina avançada, o QR de repouso frequentemente se aproxima de 1,0 — indicando utilização quase exclusiva de carboidratos —, ao passo que em atletas treinados os valores de 0,70–0,75 refletem alta eficiência na oxidação de gordura mesmo em repouso.

4. O Treinamento na Zona 2: Definição, Mecanismos e Aplicações Clínicas

4.1 A Zona 2 segundo San Millán: definição fisiológica precisa

San Millán é o responsável pela sistematização e popularização do conceito de “Zona 2” no mundo esportivo e clínico, tendo introduzido o termo há aproximadamente 30 anos e continuado a refiná-lo com base em evidências científicas e experiência clínica acumulada. Ele oferece uma definição fisiológica precisa: a Zona 2 corresponde à intensidade máxima de exercício em que as fibras musculares do tipo I (oxidativas lentas) são recrutadas predominantemente e a produção de lactato permanece estável, com valores sanguíneos entre 1,7 e 2,0 mmol/L.

Essa intensidade coincide com o ponto em que a oxidação de gordura é máxima (fat max), a demanda metabólica sobre as mitocôndrias é otimizada sem sobrecarga glicolítica e o lactato produzido é inteiramente depurado pelos próprios músculos oxidativos e pelo coração. Funcionalmente, a Zona 2 representa o patamar de exercício que mais eficientemente estimula a biogênese mitocondrial, o aumento da densidade e da eficiência das mitocôndrias nas fibras tipo I, o incremento das enzimas da beta-oxidação e do ciclo de Krebs, e a upregulation do MCT1, que facilita a captação de lactato pelas mitocôndrias.

Em termos práticos, a Zona 2 deve ser definida como a intensidade em que o indivíduo consegue manter uma conversa sem dificuldade respiratória — o limiar da fala conversacional —, embora tal referência seja grosseira e a medição direta do lactato sanguíneo constitua o padrão-ouro para identificação precisa do limiar. Do ponto de vista da frequência cardíaca, a Zona 2 corresponde, para a maioria dos indivíduos, a aproximadamente 70–75% da frequência cardíaca máxima, havendo considerável variabilidade individual com referência metabólica (lactato ≈ 2 mmol/L) sendo mais confiável do que qualquer percentual fixo.

4.2 Mecanismos de adaptação mitocondrial ao treinamento de Zona 2

Os mecanismos pelos quais o treinamento na Zona 2 induz adaptações mitocondriais são mediados principalmente pela ativação do coativador PGC-1α (coativador do receptor ativado por proliferador de peroxissomo 1-alfa), o “regulador mestre” da biogênese mitocondrial. O exercício aeróbico de moderada intensidade eleva os níveis de AMP, ativa a AMPK (proteína quinase ativada por AMP) e desencadeia a expressão de PGC-1α, que por sua vez induz a transcrição de dezenas de genes envolvidos na síntese de proteínas mitocondriais, no aumento da densidade de cristas mitocondriais e no incremento da capacidade oxidativa.

San Millán destaca que o lactato em si atua como sinal que amplifica esses mecanismos: in vitro, concentrações de lactato equivalentes às produzidas durante o exercício de Zona 2 (10–20 mmol/L) upregulam a expressão de MCT1, PGC-1α e centenas de genes relacionados à adaptação metabólica em células musculares. Isso configura uma alça de retroalimentação positiva entre a produção controlada de lactato na Zona 2 e as adaptações mitocondriais que aumentam a capacidade de depurá-lo.

Com o treinamento sistemático na Zona 2, as adaptações observadas incluem: aumento da massa e da densidade mitocondrial nas fibras tipo I; incremento das enzimas da cadeia respiratória (NADH desidrogenase, succinato desidrogenase, citocromo c oxidase); aumento da expressão de MCT1 nas membranas sarcolemmal e mitocondrial; maior densidade de transportadores de ácidos graxos (FAT/CD36) e enzimas da beta-oxidação; e melhora da sensibilidade à insulina mediada pelo aumento de GLUT4 e pela redução de intermediários lipídicos intramusculares. San Millán ressalta que essas adaptações requerem volume de treinamento acumulado: recomenda de 3 a 4 sessões semanais de 45 a 60 minutos em Zona 2 para indivíduos que buscam saúde geral, podendo chegar a 12–16 horas semanais nessa zona nos ciclistas profissionais.

4.3 Zonas de alta intensidade e o papel complementar do VO₂ máx

San Millán é cuidadoso em sublinhar que o treinamento em Zona 2 não deve ser a única modalidade de exercício, mas deve constituir a fundação sobre a qual as intensidades mais elevadas são construídas. As zonas de alta intensidade — particularmente a Zona 5, correspondente a intensidades próximas ao VO₂ máx — ativam as fibras musculares do tipo II (glicolíticas), estimulam adaptações neuromusculares e cardiovasculares específicas e induzem aumentos mais pronunciados do VO₂ máx, que é um preditor independente de mortalidade por todas as causas.

O VO₂ máx, expressão da capacidade máxima de transporte e utilização de oxigênio, é determinado tanto pela função cardiovascular (débito cardíaco) quanto pela densidade e eficiência mitocondrial muscular. Embora o treinamento em Zona 2 otimize a eficiência mitocondrial nas fibras tipo I e melhore a economia de movimento, o aumento do VO₂ máx propriamente dito exige a incorporação de treinos de alta intensidade que recrutem fibras tipo II e elevem a demanda cardiopulmonar ao máximo. Para indivíduos com objetivo de longevidade e saúde metabólica, propõe-se tipicamente uma distribuição de 80% do volume em Zona 2 e 20% em Zona 5, estrutura que maximiza as adaptações mitocondriais sem gerar fadiga cumulativa ou comprometer a recuperação.

4.4 Lactato, dieta e interações nutricionais

Em uma seção de particular interesse clínico, San Millán discute como a composição da dieta influencia as respostas de lactato durante o exercício. Dietas ricas em carboidratos elevam o quociente respiratório em repouso e durante o exercício, aumentando a contribuição glicolítica para o metabolismo energético e, consequentemente, a produção de lactato em intensidades submáximas. Por outro lado, dietas cetogênicas ou muito restritas em carboidratos, embora aumentem a oxidação de gordura em repouso, podem comprometer a capacidade de realizar exercícios de alta intensidade por limitarem a disponibilidade de glicogênio e reduzir a potência máxima sustentável.

Em face ao exposto, é possível defender abordagem nutricional periodizada, na qual a ingestão de carboidratos é ajustada ao volume e à intensidade do treinamento: sessões de Zona 2 podem ser realizadas com disponibilidade reduzida de carboidratos (treinamento “low glycogen”) para potencializar as adaptações mitocondriais à oxidação de gordura, enquanto sessões de alta intensidade requerem adequada disponibilidade de glicogênio. Essa estratégia, teria sido aplicada de forma inovadora com Pogačar — chegando a prescrever até 125 g/h de carboidratos durante provas de alta demanda —, refletindo a compreensão de que o substrato adequado deve ser fornecido na intensidade adequada.

5. Disfunção Mitocondrial, Lactato e Doenças Metabólicas

5.1 O padrão lactato em doenças crônicas

Uma das contribuições mais originais de San Millán ao campo da medicina metabólica é a caracterização do perfil de lactato e oxidação de substratos em diferentes populações clínicas. Em seus estudos, pacientes com diabetes tipo 2 apresentam um padrão consistente: lactato sanguíneo elevado mesmo em repouso ou em intensidades muito baixas de exercício, oxidação de gordura mínima ou ausente durante o exercício aeróbico de baixa intensidade e transição precoce para metabolismo predominantemente glicolítico. Esse perfil, que San Millán denomina “disfunção mitocondrial severa”, é essencialmente o oposto do perfil do atleta de endurance e reflete comprometimento funcional das mitocôndrias nas fibras musculares tipo I.

De maneira notável, San Millán relata que pacientes com sequelas de COVID longa (Long COVID) — mesmo aqueles previamente saudáveis e fisicamente ativos — apresentam, em testes metabólicos, perfis de lactato e oxidação de substratos indistinguíveis dos de pacientes com diabetes tipo 2 grave, sugerindo que a infecção por SARS-CoV-2 induz uma agressão global e persistente à função mitocondrial. Esse dado confere urgência clínica à compreensão dos mecanismos pelos quais exercício e intervenções nutricionais podem restaurar a função mitocondrial em populações afetadas.

5.2 O exercício como intervenção terapêutica

Acredita-se que o exercício aeróbico de moderada intensidade — especificamente o treinamento em Zona 2 — seja a intervenção mais potente disponível para restaurar a função mitocondrial em indivíduos com disfunção metabólica. Os mecanismos pelos quais isso ocorre incluem: indução de biogênese mitocondrial via PGC-1α; aumento do processo de mitofagia seletiva, que remove mitocôndrias disfuncionais e promove a renovação do pool mitocondrial; elevação da expressão de GLUT4 nas membranas musculares, melhorando a captação de glicose independente de insulina; redução de intermediários lipídicos intramusculares (diacilglicerol, ceramidas) que interferem na sinalização da insulina; e melhora da função endotelial e da perfusão microvascular muscular.

Em termos de prescrição para indivíduos com disfunção metabólica significativa, uma progressão gradual iniciada com sessões de 20–30 minutos de exercício aeróbico de Zona 2 três vezes por semana, avançando progressivamente para 45–60 minutos quatro vezes por semana ao longo de semanas a meses. A monitoração das curvas de lactato a cada 8–12 semanas permitiria documentar objetivamente as melhorias na função mitocondrial e ajustar a prescrição de forma individualizada.

O treinamento de resistência muscular (musculação) é também discutido por San Millán como complemento essencial, especialmente para indivíduos mais velhos e para aqueles com perda de massa muscular associada. As fibras musculares do tipo II, majoritariamente recrutadas no treinamento de força, possuem maior capacidade glicolítica e reserva de glicogênio, e seu desenvolvimento aumenta a capacidade total de armazenamento e utilização de substratos energéticos, contribuindo para a flexibilidade metabólica global.

6. Lactato e Carcinogênese: A Hipótese da Lactagênese e o Efeito Warburg

6.1 O Efeito Warburg e a redescoberta do lactato oncológico

Em 1923, Otto Warburg observou que células cancerígenas apresentam aceleração da glicólise e produção excessiva de lactato mesmo em condições de plena oxigenação, fenômeno subsequentemente denominado Efeito Warburg. Por décadas, essa característica foi interpretada como consequência de disfunção mitocondrial nas células tumorais — um epifenômeno da carcinogênese —, sem que se compreendesse seu papel causal no desenvolvimento e progressão tumoral. O lactato era tratado como o “viajante esquecido ao final da estrada” da glicólise, sem relevância autônoma além de ser o produto de um metabolismo anômalo.

San Millán e Brooks, em artigo de revisão publicado na revista Carcinogenesis em 2017, propuseram uma reinterpretação radical: a produção aumentada de lactato — a lactagênese — não é consequência, mas propósito e explicação do Efeito Warburg. Em outras palavras, as mutações oncogênicas e as alterações em genes supressores de tumor em cânceres glicolíticos estariam coordenadas, de forma altamente orquestrada, para maximizar a produção e o transporte de lactato, que por sua vez seria o agente causal de todas as etapas principais da carcinogênese.

6.2 As cinco etapas da lactagênese

O modelo proposto por San Millán e Brooks identifica cinco etapas sequenciais e interdependentes na lactagênese: (i) aumento da captação de glicose, mediado pela upregulation dos transportadores GLUT1 e GLUT3 pelos fatores de transcrição HIF-1, c-Myc e pela supressão de p53; (ii) aumento da atividade das enzimas glicolíticas, particularmente da LDHA — isoforma A da lactato desidrogenase —, estimulada por HIF-1, c-Myc e pela downregulation de p53; (iii) diminuição da função mitocondrial, principalmente mediada por alterações em p53, que interfere na transcrição da SCO2 (citocromo c oxidase 2) e reduz a capacidade oxidativa celular; (iv) aumento da produção, acúmulo e liberação de lactato como resultado cumulativo das etapas anteriores; e (v) upregulation dos transportadores monocarboxilato MCT1 e MCT4, junto ao seu estabilizador CD147, que facilitam o efluxo de lactato para o microambiente tumoral e sua captação por células vizinhas.

É notável que esse conjunto de alterações — que em primeira análise pode parecer uma série de mutações desconexas — revele, quando analisado integradamente, uma lógica funcional coerente: todas as mudanças convergem para maximizar a produção e distribuição de lactato. A onipresença desse padrão em cânceres glicolíticos, independentemente do tecido de origem, sugere que a lactagênese representa uma vantagem seletiva fundamental para as células transformadas.

6.3 O lactato como mediador de todas as etapas da carcinogênese

O que confere ao lactato seu papel singular na biologia tumoral é a evidência de que ele está envolvido não em uma, mas em todas as etapas principais da carcinogênese. Na angiogênese, o lactato liberado por células tumorais estimula a expressão do fator de crescimento vascular endotelial (VEGF) em células endoteliais, induz a produção de hialuronano no estroma tumoral e ativa vias que promovem a neovascularização. Em experimentos com inibição de LDHA e MCTs, a angiogênese tumoral é marcadamente reduzida, confirmando a dependência do processo em relação ao lactato.

Na migração celular e metástase, o lactato aumenta a motilidade de múltiplas linhagens tumorais de forma dose-dependente, induz a expressão de TGF-β2 em células de glioma — um regulador chave da migração —, e estimula a expressão de MCT1 em células vizinhas, potencialmente convertendo células epiteliais normais em candidatas à transformação maligna. A correlação entre níveis elevados de lactato intratumoral e a incidência de metástase a distância em cânceres de cabeça e pescoço, colo uterino e reto adenocarcinoma está documentada em múltiplos estudos clínicos.

Na evasão imunológica, o lactato exerce efeitos imunosupressores de múltiplos mecanismos: inibe a migração de monócitos e a liberação de citocinas pró-inflamatórias como TNF e IL-6; suprime a ativação e proliferação de linfócitos T, reduzindo a produção de citocinas em até 95% e a atividade citotóxica em 50%; inibe a diferenciação de monócitos em células dendríticas; e suprime a função das células natural killer (NK) tanto diretamente, por inibição da função citolítica, quanto indiretamente, pelo aumento de células supressoras mieloides que inibem a citotoxicidade NK. A acidose extracelular gerada pelo efluxo de lactato e prótons contribui adicionalmente para a imunossupressão, ao dificultar o efluxo de lactato pelos linfócitos T ativados — que, ao se tornarem glicolíticos, também produzem lactato —, elevando sua concentração intracelular e induzindo apoptose.

Na autossuficiência metabólica das células tumorais, o lactato cumpre papel estrutural ao regenerar o NAD+ citoplasmático, cofator indispensável para a continuidade da glicólise. Sem a redução do piruvato a lactato, o acúmulo de NADH interromperia a glicólise por comprometimento da oxidação do gliceraldeído-3-fosfato. O lactato viabiliza assim a sustentação do alto fluxo glicolítico crônico que caracteriza os tumores glicolíticos. Adicionalmente, o lactato pode entrar nas mitocôndrias via mLOC e ser oxidado a piruvato e acetil-CoA, participando do ciclo de Krebs para fins bioenergéticos — evidência de que mesmo as mitocôndrias tumorais, frequentemente descritas como disfuncionais, preservam capacidade de metabolizar lactato.

6.4 Exossomos, recidiva tumoral e lactato como fator de transcrição

San Millán e Brooks ampliam o modelo da lactagênese para além das células tumorais propriamente ditas. O lactato produzido pelos tumores acidifica o microambiente extracelular (pH 5,5–7,0), e esse pH ácido regula a liberação e a captação de exossomos — microvesículas de 30–100 nm que transportam microRNAs oncogênicos, proteínas e enzimas metabólicas. A acidificação promovida pelo lactato aumenta tanto a liberação quanto a captação de exossomos por células receptoras, amplificando o potencial de reprogramação epigenética em células candidatas à transformação.

Quanto ao papel do lactato como regulador transcricional, estudos em células MCF7 incubadas com 10 mmol/L de lactato — concentração fisiologicamente relevante no microambiente tumoral — demonstraram upregulation de aproximadamente 4.131 genes, muitos dos quais relacionados a vias glicolíticas, angiogênicas e imunossupressoras. O lactato ativa o HIF-1 em múltiplas linhagens tumorais, criando um loop de retroalimentação positiva: o HIF-1 estimula a glicólise e a produção de lactato, e o lactato por sua vez ativa o HIF-1, perpetuando e amplificando o fenótipo lactagênico.

No contexto da recidiva tumoral, o lactato demonstrou potencializar a formação de esferas a partir de blebbishields — estruturas formadas pela fusão de blebs apoptóticos de células tumorais que podem originar células-tronco tumorígenas — em 87%, enquanto a inibição com bombas de prótons reduziu essa formação em 80%. Esses dados sugerem que o lactato pode ser um determinante crítico da plasticidade das células-tronco tumorais e da resistência ao tratamento.

6.5 Implicações terapêuticas: bloqueando a lactagênese

A hipótese da lactagênese oferece um mapa metabólico para novas abordagens terapêuticas no câncer. San Millán e Brooks identificam múltiplos alvos potenciais ao longo das cinco etapas: inibição de GLUT1/GLUT3 para reduzir a captação de glicose; inibição de LDHA com oxamato ou RNA de interferência pequena (siRNA) para bloquear a produção de lactato; ativação de PDH com dicloroacetato (DCA) para desviar o fluxo glicolítico para a oxidação mitocondrial; inibição de MCT1 e MCT4 para bloquear o transporte de lactato; e silenciamento de CD147 para reduzir a expressão de MCTs nas membranas celulares.

San Millán menciona no podcast que o exercício aeróbico regular pode exercer um efeito anti-Warburg ao aumentar a função mitocondrial, melhorar a depuração de lactato e potencialmente atenuar a expressão de c-Myc. Estudos epidemiológicos demonstram consistentemente que a atividade física regular reduz o risco de cânceres de mama, cólon, bexiga, útero, esôfago, rim, pulmão e estômago. Embora os mecanismos exatos ainda não sejam completamente elucidados, San Millán hipotetiza que a exposição intermitente e controlada ao lactato durante o exercício — ao contrário da exposição crônica e desregulada que caracteriza o microambiente tumoral — precondicionaria células e tecidos a responderem ao lactato de forma adaptativa, reduzindo a probabilidade de que a lactagênese crônica progrida para carcinogênese.

7. Considerações Finais

A trajetória do lactato, de resíduo metabólico estigmatizado a molécula central da fisiologia, da saúde metabólica e da biologia do câncer, representa uma das mais significativas revisões paradigmáticas da bioquímica e da fisiologia das últimas décadas. O trabalho de Iñigo San Millán, em conjunto com George A. Brooks e outros pesquisadores, estabeleceu uma ponte entre a fisiologia do exercício de alto desempenho e a medicina clínica, demonstrando que as ferramentas utilizadas para otimizar atletas de elite são as mesmas que permitem diagnosticar e tratar disfunções metabólicas em pacientes crônicos.

A mensagem central que emerge do podcast analisado — e que encontra respaldo sólido na literatura científica primária — é que a função mitocondrial é o eixo integrador da saúde humana, e que o lactato é a molécula que mais fidedignamente espelha essa função. O treinamento em Zona 2, ao estimular de forma otimizada a biogênese mitocondrial e a oxidação de gordura, representa uma intervenção terapêutica de baixo custo, alta eficácia e ampla aplicabilidade clínica, com potencial de impacto sobre o diabetes tipo 2, a síndrome metabólica, as doenças cardiovasculares e a prevenção do câncer.

Em oncologia, a hipótese da lactagênese representa uma mudança de perspectiva de consequência para causa: o lactato não é apenas o produto do Efeito Warburg, mas seu propósito. Essa reinterpretação abre novos horizontes para diagnóstico — o lactato e os MCTs como biomarcadores tumorais — e para terapêutica — a inibição das vias lactagênicas como estratégia de tratamento. O exercício físico, ao mesmo tempo que oferece os benefícios sistêmicos do condicionamento aeróbico, pode representar uma intervenção adjuvante no tratamento oncológico ao modular o microambiente metabólico tumoral.

Compreender o lactato em toda sua complexidade biológica — como substrato, sinal, biomarcador e agente patogênico — é, portanto, não apenas um imperativo científico, mas uma necessidade clínica urgente em um cenário epidemiológico dominado pelas doenças crônicas e pelo câncer.

Referências

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