ULTRAENDURANCE MULTISSISTÊMICO EM TRIATHLON: DETERMINANTES PREDITIVOS, DINÂMICA SEXO-IDADE, CARGA DE TREINAMENTO, DISPÊNDIO ENERGÉTICO EXTREMO E RESPOSTAS INFLAMATÓRIAS

por | fev 28, 2026

O Ironman triathlon constitui um dos mais sofisticados modelos aplicados para investigação da fisiologia integrada do exercício prolongado. A combinação sequencial de 3,8 km de natação, 180 km de ciclismo e 42,195 km de corrida impõe um estresse sistêmico que transcende a soma das modalidades isoladas. A literatura acumulada nas últimas décadas permite não apenas identificar determinantes clássicos de desempenho, mas propor um modelo integrado no qual potência aeróbia fracionada, economia locomotora, flexibilidade metabólica, gestão de carga, maturidade etária, dinâmica sexo-idade, declínio funcional ao longo das faixas etárias e resiliência inflamatória interagem de forma dinâmica e hierarquizada.

Do ponto de vista estrutural, o Ironman é uma competição predominantemente aeróbia, porém com flutuações intermitentes de intensidade relacionadas a dinâmica de prova, perfil altimétrico, condições ambientais e estratégia individual. A intensidade média de competição situa-se, para atletas bem treinados, entre limiar aeróbio e limiar anaeróbio, com predominância da zona 2 quando classificada por domínios fisiológicos. Curiosamente, embora a competição ocorra majoritariamente nessa zona, melhores desempenhos têm sido associados a maior volume de treinamento em zona 1 (abaixo do limiar aeróbio), reforçando a lógica de periodização polarizada ou piramidal em eventos ultraendurance. Essa distribuição de intensidade também é corroborada por dados de atletas de elite com carga anual superior a 1300–1500 horas de treinamento (28-32h/semana).

A capacidade aeróbia máxima (V̇O₂máx) constitui determinante essencial, porém não exclusivo, do desempenho. Estudos clássicos demonstraram valores elevados de V̇O₂máx em triatletas, comparáveis aos de especialistas em modalidades isoladas. Entretanto, à medida que a distância aumenta e o nível competitivo se eleva, a correlação direta entre V̇O₂máx e tempo final diminui, deslocando a relevância para variáveis como economia de movimento e fração de utilização do V̇O₂máx. Assim, o Ironman é menos uma competição de potência aeróbia máxima absoluta e mais uma competição de potência sustentável relativa, onde a capacidade de manter elevado percentual do V̇O₂máx por 8 a 15 horas diferencia atletas.

A economia locomotora assume papel determinante. Em modalidades combinadas, adaptações neurais e mecânicas cruzadas influenciam eficiência, particularmente na transição ciclismo–corrida. O ciclismo altera recrutamento muscular, padrão de ativação e rigidez musculotendínea, impactando custo energético subsequente na corrida. Além disso, o formato competitivo (com ou sem vácuo) modifica drasticamente o custo energético do segmento ciclismo, embora no Ironman tradicional (sem vácuo) a demanda seja essencialmente de contra-relógio individual.

Sob a perspectiva metabólica, o Ironman representa desafio extremo ao equilíbrio entre oxidação de carboidratos e lipídios. A taxa absoluta de gasto energético varia substancialmente conforme o nível competitivo, podendo ultrapassar 7.000–8.500 kcal/dia em períodos de treinamento de elite. A magnitude da despesa energética durante competição exige estratégias refinadas de preservação do glicogênio e maximização da oxidação lipídica. O paradoxo metabólico reside no fato de que atletas de maior desempenho apresentam maior taxa absoluta de utilização de carboidratos, mas também maior capacidade de oxidar gordura em intensidades submáximas elevadas, ampliando flexibilidade metabólica.

O estresse fisiológico sistêmico é profundo. Alterações hematológicas pós-prova incluem redução transitória de hemoglobina e hematócrito, com variações de volume plasmático capazes de impactar interpretação do passaporte biológico. A termorregulação, embora tradicionalmente considerada fator limitante em laboratório, demonstra comportamento mais complexo em campo; aumentos moderados de temperatura central não necessariamente se correlacionam com desempenho ou estado de hidratação em condições reais de prova. Isso sugere que mecanismos de autorregulação comportamental e ajustes de ritmo são determinantes críticos. Em relação à saúde geral, embora o Ironman seja relativamente seguro para atletas bem preparados, há risco aumentado de imunossupressão transitória, distúrbios hidroeletrolíticos, estresse oxidativo e eventos cardiovasculares raros, sobretudo durante a natação. O risco de morte súbita em competição é baixo, porém não negligenciável, reforçando a importância de triagem cardiovascular e monitoramento clínico longitudinal.

A compreensão preditiva do desempenho em Ironman evoluiu de modelos simplificados centrados em variáveis isoladas para abordagens multivariadas que integram histórico competitivo, características antropométricas e carga de treinamento. Em triatletas recreacionais, a análise de 184 competidores demonstrou que os melhores tempos pessoais em maratona e em triathlon distância olímpica foram os preditores mais robustos do tempo final no Ironman, explicando 65% da variância do desempenho. A equação proposta, que incorpora linearmente ambas as performances prévias, reforça que o Ironman representa uma continuidade fisiológica do domínio aeróbio sustentado. Percentual de gordura, dobras cutâneas e medidas periféricas mantêm relevância, mas não superam o poder explicativo do desempenho prévio específico, sugerindo que a “história funcional aeróbia” constitui um marcador integrativo de eficiência metabólica e economia locomotora consolidadas ao longo de anos.

A idade de pico de performance no Ironman concentra-se entre aproximadamente 30 e 35 anos, com evidências de que atletas de distâncias mais longas atingem pico mais tardio do que em distâncias olímpicas. Interessantemente, ao longo das últimas décadas, atletas de elite tornaram-se mais velhos e mais rápidos, indicando maturação da modalidade e possível refinamento de métodos de treinamento e suporte científico.

A revisão histórica de 35 anos das variáveis associadas ao desempenho consolidou essa perspectiva, demonstrando que idade entre 30–35 anos, melhores tempos em distância olímpica e maratona, elevado volume de treinamento, baixo percentual de gordura e experiência acumulada figuram de maneira consistente entre os determinantes principais. Essa convergência sugere que o Ironman não é um evento de pico precoce, mas de maturação fisiológica e estratégica. A idade ótima reflete não apenas integridade cardiovascular, mas integração entre eficiência metabólica, economia mecânica, tolerância ao volume elevado e tomada de decisão tática sob fadiga prolongada.

A questão da disponibilidade energética emerge como tema contemporâneo crítico. Ultraendurance combina elevado volume de treino com pressões estéticas e competitivas, aumentando risco de baixa disponibilidade energética e REDs. Em contextos de alto volume crônico, o equilíbrio entre adaptação positiva e maladaptação é tênue. Quanto aos determinantes objetivos de desempenho global, dados de centenas de milhares de atletas indicam que ciclismo e corrida apresentam maior poder preditivo do tempo final que a natação. A correlação entre tempo de ciclismo e resultado final atinge valores superiores a 0,88–0,90 em análises massivas. Essa evidência redefine prioridades estratégicas, especialmente para atletas de faixa etária, nos quais a importância relativa da natação declina com o avanço da idade

Quando a distância é ampliada para ultra-triathlon (Double, Triple, Quintuple Iron e além), observa-se modulação progressiva desses determinantes. A comparação entre Ironman e ultra-triathlon mostra que, embora baixo percentual de gordura permaneça vantajoso, nas distâncias superiores o volume absoluto de treinamento e a experiência acumulada tornam-se ainda mais decisivos, enquanto a velocidade de treino perde parte de sua centralidade. O pico de performance desloca-se levemente para idades entre 35–40 anos, sugerindo que resiliência metabólica, estabilidade autonômica e tolerância ao dano muscular cumulativo ganham peso relativo à medida que a duração aumenta. Em distâncias extremas, corrida e ciclismo assumem maior poder preditivo do que a natação, evidenciando que a economia locomotora sob fadiga crônica torna-se o núcleo da performance.

A análise massiva de 687.696 triatletas de faixa etária entre 2002 e 2022 oferece a mais abrangente caracterização da dinâmica sexo-idade no Ironman contemporâneo. Homens mantêm vantagem em todas as faixas etárias e disciplinas, porém a magnitude da diferença varia conforme o segmento: aproximadamente 12% na natação, 15% no ciclismo e 18% na corrida. A menor diferença na natação pode estar associada a fatores hidrodinâmicos e composição corporal, enquanto a maior diferença na corrida reflete diferenças em potência relativa, massa muscular e economia mecânica sob impacto repetitivo. O padrão em “U” da diferença sexual com o envelhecimento — menor entre 18–24 anos, ampliando progressivamente até 70–74 anos e reduzindo-se novamente em idades muito avançadas para natação e ciclismo — indica interação complexa entre declínio fisiológico, participação relativa, densidade competitiva e seleção biológica das atletas mais resilientes.

A incorporação da análise do declínio do rendimento ao longo das faixas etárias revela que o comportamento temporal do desempenho não é linear. A idade de pico concentra-se entre 30–35 anos, após a qual ocorre declínio inicial discreto entre 35–44 anos, tipicamente inferior a 2% por década, frequentemente compensável por maior experiência estratégica. Entre 45–54 anos, o declínio torna-se moderado (≈3–6% por década), refletindo redução progressiva do VO₂máx e da potência máxima sustentável. Entre 55–64 anos observa-se aceleração (≈6–10% por década), com maior impacto da perda de potência muscular e deterioração da economia de corrida. Após 65 anos, o declínio torna-se mais pronunciado (≈10–15% por década), com variabilidade interindividual crescente. Esse comportamento é disciplina-específico: o ciclismo apresenta menor taxa de declínio relativo; a natação declina de forma moderada e parcialmente compensável por técnica; a corrida demonstra maior sensibilidade ao envelhecimento, tornando-se progressivamente o segmento limitante.

Nesse contexto, as considerações para o rendimento feminino acima de 60 anos adquirem importância singular. Mulheres ≥60 anos enfrentam aceleração do declínio do VO₂máx (≈7–10% por década), associada a alterações hormonais pós-menopausa e redução de massa muscular. Entretanto, a fração utilizável do VO₂máx pode permanecer relativamente preservada em atletas treinadas, favorecendo desempenho sustentado em intensidades submáximas. O principal limitador funcional passa a ser a potência muscular e a economia de corrida, impactadas por sarcopenia, redução de fibras tipo II e menor rigidez musculotendínea. O ciclismo emerge como disciplina mais “age-friendly”, enquanto a corrida se torna o segmento crítico, tanto pelo custo metabólico quanto pelo maior risco de lesão associado a picos de carga. A natação mantém vantagem técnica relativa e menor impacto excêntrico, explicando a redução da diferença sexual nesse segmento em idades ≥75 anos.

Do ponto de vista metabólico, mulheres masters ≥60 anos podem apresentar relativa vantagem na oxidação lipídica em intensidades submáximas, característica particularmente relevante em provas predominantemente realizadas em zona 2. Contudo, a recuperação tende a ser mais lenta e o controle da carga torna-se determinante. A literatura sobre gestão de carga demonstra que aumentos abruptos (>10–15%) elevam risco de lesão, sendo particularmente críticos na corrida. Assim, manutenção de treinamento de força para preservação de potência, estabilidade de carga semanal e distribuição predominantemente piramidal continuam sendo princípios estruturantes, inclusive nessa faixa etária.

A fisiologia energética do Ironman representa talvez sua dimensão mais emblemática. O estudo longitudinal de um campeão olímpico e mundial demonstrou gastos energéticos diários entre 7.019 e 8.506 kcal, sustentados por volumes anuais superiores a 1.300–1.480 horas de treinamento. Esses valores excedem o chamado “teto metabólico” proposto pelo modelo de constrained total energy expenditure. A constatação de que mais de 50% do período trienal apresentou volumes comparáveis aos medidos por água duplamente marcada indica que tais níveis não foram episódicos, mas estruturalmente sustentados, sugerindo expansão adaptativa do limite energético humano por meio de eficiência mecânica, adaptações intestinais e refinamento da absorção energética.

O modelo de constrained total energy expenditure (TEE) propõe que o gasto energético total humano não aumenta de forma linear e indefinida com o aumento da atividade física. Segundo essa hipótese, à medida que o volume de exercício cronicamente se eleva, o organismo compensa reduzindo outros componentes do gasto energético — como atividade espontânea não relacionada ao exercício, funções reprodutivas, processos inflamatórios e até taxa metabólica basal — de modo a manter o gasto total dentro de um limite fisiológico relativamente estável. Esse limite tem sido estimado em torno de 2,5 vezes a taxa metabólica basal (BMR) para esforços sustentados por longos períodos. Assim, mesmo que o indivíduo treine mais, o corpo redistribui energia internamente em vez de permitir que o gasto total aumente indefinidamente. Os dados recentes em triatletas de elite, com gastos diários superiores a 7.000–8.500 kcal mantidos por períodos prolongados, sugerem que atletas altamente adaptados podem ultrapassar esse suposto teto metabólico, questionando a universalidade do modelo e indicando que a capacidade humana de sustentar elevados níveis de gasto energético podem ser maior do que previamente assumido.

A distribuição da intensidade de treinamento segue padrão predominantemente piramidal ou polarizado, com cerca de 70–80% do volume em baixa intensidade. Contudo, a quantificação da carga permanece controversa. Métodos tradicionais como TRIMP e session-RPE não são intercambiáveis com abordagens baseadas em exaustão, produzindo interpretações distintas da sobrecarga. Em modalidades de alto volume como o Ironman, a escolha metodológica influencia diretamente a interpretação do estresse acumulado.

A dimensão comportamental revela que treinadores das faixas etárias frequentemente não utilizam plenamente as métricas disponíveis para ajustar carga, e que picos superiores a 30% na corrida associam-se a maior incidência de lesão. Essa constatação é particularmente relevante para atletas ≥60 anos, nas quais a integridade musculotendínea e a capacidade de recuperação são mais vulneráveis.

O estresse inflamatório sistêmico constitui eixo adicional do modelo integrativo. No Ultraman Florida, observou-se aumento de 13 vezes na proteína C-reativa, enquanto IL-6 e IL-10 retornaram rapidamente a níveis basais. A ausência detectável de IL-17 e IL-23 sugere adaptação intestinal protetora em atletas treinados. A correlação positiva entre IL-10 pós-prova e tempo final indica que respostas anti-inflamatórias mais pronunciadas associam-se a maior tempo de conclusão, possivelmente refletindo maior dano muscular acumulado.

A integração desses eixos permite propor um modelo hierárquico de desempenho no Ironman: no primeiro nível, histórico competitivo específico prediz grande parte da variância; no segundo, maturidade etária e experiência modulam eficiência estratégica; no terceiro, composição corporal e baixo percentual de gordura reduzem custo energético relativo; no quarto, elevado volume predominantemente em baixa intensidade sustenta adaptações mitocondriais profundas; no quinto, gestão refinada de carga evita picos abruptos associados a lesão; no sexto, resiliência inflamatória e intestinal permite suportar estresse sistêmico extremo; e, transversalmente, o declínio etário disciplina-específico e as particularidades do rendimento feminino ≥60 anos modulam o desempenho de forma progressiva e não linear.

O Ironman emerge, portanto, como um modelo biológico de integração metabólica, mecânica e imunológica ao longo do curso de vida atlético. Ele demonstra que o desempenho de ultraendurance não é determinado exclusivamente por VO₂máx absoluto, mas pela capacidade de sustentar elevada fração desse máximo por horas, preservar economia locomotora sob fadiga, modular carga de treinamento estrategicamente, expandir limites energéticos historicamente considerados intransponíveis e adaptar-se ao declínio fisiológico inerente ao envelhecimento. A convergência das evidências analisadas indica que o limite humano no ultraendurance permanece plástico e dependente da interação entre treinamento, idade, sexo, estratégia e adaptação biológica sistêmica.

REFERÊNCIAS

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SMITH, K. A. et al. Ultra-endurance triathlon performance and markers of whole-body and gut-specific inflammation. European Journal of Applied Physiology, 2019.

Imagem destacada: By Jürgen Matern / Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=133944131