TRPV1, Capsaicina e Plasticidade Metabólica no Endurance: Bases Evolutivas, Mecanismos Moleculares e Implicações Ergogênicas

por | fev 24, 2026

A capsaicina, alcaloide fenólico responsável pela pungência das pimentas do gênero Capsicum, representa um modulador nutricional singular capaz de integrar sinais ambientais — térmicos, químicos e metabólicos — a respostas adaptativas sistêmicas. Seu principal alvo molecular é o canal iônico TRPV1 (Transient Receptor Potential Vanilloid 1), um canal catiônico não seletivo altamente permeável ao Ca²⁺, expresso em neurônios sensoriais, endotélio, músculo esquelético e tecido adiposo. A ativação do TRPV1 pela capsaicina desencadeia influxo de cálcio, modulando cascatas intracelulares que convergem para AMPK, CaMKII, p38 MAPK, Akt/mTOR e PGC-1α, configurando um eixo regulador central da bioenergética mitocondrial e da plasticidade metabólica. A compreensão integrada desses mecanismos permite situar a capsaicina não apenas como agente termogênico ou analgésico, mas como modulador potencial do rendimento em endurance, embora com efeitos dependentes de contexto fisiológico, dose e fenótipo do atleta.

Do ponto de vista evolutivo, o TRPV1 surgiu como sensor de calor e nocicepção, permitindo a detecção de temperaturas acima de 43°C e compostos irritantes. Contudo, a expressão do TRPV1 em tecidos de alta taxa metabólica sugere coaptação funcional para regulação energética. Evidências demonstram que o TRPV1 encontra-se localizado no retículo sarcoplasmático do músculo esquelético, onde sua ativação promove liberação de Ca²⁺ intracelular, elemento central para a transdução de sinais que regulam biogênese mitocondrial e remodelamento de fibras musculares. O aumento sustentado de Ca²⁺ ativa CaMKII e p38 MAPK, culminando na indução de PGC-1α, o principal coativador transcricional da biogênese mitocondrial. Modelos murinos demonstram que a ativação crônica do TRPV1 por capsaicina aumenta a expressão de genes associados à oxidação de ácidos graxos, eleva o conteúdo mitocondrial, favorece a transição de fibras glicolíticas para fibras oxidativas e melhora significativamente a resistência ao exercício.

No nível celular, estudos em miotubos C2C12 mostram que a capsaicina ativa CAMKK2 e AMPK independentemente da sinalização insulínica, aumentando a oxidação de glicose e a produção de ATP. A ativação da AMPK promove um “switch” metabólico de vias anabólicas para catabólicas, estimulando captação de glicose, β-oxidação, biogênese mitocondrial e maior eficiência energética. Esse mecanismo é particularmente relevante em endurance, onde a capacidade de manter elevada taxa de produção de ATP aeróbio determina a tolerância ao esforço prolongado. A modulação negativa de ERK1/2 observada após ativação do TRPV1 também pode contribuir para redução do estresse reticular e melhoria da sensibilidade metabólica, favorecendo a homeostase durante exercício prolongado.

Além do músculo, o TRPV1 exerce papel vascular crítico. Em artérias de alimentação do músculo esquelético humano, a ativação do TRPV1 por capsaicina atenua a vasoconstrição mediada por receptores α-adrenérgicos e potencializa vasodilatação dependente do endotélio, em parte via eNOS. Esse efeito pode contribuir para a chamada “simpatólise funcional” durante exercício, favorecendo perfusão muscular e oferta de oxigênio. A variabilidade interindividual na resposta pressórica ao exercício associa-se a polimorfismos no gene TRPV1, sugerindo que diferenças genéticas modulam a intensidade do reflexo pressor metabólico, o que tem implicações diretas na resposta hemodinâmica ao endurance.

No âmbito do desempenho, a literatura humana apresenta resultados heterogêneos. Revisões sistemáticas indicam que capsaicina ou capsinoides exercem efeito consistente sobre resistência muscular localizada, com redução da percepção de esforço, mas evidência limitada ou inconsistente sobre endurance aeróbio. Ensaios clínicos em corrida de 10 km não demonstraram melhora significativa no tempo de prova após suplementação aguda com capsiato. Meta-análise recente confirma ausência de efeito robusto em testes aeróbios contínuos, embora reconheça possíveis benefícios em protocolos intermitentes ou de alta intensidade. Esses achados sugerem que a magnitude do efeito ergogênico depende do perfil metabólico da tarefa: exercícios predominantemente glicolíticos parecem responder mais consistentemente à modulação do TRPV1 do que atividades estritamente aeróbias.

Mecanisticamente, a atenuação da fadiga neuromuscular pode envolver modulação do manuseio intracelular de Ca²⁺. Evidências indicam que a capsaicina pode influenciar a cinética de relaxamento muscular possivelmente via SERCA, reduzindo a queda do twitch pós-exercício. Paralelamente, a ativação do TRPV1 interage com mTOR, Akt e AMPK, integrando sinais energéticos e de crescimento celular. Essa convergência sinalizadora posiciona o TRPV1 como nodo regulador entre metabolismo, angiogênese e sobrevivência celular, inclusive em interação com eritropoietina, potencialmente influenciando adaptações hematológicas ao treinamento.

Aspectos hormonais também merecem consideração. Evidências recentes indicam que a capsaicina pode aumentar a afinidade do receptor de estrogênio (ESR1) por seu ligante, o que poderia modular expressão de transportadores de glicose e metabolismo energético de maneira sexo-dependente. Tal mecanismo pode contribuir para diferenças observadas entre homens e mulheres na resposta ao suplemento, embora seus impactos específicos no endurance ainda careçam de investigação direcionada.

Integradamente, os dados experimentais sustentam que a ativação crônica do TRPV1 promove remodelamento mitocondrial, aumento da capacidade oxidativa e melhoria da eficiência metabólica, especialmente em modelos animais. Contudo, a tradução desses efeitos para humanos treinados apresenta limitações, possivelmente relacionadas à dose, biodisponibilidade, adaptação prévia ao treinamento e dessensibilização do TRPV1 após exposição repetida. A dessensibilização, fenômeno clássico do receptor após estímulo prolongado, pode reduzir o efeito agudo e deve ser considerada em protocolos de suplementação crônica.

Em síntese, a capsaicina emerge como modulador metabólico multifacetado, cuja ativação do TRPV1 integra influxo de Ca²⁺, ativação de AMPK/CaMKII/p38, indução de PGC-1α, aumento da biogênese mitocondrial e modulação vascular endotelial. Esses mecanismos sustentam plausibilidade biológica para melhoria da eficiência energética e da tolerância ao esforço prolongado. Entretanto, evidências clínicas indicam que os efeitos ergogênicos no endurance aeróbio são modestos ou dependentes do contexto, contrastando com benefícios mais consistentes em resistência muscular e exercícios de potência. A heterogeneidade genética, o estado metabólico basal e o padrão de treinamento parecem ser determinantes críticos da responsividade ao estímulo TRPV1. Investigações futuras devem explorar protocolos crônicos, interação com treinamento de endurance e estratificação por genótipo para elucidar plenamente o potencial ergogênico da capsaicina.

Referências

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Crédito da imagem destacada: from https://runningmagazine.ca/health-nutrition/can-eating-hot-peppers-improve-endurance-performance/