SUCO DE CEREJA ÁCIDA (Prunus cerasus L.) COMO MODULADOR REDOX-INFLAMATÓRIO, VASOATIVO E CRONOBIOLÓGICO: IMPLICAÇÕES PARA O RENDIMENTO EM ENDURANCE E PARA A TERAPÊUTICA CARDIOMETABÓLICA

por | fev 24, 2026

A fisiologia do exercício de endurance impõe um paradoxo biológico central: a mesma elevação sustentada do fluxo oxidativo mitocondrial que viabiliza a ressíntese de ATP em altas taxas é também responsável por amplificar a geração de espécies reativas de oxigênio (ROS) e nitrogênio (RNS), com potencial de perturbar o equilíbrio redox, comprometer a sinalização contrátil dependente de cálcio e desencadear cascatas inflamatórias sistêmicas. A literatura reunida nos estudos experimentais e revisões aqui considerados converge para a hipótese de que o suco concentrado de cereja ácida Montmorency (Prunus cerasus L.) atua como modulador fino desse eixo redox–inflamação–vasodilatação, com repercussões diretas sobre desempenho em provas contra-relógio, recuperação funcional e possivelmente sobre parâmetros cardiometabólicos.

Do ponto de vista fitoquímico, as cerejas ácidas destacam-se pela elevada concentração de antocianinas, sobretudo cianidina-3-glicosilrutinosídeo e cianidina-3-rutinosídeo, cujas propriedades antioxidantes e inibitórias da ciclooxigenase (COX-1 e COX-2) foram demonstradas in vitro, com potência comparável a anti-inflamatórios não esteroidais em determinadas condições experimentais. A atividade antioxidante dessas antocianinas mostrou-se superior à da vitamina E em modelos de peroxidação lipídica, reforçando seu potencial de interferir na oxidação de lipídios de membrana e na propagação de radicais livres. Em humanos submetidos a exercício intenso e repetido, a suplementação com concentrado de cereja Montmorency atenuou marcadores de estresse oxidativo, como hidroperóxidos lipídicos (LOOH), e modulou citocinas pró-inflamatórias, incluindo IL-6 e hsCRP, sugerindo impacto direto na fase inicial da resposta inflamatória ao exercício. Esses achados são consistentes com o racional bioquímico de que polifenóis, ao quelarem metais de transição e neutralizarem radicais, preservam a integridade de proteínas contráteis e enzimas mitocondriais, ao mesmo tempo em que modulam vias de sinalização dependentes de NF-κB e MAPKs.

No contexto do endurance competitivo, o interesse transcende a recuperação e incide sobre o desempenho agudo. Em ciclistas treinados, sete dias de suplementação com pó de cereja Montmorency (≈257 mg/dia de antocianinas) reduziram significativamente o tempo em um contrarrelógio de 15 km (≈4,6% de melhora), acompanhados por maior índice de oxigenação tecidual no vasto lateral, mensurado por espectroscopia no infravermelho próximo. A elevação do índice de oxigenação muscular sugere melhora na relação entre oferta e extração de O₂, possivelmente mediada por efeitos vasoativos dos metabólitos fenólicos. Em estudo subsequente que investigou o momento ótimo de ingestão, a administração do concentrado ~90 minutos antes do exercício promoveu a maior elevação de metabólitos fenólicos plasmáticos (como ácido ferúlico e vanílico) e resultou em melhora de ~2,8% no desempenho em 15 km, com efeito mais pronunciado em ciclistas treinados. A ausência de alterações consistentes em nitrito/nitrato plasmáticos sugere que o mecanismo não se limita ao eixo clássico nitrato–NO, mas pode envolver aumento da biodisponibilidade de NO via redução de sua inativação por superóxido, preservando a sinalização vasodilatadora dependente de GMPc.

Adicionalmente, em corredores treinados submetidos a meia-maratona, a suplementação com cereja em pó associou-se a tempos médios de prova ~13% mais rápidos, com menor elevação de marcadores catabólicos (creatinina, ureia, cortisol) e maior atividade antioxidante no período de recuperação. Embora o desenho não permita dissociar completamente efeito ergogênico direto de melhor tolerância ao estresse fisiológico, o conjunto de dados aponta para manutenção mais eficiente da homeostase redox e atenuação do dano muscular secundário. A metanálise recente sobre dano muscular induzido por exercício confirma melhora na contração voluntária máxima e redução de IL-6 e IL-8 com suplementação de suco de cereja, ainda que sem efeito robusto sobre CK ou dor percebida, sugerindo que a ação anti-inflamatória pode preceder alterações estruturais detectáveis por enzimas musculares.

É crucial, entretanto, reconhecer a heterogeneidade metodológica. Em estudo comparativo recente entre suco de cereja e bebida esportiva de alto índice glicêmico, não se observaram diferenças em desempenho ou recuperação em ciclistas recreacionais. Essa discrepância pode refletir diferenças na dose polifenólica, no status de treinamento (menor sensibilidade ergogênica em indivíduos menos treinados), na matriz comparativa (carboidrato de alto IG com potencial efeito ergogênico próprio) ou na duração do protocolo. A revisão narrativa que introduz o conceito de “precovery” enfatiza que os efeitos mais consistentes sobre função muscular emergem quando a suplementação é iniciada vários dias antes do insulto, e não apenas após o exercício. Essa temporalidade reforça a hipótese de que a modulação do ambiente redox basal e da resposta inflamatória inicial é determinante para os benefícios subsequentes.

No plano imunológico e respiratório, a ingestão de suco de cereja antes e após maratona reduziu elevação de PCR e preveniu sintomas de trato respiratório superior nas 48 h subsequentes, o que pode ser interpretado como atenuação da inflamação mucosal associada à hiperventilação prolongada e ao estresse oxidativo sistêmico. Considerando que cargas elevadas de treinamento de endurance aumentam produção de ROS e modulam a função imune, a cereja ácida pode atuar como modulador estratégico em períodos de competição multietapas, nos quais a preservação da função imune e da integridade endotelial é crítica.

Um componente adicional relevante ao atleta de endurance é o sono. A ingestão de concentrado de cereja aumentou a excreção urinária de 6-sulfatoximelatonina e melhorou parâmetros objetivos de duração e eficiência do sono. Dado que a secreção de melatonina regula temperatura central noturna, ritmo circadiano e processos de recuperação tecidual, a melhora do sono pode amplificar indiretamente a adaptação e o desempenho subsequente, integrando um eixo cronobiológico à resposta ergogênica.

Sob a perspectiva cardiometabólica, os mecanismos observados no contexto esportivo possuem plausível extrapolação terapêutica. A inibição de COX, a redução de IL-6 e hsCRP, e a capacidade antioxidante superior das antocianinas sugerem potencial para modular inflamação crônica de baixo grau, elemento central na fisiopatologia da aterosclerose, resistência à insulina e disfunção endotelial. A possível melhora da biodisponibilidade de NO e da função vascular, inferida pelos dados de oxigenação muscular, reforça essa hipótese. Entretanto, a magnitude e a sustentabilidade desses efeitos em populações com doença estabelecida requerem ensaios clínicos de maior duração e rigor metodológico.

Em síntese, a evidência acumulada indica que o suco de cereja ácida Montmorency, quando administrado em dose e janela temporal adequadas, atua como modulador multimodal: atenua estresse oxidativo e inflamação, preserva função contrátil, potencializa a oxigenação muscular e pode melhorar o desempenho em provas de endurance, especialmente em atletas treinados. A integração de efeitos redox, vasculares e cronobiológicos oferece uma explicação coerente para o fato de ciclistas profissionais consumirem suco de cereja no período competitivo, não apenas como estratégia de recuperação, mas como intervenção prévia que otimiza o terreno fisiológico sobre o qual o desempenho se constrói.

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Imagem destacada: Crédito “ENERVIT” from https://www.cyclingnews.com/news/tour-de-france-cyclists-keep-drinking-cherry-juice-at-the-finish-line-heres-why/