Sódio, homeostase hidroeletrolítica e desempenho em esportes de endurance e ultraendurance: integração fisiológica, evidências experimentais e implicações práticas

por | fev 1, 2026

A manutenção da homeostase hidroeletrolítica durante o exercício prolongado representa um dos maiores desafios fisiológicos impostos ao organismo humano em contextos de endurance e, de forma ainda mais pronunciada, em eventos de ultraendurance. A combinação de exercício contínuo, estresse térmico, sudorese prolongada e ingestão voluntária de fluidos desencadeia um complexo conjunto de respostas integradas envolvendo os sistemas nervoso central, cardiovascular, renal, endócrino e tegumentar. Nesse contexto, o sódio ocupa posição central, não apenas como principal cátion do compartimento extracelular, mas como determinante crítico da osmolaridade plasmática, do volume intravascular, da excitabilidade neuromuscular e da regulação da sede. Apesar disso, a prática amplamente disseminada de suplementação de sódio durante provas prolongadas tem sido sustentada mais por pressupostos fisiológicos teóricos e por marketing esportivo do que por evidências empíricas robustas de benefício ergogênico.

Do ponto de vista fisiológico, a sudorese constitui o principal mecanismo de dissipação de calor durante o exercício, sendo mediada por centros termorregulatórios hipotalâmicos que integram sinais aferentes de termorreceptores centrais e periféricos. A ativação das glândulas écrinas ocorre predominantemente via fibras simpáticas colinérgicas, com liberação de acetilcolina e ativação de receptores muscarínicos nas células claras do túbulo secretor. Esse estímulo desencadeia cascatas intracelulares dependentes de cálcio, promovendo a ativação de cotransportadores Na⁺-K⁺-2Cl⁻ na membrana basolateral, canais de Cl⁻ apicais e bombas Na⁺/K⁺-ATPase, resultando na formação do suor primário isotônico ao plasma. À medida que esse fluido percorre o ducto sudoríparo, ocorre reabsorção significativa de sódio e cloreto, tornando o suor final hipotônico, embora ainda contenha quantidades substanciais de eletrólitos, cuja concentração varia amplamente entre indivíduos e condições ambientais.

A perda cumulativa de sódio no suor pode atingir valores elevados em exercícios de longa duração, especialmente em ambientes quentes, podendo ultrapassar 3 a 4 gramas em eventos de ultraendurance. No entanto, o organismo dispõe de mecanismos homeostáticos altamente eficientes para preservar a concentração sérica de sódio dentro de uma faixa estreita, tipicamente entre 135 e 145 mmol/L. Esses mecanismos incluem ajustes renais mediados por aldosterona e vasopressina, alterações no apetite por sal, redistribuição de sódio entre compartimentos corporais e, conforme evidências mais recentes, armazenamento e liberação de sódio em tecidos como pele, músculo e osso, de forma parcialmente independente da água corporal total. Tais adaptações questionam a noção simplista de que a perda de sódio pelo suor, por si só, conduziria inevitavelmente à hiponatremia ou ao declínio de desempenho na ausência de suplementação eletrolítica.

As evidências experimentais e observacionais provenientes de estudos de campo em provas reais de endurance e ultraendurance são notavelmente consistentes ao demonstrar a ausência de associação significativa entre a ingestão de sódio e o desempenho competitivo. Estudos prospectivos envolvendo centenas de ultramaratonistas mostram que a taxa de ingestão de sódio, mesmo quando ajustada ao peso corporal e expressa em mg·kg⁻¹·h⁻¹, não se correlaciona com ritmo médio, tempo total de prova ou posição final na classificação. No estudo WASSUP, conduzido em ultramaratonas de múltiplos estágios em diferentes continentes, a ingestão de sódio variou amplamente entre os atletas, sem qualquer impacto detectável sobre o desempenho, mesmo quando a análise foi restrita a corredores normonatrêmicos. De forma ainda mais reveladora, atletas que apresentaram maior perda de massa corporal, refletindo desidratação relativa, exibiram desempenho superior em comparação àqueles que terminaram a prova euhidratados ou hiperidratados.

Esses achados são reforçados por estudos clássicos em ultramaratonas de 161 km, nos quais a incidência de hiponatremia associada ao exercício mostrou-se fortemente relacionada à sobrecarga hídrica e não à baixa ingestão de sódio. A quase totalidade dos atletas que desenvolveram hiponatremia apresentou ganho ou mínima perda de peso corporal, indicando consumo excessivo de fluidos diluídos, enquanto a taxa de ingestão de sódio não diferiu entre atletas normonatrêmicos e hiponatrêmicos. Esses dados sustentam de forma inequívoca a noção de que a hiponatremia associada ao exercício é primariamente um distúrbio de balanço hídrico, e não de deficiência de sódio, sendo a sobreidratação o principal fator causal.

No que se refere à termorregulação e à função cardiovascular, estudos controlados em laboratório demonstram que a suplementação oral de sódio em doses elevadas durante exercício prolongado não promove melhorias na taxa de sudorese, na temperatura cutânea, no drift cardiovascular, na percepção de esforço ou no tempo até a exaustão. Ensaios cruzados, duplo-cegos, em atletas treinados mostram que a ingestão de aproximadamente 1800 mg de sódio ao longo de duas horas de exercício a intensidade moderada não altera parâmetros termorregulatórios nem o desempenho subsequente, apesar de elevar a osmolaridade plasmática e a sensação subjetiva de sede. Mecanisticamente, o aumento da osmolaridade plasmática pode, inclusive, elevar o limiar térmico para o início da sudorese e da vasodilatação cutânea, potencialmente prejudicando a dissipação de calor em determinadas condições.

Ensaios randomizados em ciclistas bem treinados, realizados em ambientes de temperatura amena, corroboram esses achados ao demonstrar que a suplementação de sódio não melhora o desempenho em provas contrarrelógio de aproximadamente três horas, nem previne alterações na concentração plasmática de sódio quando a ingestão de água é ad libitum. Embora pequenas diferenças no volume plasmático tenham sido observadas, essas não se traduziram em vantagens funcionais ou ergogênicas mensuráveis.

As revisões sistemáticas e narrativas mais recentes convergem para uma interpretação integrativa segundo a qual o papel do sódio no exercício de endurance deve ser compreendido dentro de um modelo dinâmico de balanço hídrico, e não como um suplemento ergogênico isolado. A ênfase excessiva na reposição de sódio, dissociada de uma estratégia adequada de ingestão de fluidos guiada pela sede, pode aumentar inadvertidamente o risco de sobreidratação, hiponatremia e complicações clínicas potencialmente fatais. Por outro lado, a desidratação leve a moderada, frequentemente observada em atletas de melhor desempenho, parece ser fisiologicamente tolerável e, em muitos contextos, compatível com desempenho ótimo, especialmente em eventos de longa duração.

Em síntese, a análise integrada dos artigos examinados demonstra que, embora o sódio seja essencial para a manutenção da homeostase fisiológica, sua suplementação durante exercícios de endurance e ultraendurance não apresenta evidências consistentes de benefício sobre o desempenho, a termorregulação ou a prevenção de hiponatremia quando considerada de forma isolada. Os mecanismos regulatórios endógenos do organismo humano mostram-se altamente eficazes em preservar a concentração sérica de sódio, mesmo diante de perdas substanciais pelo suor. Assim, as estratégias contemporâneas de hidratação em esportes de endurance devem priorizar o equilíbrio entre ingestão hídrica e perdas corporais, com ênfase na prevenção da sobreidratação, na escuta dos sinais fisiológicos de sede e na individualização das recomendações, em detrimento de protocolos rígidos e universais de suplementação eletrolítica.

Referências

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