SÓDIO, HOMEOSTASE E DESEMPENHO HUMANO: UMA REVISÃO INTEGRATIVA DOS FUNDAMENTOS EVOLUTIVOS, FISIOLÓGICOS, VASCULARES E APLICADOS AO EXERCÍCIO DE ENDURANCE

por | jan 31, 2026

Aspectos evolutivos da homeostase do sódio, da água e da pressão arterial

A fisiologia humana contemporânea reflete um legado evolutivo profundamente moldado por ambientes ancestrais caracterizados por escassez crônica de sódio, disponibilidade intermitente de água e elevada exigência de esforço físico prolongado. A transição dos vertebrados do ambiente aquático para o terrestre, ocorrida há aproximadamente 400 milhões de anos, representou um marco crítico na evolução dos sistemas regulatórios de volume e osmolaridade, uma vez que a perda contínua de água e eletrólitos passou a ameaçar diretamente a estabilidade do meio interno. Nesse contexto, a seleção natural favoreceu organismos capazes de conservar agressivamente sódio e água, mantendo a perfusão tecidual mesmo em condições de desidratação relativa e ingestão eletrolítica mínima.

Na linhagem dos hominíneos, essa pressão seletiva foi intensificada pela adoção de estratégias de locomoção bípede e pela caça de persistência, que impunha longos períodos de exercício aeróbio em ambientes quentes. A sudorese profusa, característica distintiva da espécie humana, conferiu vantagem termorregulatória decisiva, permitindo dissipação eficiente de calor durante o esforço prolongado. No entanto, essa mesma adaptação acarretou perdas significativas de água e sódio, reforçando a necessidade de mecanismos homeostáticos altamente eficientes. Como consequência, sistemas hormonais como o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), os eixos vasopressinérgicos e os circuitos neurais da sede tornaram-se fortemente redundantes, sensíveis e hierarquizados, priorizando a manutenção do volume circulante e da concentração sérica de sódio acima de praticamente qualquer outro parâmetro fisiológico.

Do ponto de vista evolutivo, é fundamental compreender que o organismo humano não foi selecionado para operar em um ambiente de abundância crônica de sódio, como ocorre nas sociedades modernas. Ao contrário, a fisiologia humana é otimizada para um contexto de ingestão diária muito baixa de sal, provavelmente inferior a 1 g/dia, associada a perdas sudorais frequentes. Essa discrepância entre o ambiente ancestral e o ambiente moderno ajuda a explicar por que mecanismos que foram adaptativos ao longo da evolução tornam-se potencialmente mal-adaptativos no presente, contribuindo para hipertensão, disfunção endotelial e aumento do risco cardiovascular quando expostos a ingestões elevadas e contínuas de sódio.

Regulação do sódio e o sistema renina-angiotensina-aldosterona

A homeostase do sódio e da água é mantida por uma complexa integração entre sensores centrais e periféricos, comportamento ingestivo, respostas autonômicas e regulação renal fina. Pequenas variações na osmolaridade plasmática, da ordem de 1–2%, são detectadas por osmorreceptores localizados principalmente no hipotálamo anterior, desencadeando ajustes quase imediatos na sede e na secreção de vasopressina. Em paralelo, alterações no volume efetivo circulante são detectadas por barorreceptores arteriais de alta pressão (seio carotídeo e arco aórtico) e de baixa pressão (átrios e circulação pulmonar), modulando a atividade simpática e a liberação de renina.

O sistema renina-angiotensina-aldosterona constitui o eixo central dessa regulação volumétrica. A renina, uma aspartil-protease sintetizada pelas células justaglomerulares do rim, é liberada em resposta à redução da pressão de perfusão renal, à diminuição da entrega de sódio à mácula densa e à ativação simpática β1-adrenérgica. A renina cliva o angiotensinogênio hepático formando angiotensina I, que é convertida em angiotensina II pela enzima conversora de angiotensina (ECA), expressa principalmente no endotélio pulmonar.

A angiotensina II exerce múltiplos efeitos coordenados: promove vasoconstrição sistêmica aumentando a resistência periférica, estimula a secreção de aldosterona pela zona glomerulosa da adrenal, aumenta a liberação de vasopressina, intensifica a sede e estimula diretamente a reabsorção de sódio no túbulo proximal. A aldosterona, por sua vez, atua no túbulo distal e no ducto coletor renal, aumentando a expressão e a atividade dos canais epiteliais de sódio (ENaC) e da Na⁺/K⁺-ATPase, promovendo retenção de sódio e expansão do volume extracelular.

Esse sistema apresenta ainda braços contrarregulatórios, como o eixo ECA2/angiotensina-(1–7)/receptor Mas, que exerce efeitos vasodilatadores, anti-inflamatórios e antifibróticos, modulando a atividade do eixo clássico. A existência desses braços reforça que o SRAA não é um sistema linear, mas uma rede adaptativa complexa, moldada para manter a homeostase em condições ambientais altamente variáveis.

Durante o exercício prolongado, apesar das perdas sudorais significativas, a concentração sérica de sódio tende a permanecer notavelmente estável, evidenciando a eficácia desses mecanismos. A redução da excreção renal de sódio, a redistribuição entre compartimentos corporais e o armazenamento não osmótico em tecidos como pele e músculo permitem que o organismo tolere grandes perdas absolutas sem colapso eletrolítico.

Consumo excessivo de sódio, função endotelial e risco cardiovascular

Embora o sódio seja essencial à vida, seu consumo cronicamente elevado impõe desafios significativos à fisiologia vascular. Evidências experimentais e clínicas demonstram que dietas ricas em sódio comprometem a função endotelial de forma independente da pressão arterial, afetando diretamente a saúde cardiovascular. O endotélio vascular desempenha papel central na regulação do tônus arterial, na inibição da agregação plaquetária, na modulação inflamatória e na homeostase redox, sendo altamente sensível a alterações no ambiente iônico.

O principal mecanismo pelo qual o excesso de sódio prejudica a função endotelial envolve a redução da biodisponibilidade de óxido nítrico. O aumento da ingestão de sódio ativa a NADPH oxidase, elevando a produção de espécies reativas de oxigênio, especialmente o ânion superóxido, que reage rapidamente com o óxido nítrico formando peroxinitrito. Esse processo reduz a vasodilatação dependente do endotélio e promove oxidação da tetraidrobiopterina, levando ao desacoplamento da óxido nítrico sintase endotelial e à produção adicional de radicais livres.

Além disso, o excesso de sódio danifica o glicocálix endotelial, uma camada rica em proteoglicanos que atua como sensor mecânico do estresse de cisalhamento. A degradação do glicocálix aumenta a rigidez da membrana endotelial, prejudica a mecanotransdução do fluxo e facilita a penetração de sódio na célula, amplificando a disfunção endotelial. Esses efeitos ocorrem mesmo em indivíduos jovens, normotensos e considerados resistentes ao sal, indicando que o impacto vascular do sódio não depende exclusivamente da elevação da pressão arterial.

 Suplementação de sódio no esporte de endurance: evidências, mitos e riscos

A suplementação de sódio tornou-se prática quase universal em esportes de endurance e ultraendurance, frequentemente justificada pela crença de que preveniria desidratação, hiponatremia, hipertermia e queda de desempenho. No entanto, a análise sistemática da literatura revela ausência consistente de evidências que sustentem tais benefícios.

Estudos observacionais de grande porte em ultramaratonas demonstram que a ingestão de sódio, mesmo quando ajustada ao peso corporal e à duração do exercício, não se associa a melhor desempenho, menor tempo de prova ou melhor colocação. Ensaios controlados e estudos cruzados mostram que a suplementação de sódio não melhora a potência sustentada, o tempo até a exaustão ou os parâmetros termorregulatórios, tanto em ambientes quentes quanto frios.

No que se refere à prevenção da hiponatremia associada ao exercício, as evidências são ainda mais claras: a hiponatremia está fortemente associada à over hidratação e ao ganho ou manutenção do peso corporal durante a prova, e não à baixa ingestão de sódio. Atletas hiponatrêmicos consomem quantidades semelhantes de sódio aos normonatrêmicos, e a suplementação não impede a diluição do sódio plasmático quando a ingestão hídrica excede a capacidade renal de excreção.

Do ponto de vista da hipertermia, a suplementação de sódio tampouco demonstra efeito protetor. Em alguns cenários, o aumento da osmolaridade plasmática pode elevar o limiar para o início da sudorese e da vasodilatação cutânea, potencialmente prejudicando a dissipação de calor. Diante disso, a única justificativa plausível para a suplementação de sódio durante o endurance reside em contextos muito específicos, como atletas com sudorese excepcionalmente rica em sódio, exercícios extremamente prolongados com ingestão alimentar mínima ou condições clínicas particulares. Mesmo nesses casos, a abordagem deve ser individualizada e cautelosa.

A estratégia de ingestão hídrica guiada pela sede, com aceitação da desidratação leve a moderada como estado fisiológico normal, emerge como a abordagem mais alinhada à biologia humana e à evidência científica. Atletas que “bebem menos” e evitam a reposição completa das perdas frequentemente apresentam melhor desempenho e menor risco de hiponatremia, refletindo a robustez dos mecanismos homeostáticos endógenos.

Conclusão

A análise integrada dos aspectos evolutivos, fisiológicos, vasculares e aplicados ao exercício revela um padrão coerente: o organismo humano é extraordinariamente adaptado para conservar sódio, tolerar desidratação relativa e manter a homeostase mesmo sob estresse físico prolongado. O excesso crônico de sódio, por outro lado, desafia mecanismos endoteliais e cardiovasculares, contribuindo para disfunção vascular e risco cardiometabólico. No contexto do endurance, a suplementação de sódio não se comporta como recurso ergogênico eficaz nem como estratégia preventiva confiável contra hiponatremia ou hipertermia, sendo a super-hidratação o principal fator de risco clínico. Assim, uma abordagem moderna, evolutivamente informada e fisiologicamente consistente deve priorizar a ingestão guiada pela sede, a individualização das estratégias nutricionais e o abandono de protocolos rígidos de suplementação eletrolítica, reconhecendo o sódio como elemento essencial à vida, mas não como ferramenta universal de melhora de desempenho.

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Imagem destacada: ArnoldReinhold, CC BY-SA 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0>, via Wikimedia Commons