A definição de saúde constitui um dos problemas epistemológicos mais persistentes e complexos no campo da saúde coletiva. Longe de se reduzir a um estado objetivo mensurável, a saúde deve ser compreendida como um constructo multidimensional, historicamente situado, atravessado por dimensões biológicas, sociais, culturais e simbólicas. De fato, a noção de saúde transita entre diferentes registros — como fenômeno, medida, valor e campo de práticas — revelando sua natureza intrinsecamente polissêmica e não redutível a parâmetros exclusivamente biomédicos. A célebre definição da Organização Mundial da Saúde, ao propor um “estado de completo bem-estar físico, mental e social”, ao invés de resolver a questão, amplia-a, introduzindo um ideal normativo inalcançável que, paradoxalmente, contribui para a expansão indefinida das fronteiras do adoecimento.
É nesse contexto que emerge a chamada “indústria do risco”, conceito articulado por autores como Castiel, ao descrever a centralidade crescente da noção de risco na organização contemporânea das práticas em saúde. O risco, definido tecnicamente como a probabilidade de ocorrência de eventos mórbidos ou fatais, passa a operar não apenas como ferramenta epidemiológica, mas como dispositivo cultural e político que orienta condutas, regula comportamentos e redefine identidades. Na modernidade tardia, viver saudável deixa de significar ausência de doença e passa a implicar a gestão contínua de probabilidades futuras, muitas vezes abstratas e despersonalizadas.
Essa transição implica profundas consequências. Ao transformar fatores de risco em entidades quase patológicas, desloca-se o eixo da medicina da experiência concreta do sofrimento para a antecipação estatística de eventos. Como argumenta Castiel, vivemos “entre exposições e agravos”, em um cenário no qual a vida é permanentemente interpretada sob a ótica de vulnerabilidades potenciais, frequentemente mediadas por tecnologias biomédicas e sistemas de vigilância . Esse processo é reforçado por uma cultura de hiperprevenção, na qual a combinação entre prevenção, precaução e proteção gera uma normatividade excessiva, alimentando estados de ansiedade coletiva e individual diante de riscos que nem sempre são controláveis.
Paralelamente, a expansão das definições de doença constitui um dos mecanismos centrais dessa indústria do risco. Evidências recentes demonstram que redefinições diagnósticas têm ampliado significativamente o número de indivíduos considerados doentes, muitas vezes sem benefício clínico proporcional. O alargamento de categorias como hipertensão ou doença renal crônica ilustra como limiares diagnósticos mais baixos podem transformar populações inteiras em pacientes, promovendo sobre-diagnóstico e sobretratamento . Tal fenômeno não é neutro: frequentemente envolve interesses econômicos, conflitos institucionais e uma lógica de medicalização crescente da vida.
A análise crítica de Iona Heath aprofunda essa discussão ao introduzir o papel do medo como motor da medicalização. O medo existencial da morte, somado às inseguranças dos pacientes e às pressões institucionais sobre os profissionais de saúde, contribui para a dissolução das fronteiras entre o estar saudável e o estar doente . Nesse cenário, fatores de risco passam a ser tratados como doenças, e indivíduos assintomáticos são incorporados ao “reino dos doentes”, muitas vezes por intervenções que oferecem benefícios marginais frente aos potenciais danos.
A hipertensão arterial representa um caso paradigmático. A redução progressiva dos limiares diagnósticos ampliou drasticamente o número de indivíduos classificados como hipertensos. Contudo, evidências robustas indicam que o tratamento farmacológico da hipertensão leve em indivíduos assintomáticos pode não reduzir mortalidade ou morbidade, ao mesmo tempo em que aumenta custos e exposição a efeitos adversos . De modo semelhante, o conceito de “urgência hipertensiva” ilustra como uma condição definida por parâmetros numéricos, mas sem sintomas, pode gerar ansiedade e intervenções desnecessárias, sem impacto significativo em desfechos clínicos .
Essa problematização se articula diretamente com a crise contemporânea de reprodutibilidade científica. Estudos clássicos demonstram que uma proporção significativa dos achados científicos publicados pode ser falsa ou não replicável, em função de vieses metodológicos, baixo poder estatístico e dependência excessiva de valores de p como critério de validade . No campo das ciências biomédicas, estimativas indicam taxas de irreprodutibilidade entre 50% e 90% em estudos pré-clínicos, evidenciando fragilidades estruturais na produção do conhecimento . Essa crise compromete a confiabilidade das evidências que sustentam políticas de saúde, diretrizes clínicas e, sobretudo, a própria construção dos conceitos de risco e doença.
Nesse contexto, a associação entre ciência, risco e indústria torna-se particularmente sensível. A produção de evidências, quando permeada por conflitos de interesse ou por pressões de publicação, pode contribuir para a amplificação artificial de riscos, reforçando ciclos de medicalização e consumo de intervenções de baixo valor. A ciência, portanto, não deve ser confundida com a totalidade de seus produtos empíricos, mas compreendida como um processo crítico, autocorretivo e necessariamente provisório.
Essas reflexões adquirem especial relevância quando analisadas à luz de fenômenos como a morte súbita em atletas de endurance. Trata-se de um evento raro, de baixa probabilidade, mas de alta carga simbólica e emocional. A tentativa de prevenir completamente tais eventos esbarra em limites epistemológicos e práticos: nem todos os riscos são identificáveis, mensuráveis ou modificáveis. A transformação de probabilidades extremamente baixas em alvos de intervenção pode levar a estratégias que restringem a autonomia e a experiência vital dos indivíduos, impondo limitações desproporcionais em nome de uma segurança inalcançável. Nesse sentido, a gestão do risco deve reconhecer não apenas sua dimensão estatística, mas também seus efeitos existenciais e sociais.
Em síntese, a saúde contemporânea situa-se na interseção entre ciência, cultura e poder. A crescente centralidade do risco, aliada à expansão das definições de doença e às fragilidades da produção científica, exige uma abordagem crítica que recoloque o sujeito no centro das práticas em saúde. Reconhecer os limites da prevenção, a inevitabilidade da incerteza e a finitude da vida não representa um retrocesso, mas uma condição necessária para uma medicina mais ética, proporcional e verdadeiramente centrada nas pessoas.
Referências
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