Risco, prevenção e a medicalização do saudável: cardiomiopatia hipertrófica, esporte e os limites epistemológicos da medicina preventiva

por | dez 27, 2025

A medicina contemporânea vive uma inflexão paradigmática marcada pela substituição progressiva da noção de doença clinicamente manifesta pela noção ampliada de risco. Nesse deslocamento conceitual, a fronteira entre saúde e doença torna-se cada vez mais porosa, e indivíduos assintomáticos passam a ser enquadrados como doentes em potencial, submetidos a rastreamentos, intervenções e restrições comportamentais que frequentemente carecem de proporcionalidade entre benefício esperado e dano efetivo. Esse movimento não é meramente técnico, mas epistemológico e político: o risco, originalmente uma ferramenta probabilística para compreensão populacional, converte-se em categoria normativa de regulação da vida individual, produzindo efeitos materiais, simbólicos e morais. O exemplo da cardiomiopatia hipertrófica (CMH) em corredores de maratona é particularmente ilustrativo dessa tensão entre epidemiologia populacional, decisão clínica individual e moralização contemporânea da saúde.

A CMH apresenta prevalência estimada de aproximadamente 1:500 indivíduos na população geral, valor notavelmente consistente entre diferentes estudos genéticos e ecocardiográficos de base populacional. Em uma maratona com cinquenta mil participantes, é estatisticamente esperado que cerca de cem corredores sejam portadores de variantes genéticas associadas à CMH, muitos deles assintomáticos, com expressão fenotípica mínima ou mesmo inexistente. A literatura cardiológica contemporânea é inequívoca ao demonstrar que a maioria desses indivíduos jamais experimentará eventos adversos maiores ao longo da vida. Estudos longitudinais indicam taxas anuais de morte súbita cardíaca variando entre 0,3 e 1% em populações gerais com CMH, com declínio progressivo dessa incidência nas últimas décadas em função do aprimoramento diagnóstico e terapêutico. Trata-se, portanto, de um risco absoluto baixo, especialmente quando comparado a riscos amplamente naturalizados no cotidiano social, como o deslocamento urbano motorizado ou determinadas exposições ambientais.

Entretanto, no debate público e mesmo em documentos normativos, esse dado absoluto é frequentemente eclipsado por uma estatística distinta: a proporção de mortes súbitas em atletas jovens atribuídas retrospectivamente à CMH, frequentemente citada como 30–40%. Essa cifra, embora correta em seu contexto específico, refere-se à distribuição etiológica dos casos raros de morte súbita esportiva, e não à probabilidade de um indivíduo portador de CMH morrer subitamente. A confusão entre risco relativo, risco absoluto e causalidade direta constitui um erro epidemiológico elementar, mas recorrente, que sustenta narrativas alarmistas e legitima políticas de rastreamento amplo e restrição esportiva preventiva. Como apontam análises críticas da epidemiologia do risco, a transposição acrítica de probabilidades populacionais para decisões individuais produz distorções cognitivas profundas, amplificando medos desproporcionais e obscurecendo a incerteza inerente à predição clínica individual.

Quanto maior o rastreamento em populações de baixo risco absoluto, menor tende a ser o valor preditivo positivo dos testes empregados, mesmo quando estes apresentam boa sensibilidade e especificidade. Esse fenômeno, amplamente descrito na literatura metodológica, implica aumento inevitável de falsos positivos, sobrediagnósticos e intervenções desnecessárias. Welch e colaboradores demonstraram de forma consistente que o rastreamento indiscriminado desloca indivíduos da categoria de “saudáveis” para a de “pacientes”, sem impacto proporcional sobre a mortalidade, mas com efeitos mensuráveis sobre ansiedade, estigmatização, medicalização crônica e iatrogenia. No caso específico do atleta amador ou recreacional, esses efeitos são potencializados pela ruptura de identidades construídas em torno do corpo ativo, da performance e do pertencimento social, além da privação de um comportamento — o exercício físico regular — robustamente associado à redução de mortalidade cardiovascular e global.

A crítica epistemológica de John Ioannidis oferece um arcabouço particularmente fecundo para compreender por que hipóteses frágeis, associações observacionais e modelos preditivos imperfeitos rapidamente se convertem em recomendações normativas rígidas. Ao demonstrar que grande parte dos achados científicos publicados é estatisticamente frágil, inflada por vieses de publicação, excesso de significância e interpretações causais indevidas, Ioannidis evidencia que a medicina preventiva opera frequentemente sobre uma base de incerteza maior do que aquela explicitada nos discursos oficiais. Essa fragilidade não é apenas metodológica, mas ética: decisões populacionais são justificadas por evidências instáveis, enquanto os custos individuais — físicos, psicológicos, sociais e existenciais — permanecem subavaliados ou invisibilizados. A prevenção, nesse contexto, deixa de ser uma ferramenta prudente e contextualizada para se transformar em imperativo moral, no qual a não adesão é interpretada como irresponsabilidade ou negligência.

Esse processo insere-se em uma dinâmica mais ampla de medicalização da vida, descrita de forma pioneira por Ivan Illich e posteriormente sistematizada por Peter Conrad. A saúde deixa de ser compreendida como capacidade funcional, adaptação criativa e margem de variação biológica, passando a ser definida como conformidade a parâmetros estatísticos ideais e permanentemente monitorados. Michel Foucault, ao analisar os dispositivos de biopolítica, já indicava que a gestão moderna das populações opera menos pela cura do doente do que pela vigilância do corpo saudável, transformando probabilidades em instrumentos de governamentalidade. Nesse regime, o risco deixa de ser uma categoria analítica para tornar-se um operador normativo: o indivíduo internaliza a vigilância, antecipa a culpa e passa a administrar sua própria vida sob a lógica da prevenção permanente.

No campo do esporte de endurance, essa lógica assume contornos ainda mais complexos. A dissolução das fronteiras disciplinares do saber científico permite que especialistas de diferentes áreas emitam recomendações categóricas fora de seus domínios de formação, frequentemente baseadas em associações observacionais, hipóteses mecanicistas incompletas ou extrapolações indevidas de contextos clínicos para populações saudáveis. A autoridade médica, amplificada por diretrizes e redes sociais, tende a substituir o debate científico qualificado, enquanto a incerteza — elemento constitutivo da ciência — é percebida como falha e não como virtude epistemológica. Como alerta Ioannidis, esse ambiente favorece a produção de “certezas prematuras”, que rapidamente se cristalizam em normas sociais e clínicas de difícil reversão, mesmo quando novas evidências apontam em direção contrária.

O caso da CMH em maratonistas evidencia, assim, um paradoxo central da medicina preventiva contemporânea: ao tentar eliminar um risco raro, estocástico e de baixa capacidade preditiva individual, produz-se um dano mais frequente, difuso e silencioso, expresso em ansiedade crônica, restrições injustificadas, perda de autonomia e empobrecimento da experiência corporal. Reconhecer esse paradoxo não implica negar a importância da avaliação clínica individualizada nem ignorar situações de alto risco claramente estabelecidas, como história familiar de morte súbita precoce, síncope inexplicada recorrente ou arritmias documentadas. Implica, antes, resgatar a proporcionalidade, a humildade epistemológica e o respeito à heterogeneidade biológica humana.

Em última instância, a crítica aqui desenvolvida não se dirige à ciência, mas ao seu uso normativo, moralizante e descontextualizado. Uma medicina verdadeiramente baseada em evidências deve ser igualmente baseada em incerteza, prudência e contextualização individual. Caso contrário, corre-se o risco de substituir o cuidado pela vigilância, a saúde pelo medo e a autonomia pelo controle, transformando a promessa de prevenção em uma forma sofisticada — e socialmente aceita — de iatrogenia coletiva. Essa reflexão torna-se particularmente urgente em uma era marcada pela expansão de tecnologias preditivas, testagens genéticas e algoritmos de risco, cujos efeitos simbólicos e políticos frequentemente antecedem, e superam, seus benefícios clínicos reais.

Em tom conclusivo, impõe-se uma crítica direta à figura contemporânea dos autoproclamados “porta-vozes da ciência”, cuja autoridade deriva menos do domínio epistemológico do método científico e mais do capital simbólico conferido pela visibilidade midiática e pela credencial profissional isolada. A ciência, convém recordar, não se define por títulos, especialidades ou seguidores, mas por método, incerteza, refutabilidade e limites claramente reconhecidos. Quando cardiologistas se apressam a prescrever ou julgar métodos de treinamento de endurance — conteúdo ausente de forma estruturada em sua formação curricular —, quando ortopedistas passam a discorrer sobre função mitocondrial não por aprofundamento real em biologia celular, mas porque a mitocôndria se tornou um signo retórico em voga, ou quando oncologistas performam coreografias em redes sociais para condenar alimentos supostamente “cancerígenos” com base em hipóteses observacionais frágeis e evidências de baixa qualidade, assiste-se não à divulgação científica, mas à sua caricatura. Esses porta-vozes eleitos pela cultura da atenção confundem plausibilidade com prova, associação com causalidade e hipótese com verdade, produzindo um discurso que se apresenta como científico, mas opera segundo a lógica do espetáculo, da moralização e do simplismo. O resultado não é esclarecimento, mas ruído; não é autonomia informada, mas medo difuso; não é ciência em ação, mas uma forma sofisticada de opinião revestida de jaleco. Defender a ciência, nesse contexto, exige precisamente resistir a esses atalhos sedutores e reafirmar que falar em nome da ciência pressupõe, antes de tudo, saber como ela funciona — e, sobretudo, reconhecer quando ela ainda não sabe.

 

Referências

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