Quando o Músculo Grita: a Neurobiologia da Cãibra entre a Fadiga e o Reflexo

por | dez 17, 2025

Há fenômenos fisiológicos que se anunciam como um sussurro do sistema nervoso e, subitamente, irrompem como um grito. A cãibra muscular pertence a essa categoria limítrofe, na qual adaptação e disfunção compartilham o mesmo território biológico. Dolorosa, abrupta e incapacitante, ela acompanha a humanidade desde o trabalho físico extremo até o esporte moderno de endurance, atravessando séculos de interpretações intuitivas, mitos clínicos e, apenas recentemente, explicações neurofisiológicas consistentes. À luz da literatura contemporânea, a cãibra deixa de ser compreendida como um simples distúrbio hidroeletrolítico e passa a ser reconhecida como a expressão aguda de um sistema neuromuscular fatigado, hiperexcitável e temporariamente desorganizado.

Do ponto de vista conceitual, a cãibra verdadeira pode ser definida como uma contração involuntária, sustentada e dolorosa do músculo esquelético, associada a descargas repetitivas de alta frequência das unidades motoras. Estudos eletromiográficos clássicos e modernos demonstram que essas descargas não se originam no músculo, mas no nervo motor, particularmente em seus terminais periféricos e no controle reflexo espinal. A frequência de disparo observada durante a cãibra — frequentemente superior a 100–150 Hz — é incompatível com controle voluntário central, apontando para um gerador periférico ou espinhal altamente excitável, sensível ao comprimento muscular e ao estado metabólico local.

Historicamente, a explicação dominante para a cãibra associada ao exercício foi a chamada hipótese da desidratação e da depleção eletrolítica. Observações iniciais em trabalhadores expostos ao calor intenso e em atletas de provas longas levaram à associação entre sudorese profusa, perda de sódio e aparecimento de espasmos musculares. No entanto, revisões críticas e estudos prospectivos mais recentes revelaram a fragilidade dessa interpretação. Atletas com e sem cãibra, avaliados após maratonas, ultramaratonas e provas de Ironman, não diferem de forma consistente quanto à perda de massa corporal, ao estado de hidratação ou às concentrações séricas de sódio, potássio, magnésio e cloro, que permanecem, na maioria dos casos, dentro de faixas clinicamente normais. Mais importante, a hipótese hidroeletrolítica não oferece um mecanismo fisiopatológico plausível para explicar por que um distúrbio sistêmico resultaria em contrações localizadas, frequentemente restritas a músculos específicos e altamente solicitados.

Em contraste, a hipótese do controle neuromuscular alterado, proposta inicialmente por Schwellnus, Derman e Noakes, fornece um arcabouço integrativo capaz de acomodar os achados clínicos, experimentais e eletrofisiológicos. Segundo esse modelo, a fadiga muscular local — especialmente em músculos biarticulares e frequentemente mantidos em posição encurtada — induz um desequilíbrio entre aferências excitatórias provenientes dos fusos musculares (Ia) e aferências inibitórias oriundas dos órgãos tendinosos de Golgi (Ib). A redução do feedback inibitório, combinada ao aumento relativo da excitação aferente, culmina em hiperexcitabilidade do motoneurônio alfa ao nível espinal, favorecendo descargas sustentadas e involuntárias.

Esse modelo é fortemente sustentado por evidências eletromiográficas. Durante episódios de cãibra, observa-se aumento pronunciado da atividade elétrica do músculo afetado, bem como elevação da atividade basal entre episódios, sugerindo um estado persistente de excitabilidade aumentada mesmo após o término do esforço. Estudos em triatletas e maratonistas demonstram que essa atividade basal é significativamente maior em músculos previamente acometidos por cãibras, reforçando a noção de um “estado cramp-prone”, no qual o sistema neuromuscular permanece sensibilizado após exercício extenuante.

No contexto dos esportes de endurance, a cãibra emerge como manifestação típica da interação entre alta demanda mecânica, duração prolongada do esforço e fadiga neuromuscular acumulada. Epidemiologicamente, ela é mais frequente em atletas menos experientes, em fases finais de provas longas, em intensidades relativamente elevadas e em indivíduos com histórico prévio de cãibras. Esses fatores apontam para a importância da carga relativa de trabalho e do condicionamento neuromuscular específico, mais do que para variáveis ambientais isoladas como calor ou umidade.

A recorrência do fenômeno sugere ainda mecanismos de sensibilização progressiva, análogos ao conceito de kindling descrito em outros sistemas neurais, nos quais estímulos repetidos reduzem limiares de ativação e amplificam respostas futuras. Essa noção de hiperexcitabilidade progressiva encontra paralelo conceitual em modelos neurobiológicos mais amplos. Trabalhos sobre hiperexcitabilidade neural demonstram que circuitos submetidos a estresse repetido podem evoluir de estados adaptativos para respostas patológicas, com redução do limiar de disparo e perda de controle inibitório. Embora esses modelos tenham sido originalmente desenvolvidos para circuitos do medo e da ansiedade, o princípio é aplicável ao sistema motor, no qual a repetição de episódios de fadiga periférica pode favorecer estados transitórios ou crônicos de hiperresponsividade espinal.

Do ponto de vista terapêutico, essa compreensão neurofisiológica explica por que o alongamento passivo é, de forma consistente, a intervenção mais eficaz para alívio imediato da cãibra. O alongamento ativa aferências dos órgãos tendinosos de Golgi, restaurando temporariamente o feedback inibitório e reduzindo a descarga do motoneurônio alfa. Esse efeito é rápido, local e independe de qualquer correção metabólica sistêmica. De modo análogo, intervenções sensoriais agudas, como a ingestão de pequenas quantidades de suco de pickle (pickle juice), demonstraram reduzir a duração de cãibras induzidas eletricamente sem alterar, em minutos, a composição plasmática. Esses achados sustentam a hipótese de um reflexo neural de origem orofaríngea, capaz de modular rapidamente a excitabilidade motoneuronal, reforçando a primazia do mecanismo neural sobre o hidroeletrolítico.

No âmbito da prevenção, a literatura converge para estratégias que visam atenuar a fadiga neuromuscular e melhorar o controle motor. Entre elas destacam-se o treinamento específico para a modalidade, o aumento progressivo da tolerância à carga, o fortalecimento excêntrico, a correção de desequilíbrios musculares, o adequado planejamento de intensidade e volume e o reconhecimento do histórico individual de cãibras como fator de risco relevante. A hidratação e a ingestão de eletrólitos permanecem importantes para a saúde geral e para o desempenho, mas não devem ser encaradas como medidas preventivas específicas ou suficientes contra a cãibra associada ao exercício.

Em conclusão, a cãibra muscular deixa de ser interpretada como um erro simples do balanço hídrico e passa a ser reconhecida como um sinal eloquente da biologia da fadiga. Ela representa o momento em que o sistema neuromuscular, exausto e hiperexcitável, perde temporariamente sua capacidade de autorregulação. No atleta de endurance, esse fenômeno é ao mesmo tempo um limite funcional e uma mensagem fisiológica: não de falta de sal, mas de excesso de exigência. Compreendê-la sob essa perspectiva não apenas esclarece seus mecanismos, mas também orienta intervenções mais racionais, alinhadas à complexidade do corpo humano em movimento.

 

Referências

BENTLEY, S. Exercise-induced muscle cramp: proposed mechanisms and management. Sports Medicine, v. 21, n. 6, p. 409–420, 1996.

GIURIATO, G. et al. Muscle cramps: a comparison of the two-leading hypothesis. Journal of Electromyography and Kinesiology, v. 41, p. 89–95, 2018.

MILLER, K. C. et al. Reflex inhibition of electrically induced muscle cramps in hypohydrated humans. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 42, n. 5, p. 953–961, 2010.

MILLER, K. C. et al. Electrolyte and plasma responses after pickle juice, mustard, and deionized water ingestion in dehydrated humans. Journal of Athletic Training, v. 49, n. 3, p. 360–367, 2014.

MILLER, T. M.; LAYZER, R. B. Muscle cramps. Muscle & Nerve, v. 32, p. 431–442, 2005.

NELSON, N. L.; CHURILLA, J. R. A narrative review of exercise-associated muscle cramps. Muscle & Nerve, v. 54, p. 177–185, 2016.

ROSEN, J. B.; SCHULKIN, J. Hyperexcitability: from normal fear to pathological anxiety and trauma. Frontiers in Systems Neuroscience, v. 16, art. 727054, 2022.

SCHWELLNUS, M. P. et al. Aetiology of skeletal muscle cramps during exercise: a novel hypothesis. Journal of Sports Sciences, v. 15, n. 3, p. 277–285, 1997.

SCHWELLNUS, M. P. Cause of exercise associated muscle cramps: altered neuromuscular control, dehydration or electrolyte depletion? British Journal of Sports Medicine, v. 43, p. 401–408, 2009.

SULZER, N. U.; SCHWELLNUS, M. P.; NOAKES, T. D. Serum electrolytes in Ironman triathletes with exercise-associated muscle cramping. Medicine & Science in Sports & Exercise, v. 37, n. 7, p. 1081–1085, 2005.