Desde o primeiro passo dado por um membro do gênero Homo, há 2,4 milhões de anos, inaugurou-se uma relação íntima entre o movimento e a vida humana. Caminhar, correr, perseguir presas, escalar árvores, mergulhar em rios, carregar alimentos e ferramentas, atravessar planícies sob calor intenso e noites frias: tudo isso constituiu o ambiente fisiológico e comportamental que moldou profundamente o corpo humano. Nossos genes, mitocôndrias, músculos, hormônios e circuitos neurais evoluíram não apenas para tolerar o movimento, mas para depender dele como elemento fundacional da saúde. Por dezenas de milhares de gerações, a espécie humana viveu como caçadora-coletora, e praticamente cem por cento de sua existência biológica transcorreu em condições de alta atividade física diária, alimentação intermitente, exposição ambiental diversificada e ritmos energéticos que alternavam abundância e escassez. A vida cotidiana exigia um gasto energético elevado e constante, com longas caminhadas, subidas, corridas, incursões de coleta e pesca, e tarefas que mobilizavam múltiplos padrões de locomoção — não apenas o bipedalismo, mas também escaladas, nado, imersões, saltos, agachamentos e arremessos, todos integrados a uma ecologia de sobrevivência.
É nesse contexto profundamente ativo que o metabolismo humano foi esculpido pela seleção natural. A fisiologia básica do exercício — VO₂máx elevado, musculatura predominantemente oxidativa, alta densidade mitocondrial, capacidade de termorregulação por suor e notável eficiência na marcha — constitui uma herança direta desse passado. A atividade física não era um “comportamento opcional”; era parte estruturante do cotidiano, o que sugere que o organismo biologicamente “normal” é o organismo ativo, enquanto a inatividade é uma condição experimental, recente e aberrante do ponto de vista evolutivo. Se definirmos “normalidade” como o estado para o qual nossos genes foram selecionados, então indivíduos fisicamente ativos deveriam ser considerados o grupo controle, e os sedentários, o grupo exposto a um ambiente biologicamente adverso. Nesse arranjo, o descanso existe, mas como contraponto ao esforço, e não como estado basal permanente.
Ao analisar sociedades tradicionais atuais, como as de caçadores-coletores, observa-se uma atividade física intensa e variada, com múltiplos episódios de comportamento locomotor ao longo do dia: caminhar grandes distâncias para coleta, escalar árvores em busca de recursos, nadar ou mergulhar em rios para pesca, correr durante caçadas persistentes. Estudos etnográficos amplos mostram que esses povos exibem uma versatilidade locomotora muito mais ampla do que a dos humanos urbanos modernos, englobando modalidades que vão além do bipedalismo: natação, mergulho, escalada, corrida, marcha prolongada, deslocamento com cargas. O custo energético dessas atividades é significativo, mas a evolução favoreceu um corpo capaz de distribuir energia entre locomoção, reprodução, imunidade, manutenção somática e termorregulação de modo equilibrado. Entretanto, medições com água duplamente marcada demonstram que, surpreendentemente, o gasto energético diário total dessas populações não é maior que o de populações ocidentais, apesar da enorme diferença em nível de atividade. Isso apoia a teoria metabólica do gasto “constrangido”: o corpo humano tende a manter o total diário dentro de uma faixa relativamente estável, reduzindo o custo de funções menos prioritárias quando o gasto com movimento aumenta. Esse mecanismo de homeostase energética, observado em diferentes contextos, fornece uma chave para compreender a paradoxal estabilidade do gasto energético de longa duração ao longo da evolução.

Antes da industrialização, a manutenção da vida exigia movimento constante. A espécie humana evoluiu em um ambiente no qual o sedentarismo crônico simplesmente não era uma opção. O corpo foi esculpido por pressões seletivas que favoreceram eficiência locomotora, grande proporção de fibras oxidativas, termorregulação pelo suor, mecanismos refinados de utilização de gorduras e carboidratos, além de uma interação metabolicamente vantajosa entre músculo esquelético, tecido adiposo, fígado, sistema cardiovascular e mitocôndrias. Essa engenharia biológica conferiu aos primeiros Homo sapiens a capacidade de caminhar mais de 10 km por dia, perseguindo caça por longas distâncias em uma prática denominada “caça persistente”, algo raro entre os mamíferos. A alimentação, muitas vezes intermitente e sazonal, exigia ainda uma plasticidade metabólica capaz de lidar com períodos de escassez, o que favoreceu mecanismos de armazenamento eficiente de energia e grande flexibilidade na utilização de substratos.
Essa paisagem contrasta violentamente com a vida urbana atual. As revoluções agrícola, industrial e digital — separadas da vida caçadora-coletora por apenas algumas centenas de gerações, e da era tecnológica contemporânea por poucas dezenas — alteraram radicalmente a necessidade de movimento diário. As tarefas que antes requeriam deslocamento contínuo foram substituídas por máquinas, veículos, eletrificação e ambientes internos climatizados. A transição nutricional substituiu alimentos integrais, fibrosos e pouco processados por produtos ultraprocessados densamente energéticos, ricos em açúcares simples e gorduras refinadas. Essa súbita redução da carga mecânica e metabólica produziu consequências profundas. O que antes era incompatível com a sobrevivência — passar horas sentado, locomover-se pouco, mover principalmente os dedos sobre teclados — tornou-se o padrão predominante para bilhões de pessoas. A fisiologia, porém, não acompanhou essa transição em tão curto período.
A literatura experimental e clínica demonstra que a inatividade física altera a expressão de centenas de genes em poucas horas, modificando vias associadas à captação de glicose, como GLUT4, à biogênese mitocondrial, regulada por fatores como PGC-1α, ao fenótipo de fibras musculares e ao controle da oxidação lipídica. A ausência de contrações musculares regulares reduz a sinalização de AMPK, favorece o acúmulo de glicogênio e lipídios no músculo e no fígado, desorganiza o controle vascular, prejudica a sensibilidade à insulina e compromete a função endotelial. Esses mecanismos explicam por que o corpo sedentário se torna terreno fértil para doenças crônicas como diabetes tipo 2, obesidade, hipertensão, esteatose hepática e doenças cardiovasculares. Em poucas semanas de inatividade, há queda rápida do VO₂máx, perda de massa muscular, descondicionamento hemodinâmico e declínio do controle autonômico; em anos, surgem fenótipos de fragilidade, inflamação crônica de baixo grau, deterioração óssea e risco aumentado de demência e depressão.
A comparação entre idosos ativos e sedentários oferece um exemplo eloquente dessa plasticidade: octogenários que praticaram exercícios ao longo da vida exibem capacidades musculares e cardiorrespiratórias semelhantes às de indivíduos sedentários trinta anos mais jovens. Isso reforça a ideia de que grande parte do envelhecimento funcional é um processo acelerado pela inatividade, e não apenas uma inevitabilidade cronológica. A ausência de movimento remove, na prática, um sinal regulatório central para o programa genético que governa a manutenção de tecidos, a limpeza metabólica e a integridade neural.
O sedentarismo moderno também trouxe mudanças nos padrões de atividade leve, uma categoria frequentemente negligenciada, mas responsável por grande parte do gasto energético diário. Pequenas variações na quantidade de atividades de baixa intensidade — caminhar dentro de casa, subir escadas, varrer, carregar objetos leves, deslocar-se ao longo do ambiente de trabalho — possuem impacto significativo sobre adiposidade, controle glicêmico, equilíbrio energético e risco de doenças crônicas. A redução drástica dessa atividade leve, combinada com longos períodos ininterruptos de comportamento sedentário, contribui substancialmente para os riscos metabólicos contemporâneos, independentemente do cumprimento formal de metas de exercício moderado ou vigoroso. Assim, não se trata apenas de “fazer exercício” em blocos isolados, mas de resgatar um pano de fundo de movimento cotidiano que se perdeu.
Se as populações tradicionais exibem níveis de gasto energético total semelhantes aos das sociedades modernas, apesar de muito mais movimento, isso não significa que a atividade física seja irrelevante. Pelo contrário: a estabilidade do gasto energético total indica que o corpo reorganiza prioridades internas diante do movimento, redistribuindo energia para favorecer longevidade fisiológica, função imunológica, saúde cerebral, regulação do apetite e eficiência metabólica. A prática cotidiana de movimento serve como sinal regulador indispensável, que mantém sistemas biológicos dentro dos parâmetros para os quais foram refinados. O problema central do mundo moderno, portanto, não é simplesmente que gastamos “menos calorias”, mas que vivemos sem acionar os interruptores fisiológicos essenciais que o movimento desperta.
Ao mesmo tempo, a biologia evolutiva da espécie ajuda a entender por que um gasto médio em torno de duas vezes o metabolismo basal parece adequado para a sobrevivência da espécie em longo prazo. Estudos clássicos em ampla variedade de contextos sugerem que um nível de cerca de 1,7 a 2,0 vezes a taxa metabólica basal (TMB) sustenta com segurança a reprodução, a imunidade, a manutenção dos tecidos e as demandas de locomoção em ambientes naturais. Valores cronicamente acima de 2,5 vezes o TMB, por outro lado, mostra-se fisiologicamente difíceis de sustentar por meses, indicando que, do ponto de vista da história natural da espécie, os humanos foram selecionados para um regime de esforço diário significativo, mas não para estados de gasto extremo permanente. Assim, quando as sociedades modernas mergulham em níveis de gasto energético muito abaixo de 1,6 vezes o BMR, adentram um território fisiológico para o qual não há precedentes ancestrais; quando raros indivíduos passam semanas acima de 3 ou 4 vezes o BMR, adentram outro território igualmente inédito.

É nesse segundo extremo que surge o paradoxo dos atletas de endurance contemporâneos. Ao contrário da maioria da população, que vive em estado de subuso da maquinaria energética, esses indivíduos testam os limites superiores do que o organismo humano consegue sustentar. Em períodos de treino e competição intensos, o gasto energético pode se aproximar ou mesmo exceder patamares de 3 a 5 vezes o BMR, especialmente em fases de grande volume e intensidade. O corpo responde com aumentos notáveis na capacidade oxidativa muscular, densidade mitocondrial, fluxo capilar e eficiência cardiorrespiratória. Porém, a capacidade de ingestão e absorção de energia torna-se, nessas condições, um gargalo fisiológico. Mesmo com dietas densamente calóricas, frequentemente ricas em alimentos ultraprocessados e de fácil digestão, torna-se difícil igualar, dia após dia, o volume de energia gasta. O trato gastrointestinal possui limites físicos de absorção de carboidratos, gorduras e proteínas por unidade de tempo; a digestão, por sua vez, compete com o próprio esforço, que redistribui fluxo sanguíneo para músculos em atividade, reduzindo a perfusão intestinal em momentos críticos.
Essa dissociação entre gasto e entrada energética abre espaço para a instalação de baixa disponibilidade energética, que, quando sustentada, evolui para quadros agrupados sob o conceito de Deficiência Energética Relativa no Esporte (REDs). Nessa condição, a energia que sobra após o custo do exercício não é suficiente para manter todas as funções fisiológicas em sua plenitude. O organismo, então, entra em modo de economia. Hormônios tireoidianos caem, a leptina se reduz, o eixo reprodutivo é suprimido, a taxa metabólica de repouso declina, a remodelação óssea é prejudicada e a imunidade se fragiliza. A curto prazo, isso pode não impedir o desempenho; a médio e longo prazos, favorece fadiga persistente, maior suscetibilidade a infecções, lesões por estresse e queda de performance. Nessa situação, o próprio treinamento, que deveria ser estímulo para adaptação positiva, transforma-se em fator de risco para overreaching e overtraining, mediado em grande parte por REDs.
A comparação entre esse quadro e a condição do sedentarismo revela um ponto crítico: tanto o corpo subestimulado quanto o corpo cronicamente superestimulado em intensidade sem adequada recuperação energética se afastam do corredor estreito para o qual fomos moldados evolutivamente. De um lado, o gasto abaixo de 1,6–1,7 vezes o BMR, típico de estilos de vida muito sedentários, favorece acúmulo de energia e desregulação metabólica. De outro, o gasto frequentemente acima de 3–4 vezes o BMR, sem períodos planejados de redução de carga e recuperação nutricional, favorece déficits acumulados e desorganização de eixos hormonais. Em ambos os casos, a homeostase é tensionada além daquilo que o organismo consegue compensar de forma saudável.
Esse entendimento reforça a importância da periodização do treinamento em esportes de alta demanda metabólica. Não se trata apenas de alternar cargas físicas para proteger músculos e tendões, mas de organizar blocos de esforço e recuperação que permitam ao sistema energético recuperar o equilíbrio entre gasto e ingestão. Períodos de menor volume e intensidade, associados a maior disponibilidade energética, funcionam como fases de recomposição de reservas corporais, restauração de eixos hormonais, remineralização óssea e reequilíbrio imunológico. A periodização, nesse sentido, alinha o planejamento esportivo com os princípios biológicos que regem a sustentabilidade do gasto energético, atuando como uma forma moderna de reintroduzir, no calendário competitivo, os ciclos de esforço e repouso que sempre existiram na vida ancestral.
Ao final, as duas grandes faces da nossa biologia energética — a que exige movimento cotidiano para manter a saúde e a que impõe limites claros ao gasto extremo — contam a mesma história sob ângulos diferentes. De um lado, a vida moderna, com seu gasto energético cronicamente baixo, alimenta um cenário de doenças crônico-degenerativas decorrentes do desuso de vias metabólicas selecionadas para serem ativadas todos os dias. De outro, o esforço extremo prolongado, sem respeito aos limites de absorção e recuperação, expõe a vulnerabilidade de uma fisiologia projetada para suportar desafios intensos, mas intermitentes. Entre esses extremos, encontra-se o espaço evolutivamente mais seguro: um cotidiano de movimento variado e moderado, em torno de duas vezes o metabolismo basal, intercalado com episódios de maior esforço e períodos adequados de recuperação.
Reconhecer esse corredor de equilíbrio é, ao mesmo tempo, um convite e um lembrete. Um convite para reintroduzir o movimento como linguagem cotidiana do corpo, seja em contextos de saúde pública, seja na organização do treinamento esportivo; e um lembrete de que, apesar de toda a tecnologia, ainda somos herdeiros de uma biologia antiga, feita para caminhar entre limites bem definidos de gasto e de reposição de energia. Quando respeitamos esses limites, o movimento volta a ocupar seu lugar de fundamento silencioso da vida. E talvez seja nessa reconciliação entre o passado evolutivo e o presente metabólico que reencontremos, com mais clareza, o sentido profundo de deixar o corpo fazer aquilo para o qual foi, literalmente, criado: mover-se para continuar existindo.
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