Quando o Lactato Ganha Voz: da Sombra do “Resíduo” à Centralidade Bioenergética do Músculo em Movimento
Durante grande parte do século XX, o lactato ocupou uma posição conceitual incômoda na fisiologia: tolerado como consequência inevitável do esforço intenso, mas interpretado como subproduto indesejável de um metabolismo supostamente anaeróbico, associado à fadiga, à acidose e à perda de desempenho. Essa leitura, profundamente influenciada por experimentos clássicos conduzidos em tecidos não perfundidos e não oxigenados, cristalizou-se em livros-texto e práticas aplicadas, apesar de evidências crescentes em sentido contrário. A partir da segunda metade do século passado, porém, uma sucessão de avanços metodológicos e conceituais — em especial os estudos com traçadores isotópicos, balanços arterio-venosos, espectroscopia por ressonância magnética e investigações mitocondriais — passou a revelar um cenário radicalmente distinto. Nesse novo enquadramento, o lactato deixa de ser um resíduo metabólico para assumir o papel de intermediário central, elo dinâmico entre glicólise e fosforilação oxidativa, substrato energético preferencial em múltiplos tecidos e, mais recentemente, molécula sinalizadora de ampla relevância biológica.
Do ponto de vista bioquímico, a produção de lactato é consequência direta da elevada taxa de fluxo glicolítico, e não da ausência de oxigênio. A reação catalisada pela lactato desidrogenase, ao converter piruvato em lactato, desempenha função essencial na manutenção do estado redox citosólico, regenerando NAD⁺ e permitindo a continuidade da glicólise em situações de alta demanda energética. Evidências acumuladas ao longo de décadas demonstram que essa reação ocorre continuamente sob condições plenamente aeróbicas, desde o repouso até o exercício intenso. Medidas diretas de oxigenação intracelular mostram que músculos em franca produção de lactato operam com pressões parciais de oxigênio acima do limiar crítico mitocondrial, desmontando de forma definitiva a associação causal entre lactato e hipóxia celular.
Essas observações abriram caminho para a formulação do conceito do “lançadeira de lactato”, desenvolvido e progressivamente refinado por George A. Brooks a partir dos anos 1980. Segundo essa perspectiva, o lactato deve ser compreendido como uma moeda metabólica móvel, capaz de transportar carbono e equivalentes redutores entre compartimentos intracelulares, entre diferentes tipos de fibras musculares e entre órgãos distintos. A lactatemia, nesse contexto, não expressa produção isolada, mas o balanço dinâmico entre taxa de aparecimento e taxa de remoção do lactato, sendo esta última fortemente dependente da capacidade oxidativa mitocondrial e da eficiência dos sistemas de transporte.
No músculo esquelético, essa lógica se expressa de maneira particularmente elegante. Fibras do tipo II, sobretudo as IIx e IIa, caracterizam-se por maior atividade glicolítica, maior expressão de isoformas de LDH favorecedoras da formação de lactato e menor densidade mitocondrial relativa. Essas fibras produzem lactato rapidamente quando recrutadas, sobretudo em intensidades moderadas a elevadas. Em contraste, fibras do tipo I, ricas em mitocôndrias, capilares e transportadores monocarboxilatos do tipo MCT1, comportam-se como consumidoras eficientes de lactato, oxidando-o prontamente como substrato energético. O resultado é um shuttle intramuscular, no qual o lactato produzido em fibras mais glicolíticas difunde-se para fibras mais oxidativas dentro do mesmo músculo ou em músculos adjacentes, configurando um sistema cooperativo de redistribuição energética.
Essa visão ganhou robustez adicional com a identificação do complexo mitocondrial de oxidação do lactato. Trabalhos conduzidos por Hashimoto e Brooks demonstraram a presença coordenada de MCT1, LDH mitocondrial, CD147 e citocromo c oxidase na membrana mitocondrial, formando um aparato funcional capaz de captar lactato diretamente e oxidá-lo no interior da mitocôndria. A existência desse complexo eliminou uma das principais objeções históricas à oxidação mitocondrial do lactato e forneceu base estrutural sólida para o conceito de intracellular lactate shuttle, no qual o lactato atua como intermediário entre a glicólise citosólica e a respiração mitocondrial.
No plano sistêmico, estudos de cinética metabólica em humanos e modelos animais revelam que o lactato é um dos principais combustíveis durante o exercício. Traçadores isotópicos demonstram que, em exercícios prolongados, aproximadamente 50 a 70% do lactato produzido é removido por oxidação direta, tanto no músculo esquelético ativo quanto em tecidos altamente oxidativos, como o miocárdio e o cérebro. Frações menores do lactato são direcionadas à gliconeogênese hepática e renal, sustentando a glicemia durante o exercício e contribuindo, em fases posteriores, para a ressíntese de glicogênio. Esses dados demonstram que a oxidação do lactato não é um destino secundário, mas o principal caminho de sua remoção em condições fisiológicas.
A adaptação ao treinamento de endurance reorganiza profundamente essa rede metabólica. Estudos comparando indivíduos treinados e não treinados mostram que o treinamento aumenta simultaneamente a capacidade de produção e de remoção do lactato. Em intensidades relativas semelhantes, atletas treinados apresentam taxas mais elevadas de aparecimento e desaparecimento do lactato, acompanhadas por aumento expressivo da taxa metabólica de depuração. O chamado “limiar de lactato”, longe de representar uma transição abrupta para o metabolismo anaeróbico, corresponde a um ponto em que a taxa de remoção deixa de acompanhar proporcionalmente a taxa de produção, refletindo limitações dinâmicas do sistema oxidativo e do transporte, e não deficiência de oxigenação tecidual.
Experimentos com clampeamento de lactato reforçam essa interpretação ao demonstrar que a elevação controlada da lactatemia não induz acidose metabólica nem colapso cardiorrespiratório, mas altera a partição de substratos energéticos. Nessas condições, observa-se redução da oxidação de glicose e maior utilização de lactato como combustível, com consequente economia de glicogênio. O lactato emerge, assim, não apenas como substrato energético, mas como regulador do metabolismo intermediário, influenciando decisões metabólicas em tempo real.
Paralelamente à sua função energética, o lactato passou a ser reconhecido como molécula sinalizadora de amplo espectro. Evidências recentes indicam que o lactato atua como miokina, modulando a expressão gênica relacionada à biogênese mitocondrial, à angiogênese, à capacidade oxidativa e à flexibilidade metabólica. Mecanismos como a ativação de vias redox-sensíveis, a modulação da produção de espécies reativas de oxigênio e a lactilação de histonas posicionam o lactato como mediador direto entre o estresse metabólico agudo do exercício e as adaptações crônicas ao treinamento. Nesse sentido, a exposição repetida a elevações transitórias de lactato durante o exercício atua como sinal adaptativo, refinando progressivamente a competência mitocondrial e a eficiência metabólica do músculo treinado.
Essas mesmas propriedades explicam por que a concentração sanguínea de lactato, embora frequentemente interpretada de forma simplista, constitui um marcador funcional relevante da capacidade oxidativa. Em atletas de endurance, baixas lactatemias em cargas absolutas elevadas não refletem menor produção de lactato, mas maior eficiência de sua remoção e oxidação. Assim, a lactatemia torna-se um indicador indireto da densidade mitocondrial, da expressão de transportadores e da integração entre fibras musculares, fornecendo informação valiosa sobre o estado funcional do sistema energético.
Ao final, o lactato emerge não como vilão metabólico, mas como protagonista silencioso da fisiologia do exercício e da biologia integrativa. Ele ruboriza o sangue durante o esforço não como sinal de falência, mas como testemunho de um metabolismo intensamente ativo, coordenado e adaptável. Como uma molécula que carrega carbono, energia e informação, o lactato conecta glicólise e mitocôndria, músculo e órgãos distantes, esforço agudo e adaptação crônica. Reconhecer essa centralidade não é apenas corrigir um equívoco histórico, mas compreender que, na arquitetura metabólica do movimento humano, aquilo que por décadas foi visto como resíduo revela-se, na verdade, como linguagem.
Referências
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