QUANDO O ENDOTÉLIO FALA: CRÔNICAS SILENCIOSAS DO OVERTRAINING

por | nov 22, 2025

O treinamento esportivo de alto desempenho é sustentado por uma lógica fisiológica complexa, na qual estímulos mecânicos, demandas metabólicas, adaptações celulares e processos neuropsicológicos interagem de forma contínua para sustentar a performance. A capacidade humana de adaptação permite avanços extraordinários; entretanto, quando a carga se acumula mais rápido do que os mecanismos regenerativos conseguem acompanhar, instala-se uma ruptura silenciosa no equilíbrio homeostático. Nesse limite estreito entre progresso e colapso adaptativo emerge a síndrome do overtraining (OTS) – um fenômeno multifatorial que transcende a ideia simplista de fadiga e manifesta-se como disfunção integrada de múltiplos sistemas orgânicos. Embora mais prevalente em atletas de elite e populações militares, o OTS pode ocorrer em qualquer ambiente no qual exigências físicas, psicológicas, metabólicas e nutricionais excedam de maneira persistente a capacidade de recuperação.

A gênese dessa condição geralmente inicia com o overreaching funcional (FOR) — estado transitório no qual a performance diminui, mas responde positivamente após repouso adequado, culminando em supercompensação. Quando a recuperação é insuficiente ou quando outros estressores se somam (restrição calórica, privação de sono, estresse emocional, monotonia de treino), o processo evolui para um quadro não funcional (NFOR) e, subsequentemente, para o OTS, caracterizado por deterioração crônica, disfunção neuroendócrina e prejuízo persistente de performance. Esse processo é insidioso, gradativo e raramente conta com marcadores diagnósticos isolados — razão pela qual sua detecção exige avaliação longitudinal integrada.

Entre as hipóteses fisiológicas mais tradicionais, destaca-se a hipótese do glicogênio, segundo a qual sessões repetidas de alta intensidade esgotam persistentemente os estoques energéticos musculares, forçando o organismo a depender de vias catabólicas alternativas. Esse déficit energético crônico aumenta o estresse oxidativo, compromete vias anabólicas e altera a função imunológica, favorecendo processos inflamatórios e aumentos compensatórios de cortisol. No campo imunometabólico, a hipótese das citocinas propõe que o treino excessivo induz um estado inflamatório sistêmico de baixo grau, sustentado especialmente pela ação prolongada de IL-6. Esse mediador integra metabolismo, função imune e cérebro, modulando humor, apetite, sensação de fadiga e vias de catabolismo proteico, além de participar de fenômenos cardiorremodeladores, incluindo hipertrofia patológica e fibrose ventricular em modelos experimentais.

Os aminoácidos também desempenham papel crítico nesse processo. A glutamina, essencial para a proliferação e função de células imunes, tende a se reduzir em estados de estresse crônico, contribuindo para maior incidência de infecções respiratórias superiores em atletas sobrecarregados. Já os BCAA influenciam a fadiga central ao modularem a competição com o triptofano pela barreira hematoencefálica, influenciando a síntese cerebral de serotonina. Valores baixos desses aminoácidos associam-se a pior humor, apatia, queda motivacional e sensação persistente de exaustão — características clássicas do OTS.

Paralelamente, as alterações alcançam o eixo neuroendócrino, especialmente o eixo hipotálamo–hipófise–adrenal (HPA). O estresse crônico modifica a secreção circadiana de cortisol e ACTH, prejudica a recuperação, compromete imunidade, altera padrões de sono e afeta o eixo gonadal, resultando em queda da testosterona e deterioração da razão testosterona/cortisol (T/C). Essa razão é amplamente utilizada como marcador indireto de estresse fisiológico e sua queda persistente correlaciona-se à deterioração metabólica, perda de força, alterações de humor e redução da performance.

Nos últimos anos, entretanto, avanços importantes ampliaram decisivamente a compreensão do OTS ao revelar que esta síndrome é também — e talvez sobretudo — uma condição vascular e microcirculatória. Achados recentes demonstram que treinamentos intensos e repetitivos induzem deterioração precoce da função endotelial, mesmo antes da queda perceptível de performance. Atletas mulheres submetidas a sobrecarga apresentam redução significativa da flow-mediated dilation (FMD) e aumento de biomarcadores de degradação do glicocálice endotelial, como hialuronano (HA) e sindecano-1 (SDC-1). Tais marcadores refletem desnudamento da interface entre sangue e endotélio — um dos primeiros sinais biológicos de sobrecarga adaptativa.

Essa agressão microvascular decorre de múltiplos mecanismos interconectados. Treinos prolongados aumentam a tensão de cisalhamento e a produção de radicais livres, reduzindo temporariamente a disponibilidade de óxido nítrico (NO), molécula essencial para vasodilatação e integridade endotelial. Em volumes extremos, essa resposta deixa de ser adaptativa e se torna crônica: episódios repetidos de estresse oxidativo fragmentam o glicocálice, amplificam vias inflamatórias locais e prejudicam a capacidade do endotélio de modular o fluxo sanguíneo, proteger-se contra dano mecânico e manter a homeostase microvascular. A consequência é uma perfusão muscular subótima, menor oferta de oxigênio e nutrientes e pior remoção de subprodutos metabólicos — fatores que contribuem diretamente para dor tardia aumentada, recuperação mais lenta, acúmulo de lactato e respostas hemodinâmicas deficientes.

A integração entre alterações hormonais e microvasculares também é evidente. A queda da testosterona livre, acompanhada de aumentos de cortisol, associa-se a reduções de FMD e elevações de HA e SDC-1, sugerindo que o estado catabólico sistêmico exerce efeito direto sobre a saúde vascular, especialmente em arteríolas e capilares ativos durante o exercício. Esse elo fisiológico confirma que o OTS não deve ser entendido apenas como fenômeno metabólico ou neuroendócrino, mas como um quadro sistêmico que compromete a função endotelial e a microcirculação de forma determinante.

Diante desse panorama, torna-se claro que a avaliação do atleta deve incluir dimensões até recentemente negligenciadas. A monitorização seriada da FMD, associada à análise de HA e SDC-1, emerge como abordagem promissora para identificar sobrecarga antes do declínio clínico. Métodos não invasivos de avaliação microvascular — como laser doppler, testes de reatividade endotelial e medidas contínuas de variabilidade da frequência cardíaca — complementam ferramentas clássicas como CK, ureia, mioglobina, razão T/C, lactato, avaliações subjetivas de humor e questionários de estresse-recuperação. Nenhum marcador isolado é diagnóstico, mas o conjunto integrado permite delinear trajetórias individuais de risco.

Do ponto de vista prático, essas evidências reforçam a necessidade de estratégias preventivas refinadas. Periodização bem estruturada, alternância adequada de cargas, controle da monotonia, inserção sistemática de dias regenerativos, modulação da densidade das sessões de alta intensidade e suporte nutricional orientado ao equilíbrio energético constituem os pilares de um planejamento seguro. Intervenções focadas na proteção endotelial — como aumento do intervalo entre estímulos intensos, uso de modalidades de baixo impacto, priorização do sono, inclusão de antioxidantes naturais, polifenóis e ácidos graxos ômega-3 — apresentam relevância crescente para preservar a integridade microvascular. Da mesma forma, o monitoramento psicológico, o gerenciamento de expectativas e a prevenção do perfeccionismo desadaptativo são determinantes para controle da carga interna.

Nos casos em que sinais de NFOR emergem, a intervenção deve ser imediata: redução estratégica do volume, modulação da intensidade, inserção de semanas regenerativas e restauração agressiva do equilíbrio energético e do sono. Para atletas que evoluíram de fato para OTS, o tratamento exige suspensão prolongada da carga, abordagem interdisciplinar e retorno gradual individualizado. Suplementações frequentemente promovidas, como BCAA, arginina ou glutamina isolada, não apresentam evidência robusta para reversão do quadro — reforçando que a solução depende, fundamentalmente, de recuperação, restauração energética e gestão do estresse fisiopsicológico.

Em síntese, o overtraining é uma falha adaptativa sistêmica caracterizada pela ruptura entre demanda e capacidade regenerativa do organismo. Não representa falta de disciplina ou fragilidade psicológica, mas um colapso biológico complexo que envolve metabolismo, imunidade, neuroendocrinologia e, de forma decisiva, integridade vascular. A verdadeira excelência no esporte não nasce apenas da intensidade do treino, mas da capacidade de proteger o corpo — especialmente suas estruturas mais finas e vitais, como o endotélio e o glicocálice — permitindo que a microcirculação se regenere para sustentar novos ciclos de adaptação. A ciência deixa claro: o progresso humano depende tanto da força quanto da pausa. E ouvir o corpo é, acima de tudo, uma forma de inteligência fisiológica.

Referências:

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