Desde que nossos ancestrais riscaram as primeiras pegadas sobre o solo da savana, a espécie humana vem travando um diálogo silencioso com os próprios limites. Somos criaturas moldadas simultaneamente para a economia e para a ousadia: carregamos um metabolismo disciplinado, herança de primatas parcimoniosos, e ao mesmo tempo uma capacidade de resistência quase metafísica, capaz de sustentar jornadas longas e ritmos de esforço que fronteiam o extraordinário. Em algum lugar entre essas tensões — entre o corpo que precisa preservar a vida e o corpo que tenta expandir o possível — nasce a questão central: qual é o verdadeiro limite biológico do gasto energético humano quando o esforço se prolonga por dias, semanas ou mesmo meses?
Pesquisas modernas têm revelado que o metabolismo humano opera dentro de uma faixa relativamente estável durante a vida cotidiana, raramente ultrapassando 2 a 2,5 vezes o metabolismo basal (BMR). Esta proporção, frequentemente denominada “nível de atividade física habitual”, parece representar um teto emergente da fisiologia humana. Contudo, quando observamos indivíduos submetidos a eventos extremos, esse limite começa a se desfazer sob a luz de estudos capazes de captar, com precisão, o custo real do movimento humano. A literatura recente, enriquecida por técnicas como a água duplamente marcada, tem permitido investigar com clareza o gasto energético médio diário de pessoas envolvidas em eventos prolongados, tais como corridas transcontinentais, travessias polares e provas de ciclismo de três semanas.

A análise aprofundada de eventos extremos revela um padrão surpreendente: quanto maior a duração do esforço, menor o teto de gasto energético que o corpo é capaz de sustentar de modo estável. Estudos envolvendo períodos de esforço contínuo que variam de meio dia a mais de duzentos dias demonstram que a energia sustentada ao longo de eventos prolongados converge para valores abaixo de três vezes o BMR. Este comportamento curvilíneo, descrito de forma magistral por investigações recentes, sugere que o corpo humano reduz sua capacidade de sustentar gastos energéticos exorbitantes à medida que a duração aumenta. A razão parece residir em limitações impostas não pelos músculos ou pelo sistema cardiovascular — que, por horas, podem operar em capacidades muito superiores — mas por um limite alimentar: a capacidade do trato gastrointestinal de absorver energia não acompanha a demanda imposta pelo exercício prolongado.

A introdução de dados provenientes de corridas transcontinentais, nas quais atletas percorrem aproximadamente uma maratona por dia durante meses, confirma esse fenômeno. Durante as primeiras semanas, os corredores alcançam consumos energéticos compatíveis com quatro vezes o BMR, mas com o passar do tempo o metabolismo “cede”, reduzindo o gasto total para algo em torno de 2,5 a 3 vezes o basal. Essa redução não é uma falha, mas uma estratégia de sobrevivência, uma modulação fisiológica que reposiciona a homeostase para que o esforço seja possível ao longo de muitos dias. Corretores metabólicos adaptam-se, comportando-se como se o corpo entrasse em um regime de economia biológica extrema, preservando órgãos e funções vitais mesmo enquanto o indivíduo continua sua jornada.
Essa perspectiva evolutiva é crucial: os humanos não foram selecionados para operar continuamente em intensidades extremas, mas para sustentar esforços prolongados em níveis moderados. A curva que relaciona gasto energético sustentado e duração do esforço ecoa, de modo elegante, a própria história de nossa espécie, que evoluiu em contextos de longas caminhadas, caçadas persistentes e ciclos de alimentação irregular. A capacidade de correr atrás de um animal por horas é compatível com picos de três a cinco vezes o metabolismo basal, mas a capacidade de deslocar-se por semanas em busca de água, alimento ou novos territórios exige outro ritmo, mais parcimonioso, mais próximo desse teto de 2,5 vezes o basal.

Esse teto, entretanto, vem sendo dramatizado e testado no cenário esportivo contemporâneo. Atletas de endurance e ultraendurance desafiam diariamente a biologia, e entre eles emergem casos que parecem deslocar momentaneamente esse limite. O exemplo emblemático é o do triatleta norueguês Kristian Blummenfelt, estudado sob o rigor de métodos fisiológicos avançados. Seus anos de treinamento intenso, frequentemente ultrapassando quatro vezes o metabolismo basal por períodos prolongados, escancaram a maleabilidade impressionante do corpo humano, que chega a operar em déficits calóricos contínuos sem entrar em colapso imediato. Esse tipo de adaptação sugere que indivíduos altamente treinados possuem mecanismos cardíacos, musculares, mitocondriais e digestivos capazes de sustentar cargas superiores às esperadas, ainda que não indefinidamente.
Mas essa façanha tem custo. Quando a ingestão energética não acompanha o gasto — situação quase inevitável em treinos e competições de ultraendurance — instala-se o fenômeno da baixa disponibilidade energética. A partir dele emerge um quadro fisiológico complexo, conhecido como REDs (Relative Energy Deficiency in Sport), que implica alterações hormonais, imunológicas, metabólicas e psicológicas. O REDs pode ocorrer mesmo em atletas que ingerem grande quantidade de calorias, porque o problema não é a ingestão absoluta, mas sim a diferença entre o que entra e o que sai. Estudos contemporâneos mostram que o REDs afeta homens e mulheres, comprometendo funções vitais como síntese proteica, taxa metabólica de repouso, função cardiovascular e densidade óssea. Em contextos de endurance extremo, a prevalência desse estado é consideravelmente elevada.

O Tour de France, talvez o mais emblemático laboratório fisiológico natural do mundo, oferece demonstrações dramáticas desse limite. Os ciclistas de elite gastam diariamente entre 6000 e 8000 kcal, operando frequentemente em faixas metabólicas de quatro a cinco vezes o BMR. Análises “metabolômicas” recentes revelam que tais atletas exibem perfis bioquímicos singulares, com elevações intensas de intermediários do ciclo de Krebs, aumento de precursores da coenzima A e acúmulo de marcadores de estresse oxidativo. O metabolismo muscular opera como uma máquina hipereficiente, mas permanentemente tensionada entre regenerar-se e não sucumbir ao catabolismo. Para além das adaptações moleculares, há evidências contundentes de que mesmo esses atletas notáveis vivem à beira de deficiências energéticas constantes ao longo da prova, perdendo peso, modulando hormônios e ajustando seus sistemas para sobreviver ao estresse continuado.

O conjunto de dados provenientes de eventos esportivos extremos, estudos laboratoriais e análises evolutivas convergem para uma conclusão simples e ao mesmo tempo profunda: o corpo humano é extraordinariamente capaz, mas não ilimitado. Acima de aproximadamente 2,5 vezes o metabolismo basal, a alimentação não consegue suprir a demanda. Para operar acima desse patamar por longos períodos, o corpo recorre inevitavelmente às próprias reservas, sacrificando massa corporal, ajustando hormônios, reduzindo funções de baixo custo-benefício e, eventualmente, entrando em estados de alerta fisiológico que podem comprometer a saúde a longo prazo. Ainda assim, enquanto houver reservas e motivação, o corpo segue — sempre pagando o preço.

A dança entre capacidade e limitação se revela como uma metáfora da própria condição humana. Exploramos o mundo, corremos atrás de recordes, atravessamos desertos e mares para descobrir até onde podemos ir. Ao fazê-lo, tocamos, corpo e espírito, os contornos últimos do que significa ser humano. Talvez não exista prova mais eloquente da beleza da biologia do que perceber que nossos limites são firmes, porém expansíveis, e que ao expandi-los, ainda que temporariamente, escrevemos histórias que ressoam com a mesma profundidade de nossos passos ancestrais. Os limites metabólicos que nos moldam não são apenas barreiras: são também espelhos da nossa história evolutiva, da nossa arte de persistir e da nossa eterna inclinação para ir além.
REFERÊNCIAS
Butte, N. F., & King, J. C. (2005). Energy requirements during pregnancy and lactation. Public Health Nutrition, 8, 1010–1027.
Cooper, J. A. et al. (2011). Maximal sustained levels of energy expenditure in humans during exercise. Medicine & Science in Sports & Exercise, 43, 2359–2367.
Dasa, B. et al. (2024). Training volume and total energy expenditure. Frontiers in Endocrinology, 11, 512365.
Gallant, T. L. et al. (2024). Low energy availability and relative energy deficiency in sport: A systematic review and meta-analysis. Sports Medicine, 55, 325–339.
Maunder, E., Kildin, A. E., & Plews, D. J. (2018). Substrate metabolism during Ironman triathlon. Sports Medicine, 48, 1703–1716.
San-Millán, I. et al. (2020). Metabolomics of endurance capacity in World Tour professional cyclists. Frontiers in Physiology, 11, 578.
Thurber, C. S. et al. (2019). Extreme events reveal an alimentary limit on sustained maximal human energy expenditure. Science Advances, 5, eaaw0341.
Westerterp, K. R. (2001). Limits to sustainable human metabolic rate. Journal of Experimental Biology, 204, 3183–3187.
Westerterp, K. R. et al. (1986). Use of the doubly labeled water technique in humans during heavy sustained exercise. Journal of Applied Physiology, 61, 2162–2167.