O conceito de Critical Power (CP), ou Potência Crítica, emergiu como um dos pilares mais robustos da fisiologia do exercício moderno, fornecendo um quadro integrativo para compreender os limites de desempenho e a fadiga em esportes de resistência, especialmente o ciclismo. Historicamente, suas raízes remontam aos estudos de A. V. Hill, que, em 1925, descreveu a relação hiperbólica entre velocidade e tempo até a exaustão, posteriormente formalizada por Monod e Scherrer em 1965 na equação matemática que caracteriza o modelo de CP. Essencialmente, a Potência Crítica representa a maior intensidade de exercício que um indivíduo consegue sustentar enquanto mantém a homeostase metabólica, distinguindo o domínio de intensidade pesado, onde a fisiologia permanece relativamente estável, do domínio severo, marcado por falha progressiva da homeostase, elevação contínua de lactato e eventual exaustão muscular.

Fonte: https://cpsinmotion.com/critical-power-profiling/
Do ponto de vista matemático, a CP é descrita pela relação T = W’ / (P – CP), em que T representa o tempo até a exaustão, P a potência aplicada, e W’ a capacidade de trabalho acima da CP, também conhecida como Anaerobic Work Capacity (AWC). Essa capacidade anaeróbica acumulada reflete a energia disponível para esforços acima do limiar oxidativo e é crucial para a prescrição de treinos intervalados individualizados, permitindo quantificar com precisão o trabalho realizado tanto em VO₂máx quanto em potências supra-limiar. Assim, a CP não apenas delimita a intensidade sustentável de exercício, mas também oferece uma visão integrada da capacidade aeróbica e anaeróbica do ciclista, permitindo estimar quanto esforço adicional acima do limiar pode ser tolerado e por quanto tempo, a partir da medição do W’.

Fonte: https://roadcyclingacademy.com/critical-power-vs-ftp-cycling/
A Potência Crítica apresenta forte correlação fisiológica com outros limiares clássicos de desempenho, incluindo o Maximal Lactate Steady State (MLSS) e o segundo limiar ventilatório (VT2). Enquanto o MLSS define a carga máxima em que a concentração de lactato permanece estável, geralmente dentro de uma variação de 1 mmol·L⁻¹ em 20 minutos, o VT2 reflete o ponto em que a ventilação aumenta de forma desproporcional devido à necessidade de tamponamento de ácidos, ambos correspondendo aproximadamente à CP em termos de intensidade de exercício. Em ciclistas treinados, a CP situa-se tipicamente entre 70–80% do VO₂máx, podendo atingir até 90%, indicando a máxima intensidade que permite equilíbrio entre produção e remoção de lactato, sem acumulação progressiva de acidose ou falência contrátil.

Fonte: Leo, Peter & Spragg, James & Podlogar, Tim & Lawley, Justin & Mujika, Iñigo. (2022). Power profiling and the power-duration relationship in cycling: a narrative review. European Journal of Applied Physiology.
Do ponto de vista fisiológico integrado, a CP é determinada por múltiplos fatores: eficiência do transporte e utilização de oxigênio, recrutamento de unidades motoras, capacidade de regenerar o W’ durante exercícios intermitentes, difusão intramuscular e densidade capilar e mitocondrial. Alterações em qualquer etapa do transporte de O₂ — desde a difusão pulmonar até a utilização mitocondrial — impactam diretamente a CP, assim como a ativação de fibras musculares tipo IIb/x acima da CP, que induz o VO₂ slow component e redução da eficiência mecânica. A regeneração do W’ entre esforços intermitentes permite projetar sessões de intervalos otimizadas, ajustando a carga de treinamento às necessidades fisiológicas individuais.

Fonte: Dotan, R. A critical review of critical power. Eur J Appl Physiol 122, 1559–1588 (2022).
A avaliação da CP é realizada através de testes controlados, geralmente envolvendo esforços máximos e submáximos variáveis entre 1 e 12 minutos, sob condições padronizadas e com períodos definidos de recuperação, possibilitando a análise do W’ e a prescrição de treinos intervalados individualizados. Diferentemente do tradicional Functional Threshold Power (FTP), que corresponde à potência máxima sustentável por aproximadamente 1 hora, a CP fornece um perfil fisiológico mais completo, integrando dados metabólicos, ventilatórios e contráteis, além de permitir a medição do W’, refletindo a reserva energética do ciclista. Enquanto o FTP oferece simplicidade e praticidade para prescrições de treino, ele tende a subestimar a variabilidade anaeróbica e a capacidade de esforços supra-limiar, especialmente em ciclistas de perfil rouleur ou time-trialist, cuja performance depende de alta CP e reservas anaeróbicas mais moderadas.
O W’, medido em Joules, permite calcular com precisão quanto tempo um ciclista pode sustentar potências acima da CP. Por exemplo, se a CP de um atleta é 300 W e seu W’ é 14.400 J, ele pode sustentar 400 W por 144 segundos, considerando que 1 W = 1 J/s. Esse conhecimento é fundamental para estruturar sessões intervaladas que explorem tanto o sistema aeróbico quanto a capacidade anaeróbica, maximizando adaptações fisiológicas e equilíbrio energético. A CP também facilita a identificação de pontos fracos no perfil de potência, permitindo a prescrição de exercícios específicos para melhorar déficits aeróbicos ou anaeróbicos, otimizando a performance em provas de diferentes durações e intensidades.
Em termos de treinamento, aumentar a CP envolve estratégias similares às utilizadas para melhorar o FTP, incluindo treinos de endurance de zona 2, esforços em limiar e treinos de intensidade variável. A diferença principal é que a CP permite uma análise mais refinada do equilíbrio entre sistemas energéticos e da fadiga, proporcionando prescrição mais precisa, monitoramento da recuperação do W’ e avaliação do progresso fisiológico ao longo do tempo. Além disso, a CP oferece uma fronteira dinâmica de desempenho: não se trata de um ponto fixo, mas de um limiar fisiológico que se adapta com treinamento, estado de fadiga, perfil individual e características do exercício.
Em síntese, a Potência Crítica representa a formalização matemática e fisiológica do limiar de fadiga, conectando o MLSS, VT2 e FTP em uma perspectiva integrada. Ela traduz a transição entre metabolismo oxidativo estável e instabilidade metabólica, permitindo que atletas e treinadores compreendam não apenas a intensidade sustentável, mas também a capacidade de trabalho acima do limiar, as reservas anaeróbicas e a cinética de recuperação. Sua utilização no ciclismo de alto nível proporciona uma base científica para prescrição de treinos individualizados, monitoramento de fadiga e otimização da performance, conferindo insights que o FTP isoladamente não consegue fornecer, especialmente no planejamento de intervalos e esforços variáveis em provas de diferentes formatos. Assim, a CP consolida-se como uma ferramenta central para a compreensão da fisiologia do esforço, equilibrando teoria, prática e ciência aplicada ao ciclismo competitivo.
As contribuições de Vanhatalo:
A compreensão da Critical Power (CP) no ciclismo representa um avanço significativo na caracterização da relação entre potência e fadiga muscular. CP é definida como a intensidade de exercício acima da qual o metabolismo muscular não alcança estado estacionário, implicando no esgotamento progressivo das reservas energéticas e no aumento da produção de lactato e acúmulo de íons hidrogênio. Estudos recentes, como o de Vanhatalo et al. (2016), demonstram que durante exercícios realizados ligeiramente acima da CP (CP+5%), a tolerância ao exercício é limitada, enquanto abaixo da CP (CP-5%), os parâmetros metabólicos, incluindo [PCr], [Cr], pH e [La−] muscular, permanecem relativamente estáveis mesmo após prolongada duração. Tais achados validam a CP como um limiar crítico que separa domínios de exercício pesado e severo, corroborando evidências de que o limite de potência sustentável depende do equilíbrio entre metabolismo oxidativo e glicolítico/glicogenolítico.
O estudo de Vanhatalo et al. também enfatiza a relevância das respostas ventilatórias e do lactato plasmático na avaliação da CP. A cinética do consumo de oxigênio (V˙O2) durante testes de 3 minutos em esforço máximo (all-out) versus exercício contínuo com potência constante (CWR) revelou que o componente lento do V˙O2 aumenta significativamente em esforços all-out, refletindo recrutamento progressivo de fibras musculares tipo II e aumento do custo de ATP para manutenção da força. Essa resposta está associada a maiores níveis de lactato e alterações do pH muscular, reforçando a ideia de que o W (work capacity acima da CP) representa a capacidade finita de trabalho antes da exaustão, correlacionando-se com a depleção de fosfocreatina, glicogênio e com a produção de lactato.
Além disso, a distribuição de fibras musculares exerce papel determinante na CP e no W. Vanhatalo et al. demonstraram correlação positiva entre CP e proporção de fibras tipo I, e correlação negativa com fibras tipo IIx, indicando que atletas com maior composição oxidativa apresentam limiares mais elevados e tolerância maior a exercícios prolongados. Por outro lado, a magnitude do W foi associada a concentrações finais de lactato e creatina, refletindo a contribuição do metabolismo anaeróbico e a capacidade de sustentar esforço acima da CP. Esses achados consolidam a CP como marcador fisiológico robusto, integrando respostas ventilatórias, metabólicas e histoquímicas musculares, fornecendo subsídios importantes para prescrição de treino e avaliação de desempenho em ciclismo e exercícios de resistência.
Referencias:
Goulding RP, Marwood S. Interaction of Factors Determining Critical Power. Sports Med. 2023;53(3):595-613.
Jones AM, Vanhatalo A. The ‘Critical Power’ Concept: Applications to Sports Performance with a Focus on Intermittent High-Intensity Exercise. Sports Med. 2017;47(Suppl 1):65-78.
Poole DC, Burnley M, Vanhatalo A, Rossiter HB, Jones AM. Critical Power: An Important Fatigue Threshold in Exercise Physiology. Med Sci Sports Exerc. 2016 Nov;48(11):2320-2334.
Vanhatalo A, Black MI, DiMenna FJ, et al. The mechanistic bases of the power-time relationship: muscle metabolic responses and relationships to muscle fibre type. J Physiol. 2016;594(15):4407-4423.