Introdução
A fisiologia contemporânea do exercício aplicada aos esportes de endurance atravessa um momento de profunda reformulação conceitual, marcado pela integração entre mecanismos moleculares, adaptações sistêmicas e estratégias avançadas de periodização do treinamento. A antiga interpretação predominantemente centrada no VO₂máx como principal determinante do desempenho aeróbico vem sendo progressivamente substituída por uma visão multifatorial, na qual a interação entre distribuição da intensidade do treinamento, durabilidade fisiológica, remodelamento mitocondrial, controle autonômico, economia locomotora e resistência à fadiga constitui o verdadeiro substrato biológico da performance prolongada. Os artigos recentemente publicados em periódicos internacionais de elevado impacto reforçam essa mudança paradigmática ao demonstrar que o desempenho em endurance não depende apenas da capacidade máxima de transporte de oxigênio, mas sobretudo da eficiência metabólica e estrutural construída ao longo de anos de treinamento sistematizado.
Nesse contexto, emerge uma nova interpretação da adaptação aeróbica, fundamentada na noção de plasticidade bioenergética, entendida como a capacidade dinâmica do organismo de reorganizar continuamente suas vias metabólicas, estruturas celulares e mecanismos regulatórios em resposta às diferentes cargas fisiológicas impostas pelo treinamento. Essa concepção amplia significativamente a compreensão clássica da preparação esportiva, aproximando a fisiologia do exercício das ciências moleculares, da biologia mitocondrial e da fisiologia integrativa.
O paradoxo biológico do treinamento de baixa intensidade
Um dos fenômenos mais intrigantes da fisiologia do endurance contemporâneo reside no chamado “paradoxo do treinamento de baixa intensidade”. Apesar da ampla evidência demonstrando que exercícios de alta intensidade promovem estímulos agudos robustos sobre o metabolismo energético, atletas de elite continuam dedicando aproximadamente 80–90% do volume total de treinamento à baixa intensidade. O estudo de Pekka Matomäki propõe uma interpretação sofisticada para esse fenômeno ao sugerir que o treinamento de baixa intensidade não atua apenas como componente recuperativo, mas como um importante modulador da homeostase autonômica, do remodelamento estrutural cardiovascular e da sinalização molecular associada à biogênese mitocondrial.
Segundo essa perspectiva, exercícios de baixa intensidade permitem elevada frequência de estímulos sem acúmulo excessivo de estresse autonômico, possibilitando manutenção contínua da sinalização adaptativa ao longo do tempo. Diferentemente das sessões de alta intensidade, cuja recuperação cardíaca autonômica pode ultrapassar 48 horas, sessões leves apresentam recuperação significativamente mais rápida, favorecendo maior densidade semanal de treinamento. Tal fenômeno sugere que o volume elevado em baixa intensidade constitui uma estratégia biologicamente eficiente para maximizar adaptações periféricas enquanto minimiza custos sistêmicos de recuperação.
Além disso, os autores defendem que diferentes intensidades ativam vias moleculares distintas relacionadas à expressão do PGC-1α, considerado regulador central da biogênese mitocondrial. Enquanto exercícios intensos parecem induzir predominantemente vias associadas ao estresse metabólico, o treinamento leve atuaria sobretudo por mecanismos dependentes do fluxo de cálcio intracelular e da oxidação lipídica, ampliando a variabilidade adaptativa do treinamento aeróbico.
Distribuição da intensidade do treinamento e organização fisiológica da carga
A moderna teoria da distribuição da intensidade do treinamento consolidou-se como um dos pilares centrais da preparação aeróbica contemporânea. O conceito de Training Intensity Distribution (TID) refere-se à proporção temporal dedicada às diferentes zonas fisiológicas de intensidade ao longo do processo de treinamento. O artigo de Sun e colaboradores demonstra que os modelos piramidal, polarizado e threshold representam arquiteturas fisiológicas distintas de organização do estresse metabólico e neuromuscular.
O modelo polarizado caracteriza-se por elevado volume em baixa intensidade, pequena exposição ao limiar fisiológico e participação relativamente maior de estímulos de alta intensidade. Já o modelo piramidal mantém predominância da baixa intensidade, porém com maior proporção de treinamento moderado e menor participação relativa de exercícios intensos. A literatura contemporânea demonstra que tais modelos não devem ser interpretados como estratégias excludentes, mas como organizações dinâmicas que variam conforme fase da periodização, modalidade esportiva, estado de treinamento e objetivos fisiológicos específicos.
A revisão sistemática conduzida por Rosenblat e colaboradores reforça essa interpretação ao demonstrar que atletas altamente treinados parecem responder mais favoravelmente ao modelo polarizado, enquanto indivíduos recreacionais apresentam adaptações semelhantes — ou até superiores — sob modelos piramidais. Essa diferença sugere forte influência do nível de treinamento prévio sobre a sensibilidade adaptativa aos diferentes estímulos metabólicos.
Adicionalmente, os autores destacam que a própria quantificação da intensidade apresenta limitações metodológicas importantes. Frequência cardíaca, lactato sanguíneo, percepção subjetiva de esforço e potência mecânica frequentemente produzem interpretações distintas da mesma sessão de treinamento, evidenciando que a fisiologia do endurance não pode ser reduzida a classificações simplistas de zonas metabólicas.
Remodelamento mitocondrial e adaptações periféricas
A emergência da biologia mitocondrial como eixo central da fisiologia do exercício representa uma das transformações científicas mais relevantes da última década. Atualmente compreende-se que o desempenho aeróbico depende não apenas da quantidade de mitocôndrias presentes no músculo esquelético, mas sobretudo de sua qualidade funcional, eficiência oxidativa, capacidade de comunicação intracelular e integração com sistemas metabólicos periféricos.
Nesse cenário, o treinamento aeróbico produz profundas alterações na densidade capilar, no conteúdo mitocondrial, na atividade enzimática oxidativa e na flexibilidade metabólica. O treinamento prolongado promove aumento da capacidade de utilização de ácidos graxos, melhora da sensibilidade à insulina, maior eficiência no transporte de elétrons e redução do custo energético relativo do exercício submáximo. Essas adaptações tornam-se particularmente relevantes em modalidades de longa duração, nas quais a economia metabólica assume papel decisivo para preservação do desempenho competitivo.
Entretanto, o artigo de Storoschuk, Gibala e Gurd introduz importante contraponto crítico ao atual entusiasmo popular em torno do chamado “Zone 2 training”. Os autores argumentam que grande parte das alegações sobre superioridade absoluta da baixa intensidade para otimização mitocondrial carece de sustentação experimental robusta. Embora o treinamento leve apresente benefícios metabólicos importantes, evidências consistentes demonstram que estímulos de maior intensidade frequentemente produzem adaptações mitocondriais superiores quando o volume total de treinamento é limitado.
Essa discussão possui implicações fisiológicas profundas. Em indivíduos altamente treinados, grandes volumes de baixa intensidade tornam-se viáveis devido à extraordinária tolerância estrutural e autonômica construída ao longo de anos de treinamento. Contudo, para populações gerais ou atletas com menor disponibilidade temporal, sessões mais intensas podem representar estímulos metabolicamente mais eficientes para indução de adaptações cardiovasculares e mitocondriais.
Periodização, especificidade e inteligência adaptativa do treinamento
Os estudos envolvendo treinadores olímpicos noruegueses revelam importante convergência metodológica entre diferentes modalidades de endurance. Apesar das especificidades biomecânicas e energéticas de cada esporte, observa-se padrão relativamente uniforme de organização da carga, caracterizado por elevado volume de treinamento leve combinado a dois ou três dias semanais contendo sessões-chave de alta intensidade.
Mais importante que o modelo específico utilizado parece ser a capacidade de ajustar continuamente o treinamento às respostas adaptativas individuais do atleta. Os treinadores de elite demonstram utilizar abordagem altamente experimental, baseada em monitoramento sistemático, controle refinado da recuperação e interpretação integrada de indicadores fisiológicos, técnicos e psicológicos. Tal modelo aproxima o treinamento esportivo contemporâneo de uma verdadeira biologia adaptativa aplicada.
A periodização moderna deixa, portanto, de representar simples distribuição cronológica de cargas e passa a constituir estratégia de manipulação dinâmica dos mecanismos biológicos da adaptação. O treinamento contemporâneo não busca apenas induzir fadiga controlada, mas otimizar continuamente a relação entre estímulo, recuperação e plasticidade fisiológica.
Considerações finais
A fisiologia do endurance contemporâneo evidencia que o desempenho aeróbico emerge da interação complexa entre adaptações centrais, remodelamento periférico, organização da intensidade do treinamento e mecanismos moleculares de sinalização metabólica. O paradigma atual afasta-se progressivamente das interpretações reducionistas baseadas exclusivamente no VO₂máx e incorpora conceitos mais amplos relacionados à durabilidade fisiológica, eficiência bioenergética e plasticidade mitocondrial.
Nesse novo cenário científico, o treinamento de baixa intensidade deixa de ser compreendido como simples atividade regenerativa e passa a ocupar posição estratégica na construção estrutural da capacidade aeróbica de longo prazo. Simultaneamente, os modelos modernos de distribuição da intensidade demonstram que diferentes arquiteturas fisiológicas podem produzir adaptações distintas dependendo do nível de treinamento, modalidade esportiva e contexto competitivo.
A integração entre fisiologia molecular, bioenergética e ciência aplicada do treinamento sugere que o futuro da preparação em endurance será cada vez mais orientado por abordagens individualizadas, capazes de interpretar o organismo não como sistema linear, mas como estrutura adaptativa complexa, altamente dinâmica e biologicamente plástica.
Referências
MATOMÄKI, Pekka. Why low-intensity endurance training for athletes? European Journal of Applied Physiology, v. 125, p. 2401–2407, 2025.
ROSENBLAT, Michael A. et al. Which Training Intensity Distribution Intervention Will Produce the Greatest Improvements in Maximal Oxygen Uptake and Time-Trial Performance in Endurance Athletes? A Systematic Review and Network Meta-analysis of Individual Participant Data. Sports Medicine, 2025.
SANDBAKK, Øyvind et al. Best-Practice Training Characteristics Within Olympic Endurance Sports as Described by Norwegian World-Class Coaches. Sports Medicine – Open, v. 11, n. 45, 2025. DOI:
STOROSCHUK, Kristi L. et al. Much Ado About Zone 2: A Narrative Review Assessing the Efficacy of Zone 2 Training for Improving Mitochondrial Capacity and Cardiorespiratory Fitness in the General Population. Sports Medicine, v. 55, p. 1611–1624, 2025.
SUN, Qihao et al. Recent Advances in Training Intensity Distribution Theory for Cyclic Endurance Sports: Theoretical Foundations, Model Comparisons, and Periodization Characteristics. Frontiers in Physiology, v. 16, 2025. DOI: https://doi.org/10.3389/fphys.2025.1657892.