Ao longo de um século de investigação, o VO₂máx tornou-se uma espécie de janela fisiológica para o potencial aeróbico humano, revelando-se ora sólido em seus fundamentos clássicos, ora inquietante em suas nuances e lacunas. Assim como um organismo que se adapta a pressões ambientais, o conceito amadureceu, expandiu-se e, paradoxalmente, tornou-se mais complexo à medida que novas ferramentas analíticas surgiram. Hoje sabemos, com razoável segurança, que o VO₂máx expressa o limite superior da integração entre os sistemas pulmonar, cardiovascular e muscular na extração e utilização do oxigênio. Contudo, sob a superfície dessa definição aparentemente estável, pulsa um cenário biológico muito mais intricado, marcado por interações dinâmicas entre genes, estrutura cardíaca, perfusão periférica e mecanismos regulatórios centrais que modulam o esforço humano em condições extremas.
O consumo máximo de oxigênio (VO₂máx) permanece como um dos marcadores centrais da fisiologia do exercício, funcionando como o “teto metabólico” que regula a capacidade de sustentação de esforços prolongados. Desde Archibald Hill até as sínteses contemporâneas, acumulou-se sólida evidência de que o VO₂máx representa o produto integrado da função cardiorrespiratória e do metabolismo muscular. Embora amplamente estudado, o VO₂máx continua revelando camadas de complexidade fisiológica e genética ainda não totalmente compreendidas. O entendimento contemporâneo confirma que o VO₂máx é limitado prioritariamente pela capacidade do sistema cardiorrespiratório de entregar oxigênio aos músculos ativos, mais do que pela capacidade intrínseca de extração muscular. Bassett e Howley apresentam três linhas clássicas de evidência: quando o fornecimento de O₂ é manipulado (dopagem sanguínea, hipoxia, betabloqueio), o VO₂máx se altera proporcionalmente; o aumento treinável do VO₂máx decorre majoritariamente do aumento do débito cardíaco máximo; e pequenos grupos musculares hiperperfundidos exibem consumo extremamente elevado, demonstrando que o limite não é periférico, mas central. Essa leitura é reforçada por Levine, ao mostrar que o VO₂máx se ancora na mecânica cardíaca: volumes diastólicos maiores, câmaras ventriculares mais complacentes e capacidade de manter pressão arterial estável mesmo sob fluxos sanguíneos extremos são traços essenciais de atletas de elite. Assim, a arquitetura cardíaca e sua habilidade de sustentar fluxos maciços constituem determinantes críticos. Do ponto de vista de desempenho, o VO₂máx define a fronteira superior na qual economia de corrida, limiares metabólicos e fração do VO₂máx sustentada integram-se para predizer performance, sendo a velocidade no limiar de lactato o indicador isolado mais forte para provas prolongadas.

Fonte: Lubitz, Wolfgang & Chrysina, Maria & Cox, Nicholas. (2019). Water oxidation in photosystem II. Photosynthesis Research. 142.
No entanto, a biologia dificilmente se contenta com explicações lineares. Diversas lacunas persistem. A primeira diz respeito à precisão do conceito de “máximo”: o debate sobre se o valor medido é realmente máximo segue vivo, dado que o “plateau” do VO₂ não é universal. Por essa razão, autores recomendam fases de verificação supramáximas e criticam o uso isolado de critérios fisiológicos como RER ou FCmáx, que podem subestimar o verdadeiro VO₂máx em até 26%. Outra lacuna envolve a interação central-periférica: ainda não está totalmente claro como o cérebro integra sinais aferentes de fadiga, fluxo, metabolismo e segurança homeostática para modular voluntariamente o esforço, sugerindo mecanismos de regulação além dos limites periféricos clássicos. Do mesmo modo, permanece pouco definida a magnitude real de adaptabilidade individual. Embora médias populacionais indiquem aumentos típicos de 15 a 25% com treinamento, casos extremos desafiam essa visão: registros já documentaram elevações superiores a 90% em indivíduos recreacionais submetidos a regimes intensos e progressivos, como no estudo clínico que relatou aumento de 96% em 24 meses. Finalmente, a identificação de mais de 97 genes associados à treinabilidade do VO₂máx mostra que a arquitetura genética da resposta é muito mais complexa do que se imaginava inicialmente, e ainda não compreendemos plenamente como esses genes interagem entre si e com o ambiente para definir o potencial individual.
A variabilidade interindividual da resposta ao treinamento é vasta, e aqui a genética desempenha papel central. Estudos de gêmeos, famílias e modelos genômicos revelam forte componente hereditário. O estudo HERITAGE demonstra que o aumento médio após 20 semanas foi de aproximadamente 400 ml/min; algumas pessoas não alcançaram ganhos mensuráveis, enquanto outras ultrapassaram 1 L/min; e a herdabilidade da resposta atingiu 47%, com 2,5 vezes mais variabilidade entre famílias do que dentro delas. Essa evidência confirma que existe um teto biologicamente determinado para o aumento possível do VO₂máx. Em convergência, estudos genômicos recentes identificaram 97 genes candidatos associados à treinabilidade: indivíduos “altos respondedores” carregam maior número de alelos favoráveis, enquanto “baixos respondedores” possuem combinações menos propícias à adaptação cardiorrespiratória. Assim, os chamados não-respondentes não são necessariamente resistentes ao exercício, mas limitados quanto ao ganho específico de VO₂máx. Curiosamente, em parâmetros cardiometabólicos submáximos — pressão arterial, composição corporal, glicemia, função endotelial — esses indivíduos podem responder tão bem quanto os respondedores, como evidenciado por estudos que mostraram que, após seis semanas de treinamento, respondedores apresentam maior aumento de limiar de lactato e microvascularidade, mas não diferem em variáveis metabólicas basais. Isso reforça que não existe “não-respondente ao exercício”, mas sim indivíduos cujo VO₂máx é pouco treinável.
Os fatores limitantes do VO₂máx e do rendimento cardíaco podem ser organizados em grandes mecanismos fisiológicos. As limitações centrais — especialmente cardíacas — são as mais determinantes: débito cardíaco máximo, dominado pelo volume sistólico; capacidade de enchimento diastólico em alta frequência cardíaca; complacência ventricular e pericárdica; e a habilidade de sustentar pressão arterial apesar do enorme fluxo periférico. Esses elementos constituem o gargalo principal tanto em indivíduos treinados quanto não-treinados. As limitações pulmonares e de transporte são geralmente pouco influentes em indivíduos saudáveis, mas tornam-se importantes na hipoxia, em atletas de elite e em patologias pulmonares, ou ainda em situações de queda acentuada da saturação (hipóxia induzida por esforço – condição rara). Já as limitações musculares periféricas são essenciais para o desempenho submáximo — densidade capilar, conteúdo mitocondrial, enzimas oxidativas, capacidade de tamponamento —, mas não determinam o limite superior do VO₂. Por fim, fatores de controle neural e perceptivo — fadiga central, sinalização aferente metabólica, mecanismos protetores integrados ao SNC — podem modular a potência voluntária antes que o limite fisiológico seja realmente atingido.

Fonte: https://evolution.berkeley.edu/evo-news/oxygen-as-an-evolutionary-constraint/
Esses conhecimentos convergem para implicações práticas relevantes para atletas e treinadores de endurance. Em primeiro lugar, o VO₂máx pode aumentar mais do que se assume tradicionalmente, especialmente em indivíduos não treinados, desde que o planejamento seja progressivo e tecnicamente orientado para hipertrofia funcional do débito cardíaco. Em segundo, a resposta ao treino é altamente individual: a genética delimita o teto, mas não determina o sucesso esportivo. Além disso, limiar de lactato, economia de movimento e capacidade de sustentar altas frações do VO₂máx são mais determinantes para performance do que o próprio VO₂máx isolado. Métodos de prescrição personalizados por limiares ventilatórios — em vez de porcentagens fixas de frequência cardíaca — reduzem drasticamente a incidência de não-resposta e amplificam os ganhos, com taxas de respondedores próximas de 100%. E, fundamentalmente, a ausência de aumento no VO₂máx não significa estagnação fisiológica: há melhora da microcirculação, dos limiares, da eficiência mecânica e de parâmetros cardiometabólicos.
No âmbito dos dogmas persistentes, a afirmação de que o VO₂máx só pode aumentar 15–20% com o treinamento resiste no imaginário da área, muito mais por repetição do que por suporte científico. Esse número emergiu de médias populacionais obtidas em estudos clássicos, frequentemente com amostras reduzidas, protocolos homogêneos e métodos estatísticos focados em médias — que inevitavelmente mascaram extremos. O HERITAGE Family Study desmontou esse paradigma ao revelar respondentes com aumentos superiores a 1 L/min e herdabilidade de 47%. Casos como o do indivíduo recreacional cujo VO₂máx aumentou 96% em dois anos evidenciam plasticidade muito além do previsto. Soma-se a isso o fato de que a prescrição por limiares ventilatórios aumenta dramaticamente a resposta, enquanto métodos padronizados por FC geram maior taxa de não-respondentes. Assim, a faixa de 15–20% é apenas uma média, e não um limite fisiológico: há indivíduos que não respondem, e há indivíduos que superam 50% ou mais de aumento, dependendo de genética, experiência prévia, progressão, intensidade, duração e adequação do estímulo.
O dogma paralelo — o de que o VO₂máx decai 1% ao ano ou 10% por década — também falha ao simplificar fenômenos complexos. Esse número reflete populações sedentárias estudadas nas décadas de 1970 e 1980, não um princípio universal. A queda do VO₂máx não é intrínseca, mas condicional: reflete o declínio do estímulo físico, da massa muscular ativa e do débito cardíaco, não uma regra inexorável do envelhecimento. Indivíduos altamente treinados apresentam declínios muito menores: entre 0,3% e 0,5% ao ano entre os 30 e 60 anos, com aceleração apenas após os 70–75 anos. Em atletas máster, curvas de declínio quase paralelas persistem por décadas. Ademais, o desuso explica muito mais do que a idade: perda de massa ventricular esquerda, redução do volume sistólico, queda da densidade capilar e diminuição de mitocôndrias funcionais ocorrem rapidamente com inatividade, mas esses sistemas seguem treináveis mesmo em idades avançadas. Há ainda outliers que desafiam completamente o dogma — atletas máster preservam VO₂máx de jovens e, em alguns casos, há aumento do VO₂máx após os 40 ou 50 anos quando o indivíduo inicia treinamento estruturado. Por fim, o ritmo de queda é também parcialmente genético, como demonstram análises hereditárias que revelam resistência variável ao envelhecimento cardiorrespiratório.
Em síntese, o VO₂máx é simultaneamente limite fisiológico, indicador de saúde e fenômeno multifatorial moldado por genética, estrutura cardíaca, dinâmica de fluxo e adaptações periféricas. Avançamos muito no entendimento de seus determinantes, mas ainda enfrentamos lacunas relevantes, especialmente sobre a regulação neural, o papel preciso da genética e a dimensão máxima de plasticidade cardíaca induzida pelo treinamento. A integração entre análise genética, prescrição individualizada e avaliação criteriosa dos múltiplos domínios de adaptação promete elevar tanto a ciência quanto a prática do treinamento de endurance. E, ao contextualizarmos os dogmas, fica evidente que estatísticas epidemiológicas não representam leis da natureza: o organismo humano envelhece, sim — mas envelhece melhor quando se move.
Referências:
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