Durante décadas, atletas de elite têm recorrido ao treinamento em altitude como estratégia para melhorar o desempenho de endurance. A menor pressão parcial de oxigênio em altitudes acima de 2.300 metros estimula a produção de hemácias, aumentando o hematócrito e, consequentemente, a capacidade de transporte de oxigênio — um fator determinante no rendimento aeróbico.
Essa busca por vantagens fisiológicas já levou muitos ciclistas a explorar métodos controversos, como doping sanguíneo e uso de eritropoetina (EPO). Um dos casos mais notórios foi o de Lance Armstrong, 7 vezes vencedor do Tour de France, cuja carreira terminou após revelações sobre o uso sistemático de substâncias ilegais.
Agora, uma nova estratégia está chamando atenção: a inalação de monóxido de carbono (CO) em doses controladas. Um estudo recente de Urianstad et al. (2024) sugere que a combinação de treinamento em altitude moderada com exposição diária a baixas doses de CO promove adaptações hematológicas superiores ao treinamento em altitude isolado — e mais eficazes que o treinamento ao nível do mar.
Como o CO Afeta o Corpo?
Tradicionalmente, o CO era utilizado apenas como ferramenta de medição: sua ligação com a hemoglobina permite “marcar” os glóbulos vermelhos para avaliar a massa total de hemoglobina (MTHb). No entanto, a exposição crônica e controlada ao CO pode induzir a produção de EPO de forma semelhante ao que ocorre em fumantes crônicos — que frequentemente apresentam hematócrito elevado devido à presença contínua do gás no organismo.
O CO se liga fortemente à hemoglobina, ocupando os locais normalmente reservados ao oxigênio e reduzindo a entrega de oxigênio aos rins. Isso sinaliza a necessidade de produzir mais glóbulos vermelhos, estimulando a liberação endógena de EPO.
Vantagem ou Risco?
A possibilidade de melhorar o desempenho aeróbico por meio da elevação da MTHb é sedutora. Afinal, essa variável está diretamente correlacionada com o VO₂máx — um dos principais indicadores da capacidade aeróbica de um atleta. Porém, há preocupações sérias: no estudo citado, quase metade dos ciclistas não percebeu se havia inalado CO ou placebo, o que demonstra o risco do uso de uma substância inodora e incolor, mesmo sob condições controladas. Além disso, os impactos de longo prazo da elevação dos níveis de carboxi-hemoglobina ainda não são totalmente compreendidos.
Estratégias ergogênicas e Pogacar
Atualmente, apenas o treinamento em altitude e métodos de expansão de volume plasmático por meio da adaptação ao calor são considerados legais e seguros. Estratégias como transfusões de sangue, uso de EPO, xenônio ou cobalto continuam proibidas. A possível adoção do CO como recurso ergogênico levanta questões éticas e científicas e a UCI recentemente baniu essa prática da competições e ao lado dos chefes das principais equipes de ciclismo do mundo, solicitam à WADA um posicionamento a respeito já que existem rumores de que dois dos melhores ciclistas da atualidade, Tadej Pogacar e Jonas Vingegaard estariam adotando o procedimento.
Referências:
Minson CT, Joyner MJ. Carbon monoxide inhalation for performance: dancing with the devil? J Appl Physiol (1985). 2024 Dec 1;137(6):1563-1565.
Urianstad T, Villanova S, Odden I, Hansen J, Mølmen KS, Porcelli S, Rønnestad BR, Cardinale DA. Carbon monoxide supplementation: evaluating its potential to enhance altitude training effects and cycling performance in elite athletes. J Appl Physiol (1985). 2024 Nov 1;137(5):1092-1105.