Integração multiescalar da economia de movimento: bases evolutivas, regulação neurometabólica e durabilidade no desempenho de endurance

por | fev 11, 2026

A história biológica do desempenho em endurance é, em essência, a história da otimização do custo energético da locomoção. Muito antes de métricas laboratoriais como VO₂, limiares ventilatórios ou eficiência delta, a seleção natural já operava como um avaliador implacável de economia. Em ambientes nos quais energia significava sobrevivência, mover-se mais gastando menos determinava sucesso reprodutivo. A transição para o bipedalismo, a reorganização do pé em um sistema elástico e a capacidade singular de sustentar corridas prolongadas emergem como capítulos de uma mesma narrativa adaptativa: a minimização do custo por unidade de deslocamento.

A discussão evolutiva fornece o pano de fundo essencial. A emergência de membros inferiores longos, postura ereta e estruturas plantares capazes de armazenar energia elástica ampliou a distância percorrida por unidade de energia. A economia tornou-se vantagem adaptativa, permitindo expansão territorial sem aumento proporcional do gasto calórico. Essa lógica ecoa diretamente nos dados observados em atletas modernos: menor custo implica maior fração do VO₂máx preservada para sustentar ritmos competitivos, fenômeno reiterado em investigações comparativas entre corredores de desempenho semelhante.

A literatura consolidada da fisiologia aplicada descreve a economia como o consumo de oxigênio necessário para manter uma velocidade estável. Contudo, trabalhos recentes demonstram que essa definição, embora operacionalmente útil, pode mascarar complexidades associadas à escolha de substratos e à forma de normalização dos dados. Estudos em corredores recreacionais mostraram que a simples divisão pelo peso corporal pode gerar interpretações equivocadas, defendendo o uso de abordagens alométricas para comparações interindividuais. Ao mesmo tempo, pesquisas com atletas altamente treinados evidenciam que pequenas variações no custo por quilômetro estão intimamente associadas ao desempenho real em provas.

Entre os determinantes fisiológicos, adaptações periféricas repetidamente aparecem como elementos centrais. Revisões em corredores treinados destacam aumento da densidade mitocondrial, maior atividade de enzimas oxidativas e melhor utilização de energia elástica como mecanismos capazes de reduzir a demanda metabólica. Entretanto, a melhoria da economia raramente ocorre isoladamente; ela emerge da convergência entre mudanças musculares, coordenação e experiência de movimento. A biomecânica reforça essa interpretação. Investigações demonstram que corredores mais econômicos tendem a apresentar menor oscilação vertical, redução de forças de frenagem e padrões cinemáticos consistentes. O sistema parece buscar automaticamente combinações que minimizam dissipações desnecessárias. Observações sobre dinâmica do movimento indicam que a velocidade preferida frequentemente coincide com regiões de maior estabilidade do padrão locomotor, sugerindo interação íntima entre controle neural e custo energético.

A participação do sistema nervoso torna-se ainda mais evidente quando se examina o efeito da fadiga prolongada. Ao longo de corridas extensas, o consumo de oxigênio para a mesma velocidade aumenta progressivamente, enquanto o VO₂máx atingível pode diminuir. Essa dupla modificação eleva a intensidade relativa do esforço e impõe desafios adicionais à manutenção da técnica. Entretanto, atletas mais treinados demonstram capacidade superior de resistir a essa deterioração, evidenciando que a experiência molda mecanismos de preservação funcional. A noção recente de durabilidade amplia o paradigma tradicional. Não basta ser econômico no início; é necessário sustentar essa vantagem sob estresse metabólico. Estudos de confiabilidade mostram que, mesmo durante protocolos de 90 minutos, as medidas de custo podem ser reprodutíveis, permitindo identificar intervenções capazes de retardar a deriva fisiológica. Esse campo emergente aproxima-se de perguntas fundamentais sobre como o cérebro e a musculatura cooperam para manter eficiência.

No triathlon, a sucessão de modalidades oferece laboratório natural dessa interação. Evidências indicam que a natação prévia pode comprometer parâmetros subsequentes do ciclismo, elevando frequência cardíaca e reduzindo potência associada ao limiar. A economia torna-se dependente do histórico imediato do atleta, revelando que processos centrais e periféricos acumulam influências. A dominância de corredores do leste africano fornece exemplo emblemático dessa integração multiescalar. Mesmo quando o VO₂máx não é extraordinariamente superior, a economia excepcional permite performances notáveis. Aspectos antropométricos, exposição crônica à altitude e cultura de movimento desde a infância convergem para criar sistema altamente eficiente.

Quando incorporamos contribuições da biologia molecular, torna-se plausível interpretar parte dessas adaptações como reflexo de maior capacidade oxidativa, melhor acoplamento energético e especialização das fibras. Tais características reduzem a quantidade de oxigênio necessária para produzir a mesma potência mecânica, conectando fenômenos microscópicos a resultados macroscópicos. Dessa forma, a economia de movimento deve ser entendida como produto emergente de múltiplas camadas de organização. A evolução forneceu a estrutura; o treinamento refinou o controle; a bioquímica sustenta a execução; e o sistema nervoso coordena a continuidade sob fadiga. O atleta de endurance de alto nível é aquele que mantém essas dimensões em equilíbrio enquanto a competição tenta desestabilizá-las.

Referências 

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Crédito da imagem: By MSGT Lono Kollars – http://www.defenseimagery.mil/imagery.html#guid=eed2ec03a883251474632c8ff08efc5de79a808b, Public Domain, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=9652923