Imunometabolismo no Endurance: Arquitetura Integrada entre Sistema Imune, Distribuição Energética e Fadiga Sistêmica em Atletas de Alta Demanda

por | mar 20, 2026

A fisiologia do endurance, quando analisada sob a ótica clássica centrada no músculo esquelético e no sistema cardiovascular, é insuficiente para explicar a complexidade das respostas adaptativas e mal-adaptativas observadas em atletas submetidos a cargas crônicas elevadas. A incorporação do sistema imune como eixo regulador central da economia energética redefine esse paradigma, posicionando a imunidade não apenas como um sistema de defesa, mas como um integrador metabólico que modula a alocação de recursos energéticos, a eficiência bioenergética tecidual e a priorização funcional entre sistemas. A partir dos estudos anexados — incluindo análises transcriptômicas, investigações em condições extremas como o Tour de France, experimentos mecanísticos envolvendo citocinas como IL-13 e modelos clássicos de custo energético da imunidade — emerge um modelo no qual a ativação imune constitui um determinante quantitativo e qualitativo do gasto energético e da performance no endurance.

No nível celular, a interface entre imunidade e metabolismo é mediada por vias bioenergéticas específicas que distinguem estados inflamatórios de estados adaptativos. Células imunes inatas ativadas, como macrófagos do fenótipo M1 e neutrófilos, exibem um metabolismo predominantemente glicolítico, mesmo na presença de oxigênio (efeito semelhante ao fenômeno de Warburg), permitindo rápida geração de ATP e intermediários biossintéticos necessários para produção de citocinas, espécies reativas de oxigênio e fagocitose. Em contraste, células associadas a resolução inflamatória e adaptação, como macrófagos M2 e linfócitos T regulatórios, dependem majoritariamente da fosforilação oxidativa e da oxidação de ácidos graxos, configurando um perfil metabolicamente mais eficiente e sustentável. Essa dicotomia metabólica implica que o “custo energético” da imunidade não é fixo, mas dependente do estado funcional do sistema imune. No endurance, a imunoadaptação eficiente tende a deslocar o sistema para um perfil oxidativo, reduzindo o custo basal da inflamação e favorecendo economia energética sistêmica.

Essa reprogramação é evidenciada em estudos transcriptômicos com atletas de endurance, nos quais leucócitos periféricos apresentam aumento da expressão de genes relacionados à biogênese mitocondrial, tradução proteica e metabolismo energético, concomitantemente à redução de assinaturas inflamatórias. Tal perfil sugere que o treinamento crônico induz uma “otimização metabólica” do sistema imune, reduzindo a necessidade de ativação inflamatória basal e aumentando a eficiência energética das células imunes. Essa adaptação pode ser interpretada como uma estratégia evolutiva de minimização de custos em um ambiente de demanda energética elevada e recorrente, no qual a manutenção de inflamação crônica de baixo grau seria metabolicamente insustentável.

No entanto, a contribuição mais paradigmática advém da demonstração de que o sistema imune exerce controle direto sobre o metabolismo muscular. O estudo de Knudsen et al. (2020) demonstrou que a interleucina-13 (IL-13), produzida por células imunes residentes no músculo, atua como um mediador crítico da adaptação ao endurance. A IL-13 sinaliza por meio do receptor IL-13Rα1, ativando a via STAT3, o que resulta em aumento da expressão de genes envolvidos na oxidação de ácidos graxos, transporte de substratos e biogênese mitocondrial. Em modelos murinos deficientes em IL-13, observou-se incapacidade de aumentar a capacidade aeróbia e a eficiência metabólica em resposta ao treinamento, evidenciando que a adaptação ao endurance é, em parte, dependente de sinalização imune. Esse mecanismo estabelece um elo causal entre imunidade e performance, no qual o sistema imune não apenas consome energia, mas direciona o organismo para um estado metabólico mais eficiente, reduzindo o custo energético relativo do exercício prolongado.

Essa função regulatória deve ser compreendida dentro de um contexto mais amplo de imunometabolismo sistêmico. Citocinas como IL-6, IL-1β e TNF-α, frequentemente elevadas durante exercício prolongado e em estados inflamatórios, possuem efeitos pleiotrópicos que incluem aumento da gliconeogênese hepática, mobilização de ácidos graxos, indução de resistência insulínica transitória e modulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal. Esses efeitos não são meramente colaterais, mas constituem um programa coordenado de redistribuição energética, no qual o organismo prioriza processos considerados críticos para a sobrevivência imediata, como defesa imunológica e manutenção da homeostase. A revisão clássica de Klasing (1988) já destacava que a ativação imune promove aumento do gasto energético de repouso, redução da ingestão alimentar e redirecionamento de nutrientes para a síntese de proteínas de fase aguda, estabelecendo as bases conceituais para o entendimento atual de custo energético da imunidade.

A magnitude desse custo torna-se particularmente evidente em estados infecciosos. Estudos em humanos demonstram que infecções leves do trato respiratório podem elevar a taxa metabólica de repouso em aproximadamente 8% a 14%, correspondendo a um incremento de cerca de 150 a 280 kcal/dia em indivíduos com gasto basal típico de atletas. Esse aumento ocorre independentemente de febre significativa, sendo amplificado na presença de hipertermia, onde cada aumento de 1 °C na temperatura corporal pode elevar o gasto energético em aproximadamente 10–12,5%. Esses valores evidenciam que a ativação imune possui um custo energético comparável a uma sessão adicional de treinamento leve a moderado, o que, em atletas com balanço energético limítrofe, pode comprometer significativamente a recuperação e a adaptação.

Em contraste, a inflamação subclínica observada em atletas de endurance representa um estado de menor intensidade, porém de grande relevância fisiológica devido à sua persistência. Esse estado é caracterizado por elevações discretas de citocinas, aumento do estresse oxidativo e maior turnover proteico, frequentemente associado a microlesões musculares repetidas, déficit energético relativo e estresse psicológico. Embora o aumento do gasto energético diário seja menor, estimado em dezenas a cerca de 100 kcal/dia, sua natureza crônica resulta em impacto cumulativo significativo. Mais importante que o aumento absoluto do gasto é a redistribuição de energia que ocorre nesse estado: recursos são desviados para processos de reparo e defesa, reduzindo a disponibilidade para síntese proteica, reposição de glicogênio e adaptação neuromuscular.

Os dados provenientes do Tour de France oferecem uma perspectiva única sobre os limites dessa integração. A análise metabolômica de ciclistas ao longo da competição revelou alterações em 43% dos metabólitos circulantes, com predominância de reduções, indicando depleção sistêmica de substratos energéticos. A diminuição de aminoácidos, ácidos graxos e intermediários metabólicos, associada a alterações em vias de β-oxidação e metabolismo antioxidante, sugere um estado de alta pressão metabólica no qual múltiplos sistemas competem por recursos limitados. Nesse contexto, o sistema imune desempenha papel duplo: por um lado, contribui para o consumo de energia através de processos inflamatórios e de reparo; por outro, regula a distribuição de substratos por meio de sinalização citocínica, influenciando a disponibilidade energética para o músculo.

Adicionalmente, estudos de treinamento intensificado demonstram que o organismo pode responder a essa competição energética com redução da taxa metabólica de repouso, uma estratégia compensatória que visa preservar energia diante de demandas concorrentes. Essa redução, associada a alterações autonômicas e hormonais, indica que o custo energético da imunidade pode não se manifestar apenas como aumento do gasto total, mas também como redistribuição interna de energia, na qual determinados sistemas têm sua atividade reduzida para acomodar o aumento da demanda em outros.

A partir dessa integração de evidências, torna-se possível redefinir o conceito de fadiga imunológica no endurance. Não se trata de uma falência do sistema imune, mas de um estado em que o custo energético e regulatório da ativação imune excede a capacidade do organismo de manter simultaneamente processos de adaptação, recuperação e performance. Esse estado é caracterizado por competição energética entre sistemas, aumento da susceptibilidade a infecções, redução da eficiência metabólica e comprometimento da performance. Em contraste, a imunoadaptação representa um estado em que o sistema imune opera de forma eficiente, com baixo custo basal e alta capacidade regulatória, contribuindo para a otimização do metabolismo energético.

Portanto, o sistema imune deve ser entendido como um componente central da fisiologia do endurance, responsável não apenas por defender o organismo, mas por regular a economia energética de forma dinâmica. A distinção entre estados adaptativos e mal-adaptativos depende da capacidade de o organismo equilibrar o custo energético da imunidade com as demandas do exercício, um equilíbrio que é influenciado por fatores como carga de treinamento, disponibilidade energética, sono, estresse e estado nutricional. A compreensão desses mecanismos é fundamental para o desenvolvimento de estratégias que visem otimizar a performance e prevenir a fadiga imunológica em atletas de endurance.

Referências

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KNUDSEN, N. H. et al. Interleukin-13 drives metabolic conditioning of muscle to endurance exercise. Science, v. 368, n. 6490, p. eaat3987, 2020.

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