Espectroscopia no Infravermelho Próximo (NIRS) no Exercício: Fundamentos Fisiológicos, Aplicações no Treinamento de Corredores e Características Técnicas do Moxy Monitor

por | dez 25, 2025

A espectroscopia no infravermelho próximo (Near-Infrared Spectroscopy – NIRS) constitui uma técnica óptica não invasiva destinada à avaliação in vivo da oxigenação tecidual. Seu princípio físico baseia-se na emissão de luz no espectro do infravermelho próximo (≈700–900 nm), faixa na qual a pele, o tecido adiposo e o músculo apresentam relativa transparência, enquanto cromóforos biologicamente relevantes — notadamente a hemoglobina (Hb) e a mioglobina (Mb) — exibem coeficientes de absorção distintos conforme seu estado de oxigenação. A análise diferencial da luz refletida e absorvida permite estimar, em tempo quase real, a fração relativa de Hb/Mb oxigenadas e desoxigenadas no volume microvascular subjacente ao sensor.

No contexto do exercício, a métrica central derivada do NIRS é a saturação de oxigênio muscular (SmO₂), expressa como a razão percentual entre a concentração de cromóforos oxigenados e o conteúdo total detectado. Diferentemente de variáveis sistêmicas, como o consumo máximo de oxigênio (VO₂) ou a frequência cardíaca, a SmO₂ reflete localmente o balanço dinâmico entre oferta de oxigênio (fluxo sanguíneo, conteúdo arterial, recrutamento capilar) e sua utilização mitocondrial no músculo ativo. Assim, a NIRS fornece uma janela direta para a fisiologia periférica do exercício, tradicionalmente inferida apenas de forma indireta por medidas ventilatórias ou metabólicas globais.

Para corredores, essa característica local assume particular relevância. O desempenho em provas de endurance depende menos da capacidade central isolada e mais da integração entre débito cardíaco, distribuição regional de fluxo e eficiência de extração de oxigênio pelos músculos locomotores. A SmO₂ permite observar, durante corrida contínua ou incremental, padrões típicos de resposta fisiológica: uma queda inicial associada ao rápido aumento da taxa metabólica, seguida de estabilização quando a homeostase entre entrega e consumo de O₂ é atingida, ou, alternativamente, um declínio progressivo quando a intensidade excede a capacidade sustentável. Esses comportamentos fornecem informação funcional sobre limiares fisiológicos, tolerância ao esforço prolongado e mecanismos de fadiga periférica.

Nesse cenário, o Moxy Monitor representa uma aplicação consolidada da tecnologia NIRS ao ambiente de treinamento de campo. Do ponto de vista técnico, o dispositivo utiliza emissores e detectores ópticos multicomprimento de onda acoplados a algoritmos proprietários de processamento de sinal, permitindo a estimativa contínua da SmO₂ e da hemoglobina total relativa (tHb), indicador indireto de variações no volume sanguíneo local. A arquitetura do sistema é portátil, sem fios e de baixa massa, o que reduz artefatos mecânicos e viabiliza o uso durante corrida ao ar livre ou em esteira, sem interferir na mecânica do gesto esportivo.

Uma vantagem metodológica central do Moxy reside no fato de que a SmO₂ responde rapidamente a transições de intensidade, com latência inferior à observada em variáveis como lactato sanguíneo ou ventilação. Isso permite identificar, durante a própria sessão, se o músculo permanece em equilíbrio metabólico ou se está entrando em uma zona de extração máxima de oxigênio, na qual a recuperação se torna progressivamente incompleta. Em termos práticos, tal informação pode ser utilizada para ajustar a intensidade de treinos contínuos extensivos, evitar deriva metabólica excessiva em sessões longas e controlar a relação esforço–recuperação em treinos intervalados com base na cinética de reoxigenação muscular, e não apenas em tempos arbitrários.

Outra característica relevante do Moxy é a natureza estritamente periférica da medida. Enquanto VO₂ e frequência cardíaca refletem respostas integradas de múltiplos sistemas, a SmO₂ evidencia assimetrias funcionais entre músculos ou membros, comuns em corredores e frequentemente associadas a diferenças de força, coordenação neuromuscular ou histórico de lesões. A possibilidade de monitoramento bilateral permite detectar padrões de desoxigenação assimétrica sob a mesma carga externa, fornecendo subsídios objetivos para intervenções de técnica, fortalecimento ou redistribuição da carga de treinamento.

Do ponto de vista científico, é importante destacar que a NIRS não substitui medidas sistêmicas, mas as complementa. A SmO₂ não informa diretamente o consumo absoluto de oxigênio nem o débito cardíaco; contudo, ao revelar a eficiência local de extração e a capacidade de restabelecer a oxigenação durante períodos de menor intensidade, ela acrescenta uma dimensão fisiológica até recentemente inacessível fora do laboratório. O Moxy, ao operacionalizar essa medida em condições ecológicas, amplia a validade externa das observações e aproxima a fisiologia aplicada da realidade cotidiana do treinamento de corredores.

Em síntese, o mecanismo NIRS fundamenta-se em princípios ópticos robustos e bem estabelecidos, e sua aplicação por meio do Moxy Monitor oferece uma ferramenta tecnicamente consistente para investigar a fisiologia periférica do exercício. Sua utilidade no treinamento de corredores reside na capacidade de monitorar, em tempo real e de forma não invasiva, o equilíbrio entre oferta e utilização de oxigênio no músculo ativo, permitindo decisões baseadas em processos fisiológicos locais, e não apenas em proxies sistêmicos ou prescrições genéricas de intensidade.