ENTRE SINAIS E SILÊNCIOS: A ARTE BIOLÓGICA DA PERIODIZAÇÃO NO ENDURANCE

por | nov 22, 2025

Ao longo das últimas décadas, o treinamento de endurance tem se beneficiado de um encontro cada vez mais íntimo entre ciência, prática e sensibilidade humana. À medida que compreendemos melhor como o organismo responde aos diferentes estímulos, emerge uma visão mais refinada sobre como organizar cargas, intensidades e momentos de recuperação para potencializar a adaptação. Nesse cenário, a periodização evolui como linguagem e como arte—uma tentativa contínua de traduzir sinais biológicos em estruturas de treino que respeitem a complexidade do corpo e a singularidade de cada atleta.

A evolução dos modelos de periodização no treinamento de endurance reflete uma compreensão progressivamente mais refinada das interações entre sobrecarga, recuperação e adaptação biológica. Os modelos tradicionais, baseados em progressões lineares e distribuição simultânea de múltiplas capacidades ao longo de grandes períodos, dominaram a literatura e a prática por décadas. Contudo, evidências recentes provenientes de análises retrospectivas de atletas de elite e meta-análises controladas apontam para a superioridade de modelos alternativos, como a periodização em bloco e a periodização polarizada, principalmente quando associados a cargas bem distribuídas e organizadas para estimular vias moleculares específicas relacionadas à biogênese mitocondrial, economia de movimento e tolerância ao estresse metabólico.

A distribuição clássica do treinamento de endurance caracteriza-se por grande volume de baixa intensidade e pequenas frações de treino moderado e intenso, configurando o modelo piramidal. Estudos com esquiadores, ciclistas, corredores e triatletas mostram que mesmo atletas de altíssimo rendimento dedicam entre 80% e 90% do volume anual ao domínio abaixo do primeiro limiar ventilatório. Essa predominância de baixa intensidade não é fruto de conservadorismo, mas de um entendimento fisiológico: intensidades baixas e moderadas estimulam vias metabólicas sustentáveis e produzem estresse suficiente para induzir adaptações oxidativas, especialmente em fibras do tipo I, sem acumular fadiga excessiva que poderia comprometer sessões de alta qualidade posteriores. Evidências recentes confirmam o que já se conhecia há mais de 50 anos: independentemente da modalidade, sessões mais extensas e controladas geram adaptações robustas quando mantidas dentro de um padrão progressivo, sem exaustão.

Entretanto, a periodização tradicional apresenta limitações importantes, entre elas a dificuldade de criar picos múltiplos em uma temporada, o risco de interferência entre estímulos demasiado variados realizados simultaneamente e a tendência a acumular carga moderada excessiva, o que reduz a magnitude do estímulo mitocondrial e neuromuscular. É nesse contexto que modelos como a periodização em bloco surgem como alternativas mais eficientes. Blocos concentrados de treinamento—geralmente de 1 a 4 semanas—focados em uma capacidade fisiológica específica, como VO₂max, potência no limiar ou tolerância ao lactato, produzem ganhos superiores aos da periodização tradicional. A explicação reside na sobrecarga concentrada: repetições sucessivas e frequentes do mesmo tipo de estímulo amplificam a ativação de vias sinalizadoras como AMPK, estimulada pela redução dos níveis de energia celular, CaMK, estimulada pelo incremento das concentrações de íons cálcio dentro da célula e p38-MAPK, ativada pelo aumento do estresse oxidativo, todas diretamente envolvidas na biogênese mitocondrial. Em outras palavras, blocos intensivos operam como “gatilhos moleculares reforçados”, produzindo picos repetidos de transcrição gênica que aceleram a remodelação estrutural do músculo.

Por outro lado, a periodização polarizada tem se mostrado particularmente eficaz para atletas de endurance, sobretudo corredores e ciclistas. Enquanto o modelo piramidal distribui parcelas substanciais de treino em intensidade moderada, o modelo polarizado minimiza essa zona intermediária, privilegiando sessões muito longas de baixa intensidade e sessões curtas, agressivas e altamente intensas. Trabalhos recentes demonstram que, independentemente da ordem em que sessões de alta intensidade são realizadas, a combinação de grandes volumes de baixa intensidade com estímulos curtos e intensos produz melhorias equivalentes em VO₂max, potência crítica e performance em testes de 40 minutos. A ausência de diferença entre progressões crescente, decrescente ou mista indica que a qualidade absoluta da carga, e não sua ordem, é o elemento fisiologicamente determinante. Isso reforça o princípio de que o músculo responde primordialmente ao conjunto total de perturbações metabólicas, mecânicas e intracelulares, e não necessariamente à sequência temporal dessas perturbações.

As razões fisiológicas para a eficácia do modelo polarizado estão intimamente relacionadas aos mecanismos celulares estudados por biólogos moleculares. Sessões de alta intensidade ativam de forma simultânea grandes perturbações no estado redox, na cinética de Ca²⁺, na fosforilação de AMPK e na geração de espécies reativas de oxigênio, todas responsáveis por aumentar a expressão de PGC-1α, coordenador mestre da biogênese mitocondrial. Essas sessões elevam rapidamente a capacidade oxidativa, aumentam a densidade mitocondrial e aprimoram a capacidade de tamponamento de H⁺. Em contraste, sessões extensas de baixa intensidade estimulam a remodelação capilar, o aumento da capacidade de transporte de ácidos graxos e o aprimoramento da estabilidade homeostática. A alternância entre esses estímulos cria um ambiente de adaptação complementar altamente eficaz: enquanto as intensidades altas fornecem picos agudos de sinalização, as intensidades baixas sustentam o desenvolvimento estrutural sem sobrecarregar o sistema.

A periodização em bloco e a periodização polarizada convergem em um aspecto central: ambas evitam a “zona cinzenta” de intensidade moderada excessiva. Quando treinadores organizam semanas ou blocos focais em intensidades específicas, ou alternam de forma clara estímulos muito baixos e muito altos, preservam a integridade dos sinais moleculares responsáveis por cada tipo de adaptação. Isso é consistente com a literatura de biologia molecular, que mostra que a repetição frequente de sessões moderadas tende a gerar sinalização subótima: ativação insuficiente de AMPK para promover grandes expansões mitocondriais e ativação insuficiente de vias hipertroficas ou glicolíticas para promover ganho de potência funcional.

Estudos que analisaram décadas de treinamento de nadadores de elite reforçam que picos de desempenho são precedidos por macroestruturas coerentes, onde progressão, variação planejada e forte ênfase em sessões abaixo de 4 mmol/L coexistem com momentos breves de carga muito elevada. Essa distribuição se aproxima tanto da lógica polarizada quanto da lógica por blocos.

Em síntese, a comparação entre periodização tradicional, em bloco e polarizada revela um eixo comum: estímulos coerentemente organizados para maximizar o efeito acumulado de perturbações metabólicas e moleculares específicas. Os modelos modernos, ao contrário do tradicional, alinham-se mais diretamente com a fisiologia celular, especialmente no que diz respeito à cinética de sinalização e à necessidade de estímulos suficientemente fortes para induzir transcrição gênica e remodelação mitocondrial. O treinamento de endurance, quando estruturado dessa forma, respeita a lógica natural do músculo: estímulos fortes e intermitentes para gerar transformação, e estímulos extensos e suaves para consolidá-la. Essa integração entre ciência molecular e prática de campo representa o estado da arte da periodização contemporânea.

Em última instância, treinar é mais do que aplicar modelos: é interpretar sinais, ouvir a fisiologia e compreender a narrativa silenciosa que o corpo escreve a cada sessão. A periodização, por mais científica que seja, continua sendo uma arte—uma arte que nasce da sensibilidade do treinador ao equilibrar cargas internas e externas, e ao decifrar os efeitos que cada estímulo produz no organismo cansado, porém adaptável, do atleta. Nesse processo delicado, as novas tecnologias portáteis de monitoramento fisiológico acrescentam uma camada inédita de clareza, permitindo enxergar o invisível: fluxos de oxigênio, oscilações de carga, respostas metabólicas, variações de tensão e recuperação. A ciência aponta caminhos, os dispositivos revelam nuances, mas é a mão do treinador—informada, sensível e criativa—que transforma tudo isso em performance. E é nesse encontro entre técnica, biologia e humanidade que o verdadeiro treinamento se realiza.

Referência:

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