Entre o Silêncio Neural e a Plasticidade Metabólica: o Sono como Arquitetura Biológica da Adaptação no Endurance

por | jan 10, 2026

O sono constitui um estado fisiológico ativo, dinâmico e profundamente integrador, no qual se articulam processos neurais, autonômicos, endócrinos, metabólicos e imunológicos que sustentam a homeostase do organismo e viabilizam a adaptação ao estresse. Na fisiologia geral, o sono representa um período de reorganização sistêmica, no qual a atividade biológica não apenas se mantém, mas se reorienta em direção à reparação, à consolidação funcional e à recalibração dos sistemas de controle. Na fisiologia do exercício de endurance, essa função adquire relevância ampliada, uma vez que o treinamento prolongado e repetitivo impõe desafios simultâneos à bioenergética muscular, ao controle autonômico, à integridade neurocognitiva e ao equilíbrio hormonal. A literatura contemporânea converge para a compreensão do sono como um verdadeiro “ambiente interno” no qual o estresse mecânico e metabólico do exercício é traduzido em adaptação estrutural e funcional, transformando carga em performance sustentável.

A arquitetura do sono humano organiza-se em ciclos ultradianos compostos por estágios NREM (N1, N2 e N3) e sono REM, cada qual associado a padrões específicos de atividade cortical, autonômica e metabólica. O sono NREM profundo, caracterizado pela predominância de oscilações delta e pela elevada sincronização cortical, associa-se a uma redução global do metabolismo cerebral e periférico, acompanhada por um ambiente hormonal marcadamente anabólico. Durante esse estágio, ocorre liberação pulsátil acentuada de hormônio do crescimento, aumento da sinalização de IGF-1, estímulo à síntese proteica miofibrilar e mitocondrial, além da restauração dos estoques de glicogênio muscular e hepático. Esses processos são centrais para atletas de endurance, nos quais a eficiência mitocondrial, a integridade do citoesqueleto muscular e a manutenção da capacidade oxidativa dependem de ciclos repetidos de dano e reparo induzidos pelo treinamento.

O sono REM, por sua vez, caracteriza-se por ativação cortical dessíncrona, elevada atividade límbica e grande variabilidade autonômica, refletindo um estado fisiológico paradoxal. Nesse estágio, embora o tônus muscular esteja suprimido, o cérebro apresenta intensa atividade metabólica, favorecendo a integração emocional, a consolidação de memórias procedurais e a reorganização de padrões motores. Para atletas de endurance, o sono REM parece desempenhar papel relevante na consolidação de estratégias motoras, na integração sensório-motora e na adaptação cognitiva às demandas prolongadas do exercício, particularmente em contextos de tomada de decisão sob fadiga. Assim, a alternância entre sono NREM profundo e sono REM constitui um ciclo funcional no qual recuperação periférica e reorganização central se complementam de forma indissociável.

No cerne dessa organização encontra-se a interação dinâmica entre o sistema nervoso central e o sistema nervoso autônomo. Durante o sono NREM, observa-se predominância do tônus parassimpático, com redução da atividade simpática, queda da frequência cardíaca, diminuição da pressão arterial e estabilização da ventilação. Esse estado favorece a recuperação cardiovascular, a restauração da sensibilidade barorreflexa e a economia energética sistêmica. Em contraste, o sono REM apresenta flutuações rápidas e fásicas da atividade autonômica, com surtos simpáticos intercalados por ativações vagais, resultando em grande variabilidade da frequência cardíaca e instabilidade cardiovascular transitória. Longe de representar disfunção, essa variabilidade reflete a plasticidade do eixo cérebro-coração e a capacidade do organismo de alternar rapidamente entre estados regulatórios distintos, característica essencial para a adaptação ao estresse físico e ambiental .

A privação ou fragmentação do sono rompe esse delicado equilíbrio. Evidências experimentais demonstram que a restrição de sono eleva o custo fisiológico do exercício de endurance, manifestando-se por aumento da frequência cardíaca para uma mesma carga submáxima, maior ventilação, maior acúmulo de lactato e redução do tempo até a exaustão. Estudos com eletroencefalografia revelam que, após exercício realizado sob privação de sono, há redução da potência em bandas delta e teta em regiões parietais e occipitais, acompanhada por alterações da conectividade funcional cortical. Esses achados sugerem comprometimento da integração sensório-motora e aumento da fadiga central, reforçando a noção de que o sono insuficiente limita não apenas a recuperação periférica, mas também a disponibilidade neural necessária para sustentar esforços prolongados e coordenados.

No âmbito autonômico, a restrição crônica do sono associa-se a um deslocamento do balanço simpato-vagal em direção à predominância simpática, com redução da variabilidade da frequência cardíaca e da sensibilidade barorreflexa. Tal padrão é semelhante ao observado em estados de overreaching e overtraining, sugerindo que a privação de sono pode atuar como fator precipitante ou amplificador de maladaptações induzidas pelo treinamento. Estudos clássicos em atletas de endurance demonstram que reduções do controle parassimpático durante o sono de ondas lentas precedem quedas de desempenho, mesmo quando medidas autonômicas diurnas permanecem aparentemente preservadas. Isso indica que o sono profundo constitui uma janela fisiológica particularmente sensível para detectar desequilíbrios entre estresse e recuperação, funcionando como um “sismógrafo” da adaptação autonômica .

Além dos aspectos neurais e autonômicos, o sono exerce influência decisiva sobre a regulação metabólica e molecular. A privação de sono compromete a ressíntese de glicogênio muscular, reduz a eficiência da fosforilação oxidativa e favorece um ambiente hormonal catabólico, caracterizado por elevação do cortisol e redução de testosterona e hormônio do crescimento. Em nível celular, o sono inadequado associa-se ao aumento de sinalização pró-inflamatória, com elevação de citocinas como IL-6 e TNF-α, além da ativação de vias relacionadas ao estresse oxidativo e à apoptose. Evidências recentes sugerem ainda que o sono modula mecanismos epigenéticos, incluindo metilação do DNA e expressão de microRNAs envolvidos na biogênese mitocondrial e na adaptação ao exercício, reforçando a ideia de que o sono não apenas recupera, mas também “programa” a resposta adaptativa ao treinamento.

A qualidade do sono, e não apenas sua duração, emerge como determinante crítica da adaptação no endurance. Estudos em nadadores de elite demonstram que maior proporção de sono de ondas lentas associa-se a menor frequência cardíaca média durante o exercício e a melhor desempenho competitivo, independentemente do sexo. Em corredores de endurance e ultra-endurance, padrões de sono de pior qualidade tornam-se mais prevalentes à medida que aumentam as exigências físicas e psicológicas da modalidade, com particular impacto em mulheres, sugerindo interação complexa entre sexo, carga de treinamento e regulação do sono. Esses achados reforçam a noção de que o sono atua como mediador entre carga externa, resposta autonômica e eficiência metabólica, modulando a capacidade de sustentar adaptações crônicas favoráveis.

Em contextos extremos, como provas de ultra-endurance e expedições multidiárias, a combinação de privação aguda de sono e fadiga prolongada expõe de forma contundente o papel integrador do sono. Relatos de caso e estudos observacionais demonstram reduções acentuadas da variabilidade da frequência cardíaca, prejuízos cognitivos e alterações de humor imediatamente após esses eventos, ainda que parte dessas alterações reverta-se após períodos relativamente curtos de recuperação. Tais observações sustentam a ideia de que o sono funciona como um amortecedor fisiológico, capaz de restaurar, ao menos parcialmente, o equilíbrio autonômico, metabólico e cognitivo após insultos extremos ao organismo.

De forma integrada, a literatura indica que o sono ocupa posição central na fisiologia geral e na fisiologia do exercício de endurance, atuando como elo funcional entre sistemas neurais, autonômicos, endócrinos, imunológicos e metabólicos. Longe de representar um estado passivo, o sono configura-se como um período de intensa atividade biológica, no qual se consolidam adaptações estruturais e funcionais induzidas pelo treinamento. A compreensão aprofundada de seus mecanismos fisiológicos e moleculares permite não apenas otimizar o desempenho esportivo, mas também preservar a saúde, prevenir maladaptações e sustentar a longevidade funcional de atletas submetidos a cargas crônicas elevadas. O sono, nesse sentido, emerge como a mais silenciosa — e talvez a mais decisiva — variável biológica da adaptação no endurance.

Referências

DUPUY, O. et al. Night and postexercise cardiac autonomic control in functional overreaching. Applied Physiology, Nutrition, and Metabolism, v. 38, n. 2, p. 200–208, 2013.

ZHAO, S. et al. Exploring the effects of sleep deprivation on physical performance: an EEG study in the context of high-intensity endurance. Sports Medicine – Open, v. 11, n. 4, 2025.

LUNDSTROM, E. A. et al. Sleep quality impacts training responses and performance in elite swimmers. European Journal of Sport Science, v. 25, e70090, 2025.

MATOS, J. P. et al. Influence of sleep quality on recovery and performance in endurance and ultra-endurance runners. Healthcare, v. 13, n. 7, p. 812, 2025.

KACZMAREK, F. et al. Sleep and athletic performance: a multidimensional review of physiological and molecular mechanisms. Journal of Clinical Medicine, v. 14, n. 21, p. 7606, 2025.

ZAMBOTTI, M. de et al. Dynamic coupling between the central and autonomic nervous systems during sleep. Neuroscience & Biobehavioral Reviews, v. 90, p. 84–103, 2018.

ZOCCOLI, G.; AMICI, R. Sleep and autonomic nervous system. Current Opinion in Physiology, v. 15, p. 128–133, 2020.

CHAREST, J.; GRANDNER, M. A. Sleep and athletic performance: impacts on physical performance, injury risk and mental health. Sleep Medicine Clinics, v. 15, n. 1, p. 41–57, 2020.

FITZGIBBON-COLLINS, L. K. et al. Effects of acute sleep deprivation and extreme fatigue on cognitive performance and cardiac autonomic function. Journal of Science and Medicine in Sport, v. 28, p. 1042–1045, 2025.