Entre o Método e a Dúvida: a Ciência como Aproximação Humilde da Verdade Biológica

por | dez 22, 2025

A ciência nasce menos como um conjunto de respostas e mais como uma atitude diante do desconhecido. Há nela um traço quase literário: o impulso humano de iluminar, com método, aquilo que antes era apenas sombra. Desde suas origens filosóficas na Grécia antiga até sua configuração contemporânea como empreendimento global altamente especializado, a ciência se construiu como uma linguagem rigorosa para falar sobre o mundo, sempre consciente de sua própria falibilidade. Não é a posse da verdade que a define, mas a disposição permanente de submeter explicações ao crivo da crítica, da evidência e da possibilidade de refutação. Nesse sentido, ciência é menos um ponto de chegada e mais um caminho: uma aproximação sucessiva, provisória e autocorretiva da realidade.

Definir ciência, portanto, exige reconhecer sua dupla natureza: produto e processo. Por um lado, ela gera corpos de conhecimento altamente confiáveis, capazes de transformar a sociedade, a tecnologia e a biologia; por outro, é um método culturalmente construído para produzir esses conhecimentos. Esse método envolve observação sistemática, formulação de hipóteses, experimentação, análise crítica e comunicação transparente dos resultados. O elemento distintivo não é a sofisticação técnica em si, mas a exigência de que as afirmações científicas sejam potencialmente testáveis, passíveis de erro e abertas à revisão. A ciência, ao contrário da doxa — a opinião —, busca a episteme: um conhecimento que se sustenta não pela autoridade de quem fala, mas pela coerência lógica, pela evidência empírica e pela crítica intersubjetiva.

Essa concepção tem implicações diretas para a formação de profissionais que atuam em áreas ancoradas no conhecimento biológico e fisiológico. No mundo contemporâneo, marcado por excesso de informação, aceleração tecnológica e crescente pressão por resultados rápidos, torna-se perigoso confundir ciência com técnica, ou evidência com opinião bem apresentada. Profissionais da saúde, do esporte, da biologia, da fisiologia e de áreas afins não podem ser meros consumidores de conclusões prontas. Precisam compreender como o conhecimento é produzido, quais são seus limites metodológicos e quais vieses podem distorcer interpretações. A formação científica, nesse contexto, não é um luxo acadêmico, mas uma ferramenta ética e profissional indispensável para decisões responsáveis.

Aprender ciência implica, sobretudo, aprender a ler ciência. Isso significa desenvolver a capacidade de analisar criticamente artigos científicos, compreender desenhos experimentais, distinguir correlação de causalidade, avaliar tamanho de efeito, validade interna e externa, bem como reconhecer conflitos de interesse e limitações estatísticas. A leitura acrítica de resultados — prática infelizmente comum — transforma a ciência em retórica de autoridade, esvaziando seu caráter crítico. A linguagem científica, como prática social, foi precisamente moldada para minimizar ambiguidades, reduzir vieses interpretativos e permitir que outros cientistas reproduzam, testem e, se necessário, contestem achados anteriores. Dizer o que se observa, e não o que se deseja observar, é um princípio fundador dessa linguagem.

Nesse cenário emerge com força o debate sobre a chamada crise de reprodutibilidade. Diversos campos científicos passaram a reconhecer que uma parcela significativa dos resultados publicados não é facilmente reproduzível quando os mesmos métodos são reaplicados ou quando novos dados são coletados. Essa constatação não deve ser interpretada como falência da ciência, mas como um sinal de sua capacidade de autorreflexão. Reprodutibilidade, robustez e replicabilidade são conceitos centrais porque garantem que o conhecimento científico não dependa apenas de contextos específicos, decisões analíticas arbitrárias ou vieses de publicação. A transparência metodológica, o compartilhamento de dados e a abertura dos códigos analíticos são hoje entendidos como condições essenciais para a credibilidade científica.

Ao mesmo tempo, é necessário cautela intelectual para não transformar a noção de crise em narrativa simplista. Evidências de meta-pesquisa indicam que problemas de reprodutibilidade são heterogêneos entre áreas, nem sempre crescentes, e muitas vezes concentrados em subcampos específicos. A ciência, como sistema complexo, é influenciada por incentivos institucionais, pressões por produtividade, busca por significância estatística e estruturas de recompensa que nem sempre favorecem boas práticas. Reconhecer essas fragilidades não enfraquece a ciência; ao contrário, fortalece sua dimensão ética e metodológica, ao exigir reformas nos modos de produzir, avaliar e comunicar conhecimento.

A reflexão sobre a ciência da própria ciência — a chamada science of science — amplia ainda mais essa compreensão. Ao analisar redes de colaboração, padrões de citação, dinâmicas de equipes e trajetórias de descoberta, esse campo revela que a produção científica é um fenômeno social complexo, sujeito a regularidades, riscos e trade-offs. Descobertas disruptivas frequentemente emergem da combinação entre conhecimento consolidado e abordagens incomuns, enquanto estruturas excessivamente conservadoras tendem a produzir avanços incrementais. Essa visão sistêmica reforça a necessidade de formar cientistas e profissionais capazes de pensar criticamente não apenas sobre dados, mas sobre o próprio ecossistema científico em que estão inseridos.

No campo específico das ciências biológicas e fisiológicas, a história recente oferece exemplos eloquentes de como conceitos amplamente aceitos podem ser revisados ou abandonados à luz de melhor metodologia, novos instrumentos e reflexão epistemológica mais madura. Erros conceituais persistiram por décadas não por má-fé, mas por limitações técnicas, pressupostos não questionados e formação insuficiente em filosofia da ciência. Esses episódios ilustram por que a ciência não avança por acumulação linear de fatos, mas por ciclos de normalidade, crise e reformulação teórica. Formar profissionais capazes de reconhecer esse movimento histórico é essencial para evitar dogmatismos travestidos de evidência.

Ao final, compreender o que é ciência significa aceitar um paradoxo fértil: ela é, simultaneamente, o modo mais confiável de conhecer o mundo e uma prática inevitavelmente humana, portanto imperfeita. Sua força reside justamente nessa tensão. A ciência não promete certezas finais, mas oferece o melhor conhecimento disponível, produzido com método, transparência e abertura à crítica. Em um mundo saturado de informações rápidas, opiniões polarizadas e soluções simplistas, cultivar o pensamento científico é um ato de responsabilidade intelectual. É reconhecer que a verdade não é um dogma a ser defendido, mas um horizonte a ser continuamente reaproximado — com rigor, humildade e disposição para mudar de ideia quando os dados assim exigirem.

 

Referências

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Imagem: Afresco pintado por Rafael no Palácio Apostólico no Vaticano, Escola de Atenas (1509–1511) retrata diversos filósofos do período grego. Ao centro: Platão e Aristóteles