Durante grande parte do desenvolvimento da fisiologia do exercício, o desempenho em modalidades de endurance foi interpretado a partir de um conjunto relativamente estável de determinantes fisiológicos. O consumo máximo de oxigênio, o limiar do lactato — especialmente o segundo limiar (LT-2) — e a eficiência mecânica do movimento constituíram, por décadas, os pilares explicativos centrais da performance em provas prolongadas. Esse arcabouço teórico, formalizado no chamado modelo de Joyner, demonstrou elevada capacidade preditiva, sendo capaz de explicar parcela substancial da variabilidade interindividual em corredores, ciclistas e atletas de esportes nórdicos quando os parâmetros são medidos em condições laboratoriais padronizadas e em estado fisiológico “fresco”. No entanto, à medida que o foco da investigação científica se deslocou do teste incremental para a realidade dinâmica das competições de longa duração, tornou-se evidente que esse modelo, embora necessário, é insuficiente para explicar plenamente o rendimento em situações nas quais o exercício se estende por horas.
Evidências acumuladas nas últimas décadas demonstram que as variáveis fisiológicas tradicionalmente utilizadas para predizer o desempenho não permanecem estáticas durante o esforço prolongado. Pelo contrário, o VO₂máx funcional, a velocidade ou potência associada ao limiar de lactato, a economia de movimento e a relação entre carga interna e externa sofrem deteriorações progressivas ao longo do exercício. A magnitude, o ritmo de instalação e o momento de início dessa deterioração apresentam elevada variabilidade interindividual, mesmo entre atletas com valores iniciais muito semelhantes. Essa constatação levou ao surgimento de um novo conceito integrador na fisiologia do endurance: a durabilidade, também denominada resiliência fisiológica.
Durabilidade pode ser compreendida como a capacidade do organismo em resistir à perda funcional induzida pelo tempo de exercício, preservando, tanto quanto possível, as características fisiológicas que sustentam o desempenho. Não se trata, portanto, de um atributo adicional isolado, mas de uma dimensão temporal da própria aptidão aeróbia. Estudos recentes em corredores de maratona demonstram que atletas mais rápidos não diferem substancialmente dos mais lentos quando avaliados apenas pelo VO₂máx, pelo LT-2 ou pela economia em estado fresco. A diferença emerge quando essas mesmas variáveis são reavaliadas após períodos prolongados de exercício contínuo, momento em que atletas de maior desempenho exibem menor declínio da velocidade associada ao limiar, menor aumento do custo metabólico do movimento e menor desacoplamento entre frequência cardíaca e carga externa. Assim, pequenas diferenças percentuais na preservação dessas variáveis ao longo do tempo traduzem-se em diferenças substanciais no desempenho competitivo.
A fisiologia da fadiga prolongada é multifatorial e resulta da interação complexa entre sistemas cardiovasculares, respiratórios, metabólicos, neuromusculares e termorregulatórios. No domínio cardiovascular, o exercício prolongado promove redução progressiva do volume plasmático, redistribuição do fluxo sanguíneo em favor da pele para dissipação de calor e aumento compensatório da frequência cardíaca para manutenção do débito cardíaco. Esse fenômeno, conhecido como deriva cardiovascular, eleva a carga interna para uma mesma carga externa e compromete a eficiência do transporte de oxigênio aos músculos ativos. Atletas mais duráveis apresentam menor magnitude dessa deriva, refletindo adaptações centrais e periféricas mais robustas.
O sistema respiratório, tradicionalmente considerado não limitante em indivíduos saudáveis, assume papel relevante em intensidades elevadas e esforços prolongados, especialmente em atletas altamente treinados. O aumento sustentado do trabalho respiratório pode induzir fadiga dos músculos ventilatórios e desencadear vasoconstrição reflexa na musculatura locomotora, reduzindo o fluxo sanguíneo periférico e acelerando o desenvolvimento da fadiga muscular. Em alguns atletas, observa-se ainda dessaturação arterial induzida pelo exercício, agravando a limitação do transporte de oxigênio e contribuindo para a perda de desempenho ao longo do tempo.
No plano biomecânico e neuromuscular, a fadiga prolongada altera padrões de recrutamento motor, favorecendo a ativação de unidades motoras menos eficientes e metabolicamente mais custosas. Mudanças sutis na técnica de corrida ou pedalada, muitas vezes imperceptíveis visualmente, aumentam o custo energético do movimento e deterioram a economia mecânica. Esse aumento progressivo do custo de oxigênio para uma mesma velocidade ou potência implica elevação da fração do VO₂máx utilizada, aproximando o atleta de domínios fisiológicos mais instáveis e menos sustentáveis.
Em nível celular e molecular, a durabilidade parece estar mais relacionada à capacidade oxidativa total do sistema muscular do que à potência oxidativa máxima isolada. Atletas altamente duráveis exibem maior densidade mitocondrial, melhor organização das cristas, maior eficiência do acoplamento oxidativo e maior resistência ao estresse redox induzido pelo exercício prolongado. Essas características reduzem a necessidade de recrutamento compensatório de fibras menos eficientes e atenuam o aumento do custo metabólico associado à fadiga. Além disso, adaptações no metabolismo de substratos, como maior capacidade de oxidação lipídica e melhor preservação do glicogênio muscular, contribuem para a manutenção do estado estacionário metabólico por períodos mais longos, retardando a transição para domínios de exercício mais fatigantes.
Nesse contexto, torna-se evidente que a durabilidade não é uma qualidade adquirida rapidamente, nem resultado exclusivo de sessões intensas ou estímulos agudos. A literatura converge para a ideia de que a base estrutural da durabilidade é construída ao longo de anos de treinamento consistente, com elevado volume de trabalho em intensidades moderadas, tipicamente associadas à zona 2. Sessões prolongadas abaixo do primeiro limiar metabólico promovem forte sinalização mitocondrial, angiogênese capilar sustentada, aprimoramento da eficiência metabólica e refinamento da coordenação neuromuscular com baixo custo inflamatório e hormonal. Ao longo do tempo, esse tipo de estímulo molda um organismo mais econômico, mais estável fisiologicamente e menos suscetível à deterioração funcional induzida pela duração do esforço.
Evidências provenientes de diferentes modalidades de endurance indicam que atletas com histórico de alto volume aeróbio apresentam menor desacoplamento entre carga interna e externa, maior estabilidade da velocidade associada ao limiar de lactato e menor aumento do custo energético do movimento durante competições prolongadas. Isso sugere que o treinamento em zona 2 não atua apenas como base para o desenvolvimento do VO₂máx ou da eficiência mecânica, mas como o principal arquiteto da durabilidade fisiológica.
Dessa forma, atletas que exibem valores semelhantes de VO₂máx, LT-2 e economia em testes laboratoriais podem apresentar desempenhos radicalmente distintos em provas longas porque esses testes não capturam a dimensão temporal da fadiga. A durabilidade emerge como a variável integradora que explica por que alguns atletas conseguem sustentar sua fisiologia funcional próxima ao estado inicial, enquanto outros experimentam deterioração precoce e acelerada. Trata-se de um fenômeno sistêmico, que reflete a convergência de adaptações cardiovasculares, respiratórias, metabólicas, neuromusculares e moleculares, profundamente moldadas pela história de treinamento.
Em síntese, o rendimento em endurance não depende apenas da capacidade de alcançar valores elevados de potência fisiológica, mas, sobretudo, da habilidade de sustentá-los ao longo do tempo. A durabilidade fisiológica representa, portanto, uma fronteira conceitual da ciência do endurance, conectando biologia molecular, fisiologia integrativa e teoria do treinamento. Reconhecer seu papel desloca o foco do desempenho máximo momentâneo para a construção de longo prazo do atleta, esculpida pacientemente por anos de treinamento aeróbio extensivo, no qual a zona 2 ocupa papel central e estruturante.
Referências
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