Apêndice
Convergências, Tensões Interpretativas e Coerência Fisiológica entre a Abordagem Clássica da Oxidação de Gorduras e as Proposições de Noakes e Colaboradores
A discussão contemporânea sobre a oxidação de gorduras durante o exercício de endurance tem sido marcada por uma reinterpretação conceitual relevante, especialmente a partir das contribuições recentes de Noakes e colaboradores. O presente apêndice tem como objetivo explicitar, de forma analítica e rigorosa, a coerência entre o texto principal desta revisão e três artigos-chave associados a essa linha interpretativa, ao mesmo tempo em que delimita, com precisão fisiológica e bioquímica, os pontos de convergência e as fronteiras conceituais que permanecem preservadas. Essa análise não busca encerrar o debate, mas situá-lo adequadamente dentro de um arcabouço mecanístico consistente, deixando claro que outras leituras críticas e contrapontos serão desenvolvidos em momento oportuno.
No que se refere ao artigo de Noakes et al., publicado em Endocrine Reviews (2025/2026), dedicado à ingestão de carboidratos, metabolismo do exercício e desempenho, observa-se plena coerência com o texto produzido quando o foco analítico é restrito aos fatores que influenciam a oxidação de gorduras. Em nenhum momento esse trabalho nega explicitamente os limites bioquímicos clássicos da oxidação lipídica no músculo esquelético. Ao contrário, a contribuição central de Noakes reside na reinterpretação funcional do papel dos carboidratos durante o exercício prolongado, deslocando sua posição conceitual de “combustível periférico obrigatório” para um papel predominantemente regulador da glicemia, da homeostase metabólica sistêmica e, sobretudo, da estabilidade do sistema nervoso central.
Essa mudança de eixo interpretativo tem implicações importantes para a compreensão da oxidação de gorduras. Ao enfatizar o papel do carboidrato como modulador central — e não exclusivamente como substrato muscular direto — o artigo amplia a compreensão da flexibilidade metabólica humana, especialmente em exercícios de longa duração. Nesse contexto, a documentação de taxas excepcionalmente elevadas de oxidação de gorduras, inclusive em intensidades tradicionalmente classificadas como predominantemente glicolíticas, não representa uma ruptura com a fisiologia clássica, mas sim uma demonstração da plasticidade do sistema metabólico quando o estado hormonal, a duração do esforço e o histórico nutricional convergem para favorecer a lipólise e a β-oxidação.
É fundamental destacar, contudo, que esse mesmo artigo não propõe novos mecanismos mitocondriais capazes de eliminar as restrições bioquímicas conhecidas da oxidação lipídica. Permanecem intactos, do ponto de vista mecanístico, a dependência da β-oxidação em relação ao fornecimento de oxaloacetato para a continuidade do ciclo de Krebs, a limitação funcional imposta pelo pool mitocondrial de CoA livre e a competição metabólica entre o fluxo glicolítico mediado pela piruvato desidrogenase e a oxidação de ácidos graxos. Assim, a elevação da oxidação de gorduras observada em cenários específicos não invalida esses mecanismos, mas ocorre apesar deles, por meio de rearranjos hormonais, temporais e sistêmicos.
Dessa forma, o texto principal desta revisão permanece plenamente bioquimicamente correto ao acomodar as proposições de Noakes como uma ampliação do conceito de flexibilidade metabólica, e não como uma negação dos princípios clássicos da regulação mitocondrial do metabolismo energético. A coerência reside justamente no fato de que o aumento da oxidação de gorduras é interpretado como dependente de contexto — duração do exercício, estado nutricional, disponibilidade de glicogênio e ambiente hormonal — e não como evidência de que os lipídios possam substituir irrestritamente os carboidratos em qualquer intensidade ou condição fisiológica.
Essa mesma lógica de compatibilidade se aplica aos artigos que exploram os conceitos de crossover point (COP) e reverse crossover point (RCOP), publicados em periódicos como Frontiers in Nutrition e Frontiers in Physiology. O COP descreve um fenômeno classicamente dependente da intensidade do exercício, no qual o aumento progressivo da demanda energética favorece a transição do metabolismo lipídico para o glicolítico. Trata-se de um fenômeno bem estabelecido, sustentado por décadas de evidência experimental, que reflete a necessidade de vias capazes de fornecer ATP em maior velocidade conforme a intensidade se eleva.
O RCOP, por sua vez, não contradiz esse modelo, mas acrescenta uma dimensão temporal e hormonal à compreensão da escolha de substratos. Em exercícios prolongados realizados em intensidade moderada e relativamente estável, observa-se que a contribuição relativa da oxidação de gorduras pode aumentar progressivamente ao longo do tempo, superando a dos carboidratos mesmo sem alteração da intensidade absoluta. Esse fenômeno emerge da depleção gradual do glicogênio hepático e muscular, da queda progressiva da insulina, do aumento sustentado da lipólise e da ativação de vias metabólicas que favorecem a β-oxidação.
Ambos os fenômenos coexistem dentro do mesmo arcabouço fisiológico. O COP reflete uma resposta aguda à intensidade crescente, enquanto o RCOP expressa uma adaptação metabólica dependente do tempo e do estado hormonal durante o exercício prolongado. O texto principal desta revisão já incorpora implicitamente essa lógica ao reconhecer que a intensidade não é o único modulador do uso de substratos energéticos. A duração do esforço, a dinâmica da depleção de glicogênio, a manutenção da glicemia e as alterações hormonais ao longo do exercício exercem papel decisivo na reprogramação metabólica progressiva.
Nesse sentido, não há contradição entre o modelo clássico do crossover e as observações recentes sobre o reverse crossover. O que se observa é uma mudança de eixo interpretativo: de uma visão estática, centrada exclusivamente na intensidade, para uma visão dinâmica, que integra intensidade, tempo, estado nutricional e regulação hormonal. O texto produzido mantém-se alinhado a esse entendimento integrado, preservando os fundamentos bioquímicos da fisiologia do exercício ao mesmo tempo em que incorpora, de forma crítica e coerente, as contribuições recentes da literatura.
Este apêndice, portanto, estabelece um terreno comum conceitual entre a abordagem clássica da oxidação de gorduras e as proposições contemporâneas de Noakes e colaboradores. Ao fazê-lo, delimita claramente que a ampliação da flexibilidade metabólica observada em contextos específicos não implica a abolição dos limites celulares e mitocondriais conhecidos, mas sim sua modulação dentro de um sistema fisiológico altamente adaptável. O aprofundamento dos pontos de divergência interpretativa e das implicações práticas dessas diferentes leituras será objeto de análise específica em trabalhos subsequentes.