Coyle e González-Alonso (2001) representam a consolidação de uma interpretação predominantemente hemodinâmica do desvio cardiovascular, na qual o aumento progressivo da frequência cardíaca ocupa posição causal central na redução do volume sistólico durante exercício prolongado a intensidade constante. A força explicativa desse modelo reside no rigor experimental, particularmente nos estudos com bloqueio β-adrenérgico, que demonstraram de forma convincente que a prevenção da taquicardia tardia é suficiente para abolir o declínio do volume sistólico, mesmo na presença de elevação térmica e manutenção do fluxo cutâneo. Nessa perspectiva, o desvio cardiovascular emerge como consequência direta do encurtamento do tempo diastólico, da redução do enchimento ventricular e da interação com fatores moduladores como hipertermia e hipovolemia, sem necessidade de invocar comprometimento intrínseco da função miocárdica.
Souissi et al. (2021), por sua vez, propõem uma leitura conceitualmente mais ampla e biologicamente integrada, sem negar os fundamentos hemodinâmicos clássicos, mas questionando sua suficiência explicativa em contextos de maior duração e intensidade de esforço. Ao incorporar evidências relacionadas à relação força–frequência, à dessensibilização β-adrenérgica, à ativação de receptores β3, ao estresse oxidativo e à sinalização mediada por óxido nítrico, os autores deslocam o debate do plano exclusivamente mecânico para um nível funcional e celular do miocárdio. Nesse enquadramento, a redução do volume sistólico não decorre apenas de limitações de enchimento, mas pode refletir uma modulação ativa da contratilidade cardíaca, potencialmente reversível e dependente do tempo de exposição ao estresse fisiológico.
O ponto de maior inflexão entre as duas abordagens reside na interpretação funcional do fenômeno. Enquanto o modelo de Coyle descreve o desvio cardiovascular como um ajuste compensatório necessário para preservar o débito cardíaco, a perspectiva contemporânea sugere que, em determinadas circunstâncias, esse mesmo ajuste possa representar uma estratégia cardioprotetora, reduzindo a carga mecânica e metabólica imposta ao miocárdio durante esforços prolongados. Assim, o desvio cardiovascular deixa de ser entendido apenas como um “custo” do exercício de endurance e passa a ser visto como um fenômeno dinâmico, multifatorial e potencialmente adaptativo.
Em síntese, o debate entre essas duas perspectivas não configura uma oposição, mas uma progressão conceitual. O modelo hemodinâmico clássico fornece a base fisiológica robusta para a compreensão do desvio cardiovascular em exercícios submáximos prolongados, enquanto a abordagem integrativa recente amplia esse entendimento ao incorporar mecanismos celulares e moleculares, enriquecendo a interpretação do fenômeno e abrindo novas hipóteses sobre seu significado funcional no contexto do desempenho e da proteção cardíaca.
Referências:
COYLE, E. F.; GONZÁLEZ-ALONSO, J. Cardiovascular drift during prolonged exercise: new perspectives. Exercise and Sport Sciences Reviews, v. 29, n. 2, p. 88–92, 2001.
SOUISSI, A.; HADDAD, M.; DERGAA, I.; BEN SAAD, H.; CHAMARI, K. A new perspective on cardiovascular drift during prolonged exercise. Life Sciences, v. 287, p. 120109, 2021.