Desde os primeiros hominídeos caçadores-coletores, a fisiologia humana foi moldada em um ambiente marcado pela intermitência alimentar, no qual a abundância energética era episódica e a escassez, a regra. Nesse cenário, sobreviver não dependia apenas da capacidade de armazenar energia, mas sobretudo da habilidade de redistribuí-la de forma eficiente entre tecidos com demandas metabólicas distintas. A gliconeogênese e a cetogênese emergem, assim, não como vias acessórias, mas como soluções centrais de um metabolismo evolutivamente preparado para sustentar o cérebro, o coração e o músculo esquelético durante longos períodos de privação alimentar. A produção hepática de corpos cetônicos permitiu reduzir a dependência absoluta de glicose, preservar proteínas estruturais e garantir continuidade funcional em contextos extremos que foram profundamente prevalentes ao longo da história evolutiva humana.
Do ponto de vista bioquímico, o jejum prolongado ou a disponibilidade quase nula de carboidratos instauram um ambiente endócrino caracterizado por baixa insulinemia e elevação relativa de glucagon, cortisol e catecolaminas. Esse arranjo hormonal promove intensa lipólise no tecido adiposo, aumentando o fluxo de ácidos graxos livres para o fígado e estimulando a β-oxidação mitocondrial. Paralelamente, a necessidade de manter concentrações mínimas de glicose plasmática direciona o metabolismo hepático para a gliconeogênese, utilizando substratos como lactato, glicerol e aminoácidos. O piruvato derivado desses precursores, entretanto, não pode ser convertido diretamente em fosfoenolpiruvato no citosol, exigindo sua entrada na mitocôndria e a formação de oxaloacetato pela piruvato carboxilase. O oxaloacetato torna-se, assim, um ponto nodal: é simultaneamente indispensável à gliconeogênese e ao funcionamento do ciclo do ácido tricarboxílico, ao se condensar com o acetil-CoA para formar citrato.
Em condições de baixa oferta de carboidratos, parte substancial do oxaloacetato é desviada para sustentar a produção endógena de glicose, reduzindo sua disponibilidade para o ciclo de Krebs. Como consequência, o acetil-CoA proveniente da β-oxidação de ácidos graxos acumula-se na mitocôndria hepática e passa a ser canalizado para a via cetogênica. A ativação da 3-hidroxi-3-metilglutaril-CoA sintase mitocondrial, etapa limitante da cetogênese, culmina na produção de acetoacetato, β-hidroxibutirato e acetona. Embora sintetizados quase exclusivamente no fígado, esses corpos cetônicos não podem ser oxidados pelo próprio órgão produtor, em virtude da ausência da succinil-CoA:3-oxoácido CoA transferase. Essa limitação funcional assegura sua exportação para tecidos extra-hepáticos dotados do aparato cetolítico completo, onde podem ser reconvertidos em acetil-CoA e oxidados no ciclo de Krebs.
No cérebro, a adaptação à cetose reduz progressivamente a dependência de glicose; no coração e no músculo esquelético, os corpos cetônicos representam substratos oxidativos eficientes, integrando-se ao metabolismo energético com custo relativamente baixo de ativação. Além de sua função como combustível, o β-hidroxibutirato atua como molécula sinalizadora, modulando vias intracelulares relacionadas à inflamação, ao estresse oxidativo e à expressão gênica. A inibição de histona desacetilases, a ativação de receptores acoplados à proteína G e a interação com vias como AMPK, PGC-1α e mTOR ilustram que a cetose não é apenas um estado energético, mas também um estado regulatório, capaz de remodelar o ambiente celular.
É nesse pano de fundo fisiológico e evolutivo que se insere o interesse contemporâneo pela suplementação com corpos cetônicos no contexto do endurance. A proposta é sedutora: fornecer ao atleta moderno uma fonte alternativa de energia que poupe glicogênio, sustente a função cognitiva e aumente a eficiência metabólica durante esforços prolongados. Diferentemente das dietas cetogênicas clássicas, frequentemente associadas a prejuízos na economia do exercício e na capacidade de sustentar intensidades elevadas, os suplementos de cetonas exógenas — como sais, ésteres e precursores cetogênicos — permitem elevar transitoriamente as concentrações plasmáticas de β-hidroxibutirato e acetoacetato sem restrição severa de carboidratos.
Entretanto, a fisiologia do exercício impõe limites claros a essa narrativa. A ingestão concomitante de carboidratos, prática quase universal em provas de endurance, interfere diretamente na dinâmica da cetogênese endógena. Mesmo em situações de baixa insulinemia induzida pelo exercício intenso, o aumento do fluxo glicolítico e a maior disponibilidade de piruvato favorecem a regeneração mitocondrial de oxaloacetato, restaurando o acoplamento entre acetil-CoA e o ciclo de Krebs. Nessa condição, o desvio do acetil-CoA para a síntese de corpos cetônicos torna-se metabolicamente menos necessário. Além disso, em intensidades moderadas a altas, a oxidação de carboidratos continua sendo determinante para sustentar elevadas taxas de ressíntese de ATP, o que limita a contribuição funcional das cetonas como combustível predominante durante a prova.
A literatura científica contemporânea reflete essa complexidade. Revisões sistemáticas e meta-análises não demonstram benefícios consistentes da suplementação aguda com corpos cetônicos sobre variáveis clássicas de desempenho aeróbio, como VO₂máx, tempo até a exaustão ou desempenho em provas contrarrelógio. Em alguns contextos, observam-se efeitos neutros ou mesmo discretamente negativos, associados a desconforto gastrointestinal, acidose leve e inibição da glicólise em momentos nos quais a elevada taxa de fluxo glicolítico é crítica para o rendimento competitivo. Esses achados ajudam a explicar por que a promessa de um “atalho metabólico” raramente se traduz em ganhos mensuráveis durante o esforço.
Todavia, restringir a discussão sobre corpos cetônicos ao desempenho agudo durante a prova representa uma leitura fisiologicamente incompleta do fenômeno. Evidências mais recentes sugerem que a relevância das cetonas no endurance pode manifestar-se de forma mais consistente ao longo do processo adaptativo, e não no instante competitivo isolado. Nesse sentido, a suplementação cetônica desloca-se do papel de combustível ergogênico imediato para o de modulador biológico do ambiente pós-exercício, período no qual se constroem as adaptações que, cumulativamente, determinam o rendimento em provas de longa duração.
Estudos recentes indicam que a ingestão de corpos cetônicos após o exercício pode influenciar positivamente processos tradicionalmente limitantes para atletas de endurance submetidos a cargas repetidas de treinamento: recuperação incompleta, inflamação residual, distúrbios do sono e risco de overreaching funcional. O β-hidroxibutirato, nesse contexto, atua primordialmente como sinal metabólico, atenuando respostas inflamatórias excessivas, reduzindo o estresse oxidativo e modulando vias epigenéticas envolvidas na adaptação muscular. Observa-se ainda a ativação de sinalizações associadas ao anabolismo muscular, à angiogênese e ao aumento transitório de eritropoietina circulante, criando um microambiente favorável à expansão da capacidade oxidativa periférica ao longo do tempo.
Essa mudança de perspectiva ajuda a reconciliar aparentes contradições da literatura. Enquanto a maioria dos estudos falha em demonstrar benefícios da suplementação cetônica durante o exercício, começam a emergir dados sugerindo efeitos favoráveis quando a cetose exógena é estrategicamente posicionada no período pós-exercício. Tal abordagem preserva a disponibilidade de carboidratos e a capacidade glicolítica durante o treino e a competição, ao mesmo tempo em que explora o potencial sinalizador das cetonas na recuperação e na adaptação. A distinção temporal revela-se crucial: evita-se o conflito metabólico entre glicose e cetonas no momento de maior exigência mecânica, ao passo que se aproveitam seus efeitos regulatórios quando a prioridade é restaurar e remodelar o organismo.
Sob essa ótica, a suplementação com corpos cetônicos deixa de ser interpretada como substituta metabólica da glicose e passa a ser compreendida como ferramenta de periodização metabólica, cuja utilidade depende do momento de ingestão, do estado energético do atleta e dos objetivos do ciclo de treinamento. Essa leitura é mais compatível com a fisiologia humana e com a própria história evolutiva da cetogênese, que nunca operou como estratégia de alta potência imediata, mas como mecanismo de resiliência biológica frente à repetição da escassez.
Assim, o fascínio moderno pelos corpos cetônicos no endurance talvez devesse afastar-se da busca por segundos poupados durante a prova e aproximar-se da possibilidade de sustentar, ao longo de semanas e meses, maior qualidade de treinamento, melhor recuperação sistêmica e menor custo fisiológico da adaptação. Nesse enquadramento, as cetonas retomam seu papel ancestral: não o de acelerar o organismo, mas o de permitir que ele suporte o tempo, a repetição do esforço e a longa construção do rendimento.
Referências (norma ABNT)
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