A compreensão contemporânea do desempenho em esportes de endurance parte do modelo clássico que descreve três determinantes fisiológicos principais: o consumo máximo de oxigênio (VO₂máx), a fração sustentável desse VO₂máx (avaliada por limiares como o limiar de lactato ou máximo steady state) e a economia de movimento. Esses três componentes explicam grande parte da variabilidade entre atletas em provas como maratonas ou contrarrelógios de ciclismo, especialmente em condições laboratoriais padronizadas. Contudo, a experiência prática de treinadores e atletas, aliada à evidência empírica de estudos recentes, revela que indivíduos com VO₂máx, limiares e economia semelhantes podem apresentar desempenhos profundamente distintos quando a prova se prolonga por horas ou exige esforços decisivos após grande carga de trabalho prévia. É nesse cenário que o constructo de “durabilidade” emerge como um “quarto parâmetro” do desempenho de endurance, complementando e, em certos casos, relativizando o modelo tradicional.
Durabilidade tem sido definida, de forma operacional, como o “tempo de início e a magnitude da deterioração das características de perfil fisiológico durante o exercício prolongado”, ou seja, a capacidade do organismo de resistir à deterioração de VO₂, limiares, potência crítica, eficiência e outros marcadores ao longo de esforços de longa duração. Em termos conceituais mais amplos, descreve o grau em que o atleta limita o declínio progressivo desses parâmetros quando exposto a cargas sustentadas — como manter potência submáxima elevada ou repetir sprints e ataques táticos após várias horas de prova. Essa deterioração decorre de mecanismos integrados: deriva cardiovascular (aumento gradual da FC para a mesma carga externa), fadiga neuromuscular periférica, alterações metabólicas (maior recrutamento glicolítico, acúmulo de metabólitos, queda da disponibilidade de carboidratos) e mudanças na economia de movimento. Assim, durabilidade não é sinônimo de “condicionamento geral”, nem se confunde com VO₂máx; trata-se de uma propriedade específica que descreve quão bem o atleta preserva as capacidades medidas “em estado fresco” quando submetido a estresse prolongado.
Os artigos de revisão destacam a importância de diferenciar durabilidade de outros constructos emergentes, como fatigabilidade, resiliência fisiológica e “repeatability”. Fatigabilidade geralmente descreve a rapidez e magnitude do declínio do desempenho ou da função neuromuscular em tarefas de alta intensidade e curta duração. Repeatability refere-se à capacidade de repetir esforços intensos com recuperações curtas — componente crítico, por exemplo, no ciclismo de estrada com sucessivos ataques e respostas ao longo de vários dias. Já a resiliência enfatiza a capacidade de lidar com estressores ambientais e psicossociais (calor, altitude, privação de sono, pressão psicológica). Embora relacionada a esses domínios, a durabilidade é um constructo distinto, centrado na manutenção de elevado trabalho submáximo por períodos prolongados, com mínima perda funcional, como observado em maratonas, gran fondos ou etapas de montanha com longas horas de prova antes do trecho decisivo.
Metodologicamente, ainda não existe protocolo único e padronizado para avaliar durabilidade, mas é possível identificar duas grandes abordagens: protocolos laboratoriais e de campo. Nos protocolos laboratoriais, parte-se de uma bateria de testes em condição fresca — testes incrementais para determinar VO₂máx, limiares ventilatórios ou de lactato, potência crítica (CP) e W′ — e repete-se parte desse perfil após um “protocolo fatigante” padronizado, de duração e intensidade conhecidas. Exemplos incluem sessões contínuas de duas a quatro horas em domínio moderado ou pesado, ou combinações de tempo substancial abaixo da CP seguidas de intervalos acima da CP, antes de reavaliar CP, W′, VO₂máx ou potência nos limiares. A diferença entre os valores obtidos em estado fresco e fatigado quantifica a durabilidade: quanto menor a queda relativa, maior a durabilidade.
Nos protocolos de campo, a lógica é semelhante, mas com foco em dados ecológicos. Destaca-se o uso de perfis de potência recorde em ciclistas, comparando os melhores valores de potência em diferentes durações (20 min, 5 min, 1 min, 10 s) em condição fresca e após diferentes quantidades acumuladas de trabalho mecânico (kJ·kg⁻¹). A deterioração desses recordes com o aumento do trabalho acumulado fornece uma medida prática de durabilidade. Essa abordagem mostrou que, em ciclistas profissionais, a capacidade de produzir potências quase limiar ou supralimiar nos quilômetros finais de etapas longas não é explicada apenas por VO₂máx ou CP laboratoriais, mas pela habilidade específica de sustentar o desempenho ao longo de horas de corrida.
Estudos experimentais reforçam que durabilidade é, em grande medida, um atributo parcialmente independente dos determinantes clássicos. Em ciclistas amadores bem treinados, um protocolo de campo com esforço prolongado acumulando 1000 kJ, seguido de novos testes máximos de 5 e 20 minutos, revelou queda média de ~10% na potência em estado fatigado, caracterizando a perda de desempenho induzida pela fadiga. Crucialmente, não houve correlação significativa entre essa queda e parâmetros tradicionais como VO₂máx relativo ou FTP, sugerindo que atletas com VO₂máx semelhante podem diferir substancialmente na capacidade de manter desempenho após longos períodos de exercício.
Resultado semelhante foi observado em maratonistas recreacionais, com tempo médio em torno de 3 h 17 min, quando avaliados antes e após 90 min de corrida no limiar de lactato (sLT). Houve reduções significativas de VO₂pico e de sLT (speed at Lactate Threshold), enquanto economia de corrida e fração de VO₂pico no limiar permaneceram estáveis. Notavelmente, a magnitude da queda na velocidade de limiar entre condição fresca e fatigada apresentou forte associação com o desempenho na maratona: atletas que mantiveram sLT mais estável tiveram tempos mais rápidos, reforçando a durabilidade como determinante funcional do rendimento.
O conjunto desses achados aponta dois aspectos centrais. Primeiro, a deterioração fisiológica ao longo do exercício prolongado não é homogênea: há ampla heterogeneidade interindividual, com alguns atletas exibindo quedas mínimas e outros declínios acentuados, mesmo apresentando VO₂máx, limiares e economia semelhantes em repouso relativo. Segundo, essa heterogeneidade tem relevância direta para o desempenho competitivo real. Isso explica por que atletas que não “lideram” o ranking de VO₂máx ou FTP podem destacar-se em competições prolongadas, reforçando a necessidade de incluir medidas de durabilidade no perfil fisiológico.
Artigos recentes também discutem como o treinamento modifica a durabilidade. Em um estudo de intervenção com adultos sedentários ou recreacionalmente ativos, compararam-se dez semanas de treinamento predominantemente de baixa intensidade (LIT), com 6,8 h semanais, e de alta intensidade intervalada (HIT), com 1,6 h semanais, ambos em ciclismo. A durabilidade foi avaliada durante 3 h de exercício a ~48% do VO₂máx pré-treino, monitorando deriva fisiológica (gasto energético, FC, percepção subjetiva de esforço, ventilação, tempo de ejeção ventricular, volume sistólico) e um índice integrado de estresse fisiológico. Após o treinamento, ambos os grupos melhoraram a durabilidade, com redução da magnitude e/ou retardamento das derivas e diminuição do estresse fisiológico médio.
Interessantemente, o VO₂máx aumentou de forma significativa apenas no grupo HIT, enquanto a durabilidade melhorou de modo semelhante em ambos os grupos, indicando que os mecanismos subjacentes à durabilidade não se reduzem ao aumento de VO₂máx. Em outras palavras, é possível tornar-se “mais durável” tanto por adaptações centrais (ex.: aumento de VO₂máx) quanto por ajustes periféricos e submáximos (melhor eficiência, menor custo energético, menor deriva cardiovascular, melhor tolerância perceptiva), estimulados por volumes maiores em baixa intensidade. Essa dissociação reforça que VO₂máx e durabilidade, embora relacionados, respondem de forma parcialmente distinta ao treinamento e podem demandar estratégias específicas de prescrição.
Do ponto de vista prático, os autores enfatizam que tanto a avaliação quanto a intervenção voltadas à durabilidade exigem protocolos cuidadosamente estruturados, pois fatores como intensidade e duração da carga fatigante, estado nutricional, hidratação, temperatura ambiente e status de treinamento influenciam fortemente as respostas. Protocolos mais longos e/ou mais intensos tendem a gerar quedas fisiológicas mais acentuadas, úteis para revelar limitações, mas com maior variabilidade e menor padronização. Por isso, recomenda-se controlar ingestão de carboidratos, condições ambientais e rotina pré-teste, garantindo comparabilidade entre atletas e ao longo do tempo. As revisões também destacam lacunas importantes, como a ausência de dados robustos em mulheres, jovens e modalidades além de corrida e ciclismo, limitando a generalização dos achados.
Por fim, constata-se a necessidade de maior clarificação conceitual e padronização metodológica. O uso intercambiável de termos como durabilidade, fatigabilidade, resiliência e repeatability pode diluir distinções relevantes, convertendo esses constructos em rótulos amplos em vez de determinantes mensuráveis de desempenho. Para que a durabilidade seja incorporada de forma robusta em modelos de performance e programas de treinamento, é necessário definir com precisão o que está sendo medido (por exemplo, queda percentual de CP, deslocamento de limiar, magnitude da deriva cardiorrespiratória, degradação da potência de sprint após determinado acúmulo de kJ) e desenvolver protocolos reprodutíveis, sensíveis e aplicáveis a diferentes contextos esportivos. Estudos recentes com ciclistas e maratonistas, bem como intervenções combinando baixa e alta intensidade, mostram que isso é viável e já fornecem um arcabouço inicial. No entanto, a consolidação da durabilidade como “quarto pilar” do desempenho de endurance depende de esforços coordenados entre pesquisadores e treinadores para refinar definições, validar protocolos e explorar sistematicamente como esse constructo interage com os determinantes clássicos e com as especificidades de cada modalidade.
Entre a Resistência e o Tempo: A Fragilidade Oculta da Durabilidade Humana
A compreensão da resposta fisiológica durante esforços prolongados tem revelado que a manutenção das capacidades metabólicas ao longo do exercício depende de um equilíbrio complexo entre mecanismos centrais e periféricos. Trata-se de uma interação fina entre o sistema nervoso central, que regula a percepção de esforço, o comando motor e o controle autonômico, e os mecanismos periféricos, que incluem o metabolismo muscular, o fluxo sanguíneo, a oferta de oxigênio e o manejo dos substratos energéticos. Quando a atividade se estende por longos períodos, mesmo em intensidades moderadas, emerge um processo gradual de deterioração funcional que compromete parâmetros tradicionalmente utilizados para estimar o desempenho, como o limiar de lactato. Esse fenômeno, atualmente discutido no âmbito do conceito de durabilidade, como discutido anteriormente, reflete a habilidade do organismo de resistir ao acúmulo de fadiga e de preservar a estabilidade das respostas metabólicas, ventilatórias e autonômicas ao longo do tempo — uma dimensão que complementa, mas não se confunde com, a aptidão aeróbia clássica.
Em corredores recreacionais submetidos a uma sessão prolongada de baixa intensidade, evidencia-se uma queda consistente da velocidade correspondente ao primeiro limiar de lactato, indicando que a capacidade de sustentar um estado predominantemente aeróbio diminui progressivamente. Embora os marcadores clássicos — como frequência cardíaca e consumo de oxigênio — apresentem elevação progressiva, essas alterações não explicam diretamente o declínio observado no limiar. A elevação cardiorrespiratória expressa o aumento do custo fisiológico necessário para manter a mesma intensidade externa, fenômeno relacionado à deriva cardiovascular e ao crescente recrutamento de unidades motoras. Contudo, isso não prediz com precisão o momento em que ocorre a deterioração metabólica. De forma complementar, o decréscimo do quociente respiratório sugere um deslocamento para maior utilização de lipídios, característica típica de esforços prolongados, mas que também não se associa de modo linear à queda do limiar. Assim, torna-se evidente que parâmetros tradicionais captam apenas parcialmente a complexidade da fadiga acumulada.
Entre os indicadores avaliados, destaca-se o comportamento do DFA-α1, um parâmetro não linear derivado da variabilidade da frequência cardíaca que quantifica o grau de correlação fractal entre intervalos RR. Trata-se de uma métrica sensível à organização dos sistemas autonômicos, refletindo a flexibilidade adaptativa do organismo diante de demandas fisiológicas crescentes. A correlação entre a redução do DFA-α1 e a magnitude da deterioração do limiar sugere que a complexidade dos ajustes autonômicos, mais do que valores absolutos de frequência cardíaca, pode fornecer sinais precoces de fadiga acumulada. A queda dessa métrica indica uma diminuição da auto-organização dos sistemas regulatórios sob estresse fisiológico contínuo, sinalizando que a perda de variabilidade e de estrutura nos padrões de modulação vagal antecede o colapso metabólico mensurável.
O comportamento semelhante entre mulheres e homens indica que, em contextos recreacionais e intensidades moderadas, a durabilidade não parece ser modulada de forma robusta pelo sexo. Essa equivalência sugere que diferenças estruturais, hormonais e de distribuição de fibras musculares — frequentemente observadas em protocolos mais extenuantes ou em exercícios de alta intensidade — talvez só se manifestem significativamente quando o estresse fisiológico ultrapassa certo limiar. Ainda assim, ambos os grupos exibiram deterioração metabólica relevante após o período prolongado de corrida, reforçando a universalidade do fenômeno e destacando que a durabilidade constitui uma variável crítica mesmo em populações não competitivas.
Do ponto de vista aplicado, os resultados demonstram que alterações fisiológicas de impacto podem ocorrer mesmo em intensidades classificadas como leves, desde que mantidas por tempo suficiente. Isso amplia o entendimento sobre o planejamento do treinamento de resistência, revelando que avaliações realizadas apenas em repouso ou após esforços curtos não captam de forma adequada a capacidade real de desempenho em provas longas. Ademais, a observação de que a economia energética e o consumo de oxigênio permanecem relativamente estáveis até fases tardias da sessão reforça que o declínio do limiar é um marcador sensível da fadiga acumulada, possivelmente antecedendo alterações mais evidentes na eficiência mecânica, na percepção subjetiva de esforço ou na capacidade de produção de potência.
Assim, evidencia-se que a durabilidade deve ser considerada uma dimensão independente e essencial do desempenho aeróbio, influenciando diretamente a capacidade de manter velocidades competitivas ao longo de provas prolongadas. A sensibilidade do DFA-α1 para refletir a deterioração metabólica sugere que esse parâmetro pode se tornar uma ferramenta promissora no monitoramento intra-sessão da fadiga, especialmente por sua combinação de aplicabilidade em campo e capacidade de captar informações sobre organização autonômica. Em síntese, a queda do limiar de lactato após exercício prolongado confirma que a resistência ao acúmulo de fadiga é um determinante crítico da performance e que sua avaliação requer protocolos suficientemente longos para expor a vulnerabilidade metabólica que emerge com o tempo.
Conclui-se que o prolongamento do esforço compromete de forma significativa a capacidade metabólica submáxima, independentemente do sexo, reforçando a importância de incorporar o conceito de durabilidade como componente central da análise do desempenho em corredores. A identificação de marcadores sensíveis a essa deterioração, como o DFA-α1, representa um avanço relevante para a compreensão e o monitoramento da fadiga, oferecendo caminhos promissores para a otimização do treinamento e para a predição mais acurada do comportamento fisiológico em esforços prolongados.
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