Doping Sanguíneo no Endurance: Bases Fisiológicas, Estratégias Emergentes e o Desafio Representado pela Hemoglobina Extracelular de Arenicola marina

por | fev 16, 2026

O desempenho em esportes de endurance é profundamente condicionado pela capacidade integrada do sistema cardiorrespiratório de captar, transportar e utilizar oxigênio. No centro dessa integração encontra-se a massa total de hemoglobina circulante, determinante primária do conteúdo arterial de oxigênio e, por consequência, do limite superior do consumo máximo de oxigênio. Intervenções capazes de expandir artificialmente esse compartimento modificam a equação de Fick, elevando o gradiente difusional para o músculo ativo e ampliando a potência aeróbia sustentável. É nesse contexto que o doping sanguíneo se consolidou historicamente como uma das manipulações ergogênicas mais eficazes e, simultaneamente, mais desafiadoras para a ética esportiva e para vigilância biomédica.

Classicamente, o doping sanguíneo compreende duas abordagens principais: a reinfusão de hemácias, seja de origem autóloga ou homóloga, e o estímulo farmacológico da eritropoiese por agentes como eritropoetina recombinante ou moduladores da via do fator induzível por hipóxia. Em ambas as situações, o resultado convergente é a elevação da hemoglobina total, acompanhada por aumento do conteúdo arterial de oxigênio, maior extração periférica e redução do custo cardiovascular relativo para uma dada carga absoluta. O atleta passa a operar, em termos funcionais, em uma intensidade metabólica previamente inacessível, prolongando o tempo até a exaustão e melhorando a performance em contrarrelógio.

Do ponto de vista mecanístico, a ampliação da massa eritrocitária repercute muito além do simples transporte de O₂. Observa-se modulação da distribuição de fluxo sanguíneo, alterações no retorno venoso, mudanças na viscosidade e adaptações na microcirculação muscular. A maior disponibilidade de oxigênio favorece a fosforilação oxidativa mitocondrial, retarda a dependência glicolítica e preserva o balanço ácido-base. Em cenários competitivos, esses efeitos traduzem-se em ganhos percentuais aparentemente modestos — frequentemente entre 4% e 8% — mas decisivos em modalidades nas quais diferenças de segundos definem resultados.

Entretanto, a mesma elevação do hematócrito que beneficia a entrega de oxigênio impõe risco hemodinâmico substancial. O aumento exponencial da viscosidade amplifica a pós-carga cardíaca, compromete a perfusão microvascular e eleva a probabilidade de eventos tromboembólicos. Assim, o dilema fisiológico do doping sanguíneo reside no delicado equilíbrio entre otimização da oxigenação e penalização reológica, fronteira que varia conforme hidratação, temperatura ambiente, altitude e suscetibilidade individual.

A evolução dos programas antidoping deslocou progressivamente o comportamento dos infratores. A introdução de métodos diretos de identificação de eritropoetinas exógenas e, sobretudo, do passaporte biológico do atleta, incentivou regimes de microdosagem. Pequenos incrementos seriados, muitas vezes abaixo do limiar de variação estatística individual, buscam preservar a vantagem fisiológica minimizando a detectabilidade. Mesmo volumes reduzidos de hemácias reinfundidas mostraram capacidade de elevar de forma significativa a potência média em testes de endurance, reforçando a eficiência dessa estratégia.

Nesse cenário de vigilância crescente, surgiram alternativas que procuram contornar a manipulação direta da massa eritrocitária: os chamados hemoglobin-based oxygen carriers. A promessa é simples e sedutora — aumentar a capacidade de transporte de oxigênio sem alterar de maneira evidente os parâmetros hematológicos monitorados. A maioria dos produtos baseados em hemoglobina humana ou bovina, entretanto, esbarrou em limitações clínicas importantes, como vasoconstrição mediada por sequestro de óxido nítrico, hipertensão e estresse oxidativo.

Esses fenômenos emergem principalmente das propriedades bioquímicas da hemoglobina livre no plasma, fora do ambiente protetor da hemácia. Quando circula desacompanhada da membrana eritrocitária e de sistemas enzimáticos redutores, a hemoglobina interage rapidamente com o óxido nítrico (NO) endotelial, ligando-o e inativando-o; como o NO é um vasodilatador crucial para a manutenção do tônus vascular, sua remoção desloca o equilíbrio para contração da musculatura lisa, elevando a resistência periférica e, consequentemente, a pressão arterial.

Paralelamente, a oxidação do ferro heme (Fe²⁺ → Fe³⁺) favorece a formação de metemoglobina e a liberação de heme e ferro livres, que catalisam reações geradoras de espécies reativas de oxigênio, amplificando dano endotelial, inflamação e disfunção microvascular. Assim, vasoconstrição, hipertensão e estresse oxidativo representam manifestações interligadas de um mesmo processo: a perda do controle fino que a hemácia normalmente exerce sobre a reatividade química da hemoglobina e sua interface com o endotélio.

É precisamente nesse ponto que a biologia evolutiva marinha introduziu um novo ator. A hemoglobina extracelular gigante de Arenicola marina, frequentemente denominada M101, constitui um complexo macromolecular com massa aproximada de 3,6 MDa e até 156 sítios de ligação para oxigênio. Diferentemente da hemoglobina humana livre, essa estrutura apresenta elevada estabilidade, grande tamanho molecular — que reduz extravasamento vascular — e menor propensão à oxidação rápida. Estudos pré-clínicos descreveram ausência de efeito vasopressor significativo, boa tolerabilidade e eficiência de oxigenação mesmo em tecidos pouco perfundidos. A afinidade relativamente alta direciona a liberação de O₂ para ambientes mais hipóxicos, característica teoricamente atraente para o músculo em exercício intenso.

A possibilidade de um carreador universal, sem necessidade de compatibilidade sanguínea, com efeito imediato após infusão e logística simplificada, naturalmente despertou atenção no contexto esportivo. Ainda que desenvolvido com finalidades terapêuticas — preservação de enxertos, manejo de isquemia e aplicações em cicatrização — o potencial de uso ilícito tornou-se evidente para a comunidade antidoping.

O marco que transformou essa hipótese em preocupação concreta foi a demonstração de viabilidade analítica da detecção dessa hemoglobina em amostras biológicas de controle. Pesquisadores adaptaram metodologias de ultrafiltração, digestão tríptica e espectrometria de massas de alta resolução para identificar peptídeos específicos do complexo extracelular do anelídeo. Em modelos experimentais, foi possível rastrear o composto por várias horas após a administração, estabelecendo a prova de conceito de que o agente, embora exótico, não é invisível aos sistemas modernos de vigilância.

A relevância desse desenvolvimento transcende a mera criação de um teste. Ela evidencia que a corrida entre inovação dopante e ciência forense permanece ativa. Cada avanço biotecnológico concebido para a medicina transfusional pode, potencialmente, migrar para o esporte competitivo, exigindo antecipação regulatória e capacidade analítica sofisticada.

Do ponto de vista fisiológico, se empregado por atletas, um produto como o derivado de Arenicola marina poderia elevar o conteúdo arterial de oxigênio sem modificar de forma proporcional a concentração de hemoglobina endógena ou a contagem de reticulócitos. Isso desafiaria abordagens indiretas baseadas em perfis hematológicos longitudinais. Em contrapartida, a presença de cadeias globínicas não humanas cria uma assinatura molecular inequívoca quando se utilizam ferramentas proteômicas adequadas.

Assim, o panorama contemporâneo do doping sanguíneo pode ser entendido como a transição de uma manipulação quantitativa da eritropoiese para uma engenharia qualitativa do transporte de oxigênio. A fronteira ética permanece a mesma, mas o campo tecnológico torna-se mais complexo, exigindo diálogo permanente entre fisiologistas, hematologistas, químicos analíticos e autoridades regulatórias.

Em síntese, o aumento artificial da capacidade de transporte de oxigênio continua sendo uma das intervenções mais poderosas para o rendimento em endurance. A hemoglobina extracelular do anelídeo marinho amplia esse debate ao oferecer uma via potencialmente eficaz que tenta escapar aos marcadores tradicionais. Todavia, a rápida incorporação de métodos de espectrometria de massas demonstra que a detectabilidade acompanha a inovação. A história recente indica que nenhuma estratégia permanece indetectável por muito tempo quando há investimento científico coordenado.

Referências

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Imagem destacada – Auguste Le Roux, CC BY 3.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/3.0>, via Wikimedia Commons